Histórico da extrema-direita espanhola até o auge do VOX

Miguel Urbán

A onda reacionária chega a Espanha

Publicado originalmente no site Viento Sur

No início da década de 1970, a maioria dos europeus pensavam que o renascimento das organizações  fascistas se articulariam em torno dos restos das ditaduras mediterrâneas( Grécia, Portugal e na Espanha). O tempo tem demonstrado o contrário, salvo o caso particular de Grécia, tanto em Portugal como em Espanha, as opções partidárias vinculadas ao espectro da extrema-direita tem conseguido tradicionalmente os piores resultados eleitorais do continente. Ao menos até as eleições na Andaluzia, no início de dezembro, onde a extrema-direita representada por Vox alcançou um surpreendente 10% dos votos e 12 deputados.  Foi um terremoto eleitoral não somente pela chegada da extrema-direita no parlamento Andaluz, como também porque a esquerda perdeu a maioria parlamentar. Uma situação que abre a porta para que pela primeira vez desde a transição para a democracia, a direita governe a Andaluzia. Governo que não será possível sem o apoio de VOX.

Mas não nos enganemos, os fracassos eleitorais da extrema-direita espanhola até agora não significou que os valores próprios da extrema-direita não se encontravam no nosso arco institucional. Pelo contrário, a “presença ausente” da extrema-direita é perceptível na persistência de um franquismo sociológico neoconservador e xenofóbico. Isto, sem dúvida, até então carecia de expressão política e se encontrava diluída até agora no interior de um Partido Popular acolhedor”. Agora, pela primeira vez parece haver encontrado uma expressão política própria em VOX.

A experiência frustrada da extrema-direita na transição

No final da ditadura, se conformou um setor de extrema-direita que atuou como lobby político, designado particularmente como “o Bunker”, que seria o germe da grande maioria dos partidos da extrema direita durante a transição. Os dois grupos hegemônicos deste setor foram: Fuerza Nueva e a Confederacion Nacional de Ex Combatientes.

A ultra-católica Fuerza Nueva , liderada por Blas Piñar, fundada em 1967, aglutinou uma grande parte dos elementos mais nostálgicos do franquismo e a um setor juvenil muito ativo , gozando de grande capacidade de mobilização, uma das características genéticas da extrema-direita. “Seu objetivo prioritário era converter-se no eixo de um movimento aglutinante de todos aqueles franquistas nostálgicos do espírito da Cruzada e partidários do que o regime puser em prática uma repressão mais enérgica frente a oposição e fazer o possível para a continuidade do sistema.

De fato, Fuerza Nueva, constituído em partido político a partir de 1976, tem sido até o momento o único partido de extrema direita que tem conseguido representação parlamentar no congresso dos deputados( 1979; 379.463 votos). Em 1979 alcançou seu auge organizativo como uma afiliação que oscilava entre os 40 mil e 60 mil filiados, fundou um sindicato próprio (Fuerza Nacional del Trabajo), El Alcázar, revista semanal, que manteve uma tiragem de 45.000 exemplares vendidos por número e 13.000 assinantes.

O fracasso do golpe de estado de 23 de fevereiro de 1981 e os fracos resultados eleitorais de 1982 fecharam as portas da transição política para a extrema-direita, que se viu incapaz de encontrar alguma saída ao processo de reforma política  empreendida tardiamente pelo franquismo. Esta situação gerou um sentimento de desânimo e desorientação nos principais núcleos militantes da extrema-direita, acrescentando-se ainda o anúncio de dissolução de Fuerza Nueva em 20 de novembro de 1982, motivadas pelo mal resultado eleitoral conseguidos nas eleições gerais do mesmo ano.

A maioria dos militantes e quadros políticos da Fuerza Nueva se sentiram abandonados e traídos pela organização em que haviam militado, engrossando as fileiras de outros pequenos partidos da extrema-direita espanhola e/ou majoritariamente encontrando refúgio na Alianza Popular. Esta experiência política teve uma importante repercussão na extrema-direita espanhola, até ao ponto que marcaria a história e as relações futuras entre os diferentes setores da extrema direita espanhola desde sua fundação quase até nossos dias.

