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  • Primeiro mês de Bolsonaro: cinco questões cruciais

    Completou-se nesta sexta-feira (01) o primeiro mês do novo governo. Em trinta e um dias, não faltaram medidas terríveis contra os povos indígenas e quilombolas, escândalos perigosos envolvendo a família do presidente, desastres anunciados, como a tragédia de Brumadinho, e a preparação de pesados ataques ao povo brasileiro, com destaque à reforma da previdência e ao selvagem plano de privatizações.

    O despreparo desconcertante, que ficou visível no fiasco de Bolsonaro em Davos, recuos em série, revelações bombásticas e confusões na condução do governo infringiram danos ao capitão reformado.

    Esta constatação para nada significa que estamos diante de um governo frágil, sem força para executar seu nefasto programa. A ofensiva reacionária segue sua ensandecida marcha contra os direitos sociais e democráticos, e prepara duríssimas investidas para fevereiro e março.

    Por isso, é preciso preparar a incontornável luta que se aproxima. Vejamos abaixo cinco temas centrais que marcaram o primeiro mês do governo.

    1. A composição de um governo monstruoso

    Bolsonaro montou um governo coerente com as diretrizes políticas e ideológicas de sua campanha eleitoral. Podemos dividir a composição governamental em quatro núcleo principais.

    O primeiro, e aparentemente o detentor de maior poder, é o núcleo militar. Este comanda sete ministérios, tem nomes distribuídos em 21 áreas do primeiro escalão, tem a vice-presidência e, ao que tudo indica, conforma o grupo de maior ascendência sobre Bolsonaro. O protagonismo do desinibido Mourão e a posição estratégica assumida pelo general Augusto Heleno no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) não deixam margem à duvida sobre a centralidade assumida pelos militares em Brasília.

    O segundo núcleo responde diretamente aos grandes bancos e capitalistas, e é responsável pelas medidas que conferem maior suporte da burguesia ao governo. O chefe da pasta é o especulador financeiro Paulo Guedes e sua meta é declarada: destruir direitos históricos da classe trabalhadora (principalmente a aposentadoria e direitos trabalhistas) e privatizar tudo que for possível. O objetivo estratégico é elevar qualitativamente o padrão de exploração e espoliação no país, a fim de atrair investimentos externos interessados no lucro fácil.

    O terceiro grupo está formado pelos ministros “ideológicos” que atendem ao propósitos mais tresloucados da extrema-direita neofascista. O alvo central são os oprimidos: mulheres, negros, LGTBs, indígenas, nordestinos e imigrantes. A ministra Damares, sob a qual pesa agora a denúncia de sequestro de uma criança indígena, o paranoico ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que já denunciou a malévola influência de Karl Marx na revolução francesa (note-se que o comunista alemão nem tinha nascido nos tempos de Robespierre), e o sinistro ministro da Educação, o colombiano Vélez, que, sem maiores constrangimentos, declarou dias atrás que o ensino superior deve ser restrito à “elite intelectual”, e não para todos, são as figuras de destaque do bloco obscurantista.

    Por fim, temos o núcleo comandado pelo superministro da Justiça, Sérgio Moro. Sua nomeação selou a aliança da Lava Jato (delegados da Polícia Federal, Ministério Público Federal e Juízes Federais) com o bolsonarismo. Tendo construído sua imagem pública em base ao “combate” à corrupção, que, em realidade, foi verniz ideológico para encobrir ações antidemocráticas contra a esquerda, Moro vê-se de calças curtas diante das medidas que facilitam a corrupção e do escândalo que envolve a família Bolsonaro. Suas metas à frente ministério são nítidas: estreitar as liberdades democráticas e criminalizar os sindicatos, os movimentos sociais e a esquerda.

    2. O perigoso escândalo do Zero 01

    Às evidências de um esquema milionário de desvio de salários de assessores parlamentares para abastecer as contas da família Bolsonaro, em particular a do filho Flávio, por meio de um “laranja” (o motorista Fábricio Queiroz), se somaram agora fortes indícios de ligação do clã familiar às milícias do Rio de Janeiro, em particular à mais violenta delas, o Escritório do Crime, cujas lideranças podem estar envolvidas na execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson.

