As mulheres do governo Bolsonaro

Por: Ana Luísa, do Rio de Janeiro, RJ

A eleição de um neofascista para a Presidência da República é algo inédito no Brasil. Estaremos, portanto, diante de um novo tipo de governo, muito diferente de outros governos burgueses e dos governos do PT. Isso coloca enormes desafios para a esquerda, o conjunto dos movimentos sociais e, de forma especial, aos movimentos de luta contra as opressões que estão no centro da conjuntura, seja por terem protagonizado o maior movimento de resistência até então, seja por serem alvos declarados do futuro governo e de parcela fanática de seus eleitores.

Justamente por ser uma novidade no país, por vezes, no afã de responder a cada iniciativa ou declaração de Bolsonaro, há uma tendência à repetição de fórmulas utilizadas para enfrentar governos anteriores. Foi assim, por exemplo, quando do anúncio de sua equipe de transição e a consequente discussão, por parte dos movimentos, que teve como centro da crítica o perfil branco e masculino do futuro governo.

Quando tratamos de pautas democráticas, que envolvem em grande parte as demandas dos setores oprimidos, é fundamental termos ainda mais nitidez sobre o caráter de classe e o projeto do novo governo. Do contrário, podemos ver o conteúdo de nossas lutas esvaziado e transformado em seu oposto. É evidente que o fato de a grande maioria da equipe de transição e dos novos ministros ser composta por homens brancos se constitui em um elemento que deve ser denunciado, pois corrobora o caráter misógino e racista de Bolsonaro, que tanto a esquerda alertou durante o processo eleitoral. No entanto, chegou-se a cobrar do novo governo a nomeação de mulheres, negros e lgbts. Dias depois o governo anunciou, com ampla divulgação pela grande mídia (em especial a Rede Globo), quatro mulheres na sua equipe de transição: Márcia Amarilio da Cunha Silva, Clarissa Costa Longa, Silvia Nobre Waiãpi e Liane de Moura Fernandes Costa, as quais são, respectivamente, tenente-coronel do Corpo de Bombeiros, economista, tenente do Exército e tenente da reserva.

Mais recentemente, a nomeação de Damares Alves a frente do Ministério das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos” (que incorpora também a Funai), pasta criada para acelerar e especializar os passos do retrocesso em relação às conquistas históricas do movimento feminista, bem como para ser o “front” da ofensiva ideológica, no âmbito dos costumes, sobre a consciência dos trabalhadores, suscitou novamente o debate sobre como enfrentar o novo governo, seja qual rosto ele tiver.

Ora, existe a possibilidade de alguma mulher, negro ou lgbt nos “representar” no projeto reacionário do novo governo? Se Bolsonaro fosse uma mulher (como é o caso de Marine Le Pen, na França), isto dificultaria nosso combate? De qual “representação” estamos falando quando a reivindicamos?

Vale ressaltar o “currículo” de pelo menos três das mulheres citadas. Márcia Silva passou um ano participando de reuniões semanais organizadas pelo general da reserva do Exército Augusto Heleno (indicado para o Gabinete de Segurança Institucional -GSI), uma espécie de “comitê de campanha”, que contava com a participação do próprio candidato. Ela comanda o Centro de Ensino de Altos Estudos Oficiais da corporação, responsável pela formação de capitães e coronéis, e foi indicada para integrar a área de educação (responsável pela articulação do projeto “escola sem partido”). Silvia Waiãpi, primeira indígena a ingressar no Exército, já atuou na minissérie da Globo “Dois Irmãos”, e carrega um discurso pautado na representatividade indígena. Sobre ela, é interessante ouvirmos as palavras de Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e candidata à vice-presidente pelo PSOL na eleição deste ano:

“Ela (Waiãpi) tem origem indígena, mas não é uma liderança, nem fala em nome dos povos indígenas. Isso (a nomeação) de jeito nenhum vai significar o apoio dos povos indígenas a esse governo. Somos um dos alvos prioritários”.

Por fim, a ministra Damares Alves, pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular, atual assessora parlamentar do deputado federal Magno Malta (PR), e ex-assessora do deputado federal João Campos (PRB) – autor do projeto da “cura gay”-, é reconhecida colaboradora da frente parlamentar evangélica e militante contra a legalização do aborto. Damares defende a aprovação do estatuto do nascituro, da “bolsa estupro”, e rejeita qualquer abordagem sobre o aborto a partir da ótica da saúde pública. A futura ministra já declarou que as escolas brasileiras são uma “guerra contra a família” e que “o índio é gente e precisa ser visto de uma forma como um todo. Índio não é só terra”, se referindo à questão das demarcações de terras indígenas que, segundo ela, “não serão prioridade”.

Em todos estes casos e quantos mais surgirem não é possível relativizar absolutamente nada. Não cabe nenhuma identificação com àquelas que defendem o fundamentalismo, que são parte do projeto das Forças Armadas para o governo e que sustentam de alguma forma o futuro governo neofascista. Os posicionamentos públicos e as ações políticas das pessoas, as definem em grande medida, sobretudo quando ocupam espaços de poder da sociedade. Todas as mulheres, negros, lgbts, indígenas e nordestinos que vierem a compor este governo serão inimigos frontais da classe trabalhadora, de seus setores mais oprimidos e de suas organizações. Tanto no âmbito de suas ações práticas, quanto no de suas concepções ideológicas, deverão ser combatidos politicamente sem qualquer complacência.

Teremos pela frente um governo neofascista, comprometido com uma agenda ultraneoliberal e de massacre aos direitos dos oprimidos. Ainda que todos os ministérios desse governo fossem encabeçados por mulheres, isso em nada mudaria o caráter do projeto que ele representa. Portanto, lutar por “representatividade” nesse governo não pode ter qualquer utilidade para a luta feminista.

Fascistas e opressores de todo o tipo, não passarão!
Unidade da classe trabalhadora e de todos os oprimidos para derrotar o governo Bolsonaro!

 

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