Dia caótico na Linha 5 – Lilás do metrô SP reflete problemas da privatização

Por: André Cabelo, diretor do Sindicato dos Metroviários de São Paulo

Por que a gestão privada falha no Metrô do Capão?

Vagão da linha 5 lotado | página Capão Atento.

O ano de 2018 representou dois marcos para a Linha 5 – Lilás do Metrô. Em agosto, se tornou a primeira linha da Cia do Metropolitano de São Paulo a ter sua operação repassada à iniciativa privada e em outubro, finalmente, teve seu traçado completo entregue com as aguardadas integrações com as Linha 1- Azul e 2 – verde nas estações Santa Cruz e Chácara Klabin respectivamente, após 20 anos de idas e vindas de intermináveis obras (A estação Campo Belo continua em obras com previsão de entrega apenas em dezembro de 2019).

A operação e manutenção da Linha 5 – Lilás são realizadas pela ViaMobilidade, concessionária formada majoritariamente pela empresa CCR e com participação do grupo Ruas, proprietário de 16 empresas de ônibus no Estado de São Paulo. O conglomerado CCR possui a concessão de dezenas de rodovias pelo país, administra alguns aeroportos, opera o Metrô de Salvador e repete a parceria com o grupo Ruas na gestão da Linha 4 – Amarela do Metrô de São Paulo, através da subsidiária ViaQuatro.

Na Linha 5 Lilás, que liga o periférico e densamente povoado bairro do Capão Redondo à estação Chácara Klabin, região mais centralizada da cidade na rota da Avenida Paulista, a operação privada vem apresentando constantes falhas de operação, provocando transtornos para centenas de milhares de trabalhadores que utilizam a linha diariamente. Foi o caso, mais uma vez, na última terça-feira, 13, quando no período da tarde usuários relataram grandes filas nas entradas de estações, viagens que normalmente duram 15 minutos passarem de uma hora, falhas no ar-condicionado dos trens em um dia que os termômetros marcaram mais de 30° na capital paulista e falta de comunicação e organização da concessionária ViaMobilidade perante os problemas operacionais.

A página do facebook “Capão Atento” noticiou em tempo real o dia caótico na Linha 5 – Lilás com 4 posts de alerta aos usuários. Essas postagens registraram mais de 150 comentários de seguidores da página, em sua grande maioria relatando a demora para entrar nas estações e nos deslocamentos dos trens. Outros comentários atentavam para a reincidência dessas falhas nas últimas semanas.

As redes sociais, aliás, se tornaram um importante canal de informação para os usuários da Linha 5 – Lilás, já que se nota uma curiosa ausência de notícias sobre panes e falhas das linhas de operação privada na grande mídia. Apenas sites especializados em transportes urbanos noticiaram a terça-feira de transtornos

na ViaMobilidade. Os maiores portais de notícias raramente abordam os problemas de operação das linhas concedidas à CCR e quando relatam, apresentam de forma genérica “mais um dia de falhas no Metrô” omitindo ou relevando a concessão privada e buscando esclarecimentos apenas dos órgãos públicos, como a Secretaria de Transportes Metropolitanos.

“Problemas operacionais”

Segundo o portal ViaTrolebus, os avisos sonoros nos trens se resumiram a informar “problemas operacionais” como motivo das paralizações e viagens mais longas de terça. O site Rede Noticiando procurou a assessoria de imprensa da concessionária não obtendo respostas até o fechamento da matéria.

CBTC: calcanhar de Aquiles da Linha 5 – Lilás.

A concessionária ViaMobilidade omite aos usuários o principal motivador das constantes falhas da linha: o novo sistema de comando e controle dos trens, o CBTC, sigla em inglês para sistema de Controle de Trens Baseado em Comunicação. Esse sistema que, resumidamente é responsável por permitir maior aproximação entre os trens, está servindo de requisito para privatização das linhas de Metrô em São Paulo.

A linha 4 – Amarela foi a primeira a utilizar essa tecnologia no Brasil tem menor incidência de falhas porque foi construída já com o CBTC e não passou por uma alteração de sistemas, além disso, a diferença do número de

passageiros transportados vem demonstrando que a iniciativa privada está despreparada para assumir uma linha de alta demanda.

A demanda de usuários ajuda a explicar a vitória da CCR no leilão de concessão da Linha 5 – Lilás. A Folha de S. Paulo publicou matéria em setembro apresentando estimativas do Metrô para reorientação de fluxos. A estação

Pinheiros da Linha 4- Amarela/CCR teve seu público por hora reduzido em 37% no pico da manhã. Por outro lado, a Linha 5 – Lilás passará dos 320 mil para 850 mil usuários por dia.

O Sindicato dos Metroviários de SP, inclusive, havia alertado para o direcionamento do leilão em benefício à CCR meses antes do leilão, já que um dos requisitos para participar do leilão era o de possuir experiência em operação de metrô para mais de 400 mil usuários por dia. Característica que além, do Metrô do Rio, apenas uma empresa privada atende no Brasil: a CCR.

Precarização do trabalho e aumento das tarifas como indutores de lucro para empresas privadas.

Como forma de maximizar seus lucros, a CCR tem um quadro de funcionários extremamente reduzido nas linhas de metrô que administra. Além disso, o acúmulo de serviços é o padrão para os funcionários. Reflexo dessa condição são os comentários de usuários lamentando a falta de funcionários nas estações para orientações em momentos de transtornos.

Os baixos valores pelos quais a CCR arrematou as concessões das Linhas 5 e 17 e as condições do edital de licitação que a favoreceu são fortes motivos para questionarmos essa privatização. A indignação dos usuários com as falhas rotineiras é justa e deve servir como propulsão de uma campanha forte e unitária entre a população e os metroviários contra mais privatizações no sistema metroferroviário de São Paulo. Transporte não é mercadoria!

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