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  • Ciro Gomes: o voto útil que alimenta a regressão política

    Nas eleições presidenciais, muitas pessoas que se identificam com o amplo campo político da esquerda optaram pelo voto em Ciro Gomes, julgando que se tratava do candidato com mais chances de derrotar Jair Bolsonaro no segundo turno. Sem dúvidas, essa opção era motivada tanto por uma importante percepção do perigo representado pelo candidato do PSL, quanto por um saudável instinto de autopreservação da própria esquerda. Não há dúvidas de que derrotar Bolsonaro deveria ser uma prioridade de toda a esquerda e das forças democráticas nessas eleições. Em um eventual segundo turno, o voto útil era um imperativo.

    Entretanto, a antecipação dessa movimentação para o primeiro turno foi guiada por um raciocínio que absolutizava um dado limitado (os índices em pesquisas que simulavam o segundo turno) e operava nos marcos temporais do calendário eleitoral. Tal raciocínio esquece que, na política, as situações não são imutáveis e o tempo não é estanque. O que hoje se apresenta de uma forma, amanhã pode já ser diferente, e cada ação é parte de um encadeamento cujo fim não pode ser previsto de antemão. Por isso, escolhas feitas em determinados momentos com objetivos limitados e imediatos possuem consequências que podem superar em muito as intenções que as motivaram.

    Nesse sentido, é importante perceber como Ciro Gomes tem se servido da força conferida por sua expressiva votação (pouco mais de 12% dos votos válidos) para impulsionar um projeto político burguês extremamente limitado.

    O oportunismo nas eleições

    Já no primeiro turno da disputa eleitoral, Ciro deu mostras de que o combate a Bolsonaro não era uma prioridade de sua estratégia. Sua postura inicial foi a de não confrontar diretamente Bolsonaro, tratando-o como um candidato equivalente aos demais. Esse comportamento contribuiu para normalizar o candidato neofascista aos olhos do eleitorado desde os primeiros momentos da disputa.

    Com a evolução da campanha, entretanto, se relocalizou e passou a reproduzir em declarações públicas o argumento de que Bolsonaro e PT constituiriam ameaças similares ao regime democrático brasileiro. Com essa movimentação, buscou se aproveitar de forma oportunista do sentimento antipetista de teor reacionário que possui força em parcela importante da população.

    No segundo turno, sendo coerente com sua trajetória oportunista (já foi filiado a sete partidos e participou de governos com distintas orientações ideológicas), seu posicionamento foi inteiramente guiado pela lógica da autopreservação em detrimento do compromisso com a derrota da extrema-direita. Assim, não apenas deixou o país poucos dias após o primeiro turno, como evitou qualquer declaração enfática de voto em favor de Haddad. Dessa forma, fortaleceu a tendência de parte de seu eleitorado no sentido do voto nulo ou, até mesmo, da migração para Bolsonaro.

    O projeto cirista no pós-eleições

    Uma vez terminado o pleito, Ciro tem desfrutado de grande espaço nos principais veículos da mídia empresarial (impressa e televisiva) para batalhar por seu projeto pessoal de se tornar a principal figura da oposição a Bolsonaro. Em termos da sustentação política, esse projeto aposta em uma ampla composição de forças no Congresso que poderia abarcar parlamentares de PDT, PSB, PCdoB, Rede, PSDB e DEM. Ou seja, para alcançar o objetivo declarado de evitar que o PT desfrute de algum protagonismo na futura oposição, Ciro aposta na articulação com forças organicamente vinculadas a algumas das mais poderosas frações burguesas atuantes no Brasil.

    Além de desprovido de qualquer vinculação direta com a classe trabalhadora, o projeto cirista caracteriza-se por um esforço deliberado de confinamento das suas principais ações políticas ao espaço institucional do parlamento, reduzindo a importância dos movimentos sociais. Não à toa, em entrevista recente ao jornalista Roberto D’Ávila, ele criticou diretamente as ocupações promovidas pelo MST, indicando que as mesmas seriam ilegais. Mais uma vez, trata-se de uma tentativa de pegar carona em uma posição conservadora que ganha espaço a partir das ações de Bolsonaro e da extrema-direita, para fortalecer o seu próprio projeto político.

