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  • Relatos de Brumadinho: veja os vídeos com depoimentos dos moradores

    Acompanhe a série de vídeos produzida pelo Esquerda Online, direto de Brumadinho.

    RELATO 1 – Pedro e Isamara, agricultores

    RELATO 2 – Cena da assembleia de moradores

    RELATO 3 – Representante da Defensoria Pública

    RELATO 4 – Raphaela, do MAB Movimento dos Atingidos por Barragens

    RELATO 5 – Neide e Antonio, do Quilombo dos Marinhos

    RELATO 6 – Cenas da assembleia dos moradores

     


    LEIA MAIS

    “Espero que vocês sejam sensíveis”

    Reestatizar a Vale com base em um novo modelo de mineração

     

     

  • A hora da velha política

    Depois de um janeiro catártico, período em que assistimos estupefatos ao show de horrores de um bando de “malucos sapateando no palco”, na feliz expressão de Eliane Brum, colunista de El País, entramos em fevereiro com indicativos de retorno da velha política. Com o retorno do Congresso ao seu funcionamento e a eleição dos presidentes das duas casas, os núcleos político e econômico do governo de Bolsonaro começaram a trabalhar e deram os primeiros sinais do que está por vir, o que pode fazer com que os sindicatos e os trabalhadores comecem a se mexer.

    O governo de Bolsonaro é composto por quatro núcleos e não será incomum que cada um venha a se destacar num período e ainda menos incomum será assistir aos atritos entre os quatro núcleos que estiveram na base da campanha de Bolsonaro e são formados por diferentes frações de classe. O núcleo bolsonarista é o eixo central do governo. Formado pelo presidente e seus filhos, este núcleo, de dimensões mais ideológicas, conta também com os ministros Ricardo Vélez Rodriguez, da Educação, e Ernesto Araújo das Relações Exteriores, ambos indicados por Olavo de Carvalho e que entram na cota pessoal do presidente eleito, também admirador do ex-astrólogo. Além desse eixo estruturante, com inegáveis dimensões protofascistas e anunciadas disposições autoritárias de promover uma “faxina ideológica” em diversos setores, o núcleo bolsonarista também tem a ministra Damares Alves, responsável pela pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos, que compõe a cota evangélica e fundamentalista do governo.

    Um segundo núcleo do governo de Bolsonaro é composto pelos militares. Com a responsabilidade de oferecer a tutela e a salvaguarda para situações de colapso, algo não descartado e cada vez mais possível, o núcleo militar está encarregado de oferecer sustentação e guarida ao ex-capitão do Exército que virou presidente, um homem reconhecidamente instável e que jamais inspirou confiança na caserna, sobretudo entre a alta hierarquia. O núcleo dos militares é relativamente heterogêneo, mas não é impossível perceber o compromisso comum quanto a tutela e a salvaguarda. Hamilton Mourão, o general da reserva que ganhou os holofotes por pregar a intervenção militar nos tempos de Dilma e Temer, é o principal representante deste núcleo. Conquistando espaço cada vez mais amplo em setores da imprensa e da opinião pública, Mourão vem se destacando como contraponto à visível tensão presente na figura de Bolsonaro. Mourão divide o protagonismo deste núcelo com o general Augusto Heleno, responsável pelo Gabinete da Segurança Institucional, e com o general Carlos Alberto Santos Cruz, ministro da Secretaria de Governo e com eles tem a responsabilidade de intermediar as relações do governo com os militares, além de conduzir uma enorme presença de membros Forças Armadas na máquina governamental.

    O núcleo econômico do governo de Bolsonaro foi aquele que teve menos destaque na campanha e que até o momento foi o mais discreto. Dirigido pelo “Posto Ipiranga” Paulo Guedes, o núcleo econômico é aquele mais diretamente alinhado às frações hegemônicas das classes dominantes. Como único que foi terceirizado por Bolsonaro, o núcleo econômico tem feições ultraliberais e ainda que não goze de amplo consenso entre as várias frações da burguesia, tem carta-branca para promover a rapinagem do patrimônio público e completar a retirada de direitos, iniciada por Joaquim Levy, durante o segundo governo Dilma, e aprofundada por Henrique Meirelles, no governo Temer.

