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Colunas

Duas incógnitas e uma esperança 

Gabriel Casoni

Gabriel Casoni, de São Paulo (SP), é professor de sociologia, mestrando em História Econômica pela USP e faz parte da coordenação nacional da Resistência, corrente interna do PSOL.

Foi dada a largada oficial, nesta quinta (16), da corrida presidencial. Treze candidatos concorrerão pelo cargo mais importante da República. Serão sete semanas de intensa e feroz disputa até a votação em primeiro turno, dia 07 de outubro.

Trata-se, certamente, da eleição mais imprevisível desde 1989. A prisão de Lula e a ascensão de Bolsonaro embaralharam as cartas. E há dois enigmas a serem desvendados: Lula conseguirá, num intervalo curto de tempo, transferir votos suficientes para levar Haddad ao segundo turno? Geraldo Alckmin será capaz de deslocar Bolsonaro para seguir adiante na disputa? A resposta a essas duas perguntas possivelmente definirão a batalha do primeiro turno.

Mas há um terceiro fator que quero destacar nesta coluna, o qual transcende o calendário meramente eleitoral. Há esperança em uma nova esquerda, capaz de animar um projeto politico de transformação social de baixo para cima? Em outras palavras, haverá nessas eleições uma expressão política com força suficiente para abrir perspectivas de reorganização à esquerda para depois de outubro? Essa é a aposta da candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara lançada pela aliança entre o PSOL, PCB, MTST, APIB, entre outros movimentos e coletivos.

Lula elegerá o novo presidente da cadeia?

De sua cela em Curitiba, Lula liderou uma articulação ousada e arriscada. O PT fechou alianças com partidos de direita que votaram a favor do impeachment de Dilma, entre eles o MDB e DEM, em quinze estados. Essas coligações darão, particularmente no nordeste, onde sete dos nove atuais governadores estão alinhados com a candidatura presidencial petista, enorme capilaridade regional e densa máquina eleitoral.

As pesquisas indicam que cerca de 30% dos eleitores de Lula votariam no candidato indicado por ele. Este patamar de transferência, se alcançado, colocaria seguramente Haddad na casa dos dois dígitos de intenção de voto, o suficiente para levar o PT ao segundo turno.

Como é previsível, o ex-presidente deve ter seu registro de candidatura impugnado em brevíssimo tempo. A caçada judicial é implacável, senão vejamos: o juiz Sérgio Moro adiou o depoimento de Lula no processo referente ao sítio de Atibaia para novembro, alegando que o petista poderia fazer uso eleitoral da audiência. A Java Lato também quer impedir Lula de receber visitas de Gleisi Hoffman e Haddad na prisão. O TSE, por seu turno, seguramente buscará de todas as formas prejudicar a campanha do PT.

Se a cassação do registro Lula ocorrer no final de agosto, o PT terá um apenas um mês para produzir “o milagre do poste”. Para tanto, o partido concentrará esforços no nordeste e norte, onde o lulismo exibe uma força popular tremenda e há um arco de alianças bastante amplo que potencializa a campanha. Caso tenha sucesso nessas regiões, precisará de uma votação apenas modesta, na casa dos 10%, no sudeste e sul. A presença de Haddad em São Paulo e Manuela no Rio Grande do Sul facilita esse último objetivo.

Acredito ser improvável que dois candidatos do mesmo espectro político cheguem ao segundo turno, como Alckmim e Bolsonaro ou Haddad e Ciro. O PT deve disputar a vaga com Ciro e Marina. Alckmin, por sua vez, terá que desidratar Bolsonaro e tirar voto de Álvaro Dias se não quiser morrer na primeira fase.

O peso da máquina eleitoral e do suporte social organizado jogam a favor do PT e PSDB, ou seja, no sentido de repetir a velha polarização entre tucanos e petistas no segundo turno. Mas dois fatores significativos e imponderáveis, mencionados no início do texto, não permitem esse certeza. A prisão de Lula e a resiliência de Bolsonaro deixam o cenário nebuloso.