    Do ponto de vista programático, o oportunismo e o institucionalismo de Ciro estão a serviço de um projeto marcadamente burguês, confinado aos limites do capitalismo dependente brasileiro. Com efeito, economicamente, não vai além das críticas ao setor financeiro, defendendo uma variante do neodesenvolvimentismo. E, em termos políticos, o que oferece é uma oposição propositiva, que se recusa a encarar o governo neofascista de Bolsonaro como uma ameaça imediata aos direitos e liberdades democráticas.

    Por uma oposição radicalmente contrária a Bolsonaro

    Diferentemente do proposto por Ciro, defendemos um projeto de construção de uma oposição radicalmente contrária ao governo Bolsonaro, que seja constituída a partir da frente única das organizações e movimentos dos explorados e oprimidos. Longe de apostarmos em arrivistas eleitoreiros, entendemos que apenas um forte ciclo de mobilizações pode segurar a ofensiva burguesa e conservadora e derrotar a extrema-direita organizada em torno de Bolsonaro. É, também, no bojo de tais mobilizações – e não pela tentativa de aproximação em relação a posições reacionárias – que será possível fortalecer um polo que aponte para a constituição de um novo ciclo político, superando os limites da estratégia petista de conciliação de classes.

    Esses pressupostos da intransigência frente a extrema-direita, da independência política dos subalternos e da ênfase na mobilização e na ação direta estiveram na base da candidatura presidencial de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, fruto da aliança PSOL/PCB/MTST/APIB. Como entendemos que luta eleitoral e luta social são parte de um mesmo processo, estivemos envolvidos na construção dessa aliança e defendemos a sua manutenção para dinamizar as mobilizações do próximo período.

    Foto: EBC.

  • Quem perde com a saída dos médicos cubanos do programa Mais Médicos?

    O programa Mais Médicos foi instituído em 2013, na gestão de Dilma, com o intuito de fazer chegar saúde pública e alcançar o princípio de Universalidade do SUS (garantia de acesso a todos os cidadãos, ainda distante).

    Em tempo, o Mais Médicos se somou a um conjunto de ações e iniciativas do governo para o fortalecimento da Atenção Básica do país. A Atenção Básica é a porta de entrada preferencial do Sistema Único de Saúde (SUS), que está presente em todos os municípios e próxima de todas as comunidades. É neste atendimento que 80% dos problemas de saúde são resolvidos, evitando agravos à saúde e também sendo uma fonte de economia ao sistema de saúde, já que contem em si um conceito de ”elevada complexidade e baixa densidade tecnológica“, ou seja, é capaz de resolver grande parte dos problemas de saúde, inclusive de evitar o aparecimento de alguns (já que também atua na promoção e prevenção da saúde), e são necessários muito menos recursos tecnológicos se comparado a um hospital de média e alta complexidade.

    Atualmente o programa conta com cerca de 18 mil profissionais, sendo 8500 médicos cubanos e 8459 médicos brasileiros formados no Brasil ou no exterior e 483 estrangeiros de outros países. Os médicos cubanos estão em 2885 municípios do país, sendo a maioria nas áreas mais vulneráveis: norte do país, semiárido nordestino, cidades com baixo IDH, saúde indígena e periferias dos grandes centros urbanos. 1575 desses municípios só possuem médicos cubanos, 700 deles tiveram um médico no próprio município pela primeira vez. Existem 300 médicos cubanos atuando nas aldeias indígenas (DSEIs), isso representa 75% dos médicos que atuam na saúde indígena de nosso país. Os locais onde os cubanos atuam foram oferecidos antes a médicos brasileiros, que não aceitaram trabalhar lá. Em 5 anos de Mais Médicos nenhum edital de contratação de médicos brasileiros conseguiu contratar essa quantidade de profissionais, o maior edital contratou 3 mil.

    É óbvio o impacto dessa retirada para a população brasileira. Para a população dos principais bolsões de miséria e vulnerabilidade. Saúde publica é sim sujar o pé de lama, diferente do que disse Lincoln Lopes, o tal indicado a ministro por algumas entidades médicas que apoiam o presidente eleito.. esse senhor disse que “nenhum médico é obrigado a sujar o pé na lama”.