    O quarto e último núcleo é o político, comandado por Onyx Lorenzoni. Aliado de primeira hora de Bolsonaro, Lorenzoni começa a se destacar tanto mais o espaço do bolsonarismo se reduza e a velha política seja chamada a entrar em cena. Responsável pela indicação da maioria dos membros da velha política que compõe o novo governo, o núcleo político pretende fazer a ponte entre um governante tresloucado e inábil e um Congresso formado por velhas raposas da política nacional. Contra este núcleo, além das denúncias de corrupção e indiciamento de algumas figuras, pesam as maiores desconfianças dos bolsonaristas ideológicos. Para estes, a corrupção é fruto da política, então não haveria nenhum problema em fechar o Congresso, banir ou mandar para cadeia qualquer que seja corrupto ou represente empecilho à atuação do governo, inclusive Onix, confessadamente praticante de caixa 2.

    Ao longo do mês de janeiro, foi o núcleo bolsonarista que ocupou o centro da cena política do país. Sem que praticamente se ouvisse falar de Paulo Guedes, que trabalhava na preparação da Reforma da Previdência e no desmonte do Estado, e de Sérgio Moro, alguém que gravita entre os núcleos ideológico e político e uma das estrelas do novo governo, o mês de janeiro foi o mês dos aloprados. Em janeiro tivemos o escândalo de Flávio Bolsonaro, de Queiroz e das milícias; assistimos as declarações estapafúrdias de Damares Alves; no mês um nos foram foram apresentados Ernesto Araújo, o diplomata que discursou em grego e tupi na posse e que acredita que o “globalismo é uma ideologia pilotada pelo marxismo cultural”, e o colombiano Vélez Rodriguez, o filósofo desconhecido, admirador de Olavo de Carvalho e Antonio Paim e que em entrevista à revista Veja afirmou que “o brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião. Ele acha que sai de casa e pode carregar tudo”. Mas janeiro foi, sobretudo, o mês de Bolsoanaro. Numa pequena, mais significativa amostra do que nos espera, Bolsonaro só não roubou a cena porque a concorrência foi forte. Teve o fiasco de Bolsonaro em Davos, teve tuíte comemorando a renúncia de Jean Wyllys, teve confronto com a imprensa e a crítica ostensiva do grupo Folha e das Organizações Globo, e teve crime cometido pela Vale em Brumadinho, que nos fez lembrar das propostas e declarações do presidente que pretendia desmontar o IBAMA. A propósito, foi graças a Brumadinho que muitos brasileiros conheceram o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, alguém condenado por improbidade administrativa por beneficiar empresas que fraudaram Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê.

    Mas o ano não terminou em 31 de janeiro, apesar de sua intensidade. No dia seguinte, na eleição do Congresso, entrou em cena a velha política. Com o inábil PSL paralisado pela crise envolvendo Flávio Bolsonaro e as intermináveis querelas que atingiram a maioria de seus membros, formados por neófitos na política, gente pouco habituada à parlamentação, aos acordos e costuras e ao tipo de diplomacia que impera nos corredores do Congresso, quem entrou em cena foram os velhos caciques do DEM e do MDB que, fustigados pelo experiente Onix Lorenzoni, duelaram no senado, já que a eleição da Câmara foi bem mais fácil, com a recondução de Rodrigo Maia (DEM) à presidência da casa, derrotando um coerente e combativo Marcelo Freixo (Psol), e também outros candidatos. No Senado a coisa foi mais difícil e Renan Calheiros (MDB), já posando de novidade e ameaçando passar de armas de bagagens para o governo de Bolsonaro, por despertar pouca confiança, teve o tapete puxado pelas articulações de Onix, que conseguiu eleger Davi Alcolumbre, senador do baixo clero do DEM do Amapá, totalmente alinhado com o governo do PSL. Eleito para o Senado em 2014, Alcolumbre, é como Rodrigo Maia, um retrato da velha política e responde, inclusive, a duas ações no STF por irregularidades na campanha de que o conduziu a câmara alta.

