“Uma gravata de coração para um homem cordial”

Por: Paulo César de Carvalho*, de São Paulo, SP

No primeiro dia de 2017, no discurso da cerimônia de posse de João Dória na Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad “entregou” que estava transmitindo o cargo “como se fosse a um irmão”. O microfone amplificou as batidas confessionais do coração do quase ex-prefeito no ouvido do quase futuro prefeito para todos ouvirem, apesar de poucos terem escutado (a maioria costuma ouvir pouco e não escutar nada). Nem era preciso “estetoscópio” para “auscultar” os toques sintomáticos do discurso conciliador e diagnosticar – nos graves e agudos da “média diplomática” – o crônico quadro “cárdio-político” da colaboração de classes:

“Vou chamar o prefeito de ‘João’ porque temos uma relação cordial e amistosa há bastante tempo. Eu o prestigio hoje usando essa gravata que ganhei de presente dele e da esposa (…). É uma das mais bonitas que eu tenho”.

Para o leitor entender por que nosso “diagnóstico” recorre a metáforas “cardíacas” (como “coração”, “estetoscópio”, “auscultar” e “cárdio”), elas foram desencadeadas exatamente pela palavra-chave do pronunciamento de Haddad: o adjetivo “cordial” significa “do coração”, cuja origem latina é “cordis”. Como estamos lembrando a “relação cordial” entre Haddad e Dória, não dá para esquecer também (com o perdão do trocadilho) que “recordar” é “trazer ao coração”, “lembrar com o coração”: a memória da gravata que ganhou do tucano revela vínculos “afetivos”, mostrando que os dois políticos são amigos (ou pior, “irmãos”). Haddad, evidentemente, não reconheceria qualquer contradição nisso: para ele, a esfera pública não deve ser confundida com a vida privada; a política deve ser separada da amizade. Ou seja, para o “cordial” Fernando, o fato de Dória ser seu “adversário” político jamais serviria de argumento para justificar que não pudesse ser seu “amigo”: afinal, para ele, “política é política, amizades à parte”. Mesmo que possa parecer contraditório, na “dialética” oportunista é assim mesmo: nada pode impedir que um grande adversário seja um grande amigo. A síntese “relativista” do comedido Haddad pareceria menos absurda (ou um pouco mais convincente) nesta “média diplomática”: Dória não seria nem um grande adversário, nem João um grande amigo. Nessa perspectiva, o elogio da gravata – feito “de coração” pelo “homem cordial” – o ajudaria a atar as pontas entre o papel público e o privado, dando um nó górdio na contradição entre a política e a amizade. Em outros termos, é como se Fernando tivesse sido presenteado pelo “amigo” João, e não pelo “adversário” Dória (como se conseguisse nos enganar com essa manobra retórica demagógica refletida no “espelho de circo” do reformismo). Nas distorções semânticas do discurso do ex-prefeito “adversário” ao “amigo” prefeito, não haveria, pois, incompatibilidade entre “discordar” e “concordar”: não é por ser “adversário” que precisaria sempre discordar dele; ou, sendo “amigo”, deveria concordar sempre com ele. O problema, na verdade, não é ter uma concordância pontual com quem normalmente discordamos, ou uma discordância particular com quem geralmente concordamos: a questão central é que, para ser “amigo” (quase um “irmão”), é necessário que haja acordo (palavra da mesma família de “cordis”) quanto a princípios básicos (“concordar”, aliás, significa “juntar os corações”). Quando alguém – como Dória – esnoba os humildes, desrespeita os direitos humanos, defende a cruel exploração dos trabalhadores, não há como não discordar dele, “separando os corações” (a etimologia, novamente, é sintomática). Por isso, Haddad não deveria ter aceitado o presente dado por um inimigo dos trabalhadores (sem eufemismos, não se trata aqui de um simples “adversário”): como se não bastasse, para piorar, ainda teve o despudor de agradecer publicamente a gravata, dizendo que era “uma das mais bonitas” de sua coleção e que a estava usando na cerimônia para prestigiar o tucano, a quem tratou “como um irmão”. Para justificar o injustificável, desviando-se das comprometedoras implicações políticas do gesto, os petistas dirão que ele agiu dessa maneira porque é um homem “cordial”, nas amplas acepções vernáculas do vocábulo. Como se encarnasse o verbete, fazendo a palavra saltar do dicionário para a vida, Haddad seria a representação em carne e osso do homem “educado, agradável, civilizado, cortês, diplomático, gentil, polido, respeitoso, simpático, amigável, amistoso, terno, carinhoso, afável, afetuoso”. Os argumentos de seus defensores implicam a crença no mito do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda, segundo o qual a “cordialidade” seria “um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece viva e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano”. (HOLANDA, Sérgio Buarque de, “O Homem Cordial”, In: “Raízes do Brasil”. São Paulo: Companhia das Letras. 1995). A essas “visões do paraíso” do nosso “bom selvagem” dos trópicos, contrapõe-se esta crítica incisiva da fabricação ideológica do conceito, denunciando o seu ardiloso uso político para diluir “os conflitos de interesses das classes antagônicas” (como diria Marx):

