Um marxismo esquecido, Rosa Luxemburgo cem anos depois: por que devemos voltar ao seu pensamento?

Por: Roberto Mansilla*, de Niterói, RJ

“Aqui jaz Rosa Luxemburgo, judia da Polônia, vanguarda dos operários alemães, morta por ordem dos opressores. Oprimidos, enterrai vossas desavenças!” (Bertold Brecht no epitáfio de Rosa Luxemburgo, 1919)

Não se pode lançar contra os operários insulto mais grosseiro, nem calúnia mais indigna que a frase ‘as polêmicas são para os acadêmicos”. (Rosa Luxemburgo, em Reforma ou Revolução social, 1900)

Rosa Luxemburgo (1871-1919) foi a principal dirigente e teórica do marxismo revolucionário. Judia sem religião, polaca sem passaporte, militante socialista desde os 15 anos, doutorada em Zurique, naturalizada alemã, mas internacionalista irredutível, dirigente política quando as mulheres ainda nem podiam votar, Rosa Luxemburgo era considerada por apoiadores e adversários como “uma das melhores cabeças do socialismo internacional”. Foi assassinada há cem anos, em 15 de janeiro de 1919, a mando dos seus antigos camaradas socialdemocratas.

Mas, no ano em marca o centenário de sua trágica morte, Rosa Luxemburgo continua sendo mais reverenciada como “ícone revolucionária do que por suas ideias”, como diz Isabel Loureiro, principal estudiosa e tradutora de grande parte de sua obra para o português.1

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A marca registrada de trajetória de vida de Rosa Luxemburgo foi o engajamento total, “de corpo e alma”, na militância do movimento socialista internacional entre 1893 a 1919. Oradora brilhante, capaz de chacoalhar o sempre disciplinado e monótono auditório socialdemocrata cada vez mais reformista. Incansável agitadora que percorria fábricas, meetins e demais associações operárias tanto na Polônia russa2, quanto nas cidades do Império alemão. Talentosa teórica, sendo uma das principais instrutoras das escolas políticas do SPD (Partido Social-Democrata Alemão), sobretudo de cursos de economia política.

Mas foi, sobretudo, uma implacável polemista que desafiou os principais nomes do socialismo alemão (e, portanto, também da direção da II Internacional). Na virada do século foi protagonista no debate contra as propostas de Eduard Bernstein – conhecidas por revisionismo – que visavam converter o SPD num partido dedicado à reforma gradual do capitalismo – não mais à luta pelo socialismo. Fizera-o com tal vigor, e publicado em seu livro, Reforma social ou revolução3, que a velha direção do SPD, inicialmente inclinada a apoiar Bernstein, acabou por rejeitar as inovações que este propugnava.

Alertava também contra a tentação da socialdemocracia alemã para escolher os seus temas agitativos em função da respectiva utilidade eleitoral. E alertava contra o que classificava de “cretinismo parlamentar” – a ideia de que os deputados socialdemocratas pudessem conseguir em combinações de bastidores alguma melhoria significativa para a classe operária. Tal tendência, conhecida como reformismo, era defendia por Karl Kautsky, o que fez que ela rompesse com ele em 1910.

Em 1906, com seu pequeno trabalho Greve de Massas, Partidos e Sindicatos, escrito no calor dos acontecimentos da Revolução Russa de 1905 (chamada por Lenin de “O ensaio geral”) é que empiricamente darão a Rosa um substrato real no seu combate contra o reformismo em todas as suas vertentes. Também lhe dá a convicção de que as grandes transformações históricas não são desencadeadas pelas organizações (ainda que reconheça que ela tenha um papel relevante a desempenhar nesse processo) e de que a consciência de classe é resultado da luta revolucionária: “um ano de revolução deu ao proletariado russo essa ‘educação’ que trinta anos de lutas parlamentares e sindicais não podem dar artificialmente ao proletariado alemão”.4 Então, para ela, o debate sobre a greve de massas ocupa lugar especial em sua teoria revolucionária, em particular sobre a consciência de classe. Não se tratava de mais uma greve geral por reivindicações econômicas como eram tradicionalmente, mas sim, de uma greve política de enfrentamento com a autocracia czarista, usando os mais variados métodos de ação criativa, consciente e revolucionária do proletariado russo, cujo principal legado foi o surgimento de uma nova forma de organização social e de poder popular: os conselhos (Sovietes), germe, portanto, da democracia socialista.

