A crítica à ditadura militar na obra da Legião Urbana

Por: Romulo Mattos

A mais conhecida banda da História do rock brasileiro abordou os militares e a ditadura por eles comandada em seu repertório, sempre de forma muito negativa. Tendo sido punk em Brasília, nos anos 1970, Renato Russo era alvo constante da repressão nas ruas e nas festas que frequentava com a turma de jovens da cidade que gostava de rock. Inclusive, sofreu agressão física cometida por um soldado ao tentar argumentar contra as arbitrariedades praticadas esse último. Certa vez, em um bar, pegou um microfone ligado ao amplificador e xingou a ditadura, o que foi uma atitude corajosa. E ainda viu canções de sua autoria censuradas por técnicos da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), sendo elas: “Baader-Meinhof Blues” (com Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos), “O Reggae” (com Bonfá), “Tédio (com um T bem grande pra você)” e “Dado Viciado”. [2] Depois liberadas, as duas primeiras foram incluídas em Legião Urbana (1985), a terceira em Que país é este 1978/1987 (1987) e a última no álbum Uma outra estação (1997).

Não foi por acaso que o combate à ditadura tenha aparecido nos discos da Legião. O artista confirmou em entrevistas ser em si muito do que escrevia.[3] “Que país é esse” é uma crítica direta à experiência dos militares no poder. Escrita por Renato em 1978, foi inicialmente tocada pela banda punk Aborto Elétrico, por ele liderada. O seu refrão é inspirado na indagação do então presidente da Aliança Renovadora Nacional (Arena, partido de sustentação da ditadura), Francelino Pereira: “Que país é esse em que o povo não acredita no calendário eleitoral estabelecido pelo próprio presidente?”. Essa frase de 1976 se referia à dúvida lançada pela oposição quanto à promessa do general presidente Ernesto Geisel no sentido de abrir gradualmente o regime de exceção, com eleição direta para governadores dali a dois anos.

A letra critica elementos caros à ditadura, como a questão social “Nas favelas” (que cresceram junto à explosão das megalópoles em tais anos) e “na Baixada Fluminense” (com os seus grupos de extermínio, que surgiram antes do Golpe de 1964, mas incrementaram a sua atuação depois dele); a iniquidade política representada por um Senado onde há “Sujeira”; o descrédito com a Constituição autoritária que “Ninguém respeita (…)”; o nacionalismo ufanista que levaria todos a acreditarem “no futuro da nação”, apesar do desalentador cenário; a visão negativa do país que integrava o Terceiro Mundo e era motivo para “Piada no exterior”; o genocídio indígena, que levaria o Brasil à riqueza caso todas as almas fossem vendidas “num leilão”, tendo em vista a construção de rodovias superfaturadas que conectavam longínquas regiões do país e faziam a felicidade das empreiteiras. Isso tudo, além de lembrar a resistência armada à ditadura “no Araguaia” e a luta de classes na subversão do trabalhador cujo sangue “anda solto” mesmo após a sua morte, e é capaz de manchar documentos secretos “Ao descanso do patrão” – naquela época o fenômeno do Novo Sindicalismo indicava a reorganização da classe trabalhadora.[4]

Mais amplamente, o questionamento de Renato era potencializado pela crise do “milagre brasileiro”, que propiciava a escalada da dívida externa e da inflação, se não bastasse o próprio arrocho salarial, que financiara internamente tal política econômica e, consequentemente, depauperara as condições de vida da classe trabalhadora. Essa indignada avaliação sobre o cenário nacional foi revalorizada segundo o contexto do ano de 1987, quando foi lançada ao grande público. A pergunta do título ganhou enorme força diante dos repetidos escândalos de corrupção, da crise decorrente do Plano Cruzado II – que levou à superinflação e a uma nova corrosão do salário mínimo –, da falta de legitimidade do presidente José Sarney – ex-dirigente da Arena, e que chegara ao poder ilegalmente na condição de vice de Tancredo Neves (morto antes de tomar posse) –, e da decepção com a Nova República, mais amplamente.

