Há seis meses perguntamos: quem mandou matar Marielle?

Editorial de 14 de setembro de 2018

Seis meses, 184 dias, 4.416 horas, 264.960 minutos. Esse é o doloroso tempo sem Marielle Francisco da Silva, nossa Marielle Franco, vítima de um assassinato político e racista. Nascida em 27 de julho de 1979, filha de Marinete e Antônio, criada no Complexo da Maré, mulher, negra, bissexual, trabalhadora (desde os 11 anos de idade, pra ajudar a pagar os estudos), socióloga, mãe de Luyara, companheira de Mônica Benício, militante do PSOL, quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, teve sua vida interrompida no dia 14 de março de 2018 de forma cruel, covarde e assassina, junto ao trabalhador Anderson Pedro Mathias Gomes, seu motorista na ocasião.

Fiel defensora dos direitos humanos, da luta feminista e anti-racista, o mandato de Marielle foi uma trincheira contra a violência à mulher, o genocídio da juventude negra, a recorrente violação de direitos promovida pela Polícia Militar nas favelas, em defesa do aborto legal e seguro, etc. Foi uma das principais organizadoras do evento Mulheres na Política. Com pouco mais de um ano de mandato, propôs 16 Projetos de Lei, dos quais dois foram aprovados, um que regulamenta o trabalho de mototáxi e outro da Lei das Casas de Parto, para estimular espaços que realizem parto normal.

Passado tanto tempo de seu assassinato, inacreditavelmente o crime continua sem respostas. A Anistia Internacional lançou uma ação pública exigindo investigação urgente, minuciosa e imparcial. Atualmente, a Polícia Civil mantém suas investigações sob forte sigilo, e publicamente o que se sabe é que existem duas linhas de investigação.

Uma delas, sustentada pelo depoimento de uma testemunha, afirma que o assassinato tem relação com o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o ex-PM e miliciano Orlando da Curicica. De acordo com este depoimento, a motivação do crime teria sido de ações comunitárias de Marielle em áreas de interesse da milícia na Zona Oeste. Rebatendo tal narrativa, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) afirma em matéria do portal G1 que Marielle não tinha tanta expressão eleitoral em “áreas onde a política se faz com violência física, com ameaças, como disputa de milícias”. Por conta disso, não seria uma ameaça eleitoral aos grupos armados que controlam tais regiões.

Freixo aponta, por outro lado, que a morte de Marielle pode ter sido uma vingança em relação a liminar concedida ao PSOL contra a cúpula parlamentar do PMDB na ALERJ investigada pela Operação Lava-Jato, que impediu a nomeação de Edson Albertassi para conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. A nomeação lhe daria foro privilegiado, atrasaria o processo, retardaria as prisões e beneficiaria também os deputados Paulo Melo e Jorge Picciani. Quando a oposição conseguiu a liminar em segunda instância, Albertassi perdeu a vaga e no dia seguinte, a força-tarefa da Lava-Jato levou o deputado a depor coercitivamente. Em seguida, os três foram presos pela Operação Cadeia-Velha, acusados de receber mais de R$ 100 milhões da Fetranspor (Federação de Empresas de Ônibus do Rio de Janeiro).

Em declaração, sua companheira, Mônica Benício, denunciou que as investigações da polícia ainda não havia periciado o celular de Marielle – só lhe pediram a senha somente após passarem cinco meses do assassinato.

Ainda que as investigações não estejam concluídas, não precisa ser nenhum especialista pra saber que o crime teve motivações políticas. Além de ter sido altamente sofisticado, com planejamento e precisão. Seria um erro dissociar o crime do cenário político em que vivemos no Brasil. Há uma evidente escalada de violência, fortalecimento da direita e do neofascismo. No Rio de Janeiro, vivemos ainda sob intervenção militar federal e ofensiva às comunidades e periferias.

A luta por justiça a Marielle seguirá firme até que tenhamos respostas. É impossível esquecer, seja pelo que está marcado em nossas mentes e corações, seja por sua figura grafitada e estampada em muros do Rio de Janeiro e outras cidades do Brasil. Exigimos saber quem matou Marielle e, mais importante, quem mandou matar. Não podemos trazê-la de volta, mas iremos levar adiante com toda a nossa força sua luta e seu legado. Atualmente, há uma batalha contra a extrema-direita expressa na figura de Jair Bolsonaro, que está sendo protagonizada pelas mulheres, com uma série de manifestações de rua marcadas para o mês de setembro. Não temos dúvida que Marielle estaria na linha de frente. E nós estaremos lá, dizendo: Marielle, presente. Agora e sempre!

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