Vale dizer que durante muito tempo houve uma tradição política (seja stalinista ou mesmo de correntes trotskistas5) que passaram a relegar Rosa Luxemburgo como uma “teórica do espontaneísmo das massas”. Na realidade, a dirigente revolucionária polaco-alemã enxergou a relação dialética entre a espontaneidade das massas e a ação “pedagógica” da organização revolucionária em impulsionar (ou nas próprias palavras de Rosa “se adiantar”) a “ação/direção política” do conjunto do movimento. É extraordinário o fato de como uma pequena obra, que aparentemente só analisa um ano, soube transmitir o sentido histórico como que se projeta a batalha pela emancipação social.

Nos sete anos seguintes que antecedem a Primeira Grande Guerra, a preocupação principal de Rosa Luxemburgo é uma intensa elaboração teórica com o objetivo de criar uma estratégia ofensiva contra o imperialismo. Ocupa-se, sobretudo, da economia política, cujo material usado nos cursos de formação do SPD foi base para seu célebre A acumulação de capital (1913). Nessa obra, uma das principais preocupações era a relação existente entre a política expansionista e os estágios do capitalismo imperialista, com sua corrida às armas. Dedica-se, então, em discursos apaixonados contra o militarismo, na esperança de que a classe operária alemã pudesse resistir a tal insanidade. Mas a aprovação dos créditos de guerra por parte da bancada socialdemocrata no Reichstag (Parlamento) representa o golpe de misericórdia nas suas esperanças. A partir desse momento sua vida e obra são dominadas, num primeiro momento pela Guerra e, posteriormente, pelas Revoluções Russa e Alemã.

Da esperança ao desespero. Essa mudança alternada influi no comportamento de Rosa Luxemburgo. Mesmo assim, não fica paralisada. Nessa época se torna amiga de Karl Liebknecht6 e forma o Grupo Internacional7, pequeno grupo de socialistas independentes que se opõe à Guerra. Rosa seria mais tarde criticada por não romper imediatamente com a Socialdemocracia, mas ter permanecido nela até 1917, indo depois para o Partido Social-Democrata Independente da Alemanha (USPD), conservando, no entanto, a autonomia política de seu grupo político. Segundo o historiador alemão Jörn Schütrumpf, Rosa considerava prejudicial a criação de um partido próprio, pois pensava “que, se uma revolução ocorresse, o movimento de massas – tal como se dera na Rússia de 1905, com os sovietes – produziria as formas organizativas correspondentes. Por isso só, concordou que o Grupo Spartakus se transformasse em Liga Spartakus independente depois que a revolução [alemã de 1918] eclodiu. O Partido Comunista Alemão (KPD) – nome que não lhe agradava – que daí resultou era produto dessa revolução”.8

Mesmo decepcionada com a vergonhosa decisão da II Internacional em cerrar fileiras com a política de “União Sagrada em torno da Pátria”, Rosa está convencida de que uma nova Internacional não pode nascer sem ser de um novo protagonismo do movimento de massas. As “Teses sobre as tarefas fundamentais da socialdemocracia internacional” (aprovadas com algumas mudanças propostas por Liebknecht) que elabora para a fundação da Liga Spartakus vai precisamente nessa direção. Em seu ponto 10, afirma:

“(…) A tarefa essencial do socialismo consiste em reunir o proletariado de todos os países numa força revolucionária viva que, por meio de uma forte organização internacional com uma concepção unificada dos seus interesses e das suas tarefas, com uma tática e uma capacidade de ação política unificadas tanto na paz quanto na guerra, faça Del o fator decisivo da vida política a que está destinado pela história”9

Em 1915 Rosa é presa, condenada por agitação antimilitarista. Foi condenada a duas penas de prisão. No cumprimento dessas penas, viria a passar na cadeia três dos quatro anos da Guerra. Só seria libertada com a Revolução de 9 de novembro de 1918.