    As denúncias são gravíssimas. Trata-se da primeira crise política do governo, e seu desfecho é imprevisível. Uma parte da imprensa submetida ao governo trabalha para abafar o escândalo. Mas os dois maiores grupos de comunicação do país, a Globo e a Folha de S. Paulo, em confronto aberto, seguem noticiando as investigações relacionadas ao caso. Certamente, a denúncia deste escândalo deve seguir ocupando espaço na agitação política da esquerda.

    3. Cachorrinho de Trump no agitado tabuleiro internacional

    Justiça seja feita, uma das virtudes de Bolsonaro é a de não disfarçar sua submissão canina ao império do norte. Diante do secretário de Trump, John Bolton, o presidente eleito, vergonhosamente, bateu continência ao norte-americano em sua própria casa.

    Bolsonaro assumiu, logo de partida, alinhamento total ao presidente dos EUA. Sem muita capacidade de ação no quadro internacional mais amplo, o capitão se concentra nas tarefas de lacaio do senhor imperialista na América Latina. Atendendo às ordens de Washington, o governo brasileiro agora assume, ao lado da Colômbia, papel ativo na tentativa de intervenção externa na Venezuela. A empreitada em curso de golpe contra o governo de Maduro nunca foi motivada pelo apreço dos EUA pela democracia, mas sim pela posse da maior reserva de petróleo do mundo.

    Além de se ajoelhar diante de Trump, Bolsonaro demonstra enfático alinhamento a Israel e busca vínculos com a extrema-direita internacional. A prisão de Cesare Battisti em operação conjugada da Polícia Federal brasileira com a italiana, aponta para essa intenção, exaustivamente declarada também por Eduardo Bolsonaro, em seus apelos virtuais para a criação de uma espécie de “internacional anticomunista”.

    4. Reforma da Previdência é o principal ataque

    O novo governo já anunciou várias medidas que prejudicam a população trabalhadora e oprimida, como a flexibilização da posse de armas, mas a principal delas deve ser anunciada em meados de fevereiro. Trata-se da reforma da previdência, que se converteu em verdadeira obsessão da classe dominante brasileira.

    O objetivo é manter a sustentabilidade do pagamento da dívida pública brasileira aos grandes bancos e especuladores estrangeiros, ainda que isso seja garantido por meio da destruição do direito à aposentadoria de boa parte da população trabalhadora. O chamado “ajuste fiscal” nada mais é, portanto, que brutal corte de investimentos sociais (vitais para garantia de direitos básicos) em benefício dos mais ricos e poderosos.

    Junto com a reforma da previdência, outra meta do governo é privatizar o maior número possível de empresas estatais (com destaque para Eletrobras e Correios), incluindo partes da Petrobras (como, por exemplo, as refinarias), Banco do Brasil e Caixa Econômica. Nunca se viu na história do país um governo com objetivos entreguistas tão despudorados.

    5. A resistência social e democrática é a esperança

    Recentes pesquisas do Instituto Datafolha, publicadas em janeiro, revelaram que a maioria da população brasileira se opõe à parte considerável das propostas de Bolsonaro, tais como: privatizações, reforma trabalhista, posse de armas, proibição de discussão política em sala de aula e de educação sexual nas escolas.

    Embora o governo tenha apoio majoritário na população, é muito positivo que haja maioria popular contra algumas das principais medidas de Bolsonaro. Este é um ponto de partida importante para a construção das lutas em defesa de direitos.

    Acreditamos que a construção da resistência passa por duas dimensões fundamentais, a saber: (1) a luta contra os ataques aos direitos sociais e econômicos, como o enfrentamento com a reforma da Previdência, trabalhista e as privatizações, e a mobilização por salário, emprego, moradia, terra e renda; (2) a luta em defesa dos direitos democráticos ameaçados e contra a criminalização dos movimentos do sociais e da esquerda.

    Em nossa opinião, a construção da Frente Única de todas organizações e movimentos da classe trabalhadora e dos oprimidos e a unidade de ação mais ampla possível em defesa das liberdades democráticas são duas ferramentas imprescindíveis para enfrentar e derrotar o novo governo de extrema-direita.

