Os ataques contra escolas são terrorismo ideológico de ultra-direita e os Erostratos do século XXI são neonazis

Henrique Carneiro

Ativista Antiproibicionista e professor de História da Universidade de São Paulo (USP)

O século XXI vem sendo o palco de uma nova onda do neonazismo, por meio de atentados brutais, em que se atacam grupos sociais específicos para, com o seu extermínio, propagar a mensagem de ódio. Imigrantes, mulheres, homossexuais, negros, socialistas, muçulmanos e judeus tem sido os alvos preferenciais.

O ataque da escola Columbine, em 1999, nos EUA, já trazia os componentes ideológicos do extremismo de ultradireita. Mas, desde que houve o massacre na Noruega, em 2011, contra o parlamento e a juventude do partido socialista, com quase uma centena de mortos, que se repetem em diversos lugares ações dessa mesma natureza.

Antes da segunda guerra mundial, o escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre publicou uma coletânea de contos, chamada “O Muro”. Um deles conta a estória de um homem que quer sair à rua e atirar a esmo contra a multidão. O seu título é “Erostrato”, o nome de um grego que três séculos antes de Cristo destruiu o templo de Éfeso, para ter a fama de sua destruição. O pior, como se comenta no conto, é que ele conseguiu, pois ninguém se lembra do nome do arquiteto desse templo, mas o do seu malfadado destruidor continua a ser evocado para definir um gesto de aniquilação insensata e vaidosa.

A vaidade dos sociopatas é proporcional a sua falta de empatia pela humanidade. Mas, diferentemente do personagem sartreano, os atuais Erostratos são ideologicamente motivados.

O que há de comum entre todos eles é a identidade supremacista branca, a ausência de uma libido erótica, substituída pela carência sexual recalcada em destrutividade mórbida que se identifica com a dimensão fálica das armas, e uma condição masculina cuja identidade se reduz à violência e ao desprezo pelas mulheres.

Eles são quase sempre homens brancos heterossexuais, das classes médias e sexualmente frustrados. Mas, além da dimensão psicopatológica individual, há uma característica político-ideológica que se assume como vontade de extermínio de grupos e indivíduos definidos, repetindo os crimes genocidas do nazismo em uma escala artesanal.

Esse aspecto, entretanto, não é apontado claramente pela mídia, que escamoteia o aspecto ideológico. Assim, não se chama aos fanáticos ocidentais de “fundamentalistas cristãos”, reservando essa denominação apenas para o terrorismo fundamentalista islâmico.

Os piores crimes de ódio no Brasil foram ataques em escolas secundárias. Realengo, em 2011, e Suzano, em 2019, foram vítimas de atos terroristas ideológicos.

No de Realengo, o atirador escolheu como vítimas meninas que interrogou para saber se não eram mais virgens. O elemento misógino e puritano sexual foi o critério do assassino na escolha de suas vítimas. Ele era um religioso fanático, da mesma forma que os assassinos de Suzano mencionavam “Deus” em seus textos. Isso não impediu comentaristas da TV de repetirem o ridículo bordão de que lhes “faltava Deus no coração”. O assassino da catedral de Campinas, não só era de severa formação religiosa como escolheu o próprio recinto de uma igreja para matar.

No massacre mais recente, em Suzano, o menor já usou brincos com suástica, exaltava sites de armas e manifestava apoio à família Bolsonaro.

Em ambos os casos, de Realengo e Suzano, os vínculos ideológicos extremistas, entretanto, foram desconsiderados ou minimizados.

Nos dois casos, houve contatos com a mesma rede de masculinistas extremistas e terroristas que reúne homens virgens e frustrados sexuais que fazem da violência a única marca da sua identidade masculina.

O clima político de um país em que a exaltação armamentista se tornou o gesto emblemático da estética do poder também contribui evidentemente para um clima de exaltação da violência. Armas, misoginia, machismo e violência são ideologias oficiais hoje no país.

A disseminação do ódio político tornou banal a exposição pública de mensagens defendendo a morte de figuras públicas. O assassinato da vereadora Marielle chegou a ser comemorado e a placa de rua com o seu nome foi publicamente vilipendiada num comício pelo atual governador do Rio de Janeiro.

Sem pensar na ideologia, não há explicação para esses atentados. Querer reduzi-los à suposta influência de videogames é um reducionismo simplista que não leva em conta que há ideais e valores ideológicos nesses atos.

Isso não significa que a execução de atentados sociopatas seja exclusividade do espectro ideológico da direita. O atentado de Adélio Bispo contra Bolsonaro é um exemplo de que também há crimes de ódio, com elementos psicopáticos, vinculados ao espectro da esquerda. No século XX, houve muitos movimentos armados, vinculados ao campo da esquerda, que também cometeram atos terroristas. Quase todos, entretanto, tinham alvos políticos e não civis deliberadamente.

A prática, cada vez mais corrente, de ataques sem alvo politicamente definido, com execuções em massa de pessoas a esmo, ou por seu pertencimento a grupos sociais específicos, vem sendo executada por fundamentalistas islâmicos em diversos lugares, sobretudo após 11 de setembro de 2001 e, corretamente, foram identificados como crimes políticos e ideológicos de ódio.

Do ponto de vista cronológico, no entanto, quem começou essa onda foram os extremistas de direita, desde o atentado de Oklahoma, em 1995. Nos EUA, a extrema-direita vem cometendo na última década mais do que o dobro de atentados do que os realizados pelos terroristas islâmicos. A ameaça terrorista mais perigosa no mundo hoje em dia é, portanto, ocidental, cristã, supremacista branca e pró-capitalista.

Os psicopatas, sociopatas e paranoicos também têm ideologias e sem apontá-las e denunciá-las estaremos apenas escondendo as explicações contextuais para o horror e o terror abomináveis que são apenas aparentemente insanos. O pior é que não são simplesmente “loucos”. Já quiseram reduzir o nazismo a uma psicopatologia individual de Hitler e seus comparsas. Infelizmente, a onda terrorista da ultradireita contemporânea também não é apenas irracionalismo e maldade atávica. Há método no terror e seus alvos não são puramente casuais.