Durante a permanência na prisão, escreve A crise da socialdemocracia (conhecido como “Folheto Junius”), em que faz um acerto de contas com a II Internacional socialista, com a socialdemocracia alemã e com o próprio proletariado, por terem todos, cada um à sua maneira, aderido ao delírio bélico. Para ela, a humanidade encontra-se na seguinte alternativa: socialismo ou barbárie. Pensa, entretanto, que nem tudo está perdido se o proletariado souber tirar lições de seus próprios erros.

É também no seu terceiro ano de prisão que Rosa Luxemburgo escreve as notas conhecidas como Revolução Russa.10 Inicialmente, reconhece a “ousadia” e o “mérito histórico” dos bolcheviques que colocaram na ordem do dia o destino do socialismo, em escala internacional. Tinha consciência do valor excepcional da Revolução Russa de Outubro de 1917, como “fato mais marcante da guerra mundial”11 do único país onde o socialismo seguiu fiel a seus princípios, diante da traição protagonizada pela II Internacional, buscando esclarecer que o proletariado alemão precisaria “cumprir a mesma missão”. Mas, inicia uma análise crítica e reflexiva do processo revolucionário russo, como “melhor meio de educar os operários alemãs e de outros países para as tarefas resultantes da situação atual”.

Rosa Luxemburgo assimilou da história das revoluções anteriores que a primeira experiência do proletariado é necessariamente parcial, contraditória, errônea. Desde a Comuna de Paris, até a Revolução de 1905, a via de emancipação dos trabalhadores está semeada de erros e passos em falso. Devido a isso, também a Revolução Russa deve ser criticada, não só para que não se repitam os mesmos erros, mas para que sirvam de aprendizado e de avanço na consciência para a classe trabalhadora. Esta última é uma condição imprescindível para o desenvolvimento da revolução, no sentido socialista, e o erro (ou limite) principal dos bolcheviques consiste em ter submetido ao movimento de massas o cálculo das relações de força do movimento. Ou seja, adverte que o principal perigo seria que a revolução fosse freada pelos mesmos revolucionários que chegaram ao poder. Por isso, é uma ardorosa defensora da existência do mais profundo debate, das opções, da plena liberdade para as massas para que elas assumam o poder. “É preciso que toda a massa popular participe. Senão o socialismo é decretado, outorgado por uma dúzia de intelectuais fechados num gabinete”.12

É ainda mais categórica na sua formulação sobre a essência do socialismo:

“A tarefa histórica do proletariado, quando toma o poder consiste em instaurar a democracia socialista no lugar da democracia burguesa, e não em suprimir toda democracia. (…) A democracia socialista começa com a destruição da dominação de classe a construção do socialismo. Ela começa no momento da conquista do poder pelo partido socialista. Ela nada mais é do que a ditadura do proletariado.

Perfeitamente: ditadura! Mas esta ditadura consiste na maneira de aplicar a democracia, não na sua supressão; (…), sem o que a transformação socialista não pode ser realizada. Mas tal ditadura precisar ser obra da classe, não de uma pequena minoria que dirige em nome da classe; quer dizer, ela deve, a cada passo, resultar da participação ativa das massas, ser imediatamente influenciada por elas, ser submetida ao controle público no seu conjunto, emanar da formação política crescente das massas populares”.13

Sua incansável exigência de democracia socialista – entendida como vida pública no campo da esquerda – assim com sua insistência na liberdade, como condição fundamental para qualquer movimento emancipador era o que a faria tão perigosa para o stalinismo em ascensão. O fato indiscutível é que sua crítica à burocratização do processo russo foi premonitória.

