Evento paralelo ao G20 discute luta feminista na América Latina

Cobertura Esquerda Online no G20

Neste final de semana, Buenos Aires sedia a Cúpula do G20, com os chefes de Estado das economias mais desenvolvidas do mundo. Em paralelo, desde o dia 28, organizações políticas da esquerda argentina e de vários países promovem uma Contra Cumbre (Contra-Cúpula), com dezenas de debates e atividades e que, nesta sexta, 30, se soma em uma grande marcha nas ruas da capital argentina.

Na tarde desta quinta-feira, 29,ocorreu a mesa “Feminismos na América Latina”, com mulheres da Colômbia, Nicarágua, Argentina e Brasil. Todos esses países vêm vivendo processos de insurgência dos movimentos de massas das mulheres e um dos pontos em comum entre as falas foi a necessidade de uma unidade ampla e internacional das mulheres contra o capitalismo e ao patriarcado.

A representante colombiana, Lorena Perdomo, do movimento Juntos y a la Izquierda e MST, falou sobre o capitalismo agrário que fez emergir grupos paramilitares, entreguistas das terras da Colômbia à economia imperialista norte-americana e que, com os próprios imperialistas, aprenderam métodos de tortura que têm como foco as mulheres, no meio da guerra que se trava entre eles e os grupos de guerrilha. Sob essa realidade, movimentos estudantis que há tempos existiam, passaram a pautar e eleger lideranças feministas.

Representante do MST – Movimiento Socialista de los Trabajadores da Argentina, Yasmim Costa relatou sobre os movimentos “Ele Não” brasileiro. A começar falando pelo governo Dilma Rousseff, eleito em 2008, que sofre uma crise política de ajustes e o PT não os contesta, seguido pelo impeachment e os dois anos de cortes abruptos de direitos no governo Temer, concluindo com a eleição de Bolsonaro. Embora legítimo, o movimento “Ele Não” ainda não conta com uma direção radical anticapitalista.

Uma das impulsionadoras do movimento “Ni Una Menos”, a argentina Celeste Fierro, também do MST, falou sobre a diferença dessa quarta onda do movimento feminista mundial que é profundamente antissistêmico e que questiona todos os pilares que erguem o capitalismo, e que pauta uma saída concreta. Na Argentina, por exemplo, toda vez que o fascismo insiste em mostrar suas garras, milhares de mulheres tem ido as ruas e conseguido barrar os avanços da retirada de direitos. Ela caracteriza esse movimento por uma “luta de várias bandeiras”: socialista, feminista e ecossocialista.

ENTREVISTA CELESTE FIERRO

🎥 Lucas Pitta Klein

A companheira Natália Russo, do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro e militante da Resistência/PSOL, por meio de uma fala potente, pontuou o caráter fascista do governo Bolsonaro, relatando o levante das mulheres brasileiras como um movimento que surge de forma independente. Ela destacou como Jair Bolsonaro pôs em seu governo aliados da cruel ditadura militar que o Brasil sofreu, como ele declara admiração pelo torturador Carlos Alberto Ustra e é totalmente antipovo, parece viver em um país que não tem a realidade que o Brasil vive e sempre viveu: de exploração dos povos e do próprio solo pelos estrangeiros, o que culmina no agravo da crise social ambiental. Ele tem como projeto “abrir as portas” (vender) do Brasil para as empresas internacionais.

Natália propôs a construção de uma rede de solidariedade internacional que seja um pequeno passo para combater a extrema-direita no mundo e os retrocessos políticos, sociais e econômicos que os povos vêm sofrendo.

Ariana Guajer, da Resistencia Estudantil, destacou a violência contra as mulheres na Nicarágua. O país é liderado por um presidente denunciado por pedofilia pela própria filha, em 1998. Daniel Ortega permite que a Nicarágua seja explorado por mineradoras, expropriando as mulheres de suas terras e de suas antigas ocupações. Lá, uma mulher que sofre abuso e precisa denunciar deve entrar em contato com o líder religioso da região e possíveis acordos devem ser mediados em conjunto com o agressor. Em 2016, uma mulher foi presa por ser considerada “possuída pelo demônio”. Os nove filhos de Daniel Ortega são donos dos meios de comunicação do país, o que faz refletir sobre o real motivo de o país ter sido eleito o 6º melhor país no mundo para uma mulher viver.

Ao mesmo tempo em que os países que compõem o G20 pautam direitos humanos e sustentabilidade, atacam cruelmente essas duas esferas. Nossa oposição se faz necessária e se mostra potente nesse encontro de povos da América Latina, região do mundo que há mais de 500 anos sofre e resiste frente a insistência dos saqueadores que fincaram seus dentes aqui. O capitalismo se beneficia com o trabalho não remunerado das mulheres,  jogando-as à margem. Por isso é preciso uma frente de resistência radical democrática internacional.

 

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