    Obrigado ninguém é a nada, inclusive os médicos cubanos que aqui estavam prestando uma ajuda humanitária ao Brasil, estavam por terem outro entendimento de saúde publica, um entendimento de cooperação internacional humanitária, como os que os moveram a prestar ações no Haiti, Venezuela, África e atualmente em 67 países. Como disse em nota o ministério da saúde cubana em 55 anos se cumpriram 600 mil missões internacionais, disponibilizando cerca de 400 mil profissionais de saúde e destacando ações e impactos como a luta contra o ébola na África, a cólera no Haiti, entre diversas ações do contingente internacional de médicos especializados em grandes desastres e epidemias.

    As condições impostas por Jair Bolsonaro e a campanha elitista, racista e xenófoba que vêm sendo travada muitas vezes por médicos e entidades médicas brasileiras contra esses colegas que prestam todo esse serviço ao nosso país é vergonhosa.

    É vergonhosa porque não é verdade que a preocupação desses colegas se baseiam na qualidade de assistência ou na preocupação caridosa com essa população. Se fosse verdade se baseariam nas pesquisas que já existem sobre o impacto EPIDEMIOLÓGICO dos médicos cubanos não só no PMM, mas também em suas outras ações expedicionárias, se fosse ainda um gesto de solidariedade e preocupação com o aumento salarial desses profissionais teríamos visto nos últimos anos campanhas de solidariedade e de reivindicação nesse sentido a esses companheiros, e o que vimos foi uma extensa campanha de boicote e medo de “perder valor de mercado”, a revelia da opinião da população inclusive.

    Nao é verdade que é plausível a ditas “exigências“ de Bolsonaro, sabe por que? Por que significa deslegitimar a formação desses companheiros, em conjunto com uma campanha de ódio a Cuba e ao que ela representa que já existe e que contaminou a população brasileira, e retirar a parte do acordo que dá a Cuba a possibilidade de financiar outras ações expedicionárias a outros países. Vocês sabiam por exemplo que grande parte dos 50% que ficam em cuba do salário desses médicos é devolvido a eles quando eles retornam ao país? E tem sim o intuito de fazê-los retornar e movimentar a economia local. Assim como existem milhares de bolsas da CAPES onde depois que você faz um doutorado fora do país você tem que retornar ao país e ficar pelo menos 3 anos aqui, é parte de um retorno científico do investimento público feito em você.

    Não há milhares de cubanos ”escravizados” e obrigados a trabalharem no PMM, é o racismo de grande parte dos médicos brasileiros que não admitem enxerga-los como colegas de trabalho. Eles são e sabem muito de saúde pública, porque não vêm na saúde uma simples relação de trabalho e sim uma relação humana.

    Deixo minha singela homenagem ao querido colega Jean Philipe, que é brasileiro e se formou em Cuba e com quem tive a oportunidade de trabalhar numa dessas periferias do grande centro. Amigo que me ensinou muito e muito com o pé na lama.

    Quem perde é sem dúvida os cerca de 63 milhões de pessoas atendidas por esse programa. Essas pessoas precisam se mover.

     

    FOTO: Livro Mais Médicos. Foto de Araquém Alcântara. O doutor cubano Jean-Gardy Merceus, do “Programa Mais Médicos”. Manacapuru (AM). Brasil, 2015.

  • Estudantes da UFBA impedem MBL de fazer ato em local de homenagem à Marielle

    Na noite de terça-feira, 13, um pequeno grupo com nove integrantes do MBL foi até o campus Ondina da UFBA (Universidade Federal da Bahia) com um objetivo: fazer provocação. Esse grupo, que considera os partidos de esquerda como organizações criminosas e seus militantes como alvo do seu ressentimento social, foi até a universidade realizar um “enterro do PT”.

    E pior, pretendiam realizar o tal enterro no local onde os estudantes da universidade haviam feito uma intervenção artística muito simbólica, ficando várias cruzes em homenagem à vereadora Marielle Franco e a várias outras mulheres guerreiras que tombaram na luta ou que foram vítimas de feminicídio. Os integrantes do MBL sabiam exatamente do que se tratava a intervenção artística.

