Brexit: Um Desastre Anunciado

Eduarda Johanna Alfena

Em 2017, fiz um texto prevendo que o Brexit, a tentativa de saída por parte do Reino Unido da União Europeia (UE), seria um caos e só traria dor de cabeça e divisão. Eu estava certa, mas não previa que o caos seria tão grande.

A situação está tão “complicada” que até Sua Majestade Real Elizabeth II está com medo de ficar em Londres. Segundo reportagem da Deutsche Welle, a Rainha teme agitação popular no caso de um divórcio hostil do governo central de Londres com Bruxelas (Capital do Reino da Bélgica e da Comissão Europeia, que é o órgão executivo do bloco comum).

Mas antes de nos atermos aos detalhes, vamos aos fatos. Depois de James Cameron, quem assumiu o cargo de Primeirx-Ministro foi a Torie (Conservadora) Theresa May. Ela acionou o artigo 50 do Tratado de Lisboa e pediu o início do desligamento do bloco comum.

Seu primeiro problema foi que o Parlamento não aceitou que ela o fizesse, pois seria competência do Legislativo tal tarefa. Pronto, a situação foi parar na Suprema Corte e esta decidiu que caberia ao Parlamento a decisão de acionar o Tratado de Lisboa. Depois de muito bate-boca, o mesmo aprovou o início das conversas e May iria iniciar uma verdadeira peregrinação até Bruxelas para acertar os detalhes.

Várias questões envolvem o Brexit. Mesmo não fazendo parte do Acordo de Schengen (que permite livre circulação de pessoas e mercadorias em vários países da Europa), os britânicos sempre gozaram de facilidade para transitar pelo bloco europeu, fato que não é tão reciproco aos continentais que vão ao Reino Unido (RU). Estudantes de todos os países-membros gozam de programas de estudos e obtém facilidade de estudar em universidades dos outros países do bloco. Os trabalhadores britânicos tem mais facilidade para trabalhar em outros cantos do bloco.

Se o Reino Unido se desligasse do bloco sem acordo, esses estudantes teriam suas matrículas automaticamente canceladas, uma vez que seu país não desejaria mais fazer parte da comunidade europeia. Haveria a mesma complicação para a mobilidade de trabalhadores. O fato é que, por medo do Brexit, disparou o número de cidadãos britânicos pedindo passaportes e cidadanias de outros países, principalmente o passaporte alemão.

O fator econômico é que a UE é de longe o maior parceiro comercial do RU. Após o Brexit, Londres teria que importar seus produtos a preços mais caros por causa dos impostos e teria que negociar longos e difíceis tratados de livre-comércio com cada um dos 27 países restantes.

Ainda tem a questão da fronteira das Irlandas. Como dito no outro texto, a Irlanda do Norte ainda faz parte do Reino Unido (da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte), e a “do sul” é a República da Irlanda independente. Inclusive os irlandeses do sul fazem questão de enfatizar a palavra “República” toda vez que se referem a seu país ou chama-lo de Éire, para evitar a língua inglesa.

Como Reino Unido e Irlanda fazem parte da UE, não há tantos problemas de fronteiras (mesmo que ambos não façam parte do Acordo de Schengen). Uma saída do Reino Unido da UE provocaria, de novo, violentos conflitos na fronteira, fato que não interessa a Londres, também não a Belfast (Irlanda do Norte).

Essa possibilidade fez crescer o fervor separatista em Belfast. Eles preferem fazer parte da Irlanda republicana e permanecer assim na UE do que vivenciar de novo toda a tensão fronteiriça. Além disso, a UE naturalmente dará qualquer ganho de causa relativo a essa questão a um de seus membros, contra o rebelde RU.

Brexit sem acordo (“Hard”) ou acordado (“Soft”)

Não só pela questão fronteiriça das Irlandas, mas também tendo em vista a questão econômica e social, começou-se na ilha da rainha uma discussão se não seria mais interessante ao RU fazer um Brexit mais leve (“soft”). May até tentou um acordo com a UE: o RU continuaria fazendo parte do Mercado Comum Europeu, do bloco, e teria um acordo a parte para permitir aos Irlandeses republicanos maior circulação de bens, pessoas e serviços para a Irlanda do Norte.

Depois de muito peregrinar entre Bruxelas e Londres, acabou-se chegando a um extenso acordo, com esse tom mais “soft” com a UE. Inclusive, cidadãos da UE teriam permanência no RU facilitada por mais tempo, bem como os moradores britânicos no resto do bloco.