Visivelmente envelhecida, com o cabelo quase todo branco, a mulher de 47 anos é posta em liberdade no dia 8 de novembro de 1918. Um dia depois, explode, em Berlim, uma greve geral e tem o surgimento dos conselhos. O imperador Guilherme II renuncia e Ebert, presidente do SPD, assume a chefia do governo. É proclamada a República, e o poder passa a ser exercido por uma coalização de partidos, inclusive socialistas, cujo objetivo é formar um governo de “união nacional” e negociar a paz. É uma tentativa clara de minimizar os protestos populares.

A questão central na política, no final de 1918 e início de 1919, e decisiva para o destino da luta de classes na Alemanha, era se o poder deveria ficar nas mãos dos conselhos (como defendiam os spartaquistas) ou se devia-se eleger uma Assembleia Constituinte (como defendiam os socialdemocratas). Entre 16 a 21 de dezembro de 1918 é realizado, em Berlim, o Congresso Nacional dos Conselhos Trabalhadores e Soldados. Segundo Perla Haimovich, esse encontro selou a derrota dos partidários dos conselhos por “400 votos a 50”.14 A vitória era da proposta de convocação de novas eleições para a Constituinte que seria eleita no dia 19 de janeiro de 1919.

A Liga Spartakus – grupo que Rosa, Karl Liebknecht, Leo Joghiches, Franz Mering, Clara Zetkin separa definitivamente do Partido Social-Democrata Independente quando este aceita fazer parte do novo governo de coalizão, objetivando paralisar a revolução. Nas linhas gerais que Rosa redigiu para o Programa da Liga Spartakus15 aparecem mais uma vez a alternativa “socialismo ou barbárie”, posta pela Guerra perante a sociedade; também está presente a ideia já defendida por ela antes, de que o “socialismo é obra dos próprios trabalhadores”. A inovação desse pequeno panfleto é, sem dúvida, a experiência concreta da criação do Conselho de Trabalhadores e Soldados por várias partes da Alemanha. É a partir dele que Rosa se aproxima da formulação de “República dos sovietes”. E também e, não menos importante, seria a sua visão de que a vanguarda política (o partido) está intimamente associada à consciência da classe trabalhadora. Não a substitui. Essa formulação, já existente durante sua análise da Revolução de 1905, ganha mais clareza quando afirma:

“A Liga Spartakus não é um partido que queira chegar ao socialismo por cima da massa operária ou servindo-se da massa operária. A Liga Spartakus é apenas a parte mais consciente do proletariado que (…) defende os interesses da revolução mundial. (…)

A Liga Spartakus nunca tomará o poder a não ser pela vontade clara e inequívoca da grande maioria da massa proletária em toda a Alemanha. Ela só tomará o poder se essa massa aprovar conscientemente os projetos, objetivos e métodos de luta da Liga Spartakus”.16

Em 29 de dezembro é convocado um Congresso Nacional, em Berlim, onde os spartakistas se fundem com outros grupos pequenos, passando a formar o Partido Comunista Alemão (KPD). Com influência restrita a certas franjas do movimento operário, o novo partido prioriza a propaganda socialista e a denúncia contundente dos socialdemocratas e dos socialdemocratas independentes por adotarem medidas que favoreciam a contra-revolução.

No discurso aos delegados do Congresso de fundação do KPD, Rosa enfatiza incansavelmente a necessidade de conquistar progressivamente o poder pela base e que a revolução é uma tarefa árdua. Talvez nesse momento Rosa estivesse dividida entre o que Gramsci chamou de otimismo da vontade e pessimismo da razão. Por um lado, ela era uma incansável defensora da ação consciente das massas e do socialismo como alternativa à conciliação de classes. Mas, por outro lado, o ímpeto revolucionário imediatista dos mais jovens militantes era uma preocupação. Eles são contrários à participação nas eleições para a Assembleia Constituinte, marcadas para meados de janeiro de 1919. Ela pensa diferente. Para Rosa era um meio tático a ser utilizado na sua incansável tarefa dos revolucionários, que era a educação das massas.

