A elite condena o país à pobreza e à degradação crescentes  

EBC

Gabriel Casoni

Gabriel Casoni, de São Paulo (SP), é professor de sociologia, mestrando em História Econômica pela USP e faz parte da coordenação nacional da Resistência, corrente interna do PSOL.

A classe dominante brasileira está condenando cruelmente uma enorme parcela do povo brasileiro à pobreza econômica e à degradação social crescentes.

São 13,1 milhões de desempregados, 27,9 milhões de subutilizados (trabalham em tempo parcial apenas), 4,9 milhões de desalentados (desistiram de procurar emprego), 23,8 milhões de trabalhadores por conta própria (os que vivem de “bicos”). E a população fora da força de trabalho bateu recorde histórico, alcançando 65,7 milhões de pessoas. Há somente 33 milhões de brasileiros com carteira de trabalho assinada no setor privado – uma minoria no conjunto da força de trabalho. Esses são números atualizados divulgados pelo IBGE, divulgados ontem (29).

Cinco anos seguidos de brutais cortes de investimentos públicos e retirada de direitos sociais e trabalhistas fundamentais (de Dilma, em 2014, a Bolsonaro, em 2019) produziram uma destruição monumental – uma destruição de pessoas, famílias, sonhos e vidas. Está ocorrendo, a rigor, a destruição da maior e principal força produtiva desse país: sua classe trabalhadora. (imagine como vai ficar esse país, em termos de crise social, quando (e se) aprovada a reforma da previdência?).

Conseguiram, com toda essa barbaridade, reduzir o “custo” do trabalho no país, é verdade. Mas, mesmo assim, a economia segue estagnada, parada; isso se não eclodir uma nova recessão em breve. Com a massa salarial deprimida, o consumo se retrai – e quem garante o grosso do consumo no Brasil são as famílias trabalhadoras, não a ínfima minoria de ricos que consomem luxo.

Sem investimentos o país não cresce. Mas investir para que? O governo só corta, aliás Paulo Guedes é um fanático da tesoura fiscal. E os capitalistas privados se perguntam: produzir mais, mas há gente com dinheiro pra comprar? Produzir mais pra vender pra fora, com a Argentina em recessão, a China em desaceleração e a economia mundial em viés de baixa?

Entrada em massa de capitais produtivos externos no Brasil, de olho nos salários de fome que se pagam aqui, seria a salvação. Mas investir para produzir o quê? Na indústria? Dificilmente. Nosso lugar no mundo, não cansam de repetir os especialistas do Deus mercado, não é o de exportador de commodities agrícolas, minerais e agropecuárias, que têm baixo valor agregado e empregam relativamente pouca mão de obra?

A burguesia brasileira, sob o chicote do capital financeiro-imperialista, não tem nenhum projeto de país, a não ser o do lucro fácil das jogatinas especulativas e dos ganhos pornográficos do rentismo parasitário. A classe média nacional, que, em sua maioria, nunca se identificou com o povo, abraçou, na crise, a ala mais reacionária do andar de cima, foi à extrema-direita nervosamente, elegeu Bolsonaro seu mito, mas isso não impede sua decadência acelerada.

Na classe trabalhadora, no povo oprimido e em nossa juventude residem a única possibilidade de futuro para o país. Para abrir esse caminho de esperança, será preciso unificar as forças contra o governo Bolsonaro, retomar a iniciativa de luta, se despir de ilusões na conciliação com a burguesia e apresentar um programa corajoso e verdadeiro, inverso do aplicado hoje: será preciso expropriar os expropriadores.