Sob impacto

Por: Virgínia Fontes*, de Niterói, RJ

Virgínia Fontes*, de Niterói, RJ

É muito difícil escrever sobre essas eleições proporcionais e sobre o primeiro turno das eleições presidenciais. A maioria de votos em Jair Bolsonaro era prevista, embora não na proporção em que apareceu. A estranhar, a grande diferença entre as pesquisas prévias e os resultados do primeiro turno. O segundo turno reabre a contagem e reabre os embates. Reverteremos o cenário.

Nesse momento, é hora de unir todas as forças democráticas, as forças civilizatórias, todas as forças que conservam a humanidade como valor fundamental, as variadas forças da esquerda, todas as forças que defendem a vida, para enfrentar algo que todos pensávamos ter ficado para trás. Algo que deveria estar no passado distante, como a defesa da tortura, os atos e gestos retomando as práticas do nazi-fascismo. Ele volta a pairar como ameaça concreta sobre todos os seres humanos.

Estou tristíssima. E estou com medo. Não o medo paralisante, mas o que acende a luz de alerta. O que nos deixa atentos e alertas. Precisamos estar prontos para interferir, para não permitir que um retrocesso dessas proporções atinja o país. O medo é real, pois Bolsonaro sobe em palanque ensinando menininhas a empunhar armas, enquanto seus seguidores não hesitam em humilhar mulheres que cuidam de crianças em praças, não têm vergonha de amedrontar mães que amamentam como se isso fosse indecente, nem de espancar seres indefesos. O medo é real e acende a luz de perigo.

Medo principalmente pois Bolsonaro, que é a continuidade do governo Temer tenta se apresentar como se fosse a mudança. É a continuidade econômica, apoiando o ataque feito pelo parlamento-mídia-empresariado contra os direitos dos de baixo. É a continuidade econômica, com olhos de ave de rapina sobre o que Temer ainda não conseguiu destruir do patrimônio público, como a previdência pública que ainda assegura aposentadorias a milhões. É a continuidade de Temer pela entrega das chaves dos cofres públicos aos empresários. Mas, pior ainda, a continuidade de Temer através de Bolsonaro é a continuidade da crise. Bolsonaro é apenas a maior escala da política de Temer. Que só piorou a crise. Mas com Bolsonaro ela pode ser ainda pior, e derreter a moeda brasileira, como está ocorrendo com a Turquia ou com a Argentina. As magras poupanças dos pequenos serão devoradas, mas alguns endinheirados ganharão com a especulação. Terá valido a pena esse dinheiro cheio de sofrimento? O que restará na terra arrasada?

Bolsonaro é a continuidade de Temer, com o aprofundamento da violência e da insegurança. Violência e insegurança que já existem há muitos anos e que pesam mais sobre a maioria da população pobre. Pesa nos trens, nos bairros, nas festas, nas famílias. Como se sabe, o Rio de Janeiro continua a ser o laboratório da experiência dessa violência de dentro e de fora do Estado, que se veste de roupas de Exército, de polícia, de milícia e do tráfico para se impor pelo terror. Contra tudo e contra todos. Não há pesquisa, não há investigação. Atuam tristemente de maneira parecida. As favelas do Rio conhecem bem essa violência e estão fartas dela. Jogar mais bombas e atirar covardemente desde helicópteros sobre toda a população, como faz o tráfico e fez o governo Temer não diminuiu a violência. Seu aumento brutal nos anos Temer será continuado por Bolsonaro. A pequena violência dos pequenos furtos nos bairros ricos talvez volte a ser punida com a morte imediata. A frio e sem Justiça. Já vimos que ousar pensar diferente, ousar enfrentar pelo argumento ou pela Justiça pode ser punido com o extermínio, como aconteceu com Marielle Franco e com Anderson Gomes no governo Temer. A família Bolsonaro faz questão de se associar a mais essa violência. Democracia? Estado de direito?

Na sequência do governo Temer, agora na figura de Bolsonaro, ninguém sabe se haverá alguma Justiça. É sempre bom lembrar que quando a grande maioria não tem justiça nem direitos, as minorias descobrem que suas próprias vidas pouco valem.

Os ricos se cercarão de mais de muros, mais arames farpados e concertinas, mais carros e helicópteros blindados, pois a violência sobre as maiorias trará o combate a cada dia mais perto. Seguramente muitos fugirão para longe, quando a situação apertar. Irão para os Estados Unidos ou Europa, onde as leis ainda valem para todos. Lá, sabem que não podem desdenhar os que lhes servem. E aqui? Vigilantes, faxineiros, cozinheiras, babás, manicures, motoristas, enfermeiros, professores… Serão tratados como gente?