    Em um vídeo transmitido pelo MBL, seu coordenador coordenador geral fala: “descobrimos que aqui tem um cemitério de feminicídio feito pelas meninas e que botaram um caixão de Marielle…essa Marielle tá morta, mas anda mais que ônibus de rota…tem caixão dela até aqui na Bahia…” Neste momento, a única mulher entre os nove manifestantes sorri. O líder do MBL continua: “então nós vamos fazer o enterro do PT ali porque nada melhor do que enterrar onde já existe um cemitério”

    Por coincidência ou não, a provocação ao PT e à memória das mulheres assassinadas foi feita na véspera de se completar oito meses da execução de Marielle Franco.

    Felizmente, estudantes que estavam no dia se organizaram e, de forma espontânea e corajosa, impediram que o MBL concretizasse o seu ato. De mãos dadas os estudantes fizeram um cordão de isolamento, evitando que o MBL fizesse escárnio com um local onde se fez uma homenagem a várias mulheres que lutaram contra o machismo, o racismo e por uma sociedade igualitária. O movimento ainda tentou realizar o “enterro” ao lado, mas teve os caixões retirados.

    Em nome de uma pretensa “pluralidade” de ideias, o que os nove integrantes do MBL foram fazer foi uma provocação barata a esquerda e um verdadeirao atentado a memória de Marielle, semelhante aos candidatos do PSL que retiraram e quebraram uma placa com o nome da vereadora. Buscando alguma agressão, que não aconteceu, restou aos membros do MBL encerrarem o seu “protesto” e se retirarem.

    Foi a segunda derrota do MBL na mesma semana. No dia anterior, realizaram um protesto em frente ao Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, denunciaram a “doutrinação” dos alunos e em defesa do Projeto Escola sem Partido. O ato também não reuniu mais do que alguns poucos apoiadores do movimento, que se revezaram no carro de som. Alunos e professores permaneceram do lado de dentro do Pedro II, sem cair na provocação do grupo. Representantes de sindicatos, entidades e uma parte da comunidade escolar permaneceu do lado de fora, e mesmo assim, foi superior ao “ato” do MBL. O protesto foi encerrado de forma melancólica, com o carro de som parando de funcionar e com o grupo deixando o local, abafado pelas palavras de ordem dos estudantes de dentro e fora da escola.

    As universidades e escolas devem continuar sendo um espaço que abrigue e estimule o livre debate de ideias, de maneira diversa e plural. E jamais um local onde ganhe espaço a deliberada confusão entre liberdade de expressão e a “livre manifestação de ódio e preconceito” que é a prática do MBL e de outros grupos.

    Para defender a democracia, a tolerância e a liberdade, é preciso ser firme contra aqueles que as ameaçam. Nenhuma liberdade aos inimigos da liberdade.

     

  • 174 anos depois, o ‘espírito de Porongos’ ainda alimenta a elite gaúcha

    O 14 de novembro de 1844 é a marca maior do racismo que impera em terras gaúchas. Desarmados pelo General David Canabarro, mais de uma centena de combatentes do destacamento dos Lanceiros Negros foram executados pelas tropas imperiais, sob o comando do Barão de Caxias.

    Publicada em 1983 nos anais do Arquivo Histórico Gaúcho, a carta de Caxias (recentemente classificado como pacificador pelo novo presidente do Brasil), revela o acordo espúrio entre os farrapos e o Império:

    “No conflito poupe o sangue brasileiro quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda nos pode ser útil no futuro. (…)
    Não receie da infantaria inimiga, pois ela há de receber ordem de um Ministro e de seu General-em-chefe para entregar o cartuchame sobre pretexto de desconfiança dela. Se Canabarro ou Lucas, que são os únicos que sabem de tudo, forem prisioneiros, deve dar-lhes escapula de maneira que ninguém possa nem levemente desconfiar (…)”.

    O mito do abolicionismo farroupilha

    O Art. 6° da Constituição Farroupilha definia como cidadão rio-grandense “todos os homens livres nascidos no território da República”, abrindo exceções diversas, mas que não incluíam a população negra.