Com a dissolução de Fuerza Nueva se dava por concluída a experiência da principal organização política do chamado bunker franquista. Fuerza Nueva, havia sido o partido de extrema-direita que mais apoio eleitoral havia conquistado até o presente período no Estado Espanhol. Alguns anos mais tarde, em 1988 se fechava El Alcázar. Desta forma se fechava definitivamente o último resquício do chamado bunkerfranquista, inaugurando-se uma larga travessia pelo deserto que continua todavia em nossos dias.

Alianza Popular: uma direita acolhedora

A transição incorporou não poucos elementos da ditadura ao sistema democrático, em um processo sem solução de continuidade no que se refere a uma parte muito importante da estrutura do regime franquista, que nunca foi depurado. Diversos autores assinalam esta impunidade como uma razão substancial a hora de explicar a incapacidade de articular um movimento de extrema-direita verdadeiramente forte em Espanha. De fato, em diferentes estudos comparados o ressurgimento da extrema-direita no âmbito europeu se reconhece que a especificidade espanhola está relacionada, entre outros motivos, com o tipo de partido majoritário de direita que se conformou em nosso país.

Neste sentido, não podemos esquecer que as origens do próprio Partido Popular se encontram na Alianza Popular promovida por Manuel Fraga em Setembro de 1976. Se tratava de uma formação surgida de um grupo de notáveis do franquismo e caracterizava não somente pela grande presença nos cargos públicos da ditadura, se não sobretudo por tratar de dar base social e eleitoral a um movimento de resistência a ruptura institucional com o regime franquista. Pese os seus limitados resultados eleitorais nas duas primeiras eleições gerais, essa tática de resistência possibilitou que, nos comícios de 1982, Alianza Popular obtivesse votos procedentes tanto do partido de Suarez, Centro Democrático y Social(CDS), como de Fuerza Nueva ( em torno de dois terços dos votos obtidos por FN nas eleições de 1979) e provocou uma crise nesta última formação que, como vimos antes, a levaria a sua autodissolução.

Já temos assinalado como muitos militantes e quadros políticos de Fuerza Nueva engrossaram as fileiras da Alianza Popular e logo o Partido Popular se configuraram como as únicas expressões eleitorais do franquismo sociológico. Neste sentido, Aquilino Duque assinala que “não direi eu que todos os votantes do PP sejam franquistas mas sim que todos ou quase todos os franquistas de Espanha votam no PP, entre outras coisas porque não lhes resta outra alternativa, ou seja, porque, ainda que seja de modo vergonhoso e com pedido de desculpas, o PP defende  aqueles valores que eram a razão de ser do franquismo, a saber: a pátria, a religião e a família.

A persistência de um enraizado franquismo sociológico quarenta anos depois do final da ditadura, demonstra os limites da democracia de baixa intensidade do regime de 78, que todavia nem sequer tem podido julgar os crimes do franquismo, o qual denota que a impunidade é um elemento indispensável da marca Espanha. Isto explica , por sua vez, muitos dos problemas que se tem posto sobre a mesa com a denominada crise catalã ou a tentativa de exumar o ditador Franco do memorial do Valle de Cuelgamuros.

O Aznarismo

A transformação de Alianza Popular no Partido Popular foi considerada por alguns analistas políticos como um giro até o centro, mas realmente seria mais adequado definir-la a partir da vontade de construir um partido que incluísse tudo, que abarcasse desde a extrema-direita até o chamado centro político. Nesta nova oferta, neoliberalismo e neoconservadorismo ( a americana) tem convivido com um nacionalismo espanhol que não pode ocultar sua continuidade com o franquismo e que tampouco lhe permite apostar por um laicismo que rompa seus laços com o catolicismo predominante em um amplo setor de seu eleitorado. Assim mesmo, a adesão ao discurso neoconservador do denominado choque de civilização facilitou a introdução progressiva de um discurso xenófobo. Mediante a exploração do mal estar de camadas populares autóctones diante das consequências da crise sistêmica que se projetou frente a população trabalhadora imigrante de religião mulçumana em nome da defesa de supostos valores ocidentais.

