Atualidade das depressões na esquerda: reflexões sobre o medo e a esperança em tempo de barbárie

Por: Michelangelo Torres, professor do IFRJ e doutor em Ciências Sociais

“A cada dia a gente aprende uma qualidade nova do medo” (João Guimarães Rosa”).
“Andam desarticulados os tempos” (William Shakespeare)

O tema deste artigo é a relação entre a subjetividade da esquerda e o impacto da ofensiva reacionária no plano das consciências. Em tempos duros, de crise e turbulência nas alturas, em que elementos reacionários se intensificam na realidade política nacional, as incertezas emergem no horizonte. No último período, vivenciamos a transição para uma conjuntura reacionária, com elementos bonapartistas no regime, escalada autoritária e retirada de direitos historicamente constituídos. As ameaças às liberdades democráticas e à própria democracia se coloca em risco diante do perigo da ameaça neofascista: nas urnas e nas ruas. A pergunta que não quer calar: e se vier um governo Bolsonaro?

Nas redes sociais, a contra-informação e os fakenews cumprem o novo papel midiático de (de)formação de opinião pública. A campanha da chapa do candidato Jair Bolsonaro, puxada pelo PSL, promoveu notícias específicas para grupos de perfis particulares a partir do mapeamento de redes sociais e campanha milionária financiada por setores empresariais e não declarada ao TSE, conforme denúncias recentes. Steve Bannon, da Cambridge nalytica, responsável pela imagem eleitoral de Donald Trump, esteve diretamente envolvido nessa campanha.

Mas o que é, afinal, o neofascismo?

O fenômeno do neofascismo, o fascismo do novo tempo, guarda profundas relações com a extrema direita. Com uma cartilha ultrarreacionária contra os setores oprimidos e a esquerda militante, incluindo declarações públicas favoráveis a tortura, dispõe de apoio a grupos de extermínio e a ditadura militar. O neofascismo ganha força com o surgimento de facções e grupos paramilitares de agressão e extermínio terrorista, incluindo milícias armadas, impulsionados pela ideologia da extrema-direita. Essa corrente passou a adquirir audiência de massas no último período, saiu do subterrâneo da vida social. Ele encontra apoio, em grande medida, do mercado, a medida em que aponta para o desmonte do Estado e das políticas sociais, na lógica ultra-neoliberal do privatismo e da subserviência ao imperialismo (a despeito do discurso nacionalista). A crise econômica favoreceu sua emergência: um discurso reacionário para saída da crise. Nesse sentido, seu programa econômico encontra-se ainda mais a direita do que o neoliberalismo, posto seus elementos político-ideológicos.

Mas não foi apenas a extrema direita que ganhou audiência de massas (apenas considerando os resultados eleitorais de primeiro turno já é possível notar a influência de uma nova bancada parlamentar com mais peso de figuras de grupos como MBL e genéricos, militares e até mesmo um “príncipe” defensor da monarquia). O giro de setores pequeno-burgueses e de parte considerável da classe média à direita representou um movimento reacionário no plano ideológica da luta de classes. Ao mesmo tempo, enquanto a ultra-esquerda se isola consideravelmente das massas (e os resultados eleitorais expressam bem isso), a esquerda em geral (tanto a centro-esquerda, quanto a esquerda moderada e a esquerda socialista) se manifesta fragmentada para o enfrentamento com o projeto da direita e dos setores poderosos do capital no que se refere à mobilização dos trabalhadores.

Como lidar com o medo e o perigo da paralisia da ação.

Um fator decisivo de nosso tempo histórico é a subjetividade. Há, fundamentalmente, dois erros da esquerda diante da possibilidade de um governo Bolsonaro. O primeiro é subestimá-lo como mais um governo burguês que aplicará o programa do ajuste. Trata-se, conforme entendemos, de um projeto muito mais à direita e, portanto, reacionário. Quem não consegue diferenciar governos demonstra problema na análise, e por suposto, na resistência que se é preciso construir politicamente. O segundo erro, a nosso ver, é o desespero e o medo. É possível lutar, é preciso resistir. A dispersão e o medo, neste momento, são aliados poderosos ao neofascismo. Antes disso, precisamos nos encher de solidariedade e construir amplos espaços de unidade de ação, em defesa das liberdades democráticas e dos serviços públicos e sociais. Por isso, a criação de uma Frenta Ampla contra o Fascismo, envolvendo movimentos sociais, sindicalismo, partidos políticos e movimento estudantil faz-se imperiosa. E aqui, cabe todo mundo que será atacado no próximo período: das organizações classistas combativas ao peleguismo. Afinal, precisamos erguer uma muralha contra o neofascismo. Como já dissemos certa vez, na luta contra o fascismo somos todos camaradas. Não fazemos exigências às correntes que queiram compor essa frente, a não ser a disposição de unidade na luta. Independente de programas distintos, de estratégias distintas, sabemos contra quem lutamos.