    E os primeiros passos da resistência precisam ser dados já. Nesse sentido, a construção de um forte 8 de Março, o dia internacional de luta das mulheres, assume enorme importância. Ao mesmo tempo, a articulação dos sindicatos e centrais para enfrentar a Reforma da Previdência e as privatizações é vital. A construção pela base da unidade para lutar, acompanhada da disputa de consciência do povo trabalhador e oprimido, é condição indispensável para o sucesso da mobilização social e democrática.

    Construindo as lutas de resistência, batalharemos também por uma nova alternativa de esquerda junto com o PSOL, MTST e demais movimentos sociais e políticos combativos, para que possamos (re)encantar os lutadores e o povo trabalhador com o projeto de transformação socialista do país. Construir uma nova alternativa de esquerda pressupõe superar os erros estratégicos do último período histórico, especialmente o programa de conciliação com os ricos e poderosos impulsionado pelo PT. Afinal foram as alianças com a direita e as relações estreitas com setores empresariais, ao longo dos governos petistas, que abriram as portas para o golpe parlamentar e à ofensiva reacionária.

    Os próximos meses serão de intensos combates e, mesmo nesta difícil situação, as possibilidades de construirmos uma resistência efetiva são reais e nos enchem de esperança. E a esperança está, sobretudo, na capacidade de luta do nosso povo trabalhador, das mulheres, dos negros e negras, da juventude, das LGBTs, dos povos indígenas, dos sem-terra e sem-teto. Vamos com coragem, pois a única a luta que se perde é a que não lutamos.

  • Canção para Jean Wyllys

    Entre as tantas notícias tristes que tomaram o país nas últimas semanas, a renúncia de Jean Wyllys em assumir um novo mandato na Câmara é uma das mais pungentes. Acompanho Jean desde que se lançou candidato a deputado federal pelo Psol em 2010. Antes, havia testemunhado sua façanha quando ganhou, em 2005, o prêmio de um reality exibido pela Globo.

    Jean destacou-se no BBB pela sua coragem em assumir sua homossexualidade em rede nacional, mas ainda mais pela sua inteligência. Na casa da emissora do Jardim Botânico, o baiano de Alagoinhas recitava poesias, falava de teatro e literatura e era uma ilha de sofisticação num oceano de mediocridade. Lembro que Jean gostava de citar uma passagem da canção Jorge da Capadócia, de Caetano, que diz: “Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge/Para que meus inimigos tenham mãos/E não me toquem/Para que meus inimigos tenham pés/E não me alcancem/Para que meus inimigos tenham olhos/E não me vejam/E nem mesmo pensamento eles possam ter/Para me fazerem mal”.

    Em 2010, Jean teve 13 mil votos para deputado e logo se destacou naquela outra casa, tão árida quanto a do BBB, pela sua inteligência e coragem. Pelas suas qualidades, em 2014 Jean decuplicou o número de votos, alcançando 144 mil. Para a legislatura iniciada em 2015, a mais conservadora da nossa história recente, Jean precisou enfrentar batalhas importantes, sendo derrotado na maioria delas, inclusive na batalha contra o golpe do impeachment.

    Por sua postura combativa de defensor dos direitos humanos e das minorias, Jean passou a ser alvo de calúnias e intensos ataques da extrema-direita. Recebendo ameaças cotidianas, Jean assistiu atônito sua correligionária Marielle Franco ser executada em crime até hoje não esclarecido e com fortes indícios de ter sido cometido pelas milícias defendidas por inimigos que hoje ocupam o atual governo federal. Em 2018, novamente candidato, sem poder fazer campanha nas ruas, o baiano teve 24 mil votos, o suficiente para reeleição, mas não o necessário para proteger a si e a sua família dos inimigos, com mãos, pés e olhos prestes a lhe alcançar.

    Na última semana Jean anunciou a abdicação do mandato exercido com brilhantismo, o que representa uma grande perda para o país. Numa rede social escreveu: “Preservar a vida ameaçada é também uma estratégia da luta por dias melhores. Fizemos muito pelo bem comum. E faremos muito mais quando chegar o novo tempo, não importa que façamos por outros meios”.

    Em 11 edições da premiação do site Congresso em Foco, Jean aparece entre os três deputados mais importantes da história. Espero viver o suficiente para ver chegar o novo tempo de que fala. Por ora, de coração em frangalhos, mas de punhos cerrados, faço meu os versos de Caê, cantado por Jean: “eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia”. Até breve, Jean Wyllys!