Tendo em conta essa combinação de mensagens e propostas, tão inadequado seria considerar ao PP um partido de direita clássico – similar ao CDU de Merkel – como assimila-lo ao ascenso da extrema-direita ou da direita neofascista européia. Com os primeiros tem uma diferença de raiz histórica uma vez que não tem renegado seus antecedentes franquistas e, ademais, tem mostrado sua predisposição a recorrer a formas de mobilização extraparlamentar alheias as desses partidos, salvo em situações extremas( como ocorreu, por exemplo, na França em Maio de 1968). Por sua parte, dos segundos se distingue porque, pese a reconhecer parte de suas mensagens e formas de protesto, não o faz com a beligerância ideológica própria desses grupos nem os situa no primeiro plano de sua agenda política.

Mas podemos dizer, que a crise do PP se tem convertido em uma crise da direita espanhola que tem aberto a janela de oportunidade a que pela primeira vez em décadas pode haver um espaço eleitoral próprio para a extrema-direita espanhola que tem seu elemento mais paradigmático na inédita competência eleitoral nesse espectro político, hegemonizada em solitário até agora pelo PP.

VOX, uma divisão vitoriosa do PP

Apesar do seu repentino êxito eleitoral e midiático, não se pode dizer que VOX é um partido novo: conta com cinco anos de existência e um histórico de fracassos eleitorais até seu crescimento no parlamento andaluz. Vox foi fundado em dezembro de 2013 como uma cisão do PP que acusa a Mariano Rajoy de se distanciar dos princípios mais conversadores do partido( é justamente nestes tempos quando Aznar e a própria Esperanza Aguirre começam a manifestar publicamente suas diferenças com a direção Popular). VOX foi liderado inicialmente pelos dois cargos públicos mais conhecidos do PP envolvidos na ruptura, Alex Vidal-Quadras, eurodeputado e ex-presidente do PP Catalão, e Santiago Abascal, ex-deputado do PP do País Basco e ex-presidente da Fundacióm para la Defensa de la Nación Española(DENAES).

Se bem podemos afirmar que VOX é o reflexo espanhol de um fenômeno reacionário e autoritário que tem ocorrido globalmente, ao mesmo tempo, não é menos certo que VOX tem características peculiares que dependem da história e o contexto político espanhol. A diferença da maioria de seus homólogos europeus, VOX é uma cisão da direita espanhola e não um fenômeno novo que nasce a sua margem como é o da Frente Nacional ou da Liga Norte. Talvez a primeira cisão pela direita do PP que tem tido êxito, a diferença de outras como o PADE criado em 1997 e que apenas conseguiu um punhado de vereadores em Madrid.

Em certa medida, VOX representa tanto esse franquismo sociológico que durante anos tem convivido no seio do PP e que não tem expressão política própria desde a dissolução de Fuerza Nueva, como os setores mais neoconservadores agrupados até agora em uma espécie de TeaParty a espanhola, que tem passado de fazer lobby ao PP a encontrar um espaço político próprio com VOX. Entre eles encontraríamos o universo mediático e de agitação articulado em torno ao Grupo intereconomia e a Libertad Digital, o think-tank neoconservador grupo de Estudios Estratégicos (Gees); e páginas e/ou plataformas de agitação como Hazte Oir.

