Desafio dos 10 anos

Por: Pedro Aquino*, de Fortaleza, CE.

Nos últimos anos uma nova geração amadureceu. Os que nasceram nos anos noventa começaram a assumir novas responsabilidades cheias de sonhos e em cima de uma tranquilidade que nos prometera sonhar alto.

Nascemos logo após a queda do Muro de Berlim, do começo “do fim do comunismo” [1] e [2] e de uma grande crise no sistema financeiro em 1987/88 [3]. O capitalismo venceu e assim foi a propaganda forte das superestruturas do vigente sistema econômico. Os conflitos bélicos diminuíram com o fim da guerra fria e houve um novo boom econômico. Foi-nos ensinado e vendido um novo sonho para a nossa geração. Acreditamos com veemência nisso.

As benesses do capitalismo

Os anos noventa foram marcados pelos compartilhamentos massivos da informação e dos jogos eletrônicos em casa. Houve também uma expansão nas escolas e faculdades, muito impactadas por essas novas tecnologias e principalmente a internet.

Tínhamos um futuro brilhante pela frente e tudo indicava que essa prosperidade mundial na nossa frente era indestrutível. O 11 de Setembro foi um caso isolado, mas foi um primeiro sinal para a nossa geração de que há algo errado no nosso mundo e uma guerra se inicia. A defesa para manter essa paz mundial é defendida por muitos. Nada que atingisse as principais economias no mundo, como o caso do Brasil e um recém-governo populista eleito.

Começa o processo de expansão das universidades públicas, financiamento estudantil e valorização do primeiro emprego. O salário mínimo é valorizado frente a um crescimento econômico muito forte e benefícios sociais diminuem uma grande e histórica desigualdade social no nosso país. [4]

Com isso os filhos e filhas de trabalhadores pobres iriam assumir posições de pesquisa, cursos notáveis da classe média (medicina, direito, engenharias etc), iriam viajar a preço de custo nos intercâmbios e principalmente, não precisariam trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Mesmo aqueles que não entrariam nas universidades (públicas ou privadas) tinham garantias de emprego, com salários razoáveis melhores que outros tempos dos seus pais.

Tudo isso refletia num grande sonho coletivo em nosso país. Não era diferente nos outros países. França, Inglaterra, Japão, EUA etc. Todos esses países recebiam essas benesses do sistema e a gente não sabia e nem viu o motivo. As grandes corporações, como empresas multinacionais, jornais, grandes centros de conhecimentos universitários nos faziam acreditar que o mundo alcançaria em fim o bem estar universal.

Uma hora a conta chega

A verdade vem à tona em 2008, o capitalismo não pode ficar sem seus lucros máximos e essa distribuição de renda não poderia ficar por muito tempo sendo sustentado pelos que “produzem a riqueza do mundo” [5]. A especulação imobiliária quebra um sistema de bolha dos financiamentos em cima do sonho de qualquer família do mundo: a casa própria. [6]

Lula afirma que é só uma “marolinha” e incentiva ainda mais o crédito aproveitando a balança comercial positiva do país. O crescimento brasileiro continua forte, mas não tão firme [7]. Nossa geração começa os primeiros embates com os principais governos mundiais. Alemanha, França e Inglaterra explodem em protestos contra os pacotes de austeridades e os países imperialistas aplicam medidas ainda mais fortes em seus países dependentes economicamente.

Países de economia periférica também são surpreendidos com protestos, principalmente na América do sul, Turquia e Grécia. Mas o mundo fica ainda mais surpreso em ver a “primavera árabe” [8] e [9] diante aos olhos dessa nova geração, graças à internet. Isso deu um fôlego e novas revoltas na Europa surgem.

Nos EUA começam lutas mais fortes contra o racismo institucional, pelas minorias e questionamentos muito fortes de o porquê os EUA ainda estão em guerra (ocupando Iraque e Afeganistão até hoje, mais de 15 anos de ocupação). Grécia é um ponto fora da curva (dentro da Europa) e assustam os outros países europeus, Hong Kong assusta a tão poderosa China e reflete aos outros países do leste asiático.