     

    *Carlos Zacarias de Sena Júnior, Professor do Departamento de História da UFBA.

  • Conjecturas sobre a conjuntura: A sombra de Mourão

    Um mês se passou e a inépcia do ex-capitão para governar mostra-se gritante. Não se trata só do direitismo desvairado: é incapacidade de entender as decisões que precisam ser tomadas, de antecipar consequências de ações, de manter a compostura.

    Uma velha crítica à competição eleitoral, em geral mobilizada em chave elitista, diz que as qualidades necessárias para ganhar uma eleição e as qualidades necessárias para governar têm muito pouco em comum. Bolsonaro serve como ilustração extrema. No cenário de uma população imbecilizada, massiva campanha de desinformação, produção de pânico moral e classes dominantes apavoradas com a possibilidade de vitória de algum candidato de centríssimo-esquerda, ele tornou-se uma opção competitiva. Mas governar está muitos furos acima de suas possibilidades.

    O movimento para que Mourão – em nome de uma junta militar – tome as rédeas do governo parece forte. A entrevista dele hoje, n’O Globo, é significativa. O general se mostra “reinventado”, como se diz por aí. Tornou-se um poço de moderação, diálogo e redução de tensões. Nas entrelinhas, deixa claro que é ele que é capaz de conduzir a nau evitando maiores intempéries.

    Na resposta mais surpreendente, se diz favorável à legalização do aborto, o que revela uma vontade de se distanciar dos setores mais medievais do governo. (Na resposta anterior, Mourão se tinha visto constrangido a uma defesa protocolar da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Com a posição sobre o aborto, marcou inteligentemente uma diferença.)

    Para que Jair aceite a posição de rainha da Inglaterra, limitando-se a brincar de arminha e assinar os documentos, é provável que ofereçam vista grossa para todos os malfeitos do clã. A lojinha do Rio pode funcionar normalmente e ninguém fala mais nisso. Sérgio Moro, que (como bem definiu The Intercept) tornou-se um “soldado raso do bolsonarismo”, dissiparia o que resta de sua espúria credibilidade para avalizar o arranjo.

    Os ministros mais folclóricos, como Damares Alves e Ernesto Araújo, seriam provavelmente substituídos. Ricardo Vélez Rodríguez, que completa o trio dos destrambelhados mais ostensivos, talvez tenha chance de ficar como uma sub-rainhazinha da Inglaterra no MEC, que já está mesmo coalhado de militares. E um governo mais razoável faria talvez acenos à opinião pública, interna e externa, mudando parte de sua composição – por exemplo, tirando o criminoso ambiental do Ministério do Meio Ambiente.

    Mourão pode sonhar com tal passo porque é legítimo representante da nova elite militar brasileira – que continua tão autoritária como sempre, mas é cada vez mais mercadista e entreguista. Ou seja, ele conta com o apoio dos grandes interesses econômicos, cuja prioridade é naturalmente a agenda de desnacionalização da economia, redução das políticas sociais e desproteção do trabalho.

    O nome que encarna tal projeto é o de Paulo Guedes, cuja permanência como czar da economia não parece ameaçada em nenhum cenário. Ele é poupado pela imprensa, mas é tão despreparado quanto Vélez, Araújo ou Damares. Não tem conhecimento básico sobre o cargo – não sabia sequer o que era a lei de diretrizes orçamentárias. Não entende que ocupa uma posição em que precisa prestar contas à sociedade, como mostram suas respostas agressivas a perguntas de jornalistas. Não sabe negociar; na verdade, como o fundamentalista (de mercado) que é, recusa qualquer negociação e é deliberadamente cego a qualquer argumento que contrarie seus dogmas sagrados.

    A regência de Mourão nos daria um governo talvez menos bizarro, mas não um governo melhor.

     

    FOTO: Mourão, vice-presidente. Wilson Dias/Agência Brasil

     

    *Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordenou o curso sobre o golpe parlamentar de 2016. Autor, entre outros, de Democracia e representação: territórias em disputa (Editora Unesp, 2014), Dominação e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018) e, junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). Colabora com os livros de intervenção Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil (Boitempo, 2016) e O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil (Boitempo, 2018).