“Que país é este” é uma canção de três acordes – copiados de “I don’t Care”, (Ramones), de 1977 –, melodia simples e poesia crua, compatível com a aspereza musical evidenciada pela guitarra distorcida de Dado e influenciada pelo punk. A dramaticidade da interpretação vocal cresce nos versos que antecedem o refrão e explode nessa parte, com o questionamento político sendo realizado de forma gutural. A gravação chegou ao primeiro lugar do programa Globo de Ouro – que reproduzia semanalmente na televisão as paradas de sucesso das rádios nacionais –, ganhou o prêmio de melhor música de 1987 na votação dos leitores da Bizz (a revista de música mais importante do país), e contribuiu para que o LP Que país é este 1978/1987 atingisse o topo da lista dos mais vendidos, em março de 1988.[5]

O maior sucesso de álbum foi “Faroeste Caboclo”, que arrebatou um bloco inteiro do programa televisivo anteriormente citado, devido aos seus 9 minutos e 10 segundos de duração, o que foi considerado um marco da consolidação do rock brasileiro pela crítica especializada daquela época. A canção foi composta por Renato, em 1979, durante duas tardes, apesar de conter 159 versos. Essa facilidade foi relacionada pelo autor com o ritmo fácil na língua portuguesa, baseado na divisão do ritmo do repente.[6] Os diferentes momentos da trajetória de João de Santo Cristo são acompanhados por mudanças no ritmo da música, que oscila entre o sertanejo, o reggae e o rock. A letra faz referência ao abismo entre os mundos rural e o urbano no Brasil, enquanto a sua vida é atravessada pela violência, pela brutalidade das relações humanas e pelo preconceito classe e cor.[7]

Entre os trechos que justificaram a proibição de sua radio-fusão – contornada pelos programadores das FMs, que tomaram a iniciativa de editar os palavrões cantados –, encontra-se a crítica à covardia dos atentados terroristas praticados pelos militares da “linha-dura”, que promulgavam um discurso anticomunista e anticorrupção, e almejavam por maiores prazos para completar os expurgos iniciados em 1964 (a chamada “operação limpeza”).[8] Entre os exemplos mais conhecidos desse tipo de ação militar estão o Caso Para-Sar (plano de explosão do gasômetro da cidade do Rio de Janeiro, suspenso após a denúncia de Sérgio Macaco, incumbido por um brigadeiro de colocá-lo em prática), a carta-bomba enviada ao presidente da OAB e que matou a secretaria Lyda Monteiro da Costa, em 1980, e o frustrado Atentado do Riocentro, cujas bombas originalmente destinadas ao publico presente às comemorações do Dia do Trabalhador estouraram acidentalmente no colo dos militares terroristas designados para a missão, em 1981.

Na letra, o narrador observador revela a visita de um emissário ao personagem João de Santo Cristo: “O tempo passa e um dia vem na porta um senhor de alta com dinheiro na mão/ E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta/ Uma resposta de João”. Com o objetivo de acentuar a indignação do protagonista da história, esse assume o discurso na primeira pessoa, enquanto a parte musical transita para um rock mais pesado: “– Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança/ Isso eu não faço não/ E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa/ Com o cu na mão”/ E é melhor o senhor sair da minha casa/ Nunca brinque com um Peixes de ascendente Escorpião”. O narrador observador retoma o seu lugar para citar a promessa de retaliação feita pelo representante da ditadura, para, em seguida, ceder a palavra a esse último: “Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse: – Você perdeu sua vida, meu irmão”.

O tema da ditadura militar voltou a ser abordado pela Legião no álbum subsequente, As Quatro Estações (1989), o seu maior sucesso comercial (que conquistou o disco de platina, com mais de 2 milhões de cópias vendidas). “1965 (Duas tribos)” foi escrita por Renato, Dado e Bonfá, com um ritmo de rock intenso e a instrumentação básica desse estilo, composta por guitarra distorcida, baixo e bateria. No seu título há um recurso poético, que avança um ano na História brasileira para fugir ao óbvio e assim evitar a grafia do famigerado 1964.

A experiência da tortura é tratada nos versos em que a brutalidade da ação sofrida pelo narrador é inteligentemente contraposta pela ideia de normalidade, essa sugerida pela citação da estação do ano associada às férias e ao lazer – além da lembrança de que o mesmo tipo de atrocidade poderia ter acontecido aos seus familiares: “Cortaram meus braços/ Cortaram minhas mãos/ Cortaram minhas pernas/ Num dia de verão/ (…) Podia ser meu pai/ Podia ser meu irmão”. A letra também cita o extermínio de militantes de organizações de esquerda que empregavam a luta armada, enquanto o narrador lembra objetos lúdicos de sua infância – nesse ponto, poeticamente, Renato se refere à realidade de que os jovens estudantes engrossavam as fileiras do polo mais extremado da resistência à ditadura[9]: “Mataram um menino/ Tinha arma de verdade/ Tinha arma nenhuma/ Tinha arma de brinquedo/ Eu tenho Autorama/ Eu tenho Hanna-Barbera/ Eu tenho Pêra, Uva e Macã/ Eu tenho Guanabara/ E modelos Revell”.