“Não seria exagero concluirmos que o uso desta imagem da cordialidade do brasileiro tem sido utilizada pelas forças políticas (sobretudo na direita tradicional) e midiáticas como uma maneira de amortizar o engajamento das massas diante dos problemas estruturais da política institucional. Ao solidificar a ideia do homem cordial, retira-se do povo sua verve crítica/questionadora, que é uma das bases da mobilização política” (Cícero Nogueira, artigo para a pós-graduação em Sociologia Política na PUC-Rio, em 2017).

Para compreender a crítica às complexas implicações políticas do conceito de “homem cordial”, e como elas se manifestam no comportamento do “bom moço” do PT, é preciso deixar claro, em primeiro lugar, o seguinte pressuposto: não há um “caráter brasileiro” independente das condições materiais (objetivas) e espirituais (subjetivas); os “padrões de convívio” são definidos a partir das relações sociais, fruto de determinações históricas. Em segundo lugar, se a “cordialidade” é, de fato, um elemento ideológico característico da formação de nossa identidade nacional (na dialética dos 500 anos), não é por ser um traço distintivo do “caráter brasileiro”, mas a marca recorrente da dissimulação da classe exploradora: portanto, de sua “falta de caráter” (traço de seu “caráter de classe”). Aliás, não foi exatamente por meio do disfarce da “cordialidade” que o “senhor” (mal) tratava os antigos “escravos domésticos”, e que o patrão continua (mal) tratando as modernas “escravas domésticas assalariadas”, oprimindo e explorando seus serviçais de diferentes formas, ao mesmo tempo em que lhes parece “amistoso”, “de bom coração”? Lembrando as machadianas “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (para prestigiar Haddad, citamos o seu romance preferido), a relação entre o “nhonhô” e o escravo “Prudêncio” ilustra bem o funcionamento dessa perversa lógica de dominação “cordial”:

“Prudêncio, um moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, – algumas vezes gemendo, – mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um – “ai, nhonhô!” – ao que eu retorquia: – “Cala a boca, besta!”.