Os acontecimentos precipitam-se. Multidões de operários ocupam as ruas de Berlim. Manifestações ocorrem a todo momento com pequenos incidentes. Alguns spartakistas, como Liebknecht, começam a ensaiar a possibilidade de um levante armado. A respeito desses terríveis desdobramentos para a Liga Spartakus e para o insucesso da Revolução Alemã que custou a vida de Rosa Luxemburgo, o historiador Jörn Schütrump diz:

“A primeira onda de guerra civil, em janeiro de 1919 havia lhe custado a vida: quando explodiram as lutas de rua no centro de Berlim, os trabalhadores, para os quais o recém-fundado Partido Comunista Alemão ela – perante a alternativa de posicionar-se a favor ou contra uma ação desesperada – se decidiu pelo apoio. Sua influência permaneceu marginal; contudo ainda hoje se fala em insurreição spartakista. Rosa Luxemburgo se comportou como Karl Marx em 1871, durante a Comuna de Paris. Com uma diferença: Marx estava em um refúgio seguro, vivia em Londres, ao passo que Rosa Luxemburgo caiu nas mãos de seus assassinos. Gustav Noske (SPD), recém-nomeado comandante em chefe das Forças Armadas, havia dado sua benção ao assassinato, como se pôde comprovar há alguns anos”.17

Na véspera de sua trágica morte, Rosa Luxemburgo publicou “A Ordem Reina em Berlim”, considerado seu “testamento político”. Nesse escrito, ela reconhece que o revés da Revolução Alemã deveu-se à “insuficiente imaturidade política das massas e dos soldados”, “lutas isoladas” e ao “fracasso da direção”. Mas surpreende em sua análise com otimismo, ao dizer: “Mas a revolução é a única forma de ‘guerra’ – esta é também uma de suas peculiares leis vitais – em que a vitória final só pode ser preparada por uma série de ‘derrotas’(…) das quais extraímos experiência histórica, conhecimento, poder, idealismo!18 Segundo ela, “as massas fizeram dessa ‘derrota’ um elo daquelas derrotas históricas que constituem o orgulho e a força do socialismo internacional. É por isso que vitória futura florescerá dessa derrota”19.

Mesmo com toda sua incansável trajetória na construção da revolução socialista internacional, o pensamento de Rosa Luxemburgo permaneceu por quase 50 anos esquecido, marginalizado, silenciado, ou mesmo deturpado. A matriz socialdemocrata por seu reformismo endêmico no interior do Estado burguês queria extirpar um discurso que defendia a revolução social. Para a nascente burocracia soviética, por sua vez, tratava-se de um pensamento “não leninista”. Isso pode ser comprovado, já em 1925, na resolução elaborada pelo Executivo ampliado da III Internacional (destinado a lançar a campanha em prol da “bolchevização” dos PCs), quando afirma que Rosa Luxemburgo era a principal: responsável pelos erros mais importantes, [pois] tratou de um modo não bolchevique a questão da espontaneidade e da organização, impossibilitando a compreensão adequada do papel do partido na revolução”20.

No início dos anos 1930 com Stalin, o pensamento de Rosa Luxemburgo foi definitivamente falsificado. Numa carta enviada pra uma revista, afirmava que Rosa (juntamente com Parvus21) “inventaram um esquema utópico e semimenchevique de revolução permanente – imagem deformada do esquema marxista de revolução – penetrado até a medula pela negação menchevique da aliança entre a classe operária e os camponeses e a contrapuseram ao esquema da ditadura democrática revolucionária do proletariado e dos camponeses. Mais tarde esse esquema semimenchevique da revolução permanente foi adotada por Trotsky, convertendo em arma de luta contra o lenininsmo”22

A partir desse momento, começa o amordaçamento do pensamento da revolucionária polaco-alemã, apenas rompida – parcialmente – pela voz solitária de Trotsky, que escreveu um artigo de denúncia sobre as falsificações de Stalin, intitulado “Tire as mãos de Rosa Luxemburgo” (28.06.1932)23.

