Pastora de Natal (RN) repudia discurso de ódio e o apoio à Bolsonaro

Da redação, com Luana Soares, de Natal, RN

No dia 20 de outubro, a pastora Kácia Torres participou do ato em Natal (RN), por Direitos, pela Democracia e contra o Fascismo. Ela emocionou a todos no ato com um discurso em defesa da liberdade e defendendo o voto em Fernando Haddad e Manuela, e em Fátima (PT) para governadora do Rio Grande do Norte. Kácia é teológa, psicóloga e pastora da Igreja Cristã Maravilhosa Graça, que existe desde 2013 em Natal, buscando congregar todos aqueles que necessitam exercer sua espiritualidade livremente sem precisar explicar sua homoafetividade, e também heteronormativos e transgêneros. A pastora destaca que parte dos membros de sua Igreja “viveram o preconceito de serem homoafetivos e por muito tempo tentaram lutar contra quem eram e de conciliar isso ao sentimento de serem amados por Jesus”.

Neste texto para o Esquerda Online, ela analisa o cenário político, a escalada de ódio, preconceito e violência e discute as relações entre a fé e a política. “Deixo aqui meu total repúdio ao discurso de ódio, violência, preconceito, abuso e toda forma de coerção que vem sendo amplamente difundida por grandes nomes do cenário “cristão” nacional”, afirma. Leia a carta:


“Atualmente temos vividos dias caóticos no cenário político nacional. Estamos tendo o desprazer de acompanhar diariamente um lamaçal de ódio sendo derramado nas redes sociais e na vida real. Acompanho com tristeza e preocupação o arranjo político-econômico que tem se levantado como “possível solução” para os problemas do nosso país. Como líder religiosa, mulher, homoafetiva, sinto-me no dever de escrever pra vocês leitores meu posicionamento que se estende para minha família na fé, a Igreja que lidero.

Trago à memória uma série de mensagens de Charles Spurgeon, um famoso pregador do século XIX, intitulada Declínio, onde ele alerta a igreja da possibilidade de um declínio devido ao mundanismo. Já John MacArthur, famoso teólogo norte americano da atualidade, chama a atenção da igreja para uma possível falência devido à postura pragmática, postura essa que os lideres evangélicos brasileiros assumiram diante do cenário político nacional e tomam como solução para um país de 200 milhões de habitantes.

Para tanto eles veem disseminando um discurso de soluções simplistas e ao mesmo tempo abusivas para problemas profundos da nossa sociedade. O padre Tomaz Holik faz uma advertência sensata sobre o paradoxismo do reino de Deus. Ele nos lembra que esse reino vai contra toda esses falsos ideias que tem sido imposto por lideres em seus púlpitos. No reino onde a lei máxima é amar ao próximo como a si mesmo, é inadmissível conceber um discurso contrario a isso como sendo de Jesus.

Deus ama a humanidade e toda a sua diversidade. O lugar mais sagrado para o Senhor é o ser humano. Ele é criador de tudo que há sobre a terra, debaixo do céu. Cada um e cada coisa foi feita por Ele e por meio Dele subsistem. Por esse motivo não podemos enquanto filhos desse Deus aceitar nada que vá contra a integridade emocional e física da sua criação, que somos nós. Não se trata apenas da defesa de um grupo ou classe. Nosso discurso é em favor da vida e da raça humana em todos os aspectos. Por nós um homem inocente foi torturado, crucificado e morto numa cruz. Como seguidores desse mesmo homem, como podemos ser contrários à isso?

Como cristã, é inconcebível aceitar que digam que para resolver problemas como o da violência se mate em nome dela. Como seguidora de Jesus, não aceito colocar à margem aqueles que ele exaltou em seu ministério terreno. O seu reino é do mansos e não dos violentos, dos que desejam justiça e não dos que a fazem com as próprias mãos. Do pequenos, do que choram, dos humildes. Jesus andou com as minorias. Pregou para prostitutas, para samaritanos, jantou na casa de cobradores de impostos, curou mulheres que eram colocadas à margem de uma sociedade machista. Viveu em meio ao povo e não fez acepção. Era para TODOS seu ministério.

Munida disso e transbordante desse amor que encontrei em Jesus, deixo aqui meu total repúdio ao discurso de ódio, violência, preconceito, abuso e toda forma de coerção que vem sendo amplamente difundida por grandes nomes do cenário “cristão” nacional. Deixo também aqui meu desejo de que no próximo dia 28, independente da sua crença, da sua etnia, da sua orientação sexual ou gênero, que possam escolher alguém que represente a democracia, a liberdade, a possibilidade de um futuro melhor para o nosso amado Brasil. Que estejamos todos debaixo da proteção da potente mão do Senhor pois, nossa nação pertence à Ele.

A paz seja com todos!”

Kácia Torres, pastora da Igreja Cristã Maravilhosa Graça, Natal (RN)

Comentários no Facebook

Post A Comment