    Sabemos que as reivindicações farroupilhas perpassavam, essencialmente, o fim dos impostos sobre terras e a entrada e saída de gado na província. A importância das charqueadas na economia tornava a exploração do negro a “forte argamassa que consolidava a unidade das elites”, nas palavras do historiador Mário Maestri. A divisão populacional de Pelotas, em 1833, exemplifica a intensidade do escravismo então região estratégica da pecuária: entre 10.872 habitantes, 5.623 eram escravizados.

    Do século XVII até o final da escravidão, a utilização de escravos em guerras senhoriais e na contenção de revoltas dos subalternos foi uma prática comum. Os Lanceiros Negros representavam um batalhão diferenciado não apenas pela sua bravura, mas, devido a restrição de direitos imposta como a impossibilidade de portar as cores da República em seus chapéus, o fato de comerem e dormirem separados do restante da tropa e em piores condições, a obrigação de fazer a linha de frente nas batalhas desprovidos de montaria, entre outros elementos.

    Os escravos representavam, em 1839, aproximadamente 20% das tropas (952 homens). Se levarmos em consideração que a guerra como um todo vitimou, em 10 anos, cerca de 3 mil pessoas, podemos ter ideia do peso dos mortos negros nessa quantia.

    Além do massacre cruel em Porongos, o período pós-guerra também foi marcado pela perseguição aos escravos. Como consta no livro “Pessoas comuns, histórias incríveis: a construção da liberdade na sociedade sul-riograndense”, em 1849, cerca de 378 senhores elaboraram uma lista que somava quase 1000 fugitivos para localidades como Corrientes (Uruguai) e Entre Rios (Paraguai), onde a escravidão já havia sido abolida.

    Como bem nos lembra Maestri, quando Bento Gonçalves morreu, em 1847, seus herdeiros ficaram com mais de 50 de homens escravizados. Ou seja, a postura do líder máximo da revolução desnuda o mito abolicionista dos farrapos.

    O “espírito de Porongos” segue vivo

    174 anos depois, o espírito racista da elite gaúcha está mais vivo do que nunca. O que dizer das declarações de ódio proferidas por Edson Brozoza (Asilo Padre Cacique) contra o Quilombo da Família Lemos, que tem na sua história homens e mulheres que serviram a vida inteira à manutenção dessa instituição? Após décadas de trabalho, o descarte ocorre com requintes de crueldade.

    Aqui, o mito da democracia racial combina-se com o espírito traidor e mentiroso de quem insiste em afirmar que “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. Mas, cuidado, hoje tambores vão ecoar por todo o estado,  a memória dos Lanceiros é ação nos corpos de negras e negros em luta pelo direito a vida e a liberdade em tempos de neocolonização.

  • A chave do Bolsonarismo

    Sem cair num mecanicismo estreito, a chave da situação política e do futuro governo Bolsonaro, em larga escala, aparece com certa nitidez nos depoimentos e nas manifestações do presidente eleito, dos seus filhos e dos seus associados políticos e, não raro, o discurso bolsonarista se põe em harmonia político-estratégica com declarações como as do general Villas Bôas, que anunciou que o país esteve às portas de um levante militar em nome da continuidade da prisão de Lula. Mas, essa chave desponta também, particularmente, nas iniciativas em curso de constituição do póstero governo, como revelam as escolhas do general Fernando Azevedo e Silva para o Ministério da Defesa, do general Augusto Heleno para o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e do tenente-coronel da reserva da Força Aérea Brasileira (FAB) Marcos Pontes para a pasta da Ciência e Tecnologia.

    Evidentemente, o segmento militar não está sozinho. O empresariado e a alta burocracia civil do Estado, que desempenharam papel decisivo no golpe institucional que derrubou Dilma e pavimentou o caminho no sentido de ascensão da extrema-direita, estarão representados no futuro governo. Paulo Guedes e Sérgio Moro já estão confirmados como ministros da economia e da justiça, respectivamente. Não estamos diante de movimentos aleatórios, mas de movimentos conscientes que afinam o caminho do governo Bolsonaro com o militarismo, o ultraliberalismo antissocial e a plutocracia reacionária.

