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Mulher trans se candidata a governadora nos EUA: pontos positivos e negativos

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

Christine Hallquist foi escolhida por 48,3% dos votos nas primárias do Partido Democrata em Vermont, tornando-se a primeira mulher trans a concorrer ao cargo de governadora por um dos partidos majoritários nos EUA.

A candidata está confiante na vitória. “Amo Vermont, porque olhamos além de questões superficiais”, disse. “Eu sou uma líder que por acaso também é transgênero. As pessoas de Vermont sabem disso. Elas votaram para me apoiar por conta do que farei por Vermont.”
Apesar do estado de Vermont geralmente pender para o lado dos democratas, a disputa não será fácil. Phil Scott, republicano e atual governador, é popular no estado e tem boas chances de se reeleger.

Para se candidatar, Hallquist afastou-se do cargo de Diretora Executiva da Vermont Electric Cooperative (VEC – Cooperativa Elétrica de Vermont), uma companhia de energia elétrica que provê energia para 34 mil casas em 74 cidades ao norte de Vermont, que produz a maior parte da energia através de fontes renováveis. Não à toa, uma de suas principais propostas são políticas para o setor de energia com fontes renováveis.

Uma candidata trans em tempos de Trump
Desde que se elegeu, Trump fez retrocederem vários direitos para a população trans dos EUA e é considerado por parte das ativistas trans como “o presidente mais anti-transgênero na história dos EUA”. O presidente da direita conservadora revogou várias medidas protetivas contra pessoas trans e LGBTs de modo geral e nomeou pessoas abertamente LGBTfóbicas para vários cargos.

Neste cenário, a escolha de uma pessoa trans para concorrer ao cargo de governadora mostra que existe um setor da população que é contrário às políticas discriminatórias do presidente. As propostas dela são evidentemente muito distintas daquelas defendidas e aplicadas por Donald Trump. Hallquist é apoiada por várias organizações feministas e LGBTQs.

Sua candidatura e possivelmente a sua eleição seria, sem dúvida, uma pedra no sapato do Trump.

Até que ponto Hallquist representa as pessoas trans?
É preciso, entretanto, fazer uma análise mais profunda. Hallquist afirmou publicamente que não é socialista. Como empresária do setor energético, sua primeira preocupação, como pode ser visto em suas propostas, é criar mais benefícios para as empresas que produzem energia renovável.

Na lista de propostas na página da candidata, não há nada especificamente sobre o combate à LGBTfobia ou à transfobia. Apenas um item defende que “grupos historicamente marginalizados” sejam respeitados, o que é muito abstrato.

Evidentemente, a substituição da energia não-renovável por energia renovável é fundamental no mundo atual, mas essa transição não deve ser deixada a cargo das empresas que têm em vista seu próprio lucro. Deve, pelo contrário, ser levada a cabo pelo Estado e deixada sob controle dos trabalhadores e das trabalhadoras do setor de energia, não dos empresários.

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