    Virada a página das eleições na Câmara e no Senado, entraram em cena Paulo Guedes e Sérgio Moro, com suas respectivas propostas de alteração em dispositivos constitucionais e leis estabelecidas há décadas. O primeiro, chega com a draconiana proposta de Reforma da Previdência, algo que promete sacudir os trabalhadores e os sindicatos que, até então, praticamente assistiam a tudo de camarote. Já Sérgio Moro, ainda gozando de popularidade, em que pese seu silêncio frente aos casos de corrupção no entorno do governo de que participa, apresenta um não menos draconiano Projeto de Lei Anticrime, com vários dispositivos inconstitucionais e propostas de mudança no Código Penal, com uma indisfarçável intenção de instalar um estado policial no país.

    O que vai acontecer daqui por diante, é impossível prever. É impossível, porque Bolsonaro continua presidente e seu núcleo mais próximo vai continuar produzindo notícia e provavelmente mais escândalos, aliás notícias que estão longe de serem cortina de fumaça, como muitos creem, pois são o modus operandi de personalidades que flertam abertamente com o fascismo e com o fundamentalismo religioso. Também é impossível prever porque ainda não dá para saber como o STF vai atuar frente a tantas inconstitucionalidades nos projetos de Guedes e Moro e como o próprio Congresso tratará com o bolsonarismo, disposto a abrir várias frentes de combates contra a imprensa, as universidades, os trabalhadores e frações da burguesia com pouca influência, como a chamada burguesia interna. O certo é que estamos naquele momento em que a nova política se encontra com a velha política. Da capacidade de um se sobressair sobre o outro, será decidida os termos em que se dará as contendas e a correlação de forças, pois o futuro depende tanto da movimentação do governo e das frações das classes dominantes e dos setores médios que o apoiam, como do andar de baixo, que precisará de muito esforço para ser capaz de deslocar a classe média da base do bolsonarismo, para entabular greves, ocupar as ruas e reassumir o protagonismo perdido, pelo menos desde a greve geral de 28 de abril de 2017.

     

    *Carlos Zacarias de Sena Júnior é professor do Departamento de História da UFBA

    Foto: Davi Alcolumbre eleito presidente do Senado. Pedro França/Agência Senado

  • Como o desfecho do crime em Mariana nos ajuda a entender o que aconteceu em Brumadinho

    A dor, mais uma vez, se espalhou por todo o Brasil.  A angústia segue sendo o principal sentimento das pessoas que convivem em áreas próximas às barragens. A falta da devida reparação aos atingidos no crime de Mariana e a reincidência no recente caso de Brumadinho nos alertam sobre a dimensão trágica destes crimes. Por que tudo está se repetindo? Até quando essa situação permanecerá?

    A empresa Vale ocupa, mais uma vez, os principais noticiários do país. A população brasileira vive um dejà vu em formato de pesadelo. Menos de quatro anos separam o rompimento da barragem em Mariana do ocorrido em Brumadinho. A falta de efetiva reparação aos atingidos em Mariana e a postura negligente dos órgãos públicos frente ao ocorrido demonstram aspectos relevantes para compreendermos como mudanças drásticas devem ocorrer para que episódios como esses não voltem a acontecer.

    Passados mais de 30 meses do crime de Mariana não existe nenhuma resposta em relação à responsabilização criminal dos envolvidos. Já na esfera civil a efetiva reparação até hoje não se concretizou, exemplo disso é o fato de não ter sido construída nenhuma casa no local atingido e muitas famílias ainda aguardem por reparação.