Um fascista no segundo turno?

Geraldo Alckmin, o candidato do PSDB e do centrão, é a aposta da classe dominante para o governo. O núcleo dirigente da burguesia – grandes bancos, principais meios de comunicação, multinacionais e megaempresários – vai jogar pesado para eleger o ex-governador de São Paulo. Alckmin eleito significa a continuidade do programa de Temer com mais estabilidade e segurança para o andar de cima.

O maior obstáculo para a direita tradicional, porém, foi aparecimento e ascensão de uma extrema-direita liderada por Bolsonaro que roubou parte significativa dos votos tucanos. Algumas pesquisas revelam que o capitão reformado está à frente de Alckmin até mesmo em São Paulo, principal reduto do PSDB. Sem retomar parte relevante desse eleitorado que foi para a extrema-direita, dificilmente o ex-governador chegará ao segundo turno.

O desafio de desconstruir Bolsonaro pela direita não é fácil. O candidato neofascista tem demonstrado notável capacidade de resistência até aqui. Mesmo sofrendo pesados ataques, Bolsonaro mantém cerca de 20% das intenções de voto e está, inclusive, angariando apoio entre empresários, particularmente no agronegócio.

Diversos analistas acreditam que a poderosa máquina eleitoral e o latifúndio de tempo de TV que Alckmin terá em mãos farão a diferença – hipótese a ser testada nas próximas semanas. O que muitos desses “especialistas” ignoram, contudo, é a poderosa crise político-social que alimenta tanto a força de Bolsonaro, pela extrema-direita, e a de Lula, pela esquerda. Alckmin é a imagem do sistema, e pior, a continuidade direta do odiado governo Temer.

Há esperança no surgimento de uma nova esquerda?

Esta última pergunta parece secundária em relação às anteriores, mas não é. As eleições serão um momento qualitativo da luta política, pois definirão o novo governo do país, mas não a encerram. A crise política e social não será resolvida até outubro – há uma longa e acidentada estrada pela frente, cheia de curvas perigosas.

Por isso, é de grande valor plantar agora a semente do futuro. O PT, caso vença as eleições, tentará repetir a estratégia de alianças com a direita para governar e o programa da conciliação de classes, que pode ser resumido assim: programas sociais + altos lucros para banqueiros e empresários. Essa fórmula – o ganha-ganha -, que deu certo ao longo dos dois mandatos de Lula, não é possível neste momento histórico. A burguesia derrubou o governo Dilma, rompendo com o pacto de colaboração de classes, porque precisa impor um novo padrão de exploração e opressão, para alavancar o crescimento capitalista no país.

Caso o PT seja derrotado nas eleições, é possível que passe por uma nova e grave crise, sobretudo se perder mandatos parlamentares. De um ou outro modo, o petismo e o lulismo não oferecem perspectiva de futuro para a esquerda: seus olhos estão num passado que não pode se repetir no presente.

A importância da campanha de Guilherme Boulos reside justamente neste ponto: qual será o futuro da esquerda no Brasil no próximo período histórico, em que a burguesia avança com um projeto cada vez mais autoritário? Vamos batalhar pela construção de uma alternativa que reacenda o sonho da transformação social pela via da confronto com os ricos e poderosos, ou seguiremos refém do pacto com o andar de cima?

Boulos e o PSOL, que estiveram na primeira linha de enfrentamento com o golpe, estão tendo a coragem de levantar um programa de combate, intimamente ligado aos movimentos sociais e às lutas mais dinâmicas do último período. Por isso, vem levando milhares de ativistas às atividades da campanha país afora.

Caso o candidato do PSOL não vá ao segundo turno, certamente estará colocado o voto “útil” para derrotar Bolsonaro ou Alckmim na segunda volta. Mas, nesse momento, nesta batalha do primeiro turno, o voto e campanha verdadeiramente úteis, que merecem o engajamento dos lutadores em todo país, é a candidatura de Boulos e Guajajara, pois ela é portadora de um sentido de futuro para a esquerda brasileira.