O anticomunismo como fundamento do Bolsonarismo

Fábio José de Queiroz, de Fortaleza, CE

Um espectro ronda a cabeça de Jair Bolsonaro: o espectro do comunismo. Contra ele, o capitão levanta a bandeira do fundamentalismo anticomunista e as ameaças mais ferozes. Quem não foi por ele acusado de comunista? Do Fórum de São Paulo ao MST, muitos receberam o terrível epíteto. É disso que este artigo pretende tratar.

A base histórica do fanatismo anticomunista dos Bolsonaros

Em uma ideologia de opressão absoluta não pode haver espaço para ideias como revolução, emancipação social, socialismo ou comunismo, ainda que se saiba como as burocracias do mal denominado “socialismo real” contribuíram para desacreditar cada uma dessas palavras. Mas, as burocracias e as manobras ideológicas em torno de seus atos não são premissas suficientes para derrotar as forças sociais que constituem a história. Essas forças, com efeito, se reconstroem em seu anseio por mudanças. Por isso, o regime social e as suas representações políticas não se cansam de tentar conjurá-las.

Com o governo Bolsonaro, o sistema burguês é elevado à sua categoria mais arrepiante, em que o primeiro não opera em oposição ao segundo, mas se mostra disposto a fazer o serviço sujo e imoderado que outros representantes desse regime social de exploração mostram certo recato em fazê-lo. Ou age autoritariamente ou perde sentido sua existência para ordem do capital, eis o sentido do bolsonarismo. Por isso, o ocaso da liberdade é o seu alvo prioritário. A propósito, num mundo em crise, as saídas despóticas adquirem ares de normalidade. O bolsonarismo é um desses tipos de saída e se expressa em uma proposta opressiva e feroz, assentando-se na gradativa corrosão da política e fazendo com que a violência ganhe uma estranha forma de ordem.

Nesse voo noturno, o discurso anticomunista do bolsonarismo traz em si clamor, gritaria e uma vocalização de certo furor de cepa pequeno-burguesa. É isso que abre caminho para que incautos não sintam que, apoiando esse tipo de saída, os tornam também reféns dos humores impositivos do arbítrio anticomunista. Fazem e não sabem que, para eles, também, dobram os sinos.

Ao longo do tempo, a paranoia anticomunista nunca deixou de estar a serviço de um projeto repressivo e antidemocrático: o fascismo clássico, o bonapartismo, o macarthismo, a ditadura de 1964, no Brasil, o pinochetismo, a ditadura argentina de 1976, Reagan, Thatcher etc. O bolsonarismo pertence a essa mesma linhagem e é refém da mesma linguagem. Quem bebe de seu horizonte não terá ilusão eterna, pois a tendência dessa estirpe é ser globalmente abusiva e imperativa.

Os que em 1935 contiveram o levante dirigido por Prestes contra Vargas, dois anos depois inventaram o “Plano Cohen” e deram o golpe do Estado Novo. São esses “apóstolos da democracia” que os bolsonaros não se cansam de defender, assim como absolvem e santificam os golpistas de 1964 e os seus “anjos” sanguinários, a exemplo de Carlos Alberto Brilhante Ustra. Logo, o bolsonarismo não é fruto de um mundo de geografias imaginárias. Ele possui coordenadas bem precisas. Como tradição e memória, o bolsonarismo não evita os lugares-comuns dos velhos autoritarismos de extrema-direita do século XX: anticomunismo, intransigência para com as organizações dos trabalhadores e alinhamento com o grande capital.

Grosso modo, no plano da história, o bolsonarismo não é mais do que o velho anticomunismo adaptado às exigências do século XXI. Ele surgiu quebrando vidraças, mas não rasgou dinheiro, pecúnia que irrigou sua campanha no WhatsApp, conforme noticiou a mídia. De modo sugestivo, a natureza pretensamente antissistema dessa corrente de tom neofascista não veleja contra o vento do dinheiro, mas é por ele impulsionada com força. A experiência da história, uma vez mais, mostra que essas correntes de extrema-direita, de fato, constituem um dique em face de projetos que, em última análise, não convêm ao sistema. A serviço dessa contenção, essas facções reacionárias babam de anticomunismo e trazem consigo marcas autoritárias.

A resposta ao anticomunismo não pode ser apenas histórica

O mais difícil em um thriller não é como ele começa, mas como ele finda, particularmente quando o gênero é puro terror. A história, no entanto, evidencia que nada é tão absurdo que a humanidade esteja impossibilitada de encontrar uma saída. Os becos sem saída da história são sempre provisórios.

Daqui a um tempo, as atuais gerações falarão da memória de um tempo difícil, mas o farão com lucidez, e de modo altivo, contanto que, nos dias que correm, saibam ter a sabedoria de identificar o caráter histórico-concreto da vertente bolsonarista e possam ter com relação a ela a atitude correta, que pressupõe duas DADES: sobriedade e unidade. Só assim podem transformar esses tempos em tempos de resistências possíveis e necessárias.

O messianismo anticomunista é e não é só intuição e improviso, uma vez que ele traz em si certo conceito e dar a entender, em última análise, o significado da corrente bolsonarista, não apenas do ponto de referência da história, mas, também, da política efetiva. Esse anticomunismo, por definição, significa a ojeriza a tudo que representa a esquerda, o programa socialista e os movimentos sociais (sindicatos, MST, MTST, movimentos específicos de operários, de juventude, de mulheres, de negros, de indígenas, de LGBTs etc.). Nessa linha, Eduardo Bolsonaro, filho e deputado, tem o topete de sugerir que o Brasil é um país socialista e deixará de sê-lo. O que o parlamentar do PSL quer dizer é que, no governo liderado por seu pai, não haverá lugar para luta social e nem direitos para os pobres. Desse modo, enfrentar esse projeto envolve não apenas uma compreensão histórica nítida do seu significado, mas uma atividade concreta que é própria da luta social e da ação política, pois a uma força real só se pode opor outra força real (como “momento efetivo” ou “figura necessária”, completaria, muito possivelmente, o velho Marx).

Foto: EBC

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