As reminiscências históricas da extrema-direita espanhola ligam VOX com um confessionalismo que se aproxima mais da extrema-direita do leste europeu, como os polacos de Ley y Justicia, que o Frente Nacional de Le Pen. A questão da unidade nacional e a luta contra o separatismo , com Catalunha como tema central, recorda muito bem a falange espanhola. Como eixo central tem a “unidade de destino no universal”, que mais tarde ficou sentenciado nos princípios do movimento nacional como: “A unidade da pátria é um dos pilares da nova Espanha, para o qual o exército a garantirá frente a qualquer agressão externa ou interna”. Dai surge o tema chave da recentralização( fim das autonomias, fechamento do Senado, etc.), com a idéia de Espanha como um Estado uninacional e a negação de qualquer nacionalismo que não seja o espanhol. Uma idéia força que se entrelaça em seu discurso com a luta contra a corrupção, o clientelismo e o desperdício que supõe o estado das autonomias. Desde o ponto de vista social, o discurso de VOX é claramente neoliberal, desmarcando-se ao menos em parte de outras extrema-direita, ainda que seja sobre tudo retórica um discurso protecionista(Trump) ou estatista(Salvini) e inclusive de certo chauvinismo de estado de bem estar social ( Le PEN). Desta forma, podemos dizer que Abascal é muito mais Bolsonaro que Le Pen.

Nos últimos tempos, VOX está demonstrando ser um aluno favorito do neoconservadorismo norte-americano que em seu momento apoiaram em Espanha tanto Aznar como Aguirre, não tendo medo a atacar contra os sensos comuns conquistados pelas forças progressistas. Um bom exemplo disso é a cruzada contra o movimento feminista em temas como o aborto, questionando a violência machista e sobre tudo contra o que catalogam sobre o conceito de ideologia de gênero. Isto é um movimento em direção aos setores mais radicais, da hierarquia católica , HazteOir e/ou Foro Español de la familia entre outros, popularizando um conceito – o de ideologia de gênero – que em outros países, fundamentalmente na Polônia, está servindo como ativador e aglutinador político da extrema-direita.

Neste olhar até as experiências do outro lado do atlântico, também temos adotado elementos ou slogans do trumpismo, como a consigna “fazer a Espanha grande outra vez”. Assim como na lógica de buscar um leitmov político na construção de um muro fronteiriço a Ceuta e Melilla, que tenta problematizar com as políticas imigratórias do governo e o aumento das chegadas de imigrantes nos últimos anos. Praticamente a totalidade das organizações do heterogêneo ambiente político da extrema-direita apontam as e os imigrantes, preferencialmente pobres e não ocidentais, como bode expiatório de uma degradação sócio-econômica e cultural. Mas os muros de hoje já não cumprem tanto uma função de controle fronteiriço, se não que se tem convertido, sobretudo, em um elemento fundamental de propaganda política. Levantar um muro ou uma cerca é uma medida rápida e de impacto sobre a opinião pública que configura uma espécie de populismo das cercas. Que melhor maneira de visualizar a segurança ante as invasões de imigrantes que com uma fronteira de cercas?

Desta forma, a migração é abordada desde a perspectiva da insegurança cidadã. Isto constitui um dos elementos mais comuns de estigmatização da população migrante, da pobreza e das pessoas pobres em geral, através de uma assimilação pesada entre delinquência, insegurança e imigração. Se conecta com o imaginário que constroem as políticas de austeridade que, mais além dos cortes e privatizações que carregam, são a “imposição para uns 80% da população européia de um férreo imaginário da escassez”. Um não tem o suficiente para todos generalizado que fomenta mecanismos de exclusão, que Habermas definia como característicos de um”chauvinismo do bem-estar”e que concentram a tensão latente entre o estatuto de cidadania e a identidade nacional. Desta forma, se consegue que o mal estar social e a polarização política provocadas pelas políticas de escassez se canalizem através do elo mais débil: os imigrantes, o estrangeiro ou simplesmente o outro. Deste modo se exime assim as elites políticas e econômicas responsáveis reais do espólio. Porque se não há para todos, então sobra gente, ou seja não cabemos todos. E assim, se dissemina a fina linha que conecta o imaginário da austeridade com o da exclusão, sobre o que se constrói a potencialidade da consigna primeiro os espanhóis.