Outra dimensão da ditadura vista na letra diz respeito à propaganda política ufanista, que amparava ideologicamente a repressão e buscava encobri-la:[10] “O Brasil é o país do futuro/ (…) Em toda e qualquer situação/ Eu quero tudo pra cima (…)”. Além disso, há a ideia de inversão de valores no Brasil desse período, relacionada com o estigma lançado contra os setores que se opunham ao arbítrio: “Quando querem transformar/ Dignidade em doença/ Quando querem transformar/ Inteligência em traição/ Quando querem transformar/ Estupidez em recompensa/ Quando querem transformar/ Esperança em maldição”. Por fim, o narrador cobra o posicionamento dos brasileiros diante da violência de Estado, apelando para o discurso bíblico: “É o bem contra o mal/ E você de que lado está?/ Estou do lado do bem/ (…) Com a luz e com os anjos”.

A canção mais inflamada da Legião contra os militares e a ditadura não foi um sucesso radiofônico, ao contrário de “1965 (Duas Tribos)”. Incluída no álbum Uma outra estação, o último da banda, a canção “La Maison Dieu” foi composta por Renato, Dado e Bonfá. Com ritmo arrastado, teclados fazendo a cama e guitarras pesadas carregadas de efeitos, lembra na primeira estrofe uma prática comum na ditadura: a deleção de opositores. Ao não aceitar ser um “dedo-duro”, o narrador indiretamente crítica essa prática dos setores da direita nos chamados Anos de Chumbo: “Se dez batalhões viessem à minha rua/ E vinte mil soldados batessem à minha porta/ À sua procura/ Eu não diria nada/ Porque lhe dei minha palavra”. Saltando para a quarta estrofe, vemos o narrador contando que pensou ter visto a sua morte, sendo essa uma personagem que lhe faz recordar os horrores da ditadura militar. Ela assume o discurso na primeira pessoa e aborda a brutalidade da tortura e das execuções perpetradas pelos militares: “Eu sou/ A pátria que lhe esqueceu/ O carrasco que lhe torturou/ O general que lhe arrancou os olhos/ O sangue inocente/ De todos os desaparecidos”. O realismo segue no trecho seguinte: “O choque elétrico e os gritos/ – Parem, isso dói”.

A estrofe mais ácida da letra é a sétima, em que há: o xingamento explícito à experiência do golpe de 1964 (chamado de “revolução” com o provável objetivo de zombar do vocabulário adotado pelos militares), e também às tropas e às altas patentes do Exército brasileiro; a ideia de manutenção de uma memória antibarbárie na sociedade; e a reprovação da Lei da Anistia, uma estranha figura jurídica que afirma uma falaciosa reciprocidade entre opositores políticos e agentes de Estado, através dos chamados “crimes conexos”.[11] Eis os versos: “Eu sou a lembrança do terror/ De uma revolução de merda/ De generais e de um exército de merda/ Não nunca poderemos nos esquecer/ Nem devemos perdoar/ Eu não anistiei ninguém”. A estrofe subsequente alerta para as continuidades da repressão e da ditadura, décadas depois, sendo possível que se trate de uma crítica à Polícia Militar, tendo em vista o emprego da palavra “uniforme”, no sentido do vestuário utilizado por uma determina corporação: “Abra os olhos e o coração/ Estejamos alertas/ Porque o terror continua/ Só mudou de cheiro/ E de uniforme”. Os últimos versos são perturbadores por soarem atuais e darem a entender que o mal estaria por chegar para os que continuassem vivos: “Eu sou a tua morte/ E lhe quero bem/ Esqueça o mundo, vim lhe explicar o que virá/ Por que eu sou, eu sou, eu sou”.

Além das contundentes críticas à ditadura militar, a Legião abordou a temática antiguerra e antimilitarista nas canções de Renato. “Soldados” (com Marcelo Bonfá) – com o significativo verso “A gente não queria lutar” –[12] e “A canção do senhor da guerra” – cujo personagem central “(…) não gosta de crianças” –, ambas de 1985, foram compostas e gravadas quando ainda existia ditadura. São, portanto, materiais culturais que indiretamente combatiam a presença dos militares no poder. Já “Plantas embaixo do Aquário” – com mensagem “Não deixe a guerra começar”, no refrão –, de 1986, estava, provavelmente, mais relacionada com o temor da eclosão de uma guerra nuclear entre os EUA e a URSS.

