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Especiais

O que ela [a vida] quer da gente é coragem

Por: Ana Luisa Martins, do Rio de Janeiro, RJ
Cobertura colaborativa Esquerda Online

“O que ela quer da gente é coragem.
(Guimarães Rosa. Grande Sertão Veredas)

Estamos a apenas três dias das eleições. Nunca houve um cenário tão incerto, as peças vão se mover até o último minuto. O jogo está sendo jogado e não termina dia 7, independentemente do resultado.

As últimas pesquisas são, indiscutivelmente, duras e preocupantes. A mais recente, do Ibope, aponta Jair Bolsonaro com 38% dos votos válidos (32% dos votos totais). É bem possível que exista algum grau de distorção, mas a verdade é que elas refletem a realidade brasileira.

Bolsonaro não é um fenômeno eleitoral, as ideias que ele representa vêm ganhando terreno há alguns anos. O país passou por um GOLPE parlamentar, apoiado por manifestações reacionárias enormes, de centenas de milhares nas ruas. A classe dominante brasileira fez uma grande aliança contra os trabalhadores e seus setores mais oprimidos, usando o discurso de combate à corrupção e ao PT. Colocou todas as suas instituições para trabalharem em prol do golpe: as câmaras legislativas, o judiciário, a mídia, as igrejas e também o exército. Foi realmente um “grande pacto nacional”, como nomeou Jucá.

Foram três anos operando o golpe, sustentando uma narrativa, votando quiilos de ataques contra o povo, alterando textos constitucionais, aprofundando qualitativamente retrocessos estruturais no pais. O candidato que até então ocupava o primeiro lugar nas pesquisas, Lula, está preso para que não possa concorrer.

Obviamente, isso tem grande impacto sobre a consciência de setores médios da sociedade e sobre a própria classe trabalhadora. Tudo guinou à direita. A histórica base social do PSDB migrou para Bolsonaro, agora parece que o próprio PSDB, ou parte dele, começa a seguir sua base. O sentimento anti-petista cultivado com afinco nestes três anos, agora resulta no discurso de ódio, preconceituoso, que enxerga nas mulheres, negros, lgbts, militantes de direitos humanos, pessoas de esquerda, inimigos internos.

O grande fato qualitativo na realidade brasileira é que a extrema-direita está consolidando uma base social muito significativa, e as ideias neofascistas avançando posições muito rapidamente. Neste sentido, embora seja assustador, o crescimento de Bolsonaro nas eleições não é algo surpreendente.

E é exatamente por tudo isso que o dia 29 foi tão corajoso e grandioso. Levantamos a cabeça e mostramos força. O recado foi: entramos na briga, vamos lutar. Não é uma luta imediatista, muito menos fácil, é uma caminhada de médio, longo prazo e demos um grande passo, mas foi apenas o primeiro.

Vamos lutar muito nas ruas e nas urnas para impedir que um fascista se torne presidente do país. O jogo está sendo jogado, podemos vencer. Mas há também a possibilidade de Bolsonaro ganhar as eleições, é parte da realidade. E então? O que faremos? Não temos escolha senão lutar. As mulheres estão construindo uma Frente Única Anti-fascista, entre diversas correntes de pensamentos da classe trabalhadora, estão preparando um novo grande dia nacional de atos contra Bolsonaro, o 20 de outubro. Não sairemos das ruas. Sabemos que o presente e o futuro depende do que faremos agora e nos próximos meses.

Se formos vitoriosos em derrotar Bolsonaro nas urnas, ainda nos restará a tarefa de derrotar suas ideias que tomaram conta, no mínimo, de um terço da população. Para isso precisamos de um programa oposto ao dele. Como diz Guilherme Boulos, candidato à presidência pelo PSOL, é hora de enfrentar o programa de conciliação de classe, de enfrentar os golpistas, nenhum perdão à eles.

O Manifesto Nacional das Mulheres Unidas contra Bolsonaro, que solda esta Frente Única, é um bom parâmetro do que não fazer em um próximo governo. Não queremos Bolsonaro, pois além do retrocesso nas liberdades democráticas e nos costumes, não queremos seu programa de governo ultra neoliberal, não queremos a reforma da previdência, o fim do 13° salário, o projeto “escola sem partido, a continuidade da reforma trabalhista, da lei das terceirizações, da Emenda Constitucional 95, dentre outros tantos retrocessos. Ao candidato que enfrentar Bolsonaro no segundo turno, possivelmente Haddad (PT), seria um bom começo assinar o Manifesto como uma “carta-compromisso” com as mulheres que abriram caminho para a derrota do neofascismo.

Em todas as hipóteses, esta é uma luta que nos exigirá fôlego, frieza, unidade, tempo, e principalmente, coragem. Não sairemos das ruas, não abaixaremos a cabeça. Vamos derrotar Bolsonaro e suas ideias. Pelos que tombaram na Ditadura Militar, por Marielle Franco, por todos nós e nossos filhos. É possível.

#EleNao  #EleNunca

 

FOTO: Mulheres contra Bolsonaro. Ato no Rio de Janeiro. Cobertura colaborativa Esquerda Online