O trecho da obra mostra elementos importantes desse sutil mecanismo opressor: o menino negro não vivia na senzala, mas na casa-grande; na casa-grande, contudo, ele vivia em outra senzala. A linha de fronteira entre a casa-grande e a senzala é nítida, demarcando a oposição entre senhores e escravos, entre brancos e negros, entre opressores e oprimidos. Para os negros que “viviam” na casa-grande, porém, essas oposições pareciam diluídas, fazendo com que alguns escravos quase não se sentissem escravos, e que os brancos lhes parecessem “amigáveis”. Para as duas crianças das “memórias” do nosso “mestre na periferia do capitalismo” (título do belo ensaio de Roberto Schwarz sobre Machado de Assis), tudo parecia uma inofensiva brincadeira infantil, apesar de ser o menino negro “Prudêncio” quem sempre representava o papel de cavalo do menino branco “Brás Cubas”. Sob a máscara dessa “relação cordial, amistosa”, disfarçava-se a cruel desigualdade social, a brutal exploração. Sob a fina ironia do escritor mulato, revela-se o desdobramento desse mecanismo ideológico de alienação: Prudêncio, ao se tornar um homem livre, açoitaria seu escravo do mesmo modo que os senhores torturavam seus irmãos, sem consciência de que continuava sendo oprimido. Prudêncio não enxergava que jamais poderia ser (mesmo alforriado) um homem livre nessa estrutura social; que, para se emancipar, era preciso destruir a ordem política que regulava a lógica da exploração. Enfim, lembrando que o desejo de Prudêncio era ser “igual” ao seu opressor, vem-nos à memória um outro exemplo mais próximo, de uma famosa propaganda televisiva dos anos 80. Para ser mais preciso, a peça publicitária da marca US TOP é de 1984, ano da campanha das “Diretas Já”, e mostrava todos os funcionários de uma empresa vestidos como o chefe, à exceção de “Fernandinho”. Quando o patrão o vê usando uma camisa US TOP, diz a frase que se popularizou na época: “Bonita camisa, Fernandinho”. Apesar da atitude “simpática” (afável, gentil, polida, terna, respeitosa, agradável) do patrão, fazendo o elogio que deixaria “Fernandinho” tão aliviado quanto envaidecido, a aparente “relação cordial e amistosa” escondia (esconde) que, no fundo, todos os funcionários eram (são) iguais entre si – e sempre serão diferentes do proprietário da empresa. Aliás, até que não exista mais a distinção entre trabalhador e patrão, sempre haverá um chefe montado nas costas de um “Fernandinho” – como sempre houve um “Brás Cubas” cavalgando um “Prudêncio”. Posto isso, ainda que Haddad ame o livro e se chame Fernando, parece que ele não entendeu a “imoral” da história ao exibir orgulhoso a gravata presenteada por Dória, prestigiando o “chefe” na cerimônia de sua posse na Prefeitura de São Paulo. Se Haddad tinha (ainda tem?) “uma relação cordial e amistosa há bastante tempo” com João, sabia que ele é um empresário: alguém que representa, portanto, interesses diametralmente opostos aos dos trabalhadores. Não convence a desculpa esfarrapada dos petistas de que ele foi apenas “civilizado, cortês, diplomático, gentil, polido, respeitoso, simpático, afetuoso”, como se o seu discurso fosse uma mera e inofensiva formalidade: ou pior, como se a afável informalidade não produzisse efeitos práticos na consciência dos trabalhadores, inibindo a sua “verve crítica, questionadora”. Não é demais retomar a constatação do jornalista Cícero Nogueira, fundamentada na crítica do sociólogo Jessé de Souza ao poder alienante da mitologia do “homem cordial” na dinâmica da luta de classes:

“O uso desta imagem da cordialidade do brasileiro tem sido utilizada pelas forças políticas (…) e midiáticas como uma maneira de amortizar o engajamento das massas diante dos problemas estruturais (…)”.

Fazendo um trocadilho com a frase inicial, diríamos que a imagem do uso da gravata é uma síntese da imobilizadora ideologia da colaboração de classes, atando em um nó oportunista PT e PSDB, nas figuras de Haddad e Dória, como se não houvesse diferenças significativas entre os interesses dos trabalhadores e os dos patrões. O discurso do pelego “cordial” não demarca os campos entre os dois lados: na verdade, dilui as fronteiras que separam explorados e exploradores, selando a comunhão entre universos de valores inconciliáveis. Guardadas as proporções, é como se o tom “afável” de suas palavras induzisse “Prudêncio” a confiar em “Brás Cubas”, levasse “Fernandinho” a acreditar na sinceridade dos elogios do “chefe”. Não é possível que Haddad seja tão inocente, conhecendo tão bem Dória, a ponto de desejar-lhe uma ótima gestão, deixando a “Cidade Linda”. Como esperar, depois de chamar o povo a confiar no inimigo, que possa combater suas medidas cruéis, como dar “farinata” na merenda, tirar os cobertores de quem vive na rua? Como pode ficar “linda” a cidade sem seus grafites coloridos, toda coberta de cinza? Enfim, retribuindo a cordialidade do petista, terminamos com um elogio a ele: Bonita gravata, Fernandinho Haddad!

PS: Votei em Haddad contra o fascismo. Não tenho nenhuma ilusão com o PT faz tempo. Para não parecer implicância minha, vejam esse depoimento do “bom moço”, do político de “bom coração” que aperta a mão do diabo (lembram do Maluf?) e deseja boa sorte ao demônio (Bolsonaro). Com a palavra, o pelego:

“Estava muito sentido, fiz o discurso, que foi elogiado, mas quis só cumprimentar e desejar sorte quando meu coração estivesse aquietado, e foi o que eu fiz hoje. Eu desejo o bem do Brasil, de todos, que votaram em mim, que votaram nele [Bolsonaro]. Meu espírito democrático sempre vai falar mais alto”.

* Paulo César de Carvalho é militante da RESISTÊNCIA-PSOL.

Foto: Doria discursa durante a posse, em 01 de janeiro de 2017. Heloisa Ballarini / SECOM Prefeitura SP

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