A reprovação da ditadura pelo letrista da Legião foi declarada em entrevistas. Em 1994, no Programa Livre, do SBT, ele disse:

“A gente se esquece que, até pouco tempo atrás, dependendo das ideias que seu pai tivesse, seu irmão, seu namorado tivessem, ia bater gente na sua casa, e eles iam pegar essa pessoa e você nunca mais ia saber o que tinha acontecido com essa pessoa. Ficou por isso mesmo e não se fala nisso. Tá uma coisa muito perigosa, eu acho, de tipo assim: ‘não, a gente era feliz naquela época’, tipo assim… Gente, eu não me lembro de ser feliz naquela época não. Fazer redação dizendo que o presidente era maravilhoso e muito tempo depois a gente descobre que pessoas estavam sendo mortas, sabe? Em nome de uma grande coisa que não se sabe o que que é. E eu acho isso muito péssimo”.

No mesmo ano, falou ao programa MTV no Ar: “E tem gente aqui no Brasil que está com esses papos de ‘ah, não, os militares têm de voltar’. (…) Será que esse povo esqueceu? (…) Será que nós esquecemos como é ruim não ter liberdade?”. Não obstante, referiu-se ao fascismo, sobre o qual acreditava ser necessário debater:

“Eu acho que a grande imprensa está vacilando, tá pisando na bola e tem grandes jornais aqui do Rio de Janeiro dando página inteira pra fascista e pra careca. Então faz aquela reportagem de moda, entendeu? ‘Não, é porque eu gosto de dar porrada, sabe qual é?’ Isso em reportagem de moda. Você lê aquilo e ninguém faz nada, sabe? É nazista em tudo quanto é canto. (…) Quer dizer, são sexistas, são intolerantes, são idiotas, e o problema é que são idiotas com ideologia. E, de repente, eu, como pessoa, como indivíduo e como artista, pra manter, eu achei que, pra eu manter a minha consciência tranquila, seria legal dar uma resposta a isso. (…) Eu acho que o importante é a informação. E a base do fascismo, e do preconceito e da intolerância, é a falta de informação”.

A prática política de Renato ia além dos combativos conteúdos presentes na Legião, uma vez que ele era militante dos direitos gays e eleitor da esquerda brasileira. Em 1989, ele manifestou intenção de voto em Roberto Freire, candidato do Partido Comunista Brasileiro, e em 1994, decidiu-se por Lula. Concluindo, o repertório musical resistente à ditadura não é composto apenas pelas importantes obras engajadas de compositores dos anos 1960 e 1970. Os materiais culturais da Legião, nas décadas de 1980 e 1990, podem ser acionados em eventuais tempos sombrios.

[1] Aos participantes da Domingueira Artística, Edição Festival de Música, da Escola SESC (2018).

[2] MARCELO, Carlos. Renato Russo: o filho da revolução. Rio de Janeiro: Agir, 2012. p. 284-86.

[3] MERCURY, Julliany. Uma legião de poemas. Revista Brasileira de Estudos da Canção, Natal, n. 3, 2013.

[4] Trecho levemente modificado de: MATTOS, Romulo Costa. “DJ Coxinha”: a apropriação do rock pelo movimento pró-impeachment. Blog Junho, 28 de março de 2016.

[5] MATTOS, Romulo Costa. “Que país é este”: a dupla historicidade de uma canção engajada do rock brasileiro. Blog Junho, 28 de jun. 2015.

[6] SIQUEIRA JÚNIOR, Carlos Leoni Rodrigues. Letras, músicas e outras conversas. Rio de Janeiro: Gryphus, 1995. p. 72.

[7] VILLA-LOBOS, Dado, DEMIER, Felipe, MATTOS, Romulo. Dado Villa-Lobos: memórias de um legionário. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015. p. 134.

[8] FICO, Carlos. “Espionagem, polícia politica, censura e propaganda: os pilares básicos da repressão”. FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (Orgs). O Brasil Republicano, v. 4. O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 198.

[9] RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Unesp/Fapesp, 1993. p. 66.

[10] FICO, Carlos. op. cit. p. 174.

[11] No caso dos primeiros, sempre se soube os crimes a eles imputados, assim como a maioria respondeu a processos na Justiça, enquanto no caso dos segundos nunca houve processo ou nomes oficialmente trazidos a público. Não obstante, a tortura é crime imprescritível e inanistiável. COIMBRA, Cecília Maria Bouças. Tortura ontem e hoje: resgatando uma certa história. Psicologia em estudo, Maringá, vol.6, n.2, 2001, p. 17.

[12] Nessa faixa, é possível enxergar a temática gay inserida em meio aos discursos antimilitaristas. Renato pacientemente explicava aos que se espantavam com essa afirmação que os dois meninos mencionados na letra descobrem que se gostam no campo de batalha. DAPIEVE, Arthur. Renato Russo: o trovador solitário. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 74.

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