Paquistão: o modelo chinês de Inram Khan para aliviar a pobreza

Por: Lal Khan, do Paquistão

Mais uma vez, apresentamos um artigo do dirigente e teórico marxista paquistanês Lal Khan. Neste artigo, o autor analisa a proposta de Inram Khan, líder do PTI (Paquistão Movimento e Justiça) vencedor das eleições no último dia 25 de julho, de combater a pobreza no Paquistão utilizando o modelo chinês. Apesar de ser um artigo sobre o Paquistão, analisa a situação chinesa e coloca em suspeição a viabilidade deste plano defendido pelo futuro governo.

A China, hoje, é o principal parceiro econômico do Brasil e um dos principais “players” da geopolítica mundial, merecendo sempre atenção especial para uma análise da situação mundial. Vale a pena conferir este instigante artigo. (José Carlos Miranda – Colunista do EOL)

Em seu primeiro discurso pós-eleitoral da residência de Banigala1, Imran Khan mais uma vez elogiou o modelo chinês para a eliminação da pobreza no Paquistão. Ele repetiu essa ideia em seus discursos nos últimos anos. Mas não é só ele que está impressionado com as altas taxas de crescimento da China e com o suposto alívio da pobreza, porém como ele, vários líderes populistas de direita, do turco Tayyip Erdogan a Narendra Modi na Índia, perseguem o mesmo conceito. Não nos surpreende que após o “crash” de 2008 da economia capitalista mundial, o fracasso da economia desenfreada do mercado tenha se evidenciado e que a intervenção do Estado foi trazida de volta e tendências protecionistas desenvolveram-se mesmo na maioria dos países capitalistas avançados.

Não está claro se Imran Khan realmente entende ou não os fatores econômicos e históricos que levaram à alta taxa de crescimento na China e a redução da pobreza absoluta à pobreza relativa ou se está apenas surfando na onda da retórica do ‘Chinese Miracle’ (Milagre Chinês) também elogiada por especialistas burgueses ocidentais. Embora a mídia corporativa elogie a redução massiva da pobreza, ela oculta o fato de que a privação e a inquietação social nessa pobreza relativa intensificaram de muitas maneiras o tormento econômico, social e psicológico da vasta maioria dos chineses comuns.

A ironia histórica é que a “ascensão milagrosa” da China como gigante econômico e superpotência capitalista foi baseada na transformação social e econômica trazida pela revolução de 1949 sob Mao. Durante e depois da longa marcha e da revolução, os latifundiários foram expropriados e a terra foi distribuída entre os camponeses sem terra. Isso deu um grande impulso ao desenvolvimento econômico e social chinês. Mas o passo decisivo que transformou a China, antes sociedade primitiva e dependente, foi a expropriação do capital, economia e indústria imperialista e nacional. A saúde, educação e habilidades vocacionais da classe trabalhadora chinesa foram desenvolvidas com base em uma economia planejada. A taxa média de crescimento na China de 1949 a 1978 foi de 9,2%, uma das mais altas do mundo. Mas, com os senhores feudais e os capitalistas nos altos escalões da liderança do PTI, Imran Khan não tocará nas relações capitalistas e feudais existentes que determinaram essa podridão no Paquistão. Com o mantra utópico de melhorar a economia e criar empregos através do Investimento Direto Estrangeiro alardeado pelos chefes econômicos do PTI, como pode Khan se atrever a tocar os bens imperialistas que estão explorando e saqueando flagrantemente os trabalhadores do Paquistão e seus recursos?

A revolução chinesa, no entanto, não se baseava no controle democrático e na gestão da economia e da sociedade dos trabalhadores. Em vez do internacionalismo marxista que foi inicialmente o norte da revolução bolchevique de 1917 sob a liderança de Lênin e Trotsky, a revolução chinesa baseava-se em sua caricatura; o Socialismo nacional. Portanto, a estagnação econômica e a crise social eram inevitáveis ​dentro de um único estado. Esta crise levou a ala pró-capitalista do Partido Comunista Chinês, ou seja, a burocracia, a emergir sob a liderança de Deng Xiao Ping. Em 1962, Mao havia encarcerado Deng por instigar a restauração capitalista no partido. O processo contrarrevolucionário de restauração capitalista da China começou após o falecimento de Mao Tse Tung e Chou In Lai quando Deng Xiao Ping tomou o poder através de um golpe intrapartidário em 1978. A elite burocrática chinesa vendeu aos imperialistas essa vantagem formidável da economia planificada para que estes enriquecessem através da restauração capitalista. O próprio Deng Xiao Ping disse: “enriquecer é glorioso”.

Enquanto o colapso da União Soviética foi “repentino”, a burocracia chinesa iniciou um processo gradual de restauração capitalista sob rígido controle partidário. Os burocratas chineses monitoraram de perto os acontecimentos na Rússia, enquanto os burