A maior final do mundo

por: Lucas Fagundes, de Porto Alegre, RS

Para apaixonados por futebol as contradições mais fascinam que atrapalham. Importa demais se o jogo é em Madrid ou Buenos Aires. Riquelme, ídolo do Boca Juniors, disse: “O Superclássico, em algum momento, tem que ser jogado novamente na Argentina. O que vamos fazer para que se jogue o próximo Boca x River? Vai ter que ser em outro país? Eu acho que não é a mesma coisa. Por mais que eu queira que o Boca vença, acho que a final tem que ser disputada em nosso país. Eles tiraram isso de nós. Vai ser o amistoso mais caro da história”.

Juan Roman acerta duas vezes na declaração. Desmascara a farsa da CONMEBOL que desde o começo apostou somente numa final para esta edição da Libertadores, e para além disso, não titubeou em afastar a final da Argentina e realizar seu “super-jogo”.

Acerta de novo quando diz que vai ser o amistoso mais caro da história, a cidade de Madrid lucrou cerca de 40 milhões de euros com a transferência da final para o estádio do Real Madrid, Santiago Bernabéu. Há de se pensar que a decisão foi rápida, durou dois minutos, porque só teve um voto.

Alejandro Domínguez, atual presidente da Confederação, demorou dois minutos para confirmar seu desejo. A maior final do mundo no estádio do maior clube do mundo.

O jogo é recheado de emoções e contradições. Entre xeneizes e millionarios Madrid viveu últimas horas de apreensão. A vitória do River demonstrando toda sua superioridade técnica dentro dos dois confrontos foi justa. O Boca teve um jogador expulso no primeiro tempo da prorrogação e viu ali, sua derrocada final na partida. O placar de 3×1 nos 120 minutos não demonstram o que foi um jogo com mais de 30 faltas e poucas oportunidades de gols.

Mais interessante que o jogo em si são as condições necessárias para que ele aconteça. O que protagonizaram a CONMEBOL e a Polícia Argentina foi um verdadeiro papelão. Tamanha a necessidade de Domínguez de continuar um projeto de elitização do futebol sul-americano, foi preciso expor os jogadores do Boca a um conflito inevitável com torcedores do River antes do segundo jogo da final.

Além de excluir qualquer possibilidade de realizar o segundo jogo na Argentina Alejandro, presidente da CONMEBOL, ainda escolhe nada mais nada menos que uma das localidades de maior visitação por parte dos sul-americanos. E claro, lembrando também da grande comunidade argentina presente na Espanha, já sabendo da histórica relação política que têm esses dois países.

O jornal argentino Clarín definiu a decisão como “controvertida”: “A Copa Libertadores será entregue pela primeira vez fora do território sul-americano em 58 anos. Justo na Espanha. O que diriam San Martín e Bolívar? Se transformará por um momento na Libertadores da Europa”. Das grandes contradições, o River hoje quebra um tabu de 5 anos, que vinha desde o Atlético Mineiro. Desde quando Ronaldinho e cia venceram a competição nenhum outro time tinha ganho com 11 jogadores do país do clube. A Libertadores da Europa a partir de 2019 tomará mais forma ainda. Assim como a Liga dos Campeões da Europa terá final em jogo único, já tendo como primeiro local Santiago, no Chile.

Várias são as sensações após uma final disputada, carregando uma história conturbada e controversa, mas dentre todas uma fica evidente, a sensação de que a “maior final do mundo” poderia ter acontecido na Argentina. Alejandro Domínguez esquece com toda a tranquilidade a história da Independência de todos os países da América do Sul, pisa em cima da história que dá nome a competição e, por fim, legitima, junto com todos os patrocinadores da competição, uma mercantilização cada vez maior do futebol.

Para a CONMEBOL, Santander, Amstel, Bridgestone e cia importava somente onde o lucro era maior. Já lucravam milhares com a final em Buenos Aires, mas não perderam a oportunidade de lucrar milhões com o jogo em Madrid. Dia triste para aqueles que sentem saudade e lutam pela volta do povo nos estádios e do futebol vivo nas ruas. A final no Santiago Bernabéu distancia cada vez mais, o povo do futebol, o povo da história, o povo da sua cultura.

A pergunta que fica, é: quem ganha com isso? Nós não.

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