    Existem dois responsáveis pelo crime de Mariana e Brumadinho: o Estado e os proprietários da barragem. Enquanto as empresas deixam de cumprir com os requisitos mínimos de segurança, o Estado não realiza a fiscalização que é de sua competência. Em uma perfeita “casadinha”, as empresas economizam na falta de manutenção de suas barragens, enquanto mantém sob controle o poder público que deveria fiscalizá-las.

    Casa destruída em Mariana, MG. Foto: Guilherme Weimann

    Nesses casos não podemos falar em tragédia ou desastre. Esses nomes devem ser utilizados para eventos que não podemos controlar. Brumadinho e Mariana representam um evento que poderia ter sido evitado, fruto de um descaso sistemático que visa a manutenção da atividade de exploração mineral voltada única e exclusivamente para o lucro.

    Os dois crimes ocorreram em barragens do tipo “a montante”, considerado obsoleto e menos seguro. É revoltante saber que existem outras 89 barragens do mesmo tipo no Brasil.

    A ausência de voz dos atingidos no processo de responsabilização no caso de Mariana

    Enquanto os atingidos choravam a morte de seus familiares e amigos, bem como buscavam reconstruir o que a lama havia destruído,  a União,  o Estado de Minas Gerais e o Estado do Espírito Santo assinavam um acordo judicial com as empresas BHP Billiton Brasil Ltda. e Vale S/A, controladoras da empresa Samarco [1].

    O ponto central desse acordo foi a criação da fundação Renova, sob controle e gestão das empresas causadoras dos danos. Nesse acordo, a União, os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo deixaram de ser responsabilizados por qualquer reparação, uma vez que entraram no processo não como réus, mais como vítimas da acusação.

    Esse acordo não contou com a participação de nenhum dos atingidos e nem do Ministério Público Federal (MPF), ou seja, as empresas que deixaram de cumprir com os requisitos mínimos de segurança e o Estado que não fiscalizou deram as mãos e assinaram um acordo em nome de todos os atingidos.

    A mobilização dos atingidos e movimentos sociais foi um dos principais fatores responsáveis para que o MPF entrasse com uma nova ação com o intuito de desfazer o primeiro acordo e responsabilizar todos os envolvidos no rompimento da barragem, isto é, as empresas e o Estado.

    O MPF inclusive manifestou seu espanto na própria existência desse primeiro acordo:

    “A gravidade da omissão dos réus-entes públicos, seja como concedente minerário ou licenciadores ambientais, no mínimo, imprudentes; seja pelo precário e desidioso exercício do poder de polícia, foi capaz de, pelo menos, ter facilitado o dano ambiental provocado pelas empresas-rés. São réus, por isso mesmo, da presente ação.

    Esse consórcio do desastre lhes retira a legitimidade em sentido constitucional e democrático, tanto para propor ação coletiva, que o fez numa velocidade proporcional, parece, ao senso de culpa pelo anterior descaso ou ao temor da resposta judicial que sofreria; (…).Paira sobre eles a dúvida séria de confusão entre seus interesses e os interesses das empresas-rés; a primazia que conferiram – de modo reincidente – a esses interesses sobre os interesses da coletividade.” [2]

    Ato em Belo Horizonte, em homenagem aos mortos e desaparecidos. Foto: Pedro Muniz

    Após meses de pressão e negociação, um novo acordo foi assinado para que o Estado se responsabilizasse, ao lado das empresas. Nele  os atingidos passaram a ter participação modesta nos conselhos da fundação Renova, entidade responsável por gerir o fundo de reparação.

    Apesar da luta dos movimentos sociais as empresas continuaram a ter papel determinante na gestão do fundo de reparação aos atingidos. Os interesses obviamente distintos entre os atingidos e as empresas é fator determinante para que a injustiça com os atingidos permaneça.

    Ainda que haja previsão de uma indenização no valor de 2,2 bilhões destinados à reparação de todos os danos sociais e ambientais, a gestão do fundo bilionário com ingerência das empresas responsáveis pelo acidente tem dificultado a efetivação da reparação. [3]

    Chega de mortes!

    Após o acidente de Mariana não houve aumento da fiscalização nas barragens, nem aprovação de legislação ou normas mais protetivas para a produção mineral.