Todas estas características, nos levam a dizer que VOX se liga entre o passado e o presente, com posicionamentos que lhe homologam a nova extrema-direita européia enquanto que preserva traços próprios que o vinculariam com uma certa atualização da extrema-direita espanhola do franquismo tardio até a transição. Talvez seja a consigna da reconquista da Espanha a que sintetiza melhor essa idéia de passado e presente. Por um lado, conecta com os movimentos da extrema-direita atual, com a lógica de choque de civilizações e o perigo da imigração. E por outro lado, com a idéia nostálgica da cruzada para recuperar Espanha das mãos dos vermelhos mediante o levantamento militar de dezoito de julho de 1936.

Por que agora o crescimento de VOX?

1) a crise do PP, encurralado por escândalos de corrupção, como o único partido da direita espanhola tem propiciado uma não habitual concorrência eleitoral que tem favorecido a dispersão do voto entre várias opções diluindo a idéia força do voto útil. Idéia que até o momento havia servido de bloqueio para a emergência de outras opções conservadoras.

2) Uma concorrência entre as direitas que tem propiciado uma radicalização das propostas do PP e Ciudadanos em temas tão importantes como a imigração ou a questão do conflito político catalão, que tem construído a normalização de VOX. Ambos partidos se tem negado a catalogar a VOX como um partido de extrema-direita ao longo da campanha andaluz e com o que atualmente negociam pactuar para formar governo, diante do espanto de suas famílias políticas européias. O PSOE, por sua parte, tem recorrido a VOX para deslegitimar seus rivais, PP e C’s. Deste modo, a formação de extrema-direita tem conseguido uma inesperada centralidade durante a campanha eleitoral.

3) A própria onda mundial de ascenso dos novos populismos xenófobos e punitivos tem outorgado mais audiência e interesse midiático a temas novos na agenda do debate político espanhol, como a denúncia das supostas ameaças do Islam em Espanha. VOX, em seu ato em Vistalegre, inclusive reivindicou a Espanha de Lepanto, já que salvou “a civilização ocidental frente a barbárie.

4) O quadro do conflito territorial catalão. O fato de exercer a acusação popular do processo sobre a divisão da Catalunha no Tribunal Supremo lhes tem outorgado uma importante visibilidade, se transformando em uma alternativa anti-separatista dura. Se trata de uma corrida onde os conjuntos das opções de direita competem por converter-se no autêntico e genuíno defensor da unidade da Espanha.

5) A controvérsia gerada pela exumação do cadáver de Franco do Valle de Cuelgamuros tem gerado uma importante remobilização de setores franquistas que todavia perduram na Espanha. Está em primeiro plano a lei da memória histórica, diante da qual o VOX tem levantado claramente a bandeira de oposição.

6) As políticas de austeridade no marco de uma crise sistêmica que vivemos desde faz mais de uma década tem gerado uma quebra da coesão social, que se traduz no desemprego, insegurança econômica e descontentamento. Uma situação especialmente grave em Andaluzia, a comunidade com maior população da Espanha, que tem sofrido mais que o resto a crise: renda per capita ainda menor, mais desempregados, maior risco de exclusão, maior pobreza energética e maior desigualdade. Esta polarização de renda que tem esvaziado os bolsos das classes populares e médias, produz a sua vez polarização política, um fenômeno que impacta diretamente sobre a estabilidade do sistema de partidos.

Quem vota em Vox?

Estudos pós-eleitorais na Andaluzia mostram que o voto em VOX vem principalmente das fileiras do PP e, em menor medida, de Ciudadanos. Mais da metade dos eleitores do partido de extrema direita apoiaram o PP em 2015 (54,4%); e outros 23,9% optaram pela sigla que Albert Rivera lidera. A perda de votos à esquerda foram insignificantes, por outro lado. De fato, os dados mostram que  VOX entrou fortemente nos lugares onde o PP se impôs em 2016 nas últimas eleições gerais. Onde o PP tem mais de 50% dos votos, o partido à sua direita tem cerca de 20%.