A luta individual, independente, daqueles que lutam sozinhos, é bem vinda. Mas certamente são aqueles que apresentam de imediato o desespero diante do perigo de um governo Bolsonaro a partir de janeiro de 2018. Trata-se do sentimento de impotência diante do ódio de classe e violência promovidos pela barbárie, e reproduzido, inclusive, entre familiares e amigos em redes sociais e locais de trabalho. Mas não são apenas os ativistas individuais que estão em crise subjetiva. Parte considerável de militantes da esquerda tem apresentado intenso sofrimento psíquico. Trata-se dos impactos da crise política aberta desde o golpe-parlamentar de 2015 sobre a dimensão subjetiva dos trabalhadores. O medo, a insegurança e a dispersão não construirão os vínculos necessários para a resistência, mas a paralisia da ação. Uma armadilha para o neofascismo.

O conflito psíquico entre a razão e a emoção, entre o medo e a esperança, são temas demasiadamente conhecidos na psicanálise. Mas é sabido que a depressão está conectada com a temporalidade histórica, afinal trata-se de um sintoma social. O depressivo apresenta-se como indefeso, desprotegido, impotente diante da ação do mundo exterior que o assola. O abatimento e a inapetência ante os desafios que a vida possa vir a apresentar, tornam-no como objeto passivo, como uma criança fragilizada. Cresce a demanda por antidepressivos a fim de se enfrentar questões subjetivas por meio da medicação. Não entende a causa de seu sofrimento psíquico. Apenas a sente intensamente, de modo desmedido. Afinal, vive em outra temporalidade diante da velocidade e da “modernidade líquida”, em função de tempos desajustados do mundo capitalista em crise.

A depressão motivada por fatores políticos gera um estado de tristeza e dor de viver. Confesso que, de algum modo, o próprio processo mental da escrita deste artigo perpassa por essa angústia. Impressiona a quantidade de militantes e ativistas da esquerda desiludidos, quando não, adoecidos psiquicamente, notadamente entre a juventude. O medo pode provocar paralisia na ação, estimular desesperança. Não são poucos os militantes que têm me procuram solicitando contatos acadêmicos internacionais, diante de uma aposta de fuga do Brasil caso a hipótese de um governo Bolsonaro se consolide.

Para finalizar, lembro-me, aqui, de um filme espanhol que vem a calhar com o tema em foco. “A Língua das Mariposas” é uma produção fílmica espanhola belíssima e com lancinante atualidade para os duros tempos da conjuntura atual, marcada pela ascenção do reacionariamo e pela escalada autoritária sobre as liberdades democráticas. A película de José Luis Cuerda, ambientada em Galícia (norte da Espanha), narra a história da educação do protagonista Poncho e sua geração no início dos anos 30, às vésperas da Guerra Civil Espanhola, em contexto de ascenção do fascismo, e do professor Dom Gregório, inspirado em uma educação libertária. A construção da narrativa flui em meio ao clima de uma educação livre e libertadora contra a repressão, violência e autoritarismo de uma sociedade em que rebeldes fascistas se impõem cotidianamente contra o regime republicano. O “medo”, a indiferença ao outro e a conivência da covardia passam a ser a tônica que permite a prisão franquista aos “vermelhos”, incluindo a bela e trágica cena de desfecho do professor e seu aluno. Vale assistir.

Certa vez, Theodor Adorno perguntou: o que será preciso para que Auschwitz não se repita? Penso que essa pergunta permanece válida. Afinal, as condições sociais que permitem a conivência com a barbárie se avizinham.

Recentemente, um professor do Rio Grande do Sul cometeu suicídio em função da falta de perspectiva com o cenário político no país. Infelizmente não se trata de um caso isolado. Isso vai se agravar entre a esquerda, bem como os quadros e diagnósticos de depressão.

De tal modo lançamos, aqui, um apelo. Não permita que, às vésperas de completar 36 anos, o professor vermelho, jovem doutor, que neste momento escreve estas linhas com os olhos cheios de lágrimas – mas com esperança e perspectiva de luta pelo futuro no coração – tenha o destino de Dom Gregório do filme em questão, e se abra um mar de sangue e regressão civilizatória neste país com silenciamento de gerações. Uma geração com medo tem paralisia na ação. E não bastarão 4 anos, em perspectiva histórica, para se reverter a barbárie.

É pelas próximas gerações e por aquelas que caíram em luta antes de nós e que nos levaram a temporalidade e conquistas do agora, cujos pilares encontram-se ameaçados pelo desmonte da barbárie. Em defesa das liberdades democráticas vote #13 este domingo. Não se trata de apoio ao petismo, mas de defesa democrática diante do neofascismo. Ainda há tempo! É preciso lutar, é possível resistir. #EleNao.

O medo não irá se impor ante a esperança. Precisamos nos encher de solidariedade e luta. Não desumanizarmos. Não perder a capacidade de nos indignarmos face a realidade. A indiferença é terreno da barbárie. O otimismo da vontade deve prevalecer sobre qualquer pessimismo da realidade. Nossa proteção subjetiva virá da capacidade de formarmos a mais ampla unidade de ação e solidariedade. Independente do cenário eleitoral que viermos a enfrentar, a dinâmica da luta de classes é muito mais ampla. E este terreno sempre foi decisivo. Estejamos unidos. Do lado certo da história. Os ataques serão profundos, mas nossa resistência não pode tremer! Apenas assim arrancaremos alegria ao futuro, para lembrarmos do poeta Maiakovski.

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