A tarefa de conhecimento de alguns dos escritos de Rosa seguiu como tarefa e empenho de pequenos grupos de revolucionários que continuaram fiéis à sua memória24. As rebeliões estudantis e anticapitalistas que varreram o mundo em 1968 e as lutas de massas contra o modelo autoritário do socialismo real foram determinantes para a redescoberta das ideias de Rosa Luxemburgo.

Nos últimos anos, as novas gerações mais combativas e radicais, envolvidas na luta contra o capital globalizado e o imperialismo e, mais recentemente, nas marchas multidudinárias de mulheres que desafiam o patriarcado, voltaram a recuperar o espírito rebelde, a dimensão libertária de seu socialismo antiautoritário e antiburocrático, mostrando que o século XXI poderá ser século da rebelião e da revolução.

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Devemos nos perguntar o por quê da permanência de um esquecimento (ocultação?) do pensamento de Rosa Luxemburgo, sempre em busca da contradição. Seria uma dificuldade (confessa) da esquerda socialista (ontem e ainda hoje) de pensar no saudável procedimento de “submeter todas as ideias ao severo exame da crítica”, como lembra Valerio Arcary a respeito de Rosa Luxemburgo25? O que me parece mais relevante salientar é que o conjunto dos militantes das organizações, em suas mais diversas origens e tradições, possam, finalmente, estudar e conhecer o pensamento dessa incrível mulher revolucionária que, sem dúvida, nos serve de inspiração para a necessária atualização da revolução socialista, nesses tempos difíceis, mas ao mesmo tempo desafiadores.

1 Entre algumas das principais obras de Isabel Loureiro destaco a sua ótima pesquisa Rosa Luxemburg: os dilemas da ação revolucionária (SP: Unesp, 1ª ed., 1995), além de organizar uma preciosa coletânea de três volumes, onde estão reunidos textos e cartas da revolucionária polonesa (a partir da tradução alemã) e na sua recente seleção de Rosa Luxemburgo: Textos escolhidos: vol. I (1889-1914), vol. II(1914-1919) e vol. III (cartas) – SP: Editora da Unesp, 2011.

2 Rosa Luxemburgo nasceu em Zamosc, em 1871, na parte da Polônia pertencente ao Império Russo. Prússia e o Império Austríaco ocupavam o restante do território polonês, no final do século XIX. Ela foi uma das fundadoras, em 1894 do Partido Social-Democrata do Reino da Polônia (SDKP), depois unificado com camaradas da Lituânia (1900), tornando o Socialdemocracia do Reino da Polônia e da Lituânia SDKPiL) da qual seria delegada em vários Congressos da II Internacional.

3 Rosa Luxemburgo. Reforma social ou revolução. São Paulo: Global Editores, 1986.

4 Rosa Luxemburg. Huelga de Masas, partido y sindicatos. Cuadernos de Passado y Presente / 13. Buenos Aires. 1970, p. 100.

5 Quando estava terminando de escrever esse artigo (na véspera portanto do centenário do assassinato de Rosa Luxemburgo) tomei contato casual com o site da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI) na qual a mesma análise reducionista (ou seria caricatural?) de uma certa tradição trotskista acerca do “espontaneísmo” de Rosa permanecee. Ver https://litci.org/pt/teoria/historia/rosa-luxemburgo-a-aguia-revolucionaria/ (Consultado em 14.01.2019). Para uma interessantíssima problematização sobre o tema da relação entre espontaneidade da classe e o papel do sujeito político (o partido) ver o instigante artigo de Valério Arcary, intitulado A história deu razão a Rosa Luxemburgo ou a Lenin? Em https://esquerdaonline.com.br/2017/03/29/a-historia-deu-razao/ (Consultado em 12.01.2019).