A partir dos mapas e dados eleitorais, observa-se que VOX tem mais força na área urbana do que nas áreas rurais e interior. Da mesma forma, os gráficos apontam para uma tendência de que, nos municípios com maior renda média, o voto para a VOX é maior do que nos municípios com menor renda.

Todos esses dados nos fazem supor que o fenômeno VOX não tem paralelos no momento, pelo menos na origem da votação, com o que acontece com outras forças de direita na Europa, onde há uma transferência do eleitorado entre os blocos e, fundamentalmente, desde a abstenção.

E agora o que fazemos?

Há uma tentação de tentar impedir o avanço do neofascismo, unindo as fileiras acriticamente com os partidos de centro (PSOE, Cs e PP), o que pode contribuir para dois processos muito perigosos. Em primeiro lugar,  seguir alimentando as supostas bondades democráticas e progressistas de quem tem colocado tudo de sua parte para que hoje estejamos assim, reforçando desse modo a armadilha binária que nos obriga a eleger entre o populismo xenófobo ou um neoliberalismo que se apresenta como progressista no reflexo do espelho da besta autoritária.Em segundo lugar, abraçar-se ao centro sem contrapesos deixa a VOX o monopólio do voto de protesto anti-establishment e a etiqueta tão útil de outsider de um sistema que gera crescente mal estar..

Pode uma certa orfandade à esquerda ser traduzida em uma mudança de eleitores para a extrema direita?

Não de uma forma matemática; em vez disso, pode ser traduzido no que já aconteceu nesse domingo( dias das eleições na Andaluzia- nota do tradutor) e isso não está sendo enfatizado: em um aumento crescente da abstenção da esquerda. Vamos analisar por que VOX (ou Cs) ilude parte do eleitorado conservador (que já votou em outros partidos de direita e aqueles que se abstiveram), até que ponto eles coletam suas aspirações e medos, e até que ponto eles são percebidos como ferramentas de protesto eleitoral desde a direita. E façamos o mesmo para tentar entender por que o contrário ocorre hoje com as novas formações da esquerda, estão em situação oposta do que ocorria faz somente um par de anos. Ou, para ser mais justo, o que fizemos para deixar ser essa ferramenta de atração do descontentamento e da contestação, do protesto contra o establishment, da ilusão daqueles abaixo, e como podemos ser novamente.
Além das múltiplas causas e das conseqüências e variadas lições, no quadro eleitoral que nos é apresentado pelo 2 de dezembro, em Andaluzia, e com ela na Espanha, hoje eles se parecem um pouco mais com a Europa: o bipartidarismo rompido, o centro neoliberal em recomposição, sua perna social-liberal afundando, extrema direita em ascensão, uma esquerda impotente e resultando em parlamentos fragmentados. A tendência vem de longe no tempo e no espaço. Hoje na Espanha estamos um pouco mais próximos, o desafio é como reverter essa onda reacionária global e voltar a decantar a iniciativa política até os interesses do campo popular.

Miguel Urbán é eurodeputado e membro do conselho de Viento Sur

Este artigo foi publicado originalmente em inglês na revista Jacobin

Tradução Rodrigo Claudio

1/ Rodríguez 1998, pág. 166.

2/ Aniversario de la muerte del dictador Francisco Franco y fecha señalada para la nostalgia franquista en España

3/ Duque, A.: «Franquismo sociológico», Libertad Digital, 18 de marzo de 2005, disponible en <https://www.libertaddigital.com/opinion/aquilino-duque/franquismo-sociologico-23835/>. [Consulta: 3 de mayo de 2018].

4/ El Valle de Cuelgamuros, conocido como Valle de los Caídos por su denominación franquista.

5/ La Ley de Principios del Movimiento Nacional (1958) es una de las siete Leyes Fundamentales del régimen de Franco. Establecía, como su nombre indica, los principios en los cuales estaba basado el régimen, los ideales de Patria, familia y religión,

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