Mas talvez, onde mais influenciou essa nova geração foi Síria e Egito, explode novas revoltas e de repente a América do Sul, onde vários países que estavam geridos por partidos de esquerda são varridos em manifestações massivas.

As Jornadas de Junho contra os gastos excessivos para as copas futebolísticas e olímpicas nos anos de 2013, 2014 e 2016, foram o estopim para os arrochos dos gastos sociais aplicados no país. Não era só por “vinte centavos” [10], mas sim por mais dinheiro para saúde e educação. Se tiver para estádio, deveria ter para hospitais, escolas e universidades. A geração “vem pra rua” percebeu que precisava conquistar seus sonhos e não se ganhava nada dos estados burgueses. Era a luta pelo sonho que nos venderam.

Na América do Sul, a esquerda se dividiu e boa parte defendeu os governos de frente populares. Isso abriu uma crise em nossa região. Em escala mundial não havia organizações da classe trabalhadora e da juventude que pudesse dialogar entre si e avançar sobre o sistema capitalista. Aliás, quem ousou questionar o sistema vigente? O comunismo não deu certo, né? Era necessário “humanizar” o capitalismo e isso jogou crises dentro dos movimentos de massas que balançaram as grandes estruturas das grandes economias.

Isso não quer dizer que houve avanços. Vários partidos de esquerda se reinventaram e outros foram criados. Porém foram poucas as organizações que puderam perceber o momento explosivo (e porque não revolucionário?) dessa nova geração. Assim, pouco se fez abrindo uma lacuna e uma nova direita surgiu ocupando esse espaço. Tentando “responder” os novos anseios de nossa geração e resolver os problemas do capitalismo [11]. “Não há nada mais fascista que um burguês assustado”, né? [12]

Um novo 1968?

Muitos compararam as jornadas de 2010 a 2014 no mundo como o ano de 1968 [13]. Há semelhanças, mas também muitas diferenças. E a principal semelhança é, invariavelmente, que a juventude é rebelde e questionadora. Algumas vezes, buscam a mudança abrupta de uma sociedade amorfa. Esse mundo foi incompatível com nossos sonhos. Disseram que o mundo era nosso, só esqueceu-se de dizer que existia uma barreira, chamada “meritocracia”. [14]

Diferente de 1968, onde aquela geração estava sufocada no auge da guerra fria e sem liberdades tanto na “livre democracia burguesas”, como também dentro das ditaduras comunistas. A nossa estava sufocada dentro de uma crise mundial capitalista, sem precedentes. As semelhanças estavam nas guerras que começaram a eclodir em vários pontos do mundo. Nós não temos mais um horizonte e referencial no comunismo e não existiu uma organização que levasse até o fim algum projeto desta envergadura. As influências nas massas ainda estavam e estão sob domínio de organizações da classe trabalhadora reformistas. [15]

Aquela geração deu voz para as minorias, que até hoje colhemos os frutos. Tentou por fim às guerras no mundo, buscaram-se melhorias educacionais e liberdades sexuais para todos e todas. Essa é a sina da juventude, rebelar-se contra um sistema opressor, qualquer que seja.

Naquela altura, os partidos de esquerda se acomodaram com a URSS e nada poderia ser questionado em nome de uma guerra ideológica. Esqueceram-se do poder da juventude e assim renovar. Nossa geração, não é diferente. Porém, nos prometeram algo que o sistema não pôde cumprir. E infelizmente os partidos que outrora foram criados pós 1968, caducaram igual aqueles depois de 1918 frente a uma revolução Russa vitoriosa.