  • Educação domiciliar: Quatro motivos contra a proposta da ministra Damares

    O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos anunciou que preparou uma primeira versão da medida provisória que irá regulamentar o ensino domiciliar no país, a ser enviada ao Congresso Nacional em 01 de fevereiro. O tema faz parte de 35 medidas prioritárias que o governo Bolsonaro pretende aprovar nos primeiros cem dias. Confira abaixo quatro ideias sobre os objetivos da ministra.

    1. O convívio escolar é parte da formação: É na escola que se aprende a lidar com a diversidade

    A ministra Damares Alves (Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) disse em entrevista que a educação domiciliar não prejudicaria a socialização da criança, porque existem outros espaços em que ela conhece pessoas (cursos, vizinhos, igreja etc). No entanto, está desconsiderando que o convívio escolar não se trata apenas de garantir que a criança tenho amigos (o que por si só já é importante).

    O convívio escolar é o momento de aprender a viver em sociedade, de descobrir que construímos coisas coletivamente e que precisamos respeitar o convívio. É na escola que se aprende que cada um tem a sua vez de falar, a ouvir a opinião do colega, e mesmo discordando, que é necessário respeitar.

    É no convívio com pessoas diferentes que aprendemos a lidar com a diversidade. Alguns pais desejam a educação domiciliar para afastar os filhos de ambientes escolares onde ocorre o bullying (formas de preconceito), no entanto, essa não é a solução para este problema. Em casos de bullying, a família deve atuar em conjunto com a escola para combater a prática e não só proteger as vítimas, como educar os agressores. Isolar a criança vítima de bullying do ambiente escolar não irá prepará-la para enfrentar o preconceito ao longo da vida, bem como não irá diminuir o preconceito dos agressores. A escola deve ser o espaço de combate a todas as formas de bullying.

    2. Novo governo estimula a desconfiança e perseguição aos professores

    Um discurso cuidadosamente preparado pelos atuais ocupantes do governo, por meio de projetos como o Escola sem partido, criou nos últimos anos uma grande desconfiança dos pais em relação à capacidade dos professores. Baseando-se em um discurso conservador e muito pautado por visões religiosas de alguns grupos, a ideia que se gerou foi que os professores ensinariam nas escolas coisas contrárias aos valores das famílias.

    Assim, debates sobre gênero, sexualidade e política, deveriam ser banidos do espaço da sala de aula, pois ensinar os alunos a refletir e questionar não deveriam ser funções da escola. Esse é o discurso da intolerância a qualquer ideia diferente da sua.

    A escola, como instituição coletiva, deve ser plural, democrática, aberta, e por isso incluir temas relacionados ao cotidiano dos alunos. Ela deve ser um espaço em que qualquer estudante se sinta à vontade para expressar suas opiniões e onde possa aprender a expressá-las sem agressividade, baseando-se no diálogo. Retirar o aluno desse ambiente para isolá-lo em casa significa estar fechado à possibilidade do diálogo com ideias diferentes das da família.

    Isso significa que a família está errada e a escola certa? Não. Significa que aprender a ouvir ideias diferentes das nossas é parte do aprendizado do convívio em sociedade e do exercício da cidadania e da democracia. Se a família não aceita expor seus filhos a ideias diferentes, então quem está doutrinando é a própria família, ao negar aos jovens a liberdade de se desenvolver.

    Quanto às questões de gênero e sexualidade, debates hiper-valorizados pelos setores conservadores, ocorre uma grande confusão porque os pais têm receio que seus filhos tenham um gênero diferente do designado ao nascer, ou uma orientação sexual diferente da heterossexual. O pensamento conservador diz que quem nasce com o sexo feminino deve ser mulher e quem nasce com o sexo masculino deve ser homem, e é aqui onde ocorre uma incompreensão de que o gênero é uma construção social (ou seja, os conceitos do que é feminino e masculino mudam de uma sociedade para outra, bem como de época). A realidade é que independente do quanto se eduque uma pessoa que nasceu com certo sexo biológico para seguir os comportamentos de certo gênero, o verdadeiro gênero da pessoa se revela ao longo da vida; hoje há inclusive pessoas que não se identificam com essa definição de dois gêneros e buscam novas formas de se expressar. A escola pode debater esse assunto, mas ela não vai alterar o gênero de nenhum aluno, bem como o indivíduo ser educado somente em casa não vai ser capaz de modificar o que ele sente com relação a isso.

