Carta a Rui Costa e Jacques Wagner: Do nosso lado golpistas não podem caminhar

Por: Jean Montezuma, de Salvador, BA

O que aconteceu em 2016 foi imperdoável. Ainda hoje me revira o estômago lembrar de episódios como o vazamento ilegal da conversa telefônica entre Lula e Dilma, feito pelo juiz, promotor e carrasco Sérgio Moro. Ou aquela tragicômica votação no Congresso, com um bando de picaretas comprados votando “em nome de Deus e pela família”. O golpe que interrompeu o governo de Dilma não foi apenas contra o PT, mas contra todos nós. Isso fica evidente se colocamos em perspectiva as medidas aprovadas pelo ilegítimo governo Temer: Emenda Constitucional 95 – a chamada PEC do Fim do mundo – reforma trabalhista, terceirização ampla e irrestrita, Previdência na alça de mira… Os ataques são muitos e violentos.

Não satisfeitos com o que fizeram em 2016, os golpistas colocaram Lula na cadeia e o impediram de concorrer nas eleições. Lula não teria o meu voto, mas estive nas ruas junto com a militância do PSOL, com os ativistas dos movimentos sociais, e com Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, meus candidatos à Presidência, exigindo o Lula Livre! Estive em São Bernardo naquele fatídico 07 de abril, e continuei nas ruas nos atos que se seguiram gritando em alto e bom som que basta de judicialização da política, e que o judiciário não tem o direito de decidir sobre quem os trabalhadores podem ou não votar, querem ou não eleger.

Perdemos 200 anos em 2. Essa frase ganhou as redes sociais depois do incêndio do Museu Nacional, vítima de um brutal estrangulamento nas suas verbas de custeio desde que Temer  usurpou o poder. Essa frase e o incêndio no Museu são um símbolo do que vem acontecendo nesses dois anos de golpe. O desemprego ultrapassou a barreira dos 13 milhões. A violência policial aumentou 20,5% só em 2017, um tribunal de rua que tem como alvo nossa juventude negra. Alcançamos a marca de quinta maior taxa de feminicídio do mundo, e a violência contra LGBT’s subiu 30%. Repito, tudo isso em apenas 2 anos! O país está atravessando uma regressão social, e se considerarmos que um candidato da extrema direita como Bolsonaro lidera as pesquisas, as coisas podem ficar ainda piores.

Por outro lado, nesses dois anos não faltou vontade de nosso povo para resistir. Exemplo maior dessa resistência foi a histórica greve geral de abril de 2017. Paramos o Brasil e fizemos Temer recuar da reforma da Previdência. E poderíamos ter feito mais. Era possível ir  além e derrubar o golpista, porém faltou da parte do PT mais coragem para ir até as últimas consequências. Se tivessem colocado todo peso social e político que vocês possuem teríamos aberto uma janela real de oportunidade para derrotar o golpismo. Vocês apostaram tudo no feliz 2018, confiaram no mesmo sistema que te deu um golpe. O PT superestimou os acordos nas alturas e subestimou o potencial de mobilização dos de baixo. Vocês confiaram a sorte da sua principal liderança aos tribunais, e esvaziaram as ruas.

Rui e Wagner, com vocês tenho inúmeras diferenças. Aqui na Bahia chegaram ao governo embalados pela esperança de um povo que queria mudança. Depois de anos e anos de Carlismo, e de séculos de opressão, exploração e profunda desigualdade, o que se esperava do PT era muito mais. No entanto, vocês optaram por se aliar a velha política. Caminhando ao lado de coronéis, dos chefes das mesmas oligarquias de sempre, não há como promover as transformações que nosso povo tanto precisa. Não há como conciliar interesses de patrão e trabalhador, não dá pra todo mundo sair ganhando, essa conta nunca vai bater. A lista das diferenças poderia seguir, e ela é relativamente longa. Mas por ora, vamos focar naquilo que parecemos ter acordo, e não é qualquer acordo: A necessidade de lutar contra o golpe.

Rui e Wagner, vocês dois tem falado bastante do golpe em suas campanhas. Jacques Wagner, em especial, tem dito abertamente que no Senado lutará pela revogação das medidas de Temer. No entanto, a coligação montada pelo PT na Bahia conta com 14 partidos. Partidos com origens e orientações ideológicas completamente distintas. Não dá pra acreditar que o Avante, partido do Pastor Sargento Isidório, tenha qualquer compromisso com uma transformação real da sociedade. Uma figura sinistra como essa, inimigo das mulheres e LGBT’s, e que apoia a política de guerra as drogas que serve de justificativa para o extermínio da juventude negra, não pode ser tratado como aliado.

Mas voltemos a falar da luta contra o golpe. Como acreditar num compromisso de lutar contra o golpe se nos 14 partidos da coligação do PT, 9 votaram pelo impeachment? Eu disse NOVE! Ângelo Coronel, candidato ao Senado, e João Leão, vice-governador, representam respectivamente o PSD e o PP. Juntos, esses dois partidos contribuíram com 67 votos que ajudaram a sacramentar o golpe. Pra piorar, PP e PSD seguem com cargos no governo Temer, e na disputa presidencial fazem parte da chapa de Geraldo Alckmin, do PSDB. Rui e Wagner, vocês querem mesmo que nós que estivemos nas ruas pelo Fora Temer, contra as medidas anti-povo dos golpistas, contra a prisão de Lula, aceitemos como aliados os partidos que tramaram o golpe?

Vocês dizem que Ângelo Coronel e João Leão, assim como a bancada de PSD e PP na Bahia foram “fiéis” e não votaram pelo impeachment. Porém, para esses lobos da política, confiança e fidelidade mudam na mesma velocidades em que se alteram os interesses do toma lá, da cá. Uma fidelidade medida na régua fria dos cargos e postos de governo não serve para nossa luta. Rui e Wagner, quanto mais apostam nesses falsos aliados, mais distante ficam da única aliança possível de derrotar verdadeiramente o golpismo. Uma aliança forjada nas ruas, na mobilização para ação direta como farão as mulheres no próximo dia 29, pra dizer não ao avanço do conservadorismo representado por Bolsonaro.

O golpe se derrota também com um programa político de revogação das medidas de Temer, de rejeição da reforma da Previdência, de confronto com os privilégios, como é o programa defendido por Guilherme Boulos e pelas demais candidaturas do PSOL. Por isso na Bahia meu voto é Marcos Mendes para governo, Fábio Nogueira para o Senado, e para as candidatas e candidatos do PSOL a Assembleia Legisltava e ao Congresso. Precisamos de uma bancada que lute contra o golpe apoiados na mobilização, na luta por direitos, e que não seja movida por fidelidade medida em cargos e interesses.

 

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