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Viva Waldo Mermelstein! 50 anos de história, de 1968 a 2018

Por: Ana Lucia Marchiori*, de São Paulo/SP
Waldo, em 2018 e em 1972

Waldo Mermelstein teve seu pedido de declaração de anistiado político deferido pela 19ª Sessão de Turma realizada no dia 21 de agosto de 2018, realizada na sede do Ministério da Justiça, em Brasília.

A conselheira Rita Maria de Miranda Sipahí leu seu voto relatando a militância política de Waldo que há 50 anos iniciou sua militância política em Porto Alegre (RS) junto ao Diretório Acadêmico.

Após a edição do AI-5, devido a manifestações estudantis pela demissão do professor Ruy Carlos Othmman do Colégio Israelita Brasiliense e o clima de terror instalado no Brasil com a repressão, Waldo foi estudar fora do Brasil, seus familiares o alertaram que no Brasil estava sendo procurado e foi enquadrado no Decreto Lei 477, que expulsou estudantes de escolas e universidades, por sua participação na Diretoria do DAECA.

Em 1972, Waldo foi para o Chile e lá militou no Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). Com a intensificação da repressão no Brasil durante a ditadura militar, outros militantes da esquerda brasileira viajam para o Chile, durante o governo de Salvador Allende, entre eles Túlio Quintiliano, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Enio Buchioni, ex-militante da Ação Popular, Maria José Lourenço (Zezé) e Jorge Pinheiro, ex-militantes do Movimento Nacionalista Revolucionário, com eles Waldo Mermelstein se juntou.

No Chile, entram em contato com dois importantes militantes do movimento trotskista internacional, o crítico de arte Mário Pedrosa e o peruano Hugo Blanco.

Mário Pedrosa os coloca em contato com Nahuel Moreno, reunindo-se então num grupo chamado Ponto de Partida, e tenham a proposta de construir no Brasil um partido de massas.

Com o golpe de Pinochet, em 1973 Túlio Quintiliano é detido, junto com sua esposa Narcisa Beatriz Verri Whitaker, e levado para a Escola Militar, tendo sido encaminhando, em seguida, para o Regimento Tacna – desde então, encontra-se desaparecido.

Ênio Bucchioni também foi detido após o golpe, mas encaminhado ao Estádio Nacional. Foi um dos últimos brasileiros a sair de lá, conseguindo exilar-se na França e, posteriormente, em Portugal.

Waldo, Zezé e Jorge vão para a Argentina, onde fundam a Liga Operária. Em 1974, voltam ao Brasil para um trabalho político clandestino de atuação política e sindical, Waldo disfarçado cruzou a fronteira com ajuda dos seus pais e com medo de ficar no Rio Grande do Sul, devido a prisão de sua companheira na época, foi para São Paulo.

Com um vasto monitoramento, sendo noventa e três da Base de dados do Serviço Nacional de Informações, da Divisão de Inteligência do Departamento de Policia Federal, do Centro de Segurança e Informações da Aeronáutica – CISA e mais onze de outros fundos, sem contar os documentos extraídos do DOPS/SP, Waldo foi sistematicamente perseguido, o que o obrigou a frequentemente mudar de casa.

Para se manter, Waldo buscou emprego, e em fevereiro de 1974 foi admitido na empresa pública Petroquisa, subsidiária da Petrobras. Como lembrou a conselheira, a categoria contou com o militante trotskista, Olavo Hansen, assassinado, sendo a primeira condenação do Estado Brasileiro pelo Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Waldo, após um acidente de trabalho no qual um trabalhador perdeu a perna, fez denúncia no jornal e assembleia do sindicato. Não resta dúvida que Waldo foi imediatamente identificado e por isto foi sumariamente demitido em 24 de maio de 1976.

Passou assim a figurar a famigerada lista suja, onde as empresas em colaboração com as forças de repressão, listavam “subversivos” em listas que circulava entre as empresas para que se evitasse a contratação.

Waldo foi então para Mauá (SP) e conseguiu colocação na empresa Atlas Indústrias Químicas, mas quatro meses depois foi identificado e novamente foi demitido.

OPERAÇÃO LÓTUS
Nas vésperas do Primeiro de Maio de 1977, ativistas sindicais e militantes da Liga Operária (LO) são presos no ABC paulista, distribuindo panfletos comemorativos a data, entre eles os operários Celso Giovanetti Brambilla, José Maria de Almeida e Márcia Bassetto Paes, além de Ademir Mariri, Fernando Antonio de Oliveira Lopes e Anita Maria Fabbri.

Conforme informe nº 1194 do SNI (Serviço Nacional de Informações), foi realizada uma operação de repressão em conjunto com os serviços de segurança denominada “Operação Lótus”, com relatórios periódicos com o selo “Confidencial” da Presidência da República, onde se investigava os militantes da Liga Operária, que até então pensavam os órgãos de repressão serem militantes da VAR Palmares – Vanguarda Revolucionária Palmares.

Com a prisão dos militantes da Liga Operária em 28 de abril de 1977, os órgãos de repressão puderam identificar que não se tratava de militantes da VAR Palmares.

Assim constou do relatório final da Operação Lotus, a nova organização almejava a organização da classe trabalhadora e era necessário “aniquilar” a Liga Operária.

Em 1978, os militantes da Liga Operária propõem a formação de um amplo movimento socialista no Brasil, com objetivo de reunir os socialistas brasileiros, num movimento para participar abertamente da vida política brasileira. Começa a se articular assim o Movimento Convergência Socialista (MCS), que consegue reunir alguns dos velhos militantes socialistas brasileiros. A Liga Operária passa a se chamar Partido Socialista dos Trabalhadores, que integra o Movimento Convergência Socialista.

DA PRISÃO
Waldo Mermelstein foi preso no dia 21 de agosto – por coincidência, no mesmo dia em que seu pedido de anistia foi apreciado. A prisão de Waldo ocorreu três dias depois da convenção do Movimento Convergência Socialista, toda direção da Liga Operária/PST foi presa. No total 24 militantes foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, entre eles o argentino Nahuel Moreno, então exilado na Colômbia. Em um trecho de seu depoimento que foi lido no julgamento (Dec. 346/78 – Prestado no DOPS/SP – Interrogatório), Moreno relata a “História dos Pontos de Partida” no Chile desde 1972, citando Waldo, e não deixando dúvida da sua militância política.

Moreno em seu interrogatório, segundo relatado no documento, parecia calmo e sereno, cuidadoso e deu uma aula de organização política. Uma campanha internacional pela libertação de Moreno – que corria risco de morte, caso fosse enviado para a ditadura argentina – e dos demais militantes incluiu uma greve de fome no Brasil, mobilizou o movimento estudantil e teve repercussão internacional, com mensagens pela libertação dos presos, como a do escritor Gabriel García Márquez.

Waldo teve a extinção de sua punibilidade em 12/09/1979, com o advento da Lei de Anistia 6683/79. Foram quase dez anos de desemprego, Waldo teve apenas um período de maio de 1980 a janeiro de 1983 como tradutor na Proposta Editorial, mas com os atentados a bomba contra a organização em suas sedes e também em banca de jornais, a editora Proposta teve que fechar as portas.

Waldo Mermelstein foi assim declarado Anistiado Político e espera que tenha a reparação econômica conforme indicado no voto por unanimidade dos Conselheiros da Comissão de Anistia.

São 50 anos de militância, 40 anos da sua prisão, e toda uma vida dedicada a luta da classe trabalhadora.

Parabéns Waldo, ou simplesmente Beto.

 

Ana Lucia Marchiori, advogada de Waldo Mermelstein e de outros presos e perseguidos políticos.