Porém, para os membros do Partido Conservador de May que são “Brexiteers” (termo criado para designar quem é a favor da saída, palavra que inclusive consta no dicionário Oxford), um divórcio “soft” ainda deixaria o RU subordinado a Bruxelas. Para eles, teria de ser um divórcio total, ou “Hard”: sem acordo com a Irlanda, com o RU fora do Mercado Comum, retirando a permissão dos cidadãos europeus a continuarem vivendo na ilha.

Enquanto isso, na iminência de um divórcio belicoso, o povo britânico cada vez mais se dividiu e se digladiou. Falava-se em fazer um novo referendo, em rever a decisão, ou até mesmo adiar a data limite para a saída. A UE deixou claro inúmeras vezes que o Brexit poderia ser desfeito a qualquer momento. Não, May estava decidida em manter o pacto que Cameron fez com a Direita Neofascista britânica, representada pelo UKIP (Partido de “Independência” do Reino Unido). Que o Brexit é fruto da Extrema-direita britânica, que se recusou a receber refugiados das guerras resultantes do seu imperialismo de séculos, é a mais pura verdade.

May até tentou renegociar com a UE um novo acordo, mas a Comissão Europeia, o Conselho Europeu (não confundir com Conselho da Europa) e a Alemanha foram categóricos: ou é este acordo ou é nenhum acordo. May, no seu desespero, chegou a tentar votar a proposta ainda em dezembro do ano passado, mas retirou-o de pauta pois percebeu que iria perder.

O tempo estava passando para May. Afinal, em 29 de Março, ocorrerá a saída. Se não houver acordo antes disso, a UE não aceitará fazer acordo posterior. May então adiou a votação para 15 de janeiro último. Depois de uma sessão marcada por brigas e confusão (algo raro no Parlamento Britânico) chegou-se ao resultado: O acordo “soft” fora rejeitado, por 432 votos contra 202. Os Tories Brexiteers querem mesmo fazer o jogo-duro com Bruxelas.

A situação estava tão caótica que, no dia seguinte, May passou por uma moção de desconfiança proposto pelo Partido Trabalhista (Whigs). A justificativa para a moção é de que ela, em dois anos, não conseguiu fazer nada que fosse aprovado pelo legislativo e, portanto, o país estaria paralisado.

Em países parlamentaristas, esse é o meio usado para se derrubar o governo eleito. Se a moção conseguir 50% + 1 dos votos, cai-se o Premier, e daí os partidos entram em discussão para eleger outro. Isso não ocorreu. Por 325 a 306, Theresa Mary May continua em seu posto.

O mais triste disso é que, em dezembro último, o seu próprio partido passou uma moção de desconfiança contra ela, sobre continuar na liderança do partido, e portanto também do governo: 200 votaram pela sua permanência e 117 pela sua retirada.

O que resta?

A situação é caótica. May tem as seguintes opções:

  • Fazer um divórcio duro e sem acordo nenhum com a UE. Isso acarretaria imenso descontentamento civil, além de violência na fronteira das Irlandas, possibilidade de separatismo na Irlanda do Norte e na Escócia, fora todo o prejuízo econômico com as importações que o RU precisa da UE;
  • Tentar fazer os Tories (conservadores) Brexiteers aceitarem o acordo “Soft”, o que no meu ver é impossível, dada a conjuntura de polarização do RU;
  • Tentar outro acordo com a UE. Acho difícil fazer a UE ceder, inclusive até daqui pouco mais de um mês;
  • Adiar o Brexit;
  • Realizar outro referendo;
  • Renunciar do cargo de Primeira Ministra e deixar para seu sucessor descascar o abacaxi que o Cameron colocou nas mãos dela.

O que ocorre é que, se chegar a data-limite sem votar uma proposta de acordo, acontece automaticamente a opção 1.

Como a May não quer outro referendo, talvez a melhor saída para ela seja adiar a data do Brexit, assim ela tenta ganhar mais um pouquinho de sobrevida do seu governo desastroso e mergulhar o RU no caos mais ainda. Quanto mais caos, mais empresas saem de Londres e vão pra Alemanha e França, favorecendo a UE.

A proposta de Brexit duro é odiada até mesmo pela Rainha. Segundo a reportagem da Deutsche Welle apurou, autoridades do alto escalão de Londres, no caso de se concretizar um Brexit “hard” e isso gerar conflitos civis internos, estão estudando reaproveitar um plano de evacuação da Guerra Fria. Basicamente, levariam dona Elizabeth e o resto dos parasitas da família real para um local seguro. Até a realeza parasita não gosta da possibilidade de uma saída sem acordo.

Quanto mais caos, melhor para os fascistas do UKIP, ou seja, mais gasolina na fogueira da extrema-direita.