    Empresas como a Vale, que alcançou lucro líquido de 17 bilhões em 2017 [4], deixam milhares de pessoas em risco de vida devido a política criminosa de manejo de rejeitos nas barragens.

    A verdade é que os causadores dos crimes não trarão a solução,  a convergência de interesses entre Estado e empresas é o ponto central  para explicarmos a reincidência da empresa Vale no crime de rompimento de barragem. O interesse das  empresas se baseiam única e exclusivamente na busca por mais dinheiro. A vida e o respeito à natureza ficam em segundo plano.

    Lama em Brumadinho. Foto: Pedro Muniz

    Aguardar que o poder Judiciário garantirá a devida reparação e o mínimo de conforto aos atingidos é desconhecer o ocorrido em Mariana. Somente a mobilização do povo trará vitórias.

    Interromper toda a extração mineral que coloque a vida de pessoas em risco e reestatizar a Vale com controle social e democrático são os primeiros passos para estabelecer um novo sistema de extração de mineração na busca pela preservação da vida, a tranquilidade no trabalho e, finalmente, uma convivência em harmonia com a natureza.

    Não aguentamos mais continuar a perder pessoas que amamos.  Não é natural o que está acontecendo. Temos força, vamos à luta!

    Toda solidariedade ao povo de Minas!

    NOTAS

    1 – Acordo celebrado na Ação Civil Pública nº 69758-61.2015.4.01.3400 com valor de causa de 20 bilhões.

    2 – (FEDERAL, Ministério Público. Ação Civil Pública 0069758-61.2015.4.01.3400 no valor de 150 bilhões. Distribuída por prevenção aos Autos 60017-58.2015.4.01.3800 e 69758.61-2015.4.01.3400. Página 107. Disponível em http://www.mpf.mp.br/mg/sala-de-imprensa/docs/acp-samarco/view Acesso em 02 out. 2018.)

    3 – http://www.mpf.mp.br/para-o-cidadao/caso-mariana/para-o-cidadao/caso-mariana/atuacao-do-mpf/resultados/resultados

    4 – https://g1.globo.com/economia/noticia/vale-registra-lucro-de-r-176-bilhoes-em-2017.ghtml

     

    SAIBA MAIS

    Para mais informações sobre a questão processual civil e criminal de Mariana: http://www.mpf.mp.br/para-o-cidadao/caso-mariana/atuacao-do-mpf/atuacao-na-2a-instancia

     

    Para informações sobre a luta dos atingidos em Mariana, Brumadinho e outras localidades: https://www.mabnacional.org.br/

     

    Indicativos sobre a questão trabalhista e os acidentes em Barragem: https://esquerdaonline.com.br/2019/01/28/jorge-luiz-souto-maior-brumadinho-foi-um-dos-maiores-acidentes-do-trabalho-da-historia-do-brasil/

    Nosso editoriais sobre o caso em Brumadinho:

    Brumadinho não foi acidente. Foi crime!

    Reestatizar a Vale com base em um novo modelo de mineração

    Crime da Vale em Brumadinho atingiu comunidades quilombolas

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  • Ato público lança frente antifascista no Rio Grande do Norte

    Frente Antifascista Potiguar defende unidade para barrar retrocessos

    Militantes, artistas, representantes de partidos, associações e entidades ligadas a movimentos sociais no Rio Grande do Norte lançaram sexta-feira (1) a Frente Antifascista Potiguar. A manifestação ocorreu na rua João Pessoa, Centro de Natal, e informou à população sobre os objetivos do movimento.

    Na ocasião, também foi distribuído o manifesto “Em defesa dos nossos direitos, lutamos contra o fascismo!”. O movimento vai se organizar a partir de manifestações e atos públicos e por meio da mídia alternativa. O Rio Grande do Norte é um dos primeiros estados a se organizar em torno de uma frente antifascista.

