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Ciclone Idai devasta África Austral e amplia combinação de crises na região

Matheus Gomes

Matheus Gomes é historiador, servidor do IBGE e ativista do movimento social há mais de 10 anos. Sua coluna mostra a visão de um jovem negro e marxista sobre temas da política nacional e internacional, especialmente dos povos da diáspora africana.

O ciclone Idai deixou um rastro de destruição na África Austral. Ventos de quase 200 km/h inundaram cidades na ilha de Madagascar e castigaram duramente diversas regiões do Malawi, Zimbábue e Moçambique, onde a situação é mais grave. Ao todo, são mais de 1,5 milhão de atingidos nos três países, já se contabilizam quase 200 vítimas, mas, apenas em Moçambique os óbitos podem passar de mil, de acordo com o governo.

A situação mais grave é na cidade litorânea de Beira, a segunda maior do país com cerca de 534 mil habitantes.Nas palavras de um jornalista local, destruiu-se em um dia o que se construiu em 112 anos. Foi nessa cidade que Samora Machel, líder da Frente de Libertação Nacional (Frelimo), fez um discurso histórico em 1975, defendendo a criação de um “Moçambique novo” e apresentando ao mundo a trágica situação do país após décadas de exploração dos portugueses. Em frente a uma multidão, dizia, “Não temos hospitais. Não temos escolas. Não temos fábricas. Vivemos sem cobertores nas nossas palhotas. Vivemos bebendo constantemente água quente para evitar dores de barriga”(1). Tragicamente, o cenário de destruição pós-guerra se assemelha a situação causada pelo Idai: 80% da rede elétrica de Beira foi danificada, não há abastecimento de água potável, o sistema de comunicação telefônica ruiu, assim como a maioria das escolas e instituições públicas e privadas.

Na última segunda-feira (18), o presidente Filipe Nyusi (Frelimo) afirmou em comunicado nacional que “mais de cem mil pessoas correm perigo de vida” devido ao isolamento por terra que segue enquanto as chuvas não param. Além disso, “as águas do rio Púnguè e Buzi transbordaram fazendo desaparecer aldeias inteiras, isolando comunidades e vê-se durante o sobrevoo corpos a flutuar”, disse  o governante antes de declarar luto nacional por três dias.

Pela sua localização geográfica, Moçambique é um país exposto a diversas catástrofes naturais. Nesse exato momento convive com extremos, dos ventos e inundações à seca que atinge principalmente a região sul. De acordo com o Plano para a “Redução do Risco de Desastres (2017-2030)”, a vulnerabilidade resulta de diversos fatores, entre eles, a localização na foz de nove rios internacionais, a existência de zonas áridas e semiáridas, a longa extensão do território nacional, localizado na zona de convergência intertropical sujeita a perdas e ganhos excessivos de umidade, a extensa zona costeira que sofre a influência de ciclones tropicais e a existência de zonas sísmicas ativas. O resultado das modificações climáticas negativas que ocorrem no mundo se expressa na intensificação das tragédias nos últimos anos: fortes chuvas e inundações atingiram o país em 2008, 2013, 2015 e 2016, mesmo ano em que 1,5 milhão de pessoas precisaram de assistência alimentar devido a secas causadas pelo El Niño; já em fevereiro de 2017, mais de 550 mil pessoas foram atingidas pelo ciclone Dineo.

Tal intempestividade é incontrolável, mas a situação profundamente desigual do país – tanto internamente quanto em relação às potências imperialistas que exploram as riquezas naturais moçambicanas e controlam a economia nacional através da dívida externa – potencializa as forças destrutivas da natureza. Planos como o citado acima já existem há décadas, mas suas medidas de prevenção nunca foram concretizadas. Exemplo disso é a situação do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, que opera com deficit de mais de 1 bilhão de meticais (moeda local que vale em média R$ 0,60) e não foi capaz de agir ante o ciclone.

Diversos países se dispuseram a ajudar Moçambique nesse momento e esse auxílio precisa chegar o quanto antes. Aliás, seria importante que o Brasil se dispusesse de alguma forma, já que para além da proximidade linguística e cultural, possuímos relações comerciais significativas com o país, mais vantajosas para o sub-império do sul global, diga-se de passagem. Mas, a um oceano de distância, me parece que a situação estrutural é o que precisa ser modificada para que novas tragédias tenham seu impacto diminuído. Se na África do Sul o Congresso Nacional Africano segue governando, mas com um programa avesso ao que colocou Mandela no poder, o mesmo ocorre com a Frelimo, partido do governo em Moçambique. Samito Machel, filho de Samora Machel, é conhecido pelo seu envolvimento na exploração de minas de rubis e nesse momento trava uma luta por poder no interior da Frelimo contra Filipe Nyusi, já que o partido que governa desde a independência ainda precisa indicar seu sucessor para as eleições desse ano. Tal disputa não foi interrompida nem pelo ciclone, pois, nessa segunda-feira, Samito intensificou sua articulação. Enquanto isso, ambos rifam as reservas de gás natural do país para multinacionais expressando o abandono das bandeiras de emancipação econômica erguidas décadas atrás.

No ano 2000, o ciclone Eline gerou cerca de 700 mortes e fez o PIB do país reduzir em quase 6%. Já é certo que o impacto do Idai será tão grave quanto este, por isso, não nos resta outra ação que não seja de solidariedade máxima ao povo moçambicano e dos demais países atingidos. Que esse povo marcado por uma história de luta seja capaz de se reerguer novamente!

NOTAS

1 Ver o discurso na íntegra em “Samora Machel – Retórica política e independência em Moçambique”, de Colin Darch e David Hedges (EDUFBA, 2018)

 

Marcado como:
África / Ciclone Idai