Nossa geração dando continuidade de lutas de outrora, ainda luta pela emancipação familiar. Dados recentes mostram que somos a geração que mais demora sair da casa dos familiares, a renda é baixa e voltamos ao patamar de ter que estudar e trabalhar. [16] Principalmente aqueles oriundos das camadas mais baixas. Um esforço muito grande que resulta nos abandonos ou dívidas nos financiamentos estudantis. [17]

Não foi isso que nos foi prometido e assim, o amadurecimento exigido pela idade, também se deu de forma política. As informações que se dão é que nossa geração está mais preocupada com os rumos políticos e assim mais participativos. [18] e [19] Como disse Criolo, “Geração que não só quer maconha pra fumar”. [20]

A história é cíclica, essas revoltas sem direcionamentos e com estruturas organizativas pouco reflete à longo prazo. Nossa geração não falhou por completo e ainda pode acertar. Podemos tirar lição desses dois grandes acontecimentos mundiais, de forma “isolada”, mas como mesmo resultado de suas causas: antipatia de governos com os jovens e supressão das liberdades individuais. Sistemas opressores e exploratórios de nossas condições socioeconômicos foram questionados, só não existia uma ou algumas organizações à altura da situação histórica ousar derrubar os pilares desta sociedade vil como a Comuna de Paris de 1871 e os Bolcheviques em 1917 na Rússia Czarista (essas duas influenciaram todas as outras expropriações da burguesia, passando por China, Cuba, Coreia e Vietnã).

Podemos olhar com mais carinho para as próximas gerações e enterrar de vez os velhos.

“Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais.”
Como nossos pais, Belchior.

* Pedro é integrante do coletivo Afronte.
Foto: Movimento Ocuppy Wall Street, nos Estados Unidos, após a crise econômica de 2008.

NOTAS

[1] https://blog.esquerdaonline.com/?p=2694
[2] https://blog.esquerdaonline.com/?p=2699
[3] https://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/ha-20-ano-crise-chegou-russia-levando-sistema-bancario-ao-colapso-21961938
[4] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/05/160505_legado_pt_ru
[5] https://www.marxists.org/portugues/bensaid/2009/08/marx.htm
[6] https://g1.globo.com/economia/seu-dinheiro/noticia/2011/09/entenda-como-crise-de-2008-influenciou-vida-dos-brasileiros.html
[7] https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2009/09/090917_lulalemondeml
[8] https://esquerdaonline.com.br/2016/12/21/seisanosprimaveraarabe/
[9] https://esquerdaonline.com.br/2017/02/05/a-derrota-da-primavera-arabe-e-a-crise-dos-refugiados-na-europa/
[10] https://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/129785-nao-sao-so-20-centavos-dizem-manifestantes-na-avenida-paulista.shtml
[11] https://www.google.com/amp/s/noticias.r7.com/internacional/crescimento-da-extrema-direita-atende-interesses-economicos-30072018%3famp
[12] Bertolt Brecht, citação célebre.
[13] 1968: eles só queriam mudar o mundo / Regina Zappa e Ernesto Soto. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2008.
[14] https://google.com/amp/s/revistagalileu.globo.com/amp/Sociedade/noticia/2016/06/como-meritocracia-contribui-para-desigualdade.html
[15] https://revistaprincipios.com.br/artigos/33/cat/1794/socialismo-reformista-ou-revolucion&aacuterio-.html
[16] https://www.google.com/amp/s/brasil.elpais.com/brasil/2017/06/05/politica/1496687911_980154.amp.html
[17] https://www.google.com/amp/s//brasil.elpais.com/2018/06/06/internacional/1528282199_859406.amp.html
[18] https://www.google.com/amp/s/noticias.r7.com/internacional/quem-sao-e-o-que-buscam-os-socialistas-democraticos-o-fenomeno-que-empurra-os-eua-para-a-esquerda-04112018%3famp
[19] https://m.oglobo.globo.com/economia/millennials-entenda-geracao-que-mudou-forma-de-consumir-23073519
[20] Música “Esquiva da Esgrima” – Criolo, 2014. Álbum: Convoque seu Buda.

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