    Embora A Frente Antifascita Potiguar não seja um movimento especificamente de oposição ao presidente Jair Bolsonaro, ele simboliza a raiz da Organização. Tanto nos discursos como no manifesto, Bolsonaro esteve presente como se concentrasse toda a horda fascista do país.

    O manifesto explica que a Frente também busca apoiar os movimentos contra a retirada de direitos do povo brasileiro, atacados pelo governo Bolsonaro com o apoio do Congresso Nacional:

    – A Frente Antifascista Potiguar tem como objetivo enfrentar a ascensão do fascismo – que tem como uma das suas marcas o extermínio de determinados grupos, considerados indesejados, e a perseguição a toda e qualquer oposição – e assegurar os nosso direitos em toda sua plenitude, fundamentalmente, colocando-se na defesa das liberdades democráticas, pela revogação das reformas de Temer, contra a reforma da Previdência (em pauta desde o governo Temer e agora no governo Bolsonaro) contra as privatizações e contra a chamada “escola sem partido”.

    Policial civil e membro do movimento de Policiais Antifascismo no Rio Grande do Norte, Pedro Paulo Chaves Mattos explica que Bolsonaro não é um alvo, mas uma consequência do fascismo no país:

    – A questão do fascismo é maior que o Bolsonaro. Infelizmente, as práticas fascistas no Brasil não se restringem ao Bolsonaro. Tem fascismo nas instituições, prática que veio antes do Bolsonaro. Então ele não é um alvo, mas uma consequência”, afirma.

    Para Luana Cabral, militante da LSR (uma corrente interna do PSOL), a Frente é também uma resposta à intolerância e o crescimento da extrema-direita mais evidente a partir das eleições de 2018. Ela inclui na pauta da Frente a luta contra os retrocessos do governo Bolsonaro:

    – O movimento vem no bojo das eleições presidenciais, da Frente Povo Sem Medo, da necessidade de união, que seja capaz de barrar retrocessos e pensar estratégias e novas táticas que virão com esse governo. Estamos construindo uma unidade. Eleição de Bolsonaro representa um avanço da extrema-direita no mundo, não só no Brasil.

    Foto: Nicole Tinôco/Agência Saiba Mais

  • Carnaval também é luta, Carnaval também é conscientização

    Recebi pelo whatsapp a notícia de que uma escola de Samba do Rio de Janeiro lançou um samba-enredo para o carnaval deste ano falando da conscientização sobre o autismo. A mensagem não é verdadeira, mas mesmo assim, gostaria de discutir o samba, de autoria de Ito Melodia e Dudu das Candongas:

    Sou um artista de um mundo solitário

    “Eu sou autista, tão distorcido no espelho seu
    Eu sou autista, vou caminhando junto aos meus
    Tenho direito de ser diferente
    Eu quero que você entenda
    Nessa inclusão de amor
    Me aceite do jeito que eu sou
    Eu sou autista, tão distorcido no espelho seu
    Eu sou autista, vou caminhando junto aos meus
    Uma estrela de um mundo tão distante
    Onde ninguém consegue alcançar
    Eu tenho brilho fascinante
    Que vai muito além do seu olhar
    Eu vim lá do mundo de meu Deus
    Onde eu sou você, você sou eu
    Tenho segredos a revelar
    Mas com palavras eu, não sei explicar
    Nessa interação de amor eu vou
    Quero conquistar o meu lugar
    O meu coração chorou, chorou
    Quando você veio me abraçar
    Tenho direito de ser diferente
    Eu quero que você entenda
    Nessa inclusão de amor
    Me aceite do jeito que eu sou
    Eu sou autista, tão distorcido no espelho seu
    Eu sou autista, vou caminhando junto aos meus”

    No final da música, junto da letra original, é dito “Quando perdemos o direito de sermos diferentes, perdemos o privilégio de sermos livres”.

    Importante sempre reler meu texto sobre o quão a luta contra o capacitismo (a discriminação contra as pessoas com deficiências) tem de ser mister para a Esquerda. Infelizmente, ainda vejo pessoas que são da opinião de que estamos “glamourizando” transtornos mentais.

