Lápis sim, bala não!

Por: Sonia Meire*, de Aracaju, SE

Sou professora e tenho 55 anos, quase quarenta anos dedicados à tarefa de ensinar crianças, jovens e adultos. Durante minha vida na escola pública vivi diversos momentos para defender a escola onde seus filhos estudam ou estudaram. Brigamos pelo aumento de vagas, evitar a repetição e, desta forma, que as crianças não se afastem da escola. Brigamos por alimentação decente, pela criação de conselhos onde vocês pudessem participar da escolha do currículo de forma democrática. Lutei por uma escola onde os funcionários e professores fossem respeitados e valorizados, contra a terceirização e por mais dignidade.

Durante muitos anos eu estive ao lado dos seus filhos, acolhendo-os nos momentos mais difíceis. Alguns porque não tinham o calçado para usar na escola, que iam descalços, outros porque não tinham alimentação e a escola não recebia merenda, outras que chegavam com marcas no corpo, fruto de violência doméstica. Já outros jovens que chegavam com olhos vermelhos e a lata de cola em baixo da camisa para assistir aula e, nós professoras e professores, ao seu lado exigindo que a saúde pública os acolhesse, fazendo com que o efeito passasse e ele não fosse agredido fora da escola. Sou do tempo em que as crianças com deficiência não vinham para a escola porque – diziam, e muitos acreditavam – que não lhes cabiam esse direito, nós lutamos e conquistamos a educação para pessoas com deficiência.

À noite – há quantas noites – passávamos do horário de dormir, enfrentando o sono e o cansaço, junto com os estudantes que não tiveram oportunidade de frequentar uma escola no horário normal. Estivemos nos bairros em que muitos se recusavam a lecionar no horário da noite, no campo e na cidade. Mas eu estava lá, não desistia de ensinar a pegar no lápis e escrever sobre as histórias da vida, a fazer uma carta para familiares e amigos, como também para solicitar um emprego para melhorar a vida.

Lutei para que estivessem na universidade e muitos chegaram lá com muito esforço. Foram anos de trabalho e enfrentamento para os que viviam no campo e nas periferias das cidades chegassem lá. Fomos para as ruas para garantir direitos e continuamos até hoje, pois o sistema ao qual estamos submetidos coloca nossa vida sempre em risco. Estou falando dos muito ricos, de bancadas de deputados federais, estaduais e senadores que abusam do poder para manter seus privilégios. Estou falando de governantes como o que aí está, o Temer. De Collor a Temer, este último, causando mais horrores contra o meu direito, o direito dos seus filhos e os seus direitos.

Nessa situação, eu e você que também não tem acreditado nesta política, eis que começa a ouvir que existe um “profeta” que irá nos retirar da situação de desemprego, de insegurança… A Bíblia já diz que temos de tomar cuidado com os falsos profetas. Só que para isso, ele vem divulgando que nossa escola quer doutrinar crianças. A nossa escola, a que eu ensinei, nunca doutrinou crianças, nunca incentivou o ódio às pessoas negras, nunca incentivou as crianças que não são da religião cristã a dizer que elas são “de Satanás”. Essa não é a escola que eu trabalhei.

A educação que eu, minhas colegas professoras e funcionários de escolas defendem não é a educação do ódio. Ela é a educação do amor. Do amor à vida, do respeito ao outro, do conhecimento que nos liberta. A escola da solidariedade aos pobres e oprimidos vítimas desse sistema controlado pelos muito ricos e corruptos. Muitas vezes o medo do futuro nos faz seguir por caminhos contrários ao que desejamos. Para vencê-los, eu entendo que iremos necessitar muito uns dos outros para continuar plantando sementes de esperança a quem não enxerga nenhuma luz no fim do túnel.

A esperança está na educação e não na bala apontada contra nossas crianças e jovens, dentre tantos e tantas que já perdemos; A esperança está no diálogo e não na mordaça, na censura; A esperança está em cada um de nós que acreditam na educação que damos aos nossos filhos; A esperança está na nossa solidariedade com os que sofrem sem empurrá-los ao precipício; A esperança está quando resgatamos os jovens com educação, saúde, trabalho e muito amor, não quando os tratamos como bandidos por serem pobres e pretos. A esperança está em mim, em você mãe e pai que acredita na inteligência, na capacidade de produzir a vida, de mudar a nossa prática pelo bem e pelo amor.

Como professora que sou, quero afirmar que no dia do professor meu compromisso é com os seus filhos. Dedico esse dia fazendo essa carta de amor aos pais, mães, avós, reafirmando que é com o lápis na mão que se faz educação! E, por tudo isso, Ele Não!!!

É com o lápis na mão que se faz educação!

*Sonia Meire é professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde se graduou em Pedagogia (1986) e concluiu seu mestrado em Educação (1997). É doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2003). Sua trajetória foi marcada por sua forte participação em movimentos populares, principalmente no campo sergipano com projeto de alfabetização de camponeses em áreas de reforma agrária e nos últimos anos com mulheres extrativistas catadoras de mangaba. Em 2018, foi candidata ao Senado em Sergipe pelo PSOL, tendo recebido 62.770 votos, 3,43% do total.

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