Merkel garante sucessão de aliada no partido (CDU) em disputa acirrada com ala direita

Por: Victor Amal, de Florianópolis (SC)

Annegret Kramp-Karrenbauer, conhecida como AKK, foi eleita líder da União Democrática Cristã (CDU), Alemanha, durante congresso do partido que ocorreu nesta sexta feira (07).

AKK irá substituir Angela Merkel, atual chanceler alemã e líder da CDU desde 2000. Ambas são aliadas e pertencem ao setor de centro-direita do partido.

Esta foi a primeira vez desde a década de 1970 que um líder democrata-cristão não foi eleito por consenso, tendo que enfrentar forte oposição de Friedrich Merz, concorrente pela ala direita.

Ao mesmo tempo, este resultado é uma importante vitória e alívio para Merkel. Derrotado Merz, terá ela agora tranquilidade interna para finalizar seu quarto mandato como chanceler, que encerra em 2021.

No entanto, a oposição mostrou sua força e não será nada fácil dirigir o partido sob essa pressão.

A Era Merkel          

Angela Merkel foi eleita pela primeira vez para o cargo de chanceler em 2005, após 8 anos de governos do Partido Social Democrata da Alemanha (SPD).

Sua ascensão para a chefia do partido, contudo, se deu anteriormente, já no ano 2000.

Representante de um setor de centro-direita e liberal da CDU, Merkel conseguiu se impor sobre o setor conservador mais tradicional do partido após escândalo de corrupção envolvendo o ex-chanceler Helmut Kohl (1982-1998).

Na ocasião, o ex-chanceler Gerhard Schröder (1998-2005), do SPD, viu sua popularidade despencar ao aplicar severas reformas trabalhistas e previdenciárias.

Merkel, oportunamente, soube aproximar-se de pautas “progressistas” para aproveitar a crescente impopularidade de Schröder com sua própria base política e alçar-se ao posto de chanceler em 2005.

Desde então, a CDU deixou de ter um caráter tão vinculado a identidade tradicional cristã alemã, como o foi até a era Kohl, aproximando-se do cosmopolitismo europeu.

Este giro ao centro de Merkel foi a jogada política que a permitiu por quatro eleições seguidas eleger-se chanceler, conquistando os votos tanto dos eleitores conservadores quanto daqueles que anteriormente votavam na social democracia.

Em seus quatro mandatos, Merkel fez três coalizões com o SPD e apenas uma com o tradicional aliado de direita da CDU, o Partido Liberal-Democrata (FDP).

Durante seu governo, a chanceler reduziu drasticamente o tamanho do exército alemão, terminou com o alistamento militar obrigatório, pôs fim à produção de energia nuclear, entre outras medidas contestadas pelos conservadores.

2015: início da crise         

Foi apenas no ano de 2015, contudo, que a hegemonia de Merkel sobre seu partido, e na sociedade alemã, começou a ser contestada.

O primeiro episódio ocorreu durante a crise da dívida grega, quando o partido Syriza foi eleito com a promessa de romper com o pacote neoliberal da UE.

Enquanto Merkel negociou até o fim com a Grécia e convenceu o Syriza a manter as medidas de corte de direitos em troca de ajuda financeira, o ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, defendia a expulsão da Grécia da zona do Euro por 5 anos.

Segundo ele, e o setor conservador da CDU em geral, a Alemanha não deveria enviar dinheiro para a Grécia sob hipótese alguma, nem para nenhum país do bloco Europeu acometido pela crise da dívida.

Posteriormente, em meados de 2015, milhões de refugiados fogem do Oriente Médio e África – devido a guerras, ditaduras, fome e mudanças climáticas – em direção à Europa.

Neste percurso, centenas de milhares de refugiados ficaram presos em países europeus que não lhes concediam asilo político ou permitiam sua passagem.

Por isso, entre agosto e setembro de 2015, por cerca de 3 semanas a Alemanha abriu suas fronteiras para os refugiados que estavam estacionados. Em um mês, cerca de 1 milhão de estrangeiros entraram no país.

Essa chamada “política de portas abertas” de Merkel, contudo, causou verdadeiro terremoto político no país.

Setores significativos da CDU declararam-se contrários a acolhida dos refugiados, ao passo que manifestações de massa anti-imigração e anti-Islã percorreram a Alemanha.

Tamanha onda de xenofobia tomou conta do país – associando a entrada dos refugiados à Angela Merkel –  que, nas eleições de 2017, a CDU fez apenas 32% dos votos, a menor votação da história do partido.

Além disso, nestas eleições, pela primeira vez um partido de extrema direita – a AfD (Alternativa para a Alemanha) – foi eleito para o parlamento nacional. E mais: ficou em terceiro lugar, figurando como maior partido de oposição ao governo.

Entretanto, a gota d’água para Merkel ocorreu em outubro deste ano, nas eleições regionais de Hesse, quando a CDU perdeu 11% dos votos em relação à eleição anterior.

Após este resultado, a chanceler avisou que não iria se candidatar à liderança da CDU durante o congresso partidário de 2018. Tampouco iria tentar a reeleição como chanceler em 2021.

Congresso da CDU: avanço da ala direita        

Nesse contexto de crise, a eleição de Annegret, ou AKK, foi um grande alívio para a Merkel.

AKK é aliada próxima da atual chanceler e sua vitória para liderança da CDU implica em uma relação amistosa entre o partido e o governo, cenário muito diferente do que ocorreria se um dos outros candidatos houvesse vencido o páreo.

Seu principal concorrente, Friedrich Merz, advogado e milionário, era o favorito do setor conservador durante o congresso desta sexta (que tinha também a candidatura do jovem Jens Spahn, logo eliminado no processo de votação).

Merz é uma figura antiga do partido, que se afastou da CDU em 2002, após um conflito interno com Angela Merkel.

Já naquela época, Merz criticava o novo caminho liberal que Merkel pretendia impor a seus correligionários, diferente da tradição dos ex-chanceleres Helmut Kohl e Konrad Adenauer. Por isso, afastou-se da política para tornar-se empresário, chegando à diretoria da companhia financeira BlackRock.

Merz, contudo, retornou à política interna da CDU em 2015, durante a crise dos refugiados.

Não por coincidência, suas duas principais plataformas durante o congresso do partido que ocorreu nesta sexta (08) foram de crítica à política de asilo de refugiados aplicada por Merkel e a relação com a União Europeia: os pilares da crise de 2015.

O resultado, embora seja um alívio para a chanceler, levanta preocupações sobre a manutenção posterior de AKK na liderança da CDU: ganhou por 52% a 48% de um total de 1001 delegados.

Esta pequena margem de vitória revela que metade do partido não concorda com a postura adotada por Merkel nos últimos anos e que a crise, iniciada em 2015, está longe de encerrar.

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