    Primeiro, se salientar que nós também somos pessoas de direito é glamourizar, então sim. Segundo, pessoas com “transtornos” mentais tem espaço nessa sociedade, tem que ter pleno direito a aceitação, amor, saúde e a cura (se necessário).

    Um outro ponto e, que é o que eu quero focar, é de que o Carnaval seria um período de distração, portanto deveria ser livre de qualquer tipo de discussão ou debate. Com o ganho de direitos, parcelas oprimidas da sociedade estão se sentindo na liberdade de denunciar o que as magoa e oprime, e logicamente isso está incomodando aos setores que não querem abrir mãos de seus privilégios.

    Desde que eu me entendo por gente, o Carnaval é visto como uma necessária válvula de escape para o povo. É o período em que todos deveriam se desligar de suas preocupações e se divertir em comunhão. Seria o período do sem-limites e sem regras. Do pode-tudo.

    Não. Não é assim. Eu, e espero que os que me leem também, luto contra toda forma de se oprimir e machucar outrem. Se for opressivo, ruim, fascista, deve sim ser combatido.

    “Ah, mas se for assim tem que abolir as marchinhas que falam mal de preto, de índio, de gay”. Sim, se forem opressivas, sim. “Ah, mas é tradição do nosso país”. Isso sim. Nosso país tem uma longínqua tradição (desde antes de o Brasil ser um estado independente em 1822) de oprimir e subjugar os povos e raças que são considerados inferiores.

    A Escravidão foi muito comum e (legalmente) aceita por séculos, e seus resquícios ainda persistem. Portanto devemos ceder a ela, dado que seria uma tradição? E o machismo e LGBTfobia centenários que fazem parte de nossa cultura? Devemos também aceitá-los como sendo nossa tradição? Isso sem falar da sempre persistente relação do poder secular com o poder religioso.

    Só por que é uma tradição não a torna mais aceitável ou melhor. E só por ser um momento de festividades e celebração, não temos o direito de perpetuar círculos longínquos de opressão e preconceito. O Carnaval pode e deve ser problematizado, assim como qualquer coisa está passível de ser problematizada e contestada.

    Fico muito contente que em mais um lugar alguém está se lembrando de nós autistas. O nosso principal problema ainda é a falta de conhecimento acerca de nossas características e necessidades. O Carnaval é sim um momento de conscientização.

    Um dizer carnavalesco que eu sempre desgostei foi: “Quem não gosta de Samba, bom sujeito não é. Ou é ‘ruim da cabeça’, ou doente do pé”. Esse dizer é bem ofensivo para quem tem alguma deficiência mental ou física. Além disso, cada pessoa tem o direito de gostar de seu próprio estilo de música e é muito ruim associar isso a alguma deficiência mental ou física. Ser “ruim da cabeça” não torna ninguém automaticamente “mal sujeito”. Afinal, doentes são os genocidas que jogaram 6 milhões para morrer em câmaras de gás em Auschwitz.

    E eu não tenho que não saber dançar para desgostar de uma música. Eu não sei dançar Valsa, por exemplo, nem Samba, ou o que seja, e isso não me faz gostar mais ou menos que esses dois, por exemplo.

    E a propósito da terceira afirmação, ser “doente do pé”. Bom, uma pessoa ter dificuldade ou ainda impossibilidade de locomoção não fará dela necessariamente uma desgostosa de Samba. E creio que existe uma leve diferença entre andar e dançar o estilo que seja.

    Meus sinceros parabéns aos autores pela importante iniciativa, por usarem esse importante evento da cultura brasileira para lançar mão da conscientização da inclusão. Por mais pessoas com deficiência no carnaval, se divertindo, e por que não, com pessoas as ajudando a dançar o samba, se assim quiserem. O Samba, Frevo, ou até então uma boa e velha Valsa Vienense. Que cada um tenha direito para dançar o quer e o que pode, numa festa divertida, sem opressões e com liberdade.