    Os que lutam por terra e por um meio ambiente saudável não poderiam encontrar maior antítese aos seus propósitos sociais e democráticos do que a nomeação da deputada federal do DEM Tereza Cristina para o Ministério da Agricultura. Aliás, o DEM ocupa espaço privilegiado no desenho do governo que se prepara para ser instalado no Planalto. A indicação do deputado federal Onyx Lorenzoni para Casa Civil não deixa dúvidas a esse respeito. A fisionomia de um governo retrógrado se esboça sem hesitar ou recuar.

    Essas iniciativas, contudo, seguem dividindo espaço com a inalteração da retórica agressiva do bolsonarismo. Não por acaso veio ao mundo a frase-síntese de Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do presidente recém-eleito: “Se for necessário prender 100 mil, qual o problema?” Como se fosse pouco, na ocasião o deputado afirmou que quer tornar o comunismo crime e tipificar o MST como terrorista. Os que imaginavam que os sujeitos dos enunciados eram meras personagens ansiosas em agradar o eleitorado cativo da retórica antipetista e antissocial, e que, portanto, tudo se equilibraria no pós-eleição, precisam – isso, sim, – restituir em si o estado de equilíbrio.

    Quem buscar com uma lupa aspectos progressivos no futuro governo que é o subproduto de um golpe institucional que redundou em uma eleição viciada, uma vez que o líder das pesquisas estava (e está) preso a mando do agora designado ministro da justiça, cairá no velho conto do vigário. Estará arquitetando uma história de burla e autoburla.

    É verdade que o condomínio dos Bolsonaros é constituído de distintas camadas, mas cada uma delas é um recuo na história, pois estamos falando de certo neoliberalismo com 40 graus de febre, pauta feroz contra a classe trabalhadora, militarismo, autocratismo, brutalização da política, intolerância, misoginia, racismo, homofobia e fundamentalismo religioso. Os que esperam desse edifício de camadas sobrepostas que ele possa abrigar algum elemento progressivo, com efeito, fiam-se em ilusões que, em lugar de servir as lutas de resistência que se esboçam, as podem conduzir a uma sinuca histórica, uma vez que a arquitetura desse edifício é a da reação em toda linha.

    Eis a chave do bolsonarismo. Entendê-la é fundamental para organizar as lutas de resistência, para que não se hesite quando o quadro político não contém em si a permissão à ambiguidade ou o deferimento à hesitação.

    Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
  • Dia caótico na Linha 5 – Lilás do metrô SP reflete problemas da privatização

    Por que a gestão privada falha no Metrô do Capão?

    Vagão da linha 5 lotado | página Capão Atento.

    O ano de 2018 representou dois marcos para a Linha 5 – Lilás do Metrô. Em agosto, se tornou a primeira linha da Cia do Metropolitano de São Paulo a ter sua operação repassada à iniciativa privada e em outubro, finalmente, teve seu traçado completo entregue com as aguardadas integrações com as Linha 1- Azul e 2 – verde nas estações Santa Cruz e Chácara Klabin respectivamente, após 20 anos de idas e vindas de intermináveis obras (A estação Campo Belo continua em obras com previsão de entrega apenas em dezembro de 2019).

    A operação e manutenção da Linha 5 – Lilás são realizadas pela ViaMobilidade, concessionária formada majoritariamente pela empresa CCR e com participação do grupo Ruas, proprietário de 16 empresas de ônibus no Estado de São Paulo. O conglomerado CCR possui a concessão de dezenas de rodovias pelo país, administra alguns aeroportos, opera o Metrô de Salvador e repete a parceria com o grupo Ruas na gestão da Linha 4 – Amarela do Metrô de São Paulo, através da subsidiária ViaQuatro.

    Na Linha 5 Lilás, que liga o periférico e densamente povoado bairro do Capão Redondo à estação Chácara Klabin, região mais centralizada da cidade na rota da Avenida Paulista, a operação privada vem apresentando constantes falhas de operação, provocando transtornos para centenas de milhares de trabalhadores que utilizam a linha diariamente. Foi o caso, mais uma vez, na última terça-feira, 13, quando no período da tarde usuários relataram grandes filas nas entradas de estações, viagens que normalmente duram 15 minutos passarem de uma hora, falhas no ar-condicionado dos trens em um dia que os termômetros marcaram mais de 30° na capital paulista e falta de comunicação e organização da concessionária ViaMobilidade perante os problemas operacionais.