Na corrupção, Bolsonaro será diferente de Temer? O MDB de Temer é o campeão, e lembramos das malas de Geddel. Mas também o PT, o PSDB e praticamente todos os partidos foram atingidos. O partido de Bolsonaro mudou de nome, para desvencilhar-se das denúncias. De Partido Social Cristão tornou-se Partido Social Liberal… A história brasileira é povoada pela corrupção. Corrupção começa pelo alto, pelos grandes, que não pagam impostos, que têm descontos para pagar o que deviam quando atrasam, que levam seus dinheiros para o exterior ilegalmente e podem trazê-los de volta, lavados e limpos de impostos, por ofertas de Temer. Para corromper alguém é preciso ter dinheiro e em todos os casos, os grandes empresários foram ativos na corrupção. Será que um congresso povoado de empresários riquíssimos e de políticos como Bolsonaro, que diz que fará tudo o que os empresários querem será limpo? O mais provável é que um governo Bolsonaro imponha mordaças e que só apareça o que for conveniente para eles. Será que todos os empresários são iguais? Ou devemos esperar que alguns se levantem contra a monstruosidade que se anuncia?

Será que essa violência contra os de baixo exprime a religião e a religiosidade do povo brasileiro? Sei que não. Muitas famílias querem uma vida mais tranquila, com menos assaltos, com menos sobressaltos. Melhor transporte, melhor saúde, mais e melhores escolas, universidades para seus filhos e netos. Essas famílias têm razão, e lutaram muito por uma vida correta. Não devem o que conseguiram a ninguém e se houve políticas que as beneficiaram, era apenas uma questão de justiça. Como essas famílias farão quando a injustiça dominar com Bolsonaro, como Temer já começou a fazer? Quando Bolsonaro ainda aumentá-la? Como farão se desgraçadamente seus filhos forem agredidos, apenas por morarem em subúrbios ou terem cor de pele diversa de seus agressores? Terão mais uma vez de silenciar, por medo? Seus padres e pastores dizem ter compromisso com o seu sofrimento. Estarão do lado de seu sofrimento ou serão prostrados por seus algozes, eles também atemorizados?

A censura está às portas, e pela violência. Silenciamento acrescido de atemorização direta, pela violência de novos grupos que nem sabemos quem são, pois não se identificam e atacam escondidos… Mas que já circulam de camisetas ‘bolsonaro’, que já atiram a esmo nas ruas, que impedem aulas, que intimidam os que discordam, que proíbem a cultura. O que farão quando o chefe estiver no governo?

Não tenho dúvidas de que em todo o espectro político há gente digna. Do centro e da direita, das religiões e dos clubes deverão emergir vozes em defesa do ser humano e das liberdades democráticas. O horror do totalitarismo é a única coisa democrática a sobreviver quando um pesadelo desse tipo se estabelece. O totalitarismo persegue, discrimina, humilha, tortura e assassina. Em primeiro lugar ataca aqueles que escolhe como inimigos, os que pensam diferente dele. A liberdade de pensamento acaba. Reclamar pode ser uma sentença de morte.

Essa violência pode voltar-se contra qualquer um, inclusive os filhos de poderosos, que discordem por uma razão ou outra. O horror pode ser ainda mais arbitrário e designar como inimigos grupos ou setores inteiros da população, até mesmo da própria classe dominante. Isso já ocorreu na Alemanha, quando os judeus, pobres ou riquíssimos, foram perseguidos. Foram expropriados, perseguidos, assassinados. Reduzidos ao mesmo pó que os demais, os comunistas, os homossexuais, os ciganos e algumas religiões. Apenas por existirem.

Não é possível normalizar e comparar candidaturas como a de Bolsonaro e a de Fernando Haddad. Por mais horror que agora alguns poderosos tenham a Lula, depois de enriquecerem como nunca em seu governo, precisam lembrar que o candidato é Fernando Haddad e não Lula. Que os governos Lula jamais impuseram uma ditadura totalitária. E esse é o risco brutal que corremos. Se imaginam que conseguirão controlar Bolsonaro, que o disciplinarão, precisam lembrar-se que sequer o Exército conseguiu esse feito.

A imprensa precisaria cumprir seu verdadeiro papel e interrogar sobre o que todos sabem (a violência, a desigualdade, o anti-feminismo, o racismo, a difusão de falsas informações). Esclarecer sobre os programas, interrogá-los a fundo e não transformar os debates num pastiche esterilizado.

A imprensa brasileira está acostumada a amedrontar a maioria da população, para garantir suas próprias posições. Mas agora, que o medo da barbárie é real e palpável, finge que não está acontecendo nada. Mesmo seus pares, os jornalistas estrangeiros, se espantam. Como é possível tratar a truculência de Bolsonaro e de seus sequazes como se fosse ‘normal’?

Não há dúvidas do que fazer. Organizar a defesa da humanidade e construir as brechas que permitam ir além do pesadelo no qual estamos mergulhados. Temos muitas críticas ao PT, mas nesse momento ele é a única possibilidade de que não trucidem tudo o que humanidade conquistou. Todos perderemos algo. É pouco diante do imenso abismo com o qual Bolsonaro nos ameaça.

Esse é um grito de alerta. O Brasil não pertence a alguns grandes proprietários nem aos que pregam a violência gratuita. A defesa da vida começa com cerrar fileiras com Fernando Haddad, e com todos os que defendem que humanidade e democracia não são palavras vazias. Votar agora é mais importante do que nunca.

* Virgínia Fontes, historiadora, professora-pesquisadora da EPSJV e da Universidade Federal Fluminense (UFF), e autora do livro “O Brasil e o capital-imperialismo.

Foto: José Cruz/Agência Brasil
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