6 Durante a segunda sessão de guerra no Reichstag, Karl Liebknecht foi o único deputado do SPD que votou contra os créditos de guerra. Ver discurso em https://www.marxists.org/espanol/liebknecht/1914/diciembre/02.htm

7 Depois adotará o nome Liga Spartakus.

8 Jörn Schütrump. “Entre o amor e a cólera”. In ___. (Org). Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade. Trad. Isabel Loureiro et alii. 2ª edição ampliada. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2015, p. 63.

9 Rosa Luxemburgo (Teses sobre as tarefas da social democracia internacional – fev. 1916), publicada como “Rascunho das Teses de Junius” in Isabel Loureiro (org). Rosa Luxemburgo: textos escolhidos – vol.II (1914-1919). São Paulo: Editora Unesp, 2011, p. 12.

10 Como lembra Isabel Loureiro, essas notas só seriam publicada postumamente em 1922, por Paul Levi. Há toda uma controvérsia nessa história, pelo fato de Levi – não obstante ter sido uma figura de destaque na direção do Partido Comunista Alemão (KPD) – ter convencido Rosa a não publicar seus escritos em 1918. Mas, o fez um ano após ter sido expulso do partido comunista, e ter regressado ao SPD. Mera coincidência? O fato é que Paul Levi se suicidaria pouco tempo depois.

11 Rosa Luxemburgo. “A Revolução Russa” (1918) in Isabel Loureiro (org). Rosa Luxemburgo: textos escolhidos – vol.II (1914-1919), op., cit., p. 175.

12 Idem, p.207

13 Idem, p.210

14 Perla L. Haimovich. “Rosa Luxemburgo y la revolución espartaquista”. In Historia Del Movimento Obrero , vol 3. Editora Buenos Aires, Centro de Editor de Latinoamerica, 1973, p. 150.

15 O programa da Liga Spartakus (14.12.1918) foi adotado por unanimidade, com apenas algumas modificações, no Congresso de fundação do Partido Comunista Alemão, dez/jan de 1919.

16O que quer a Liga Spartakus” In Isabel Loureiro (org). Rosa Luxemburgo: textos escolhidos – vol.II (1914-1919), op., cit., p. 297-298.

17 Jörn Schütrump. “Entre o amor e a cólera”. In ___. (Org). Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade. Op, cit., p. 65. Karl Liebknecht também foi assassinado no mesmo dia.

18 Rosa Luxemburgo. “A ordem reina em Berlim” 14.jan.1919, In Isabel Loureiro (org). Rosa Luxemburgo: textos escolhidos – vol.II (1914-1919), op., cit., p. 399.

19 Idem, p. 401.

20 Citado na “advertencia” de Rosa Luxemburg – Huelga de Massas, partido y sindicatos. Cuadernos de Passado y Presente / 13 – Córdoba, 1970, p. 7-8. (Grifos meus).

21 Alexander Parvus (1869-1924): destacado teórico marxista da Europa oriental no pré-guerra, colaborou com Trotsky e chegou a conclusões similares às da teoria da revolução permanente.

22 Stalin, J. “Sobre algunas cuestiones de la historia del bolchevismo” in _____. Obras, tomo XIII (1930-1934), p. 41 (Ediciones Lenguas estranjeras, Moscú, 1953). Extraído de https://www.marxists.org/espanol/stalin/obras/oe15/Stalin%20-%20Obras%2013-15.pdf (Consultado em 08.01.2019).

23 Ver https://esquerdaonline.com.br/2018/01/15/leon-trotski-tirem-as-maos-de-rosa-luxemburgo/ (Consultado em 10.01.2019).

24 No Brasil, coube a Mario Pedrosa (militante trotskista), a divulgação dos primeiros textos de Rosa Luxemburgo, publicados em seu jornal, A Vanguarda Socialista, em 1945.

25 Valério Arcary. “O que é ser marxista no século XXI” em https://esquerdaonline.com.br/2017/03/21/o-que-e-ser-marxista-no-seculo-xxi (Consultado em 12.01.2019).

Roberto Mansilla é professor de História da rede municipal de educação RJ e militante da Resistência/PSOL-Niterói

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