    A família pode sim ensinar seu valores e sua religião, mas a escola é o espaço em que o aluno terá contato com a diversidade da sociedade e poderá aprender que não existem somente os valores e a religião de sua família. E mais do que isso, poderá aprender a respeitar.

    3. Ser alfabetizado não é o suficiente para alfabetizar

    Um exemplo pessoal: sou professora de História e em 2014 estava dando aulas na rede pública estadual de São Paulo. Tive uma turma de 7º série e descobri uma aluna que não sabia ler, mesmo já estando nessa série avançada. Como professora, fiquei preocupada com a situação e tentei auxiliar a aluna, separando um tempo nas aulas para sentar com ela e tentar ajudá-la com a alfabetização. Foi quando descobri que alfabetizar uma criança é um processo delicado, que exige muita dedicação e principalmente formação específica. O fato de eu ser alfabetizada e ser professora de outra disciplina não era o suficiente para me dar ferramentas adequadas para alfabetizar uma aluna, eu precisava ter uma formação própria para isso. Foi a partir daí que passei a realmente valorizar as professoras da educação infantil e das séries iniciais que fazem esse complexo processo de dar as bases necessárias ao aprendizado de toda criança.

    Eu percebi que não basta ser alfabetizado para ter a capacidade de alfabetizar uma criança. No entanto, a proposta da educação domiciliar coloca os pais, independente de sua formação, como capacitados para fornecer a educação de conteúdos escolares. Sou habilitada como professora de História e não tenho a arrogância de me considerar capacitada para lecionar outras disciplinas, pois sei da formação necessária a cada uma. Como uma única pessoa, pai, mãe ou responsável pode se sentir totalmente habilitada a ensinar todos os conteúdos de um currículo escolar?

    Mas a pergunta que precede é: por quê os pais querem tirar essa responsabilidade das mãos de profissionais preparados para isso?

    4. Proposta oculta descaso com a educação pública

    Quem são os pais que estão movimentando esse debate? Existe uma associação chamada ANED – Associação Nacional de Educação Domiciliar, que possui cerca de 13 mil pessoas na página do Facebook (visualização em 31/01/2019).

    Segundo Censo Escolar de 2018 o Brasil possui 8,7 milhões de matriculados na educação infantil, 27,2 milhões de matriculados no ensino fundamental e 7,7 milhões de matriculados no ensino médio, sendo desses 1,2 milhão de alunos da educação especial.

    O governo Bolsonaro colocou como uma das suas prioridades dos primeiros cem dias uma medida que beneficia cerca de 13 mil pessoas e não propôs nenhuma medida que atenda à educação pública que responde a cerca de 43,6 milhões de crianças e adolescentes. A medida, conforme a própria Damares confirma, está sendo levada adiante não pelo Ministério da Educação, mas pelo ministério dela porque seria uma demanda das famílias.

    Um dos argumentos da ministra é que em sala de aula o professor perde cerca de 40% do tempo em gerenciar a sala. O que ela desconsidera é que isso ocorre porque o descaso com a educação pública coloca um único professor em salas com 40 a 50 crianças, o que torna o ambiente inadequado para o andamento de uma boa aula, não à toa, muitas escolas da rede privada optam por turmas de no máximo 20 alunos, uma quantidade muito mais adequada. Assim, ao invés de propor uma redução de alunos por sala de aula, e aumentar a contratação de professores para suprir a demanda, a ministra considera que o aluno pode ter mais acompanhamento em casa.

    A medida provisória para a educação domiciliar pode inicialmente estar atendendo o interesse de uma parcela ínfima das famílias, mas se torna uma ferramenta perfeita para justificar um desinvestimento na educação pública. Cabe aos pais se unirem aos professores e lutarem para que o Estado garanta uma educação pública e gratuita de qualidade a seus filhos.

    Foto: Reprodução

    *Tonne de Andrade é Licenciada em História pela USP e Mestranda em História Social.