Considerações Finais

Longe de mim apoiar a realeza britânica. Essa mesma realeza que esteve a frente dos maiores genocídios causados pela política imperialista que o Império Britânico praticou durante séculos. Uma amostra disso é o lema do país e da monarquia: “Dieu et Mon Droit” (Deus e meu Direito). É a justificativa divina do poder real, usada antigamente para legitimar o absolutismo.

Também não é correto ser contra o processo do Brexit apenas por ele não satisfazer os interesses do capital britânico. Afinal, se é bom para o mercado, tende a ser ruim para o povo. Também sabemos que a União Europeia é comandada a rédea curta pela Alemanha de Angela Merkel e sua politica de exploração financeira dos outros membros do bloco. O Banco Central da União Europeia não fica em Frankfurt Am Main à toa.

Mas não se trata aqui das empresas britânicas, da Alemanha ou da Elizabeth II. Não. Se trata de que este Brexit é fruto de um conluio do Partido Conservador com o que há de mais reacionário na política britânica. Apoiar este Brexit é apoiar os Neofascistas do UKIP. Apoiar esse Brexit é apoiar que um país se retire de um bloco deste porte porque se recusa a receber refugiados.

O Reino Unido não está saindo da UE por se achar explorado, roubado, comandado. O Reino Unido sempre quis uma Europa “à la carte”. Sempre que o governo do Reino Unido não concordou com alguma política da UE, este se debateu e fez pirraça, e a UE sempre cedeu. O Reino Unido está saindo da UE por se recusar a conceder ajuda humanitária a pessoas de um país em guerra civil (Síria). Mesmo que não estivesse em guerra civil. Ajuda humanitária deve sim ser concedida por qualquer país que precise.

O país britânico dominou, até 1921, uma área equivalente a 94% da superfície da Lua. Cerca 23% da população mundial da época vivia em território britânico, quer metropolitano ou colonial. Não é a Classe Trabalhadora Britânica que quer o Brexit, mas sim meia dúzia de fascistas recalcados que nunca foram ninguém na fila do pão da política Britânica.

Para se ter ideia, o UKIP conseguiu um assento (de 650) na Câmara Baixa em 2015. Como May dissolveu o Parlamento e marcou novas eleições em 2017, o UKIP foi novamente chutado para o ostracismo de sua insignificância. Perdeu seu único assento na House of Commons.

Não há nada de progressista em sair da UE para se tornar um país fascista, como os déspotas da Hungria, Polônia e agora também da Itália. Devemos chutar este Brexit e tudo que venha da trupe do UKIP. Se o projeto do Brexit viesse da Classe Trabalhadora Britânica. Mas que não se use o Brexit como desculpa para negar ajuda humanitária. E se for da vontade da Classe Trabalhadora da Escócia e Irlanda do Norte continuarem na UE, que o governo em Londres reconheça sua autonomia e independências.

Dado que Governo, Parlamento e população estão completamente divididos, Theresa May tem que interromper esse processo imediatamente e chamar um referendo vinculativo (que gere efeitos automaticamente após a consulta popular) com as seguintes opções:

  • Permanecer na União Europeia;
  • Sair da União Europeia.

2a) Sair com o acordo “Soft”;

2b) Sair sem nenhum acordo.

Se o povo britânico, após dois anos de caos e brigas, ainda assim preferir sair, que saia sem a questão ser levada ao Parlamento e que o governo central em Londres aceite as independências da Escócia e Irlanda do Norte, se for do desejo destas de permanecer no bloco europeu.

Nota da Autora: Até a finalização deste texto, o último ato desse circo dos horrores foi que cidadãos (incluindo os Brexiteers), na iminência de um divórcio hostil, começam a estocar alimentos aos montes. Caso isso ocorra por muito tempo, o efeito das prateleiras vazias faz subir os preços de víveres. Segundo um site que dá dicas aos futuros “sobreviventes” de um mundo pós-Brexit, devido a essas estocagens e consequente subida de preços, víveres para uma semana passaram a custar em torno de 111 Libras, enquanto as despesas para um mês de estoque não saem por menos de £459.

O medo não é infundado, pois analistas acreditam que “uma suspensão súbita de acordos alfandegários de longa data poderia significar portos bloqueados, caminhões presos em rodovias, ou balsas com mercadorias estragadas e escassez de alimentos e remédios nos supermercados e farmácias britânicas”, enquanto o governo do Reino Unido demorar para firmar acordos com os países novamente. Acordos esses que levam de meses e a décadas para serem firmados. E, sem dúvida, a UE fará de tudo para atrasar esses acordos. A notícia consta no Deutsche Welle .

Parafraseando o caput deste texto: “Eu estava certa, mas não previa que  (o caos) seria tão grande”.

Foto: wikipedia