    A página do facebook “Capão Atento” noticiou em tempo real o dia caótico na Linha 5 – Lilás com 4 posts de alerta aos usuários. Essas postagens registraram mais de 150 comentários de seguidores da página, em sua grande maioria relatando a demora para entrar nas estações e nos deslocamentos dos trens. Outros comentários atentavam para a reincidência dessas falhas nas últimas semanas.

    As redes sociais, aliás, se tornaram um importante canal de informação para os usuários da Linha 5 – Lilás, já que se nota uma curiosa ausência de notícias sobre panes e falhas das linhas de operação privada na grande mídia. Apenas sites especializados em transportes urbanos noticiaram a terça-feira de transtornos

    na ViaMobilidade. Os maiores portais de notícias raramente abordam os problemas de operação das linhas concedidas à CCR e quando relatam, apresentam de forma genérica “mais um dia de falhas no Metrô” omitindo ou relevando a concessão privada e buscando esclarecimentos apenas dos órgãos públicos, como a Secretaria de Transportes Metropolitanos.

    “Problemas operacionais”

    Segundo o portal ViaTrolebus, os avisos sonoros nos trens se resumiram a informar “problemas operacionais” como motivo das paralizações e viagens mais longas de terça. O site Rede Noticiando procurou a assessoria de imprensa da concessionária não obtendo respostas até o fechamento da matéria.

    CBTC: calcanhar de Aquiles da Linha 5 – Lilás.

    A concessionária ViaMobilidade omite aos usuários o principal motivador das constantes falhas da linha: o novo sistema de comando e controle dos trens, o CBTC, sigla em inglês para sistema de Controle de Trens Baseado em Comunicação. Esse sistema que, resumidamente é responsável por permitir maior aproximação entre os trens, está servindo de requisito para privatização das linhas de Metrô em São Paulo.

    A linha 4 – Amarela foi a primeira a utilizar essa tecnologia no Brasil tem menor incidência de falhas porque foi construída já com o CBTC e não passou por uma alteração de sistemas, além disso, a diferença do número de

    passageiros transportados vem demonstrando que a iniciativa privada está despreparada para assumir uma linha de alta demanda.

    A demanda de usuários ajuda a explicar a vitória da CCR no leilão de concessão da Linha 5 – Lilás. A Folha de S. Paulo publicou matéria em setembro apresentando estimativas do Metrô para reorientação de fluxos. A estação

    Pinheiros da Linha 4- Amarela/CCR teve seu público por hora reduzido em 37% no pico da manhã. Por outro lado, a Linha 5 – Lilás passará dos 320 mil para 850 mil usuários por dia.

    O Sindicato dos Metroviários de SP, inclusive, havia alertado para o direcionamento do leilão em benefício à CCR meses antes do leilão, já que um dos requisitos para participar do leilão era o de possuir experiência em operação de metrô para mais de 400 mil usuários por dia. Característica que além, do Metrô do Rio, apenas uma empresa privada atende no Brasil: a CCR.

    Precarização do trabalho e aumento das tarifas como indutores de lucro para empresas privadas.

    Como forma de maximizar seus lucros, a CCR tem um quadro de funcionários extremamente reduzido nas linhas de metrô que administra. Além disso, o acúmulo de serviços é o padrão para os funcionários. Reflexo dessa condição são os comentários de usuários lamentando a falta de funcionários nas estações para orientações em momentos de transtornos.

    Os baixos valores pelos quais a CCR arrematou as concessões das Linhas 5 e 17 e as condições do edital de licitação que a favoreceu são fortes motivos para questionarmos essa privatização. A indignação dos usuários com as falhas rotineiras é justa e deve servir como propulsão de uma campanha forte e unitária entre a população e os metroviários contra mais privatizações no sistema metroferroviário de São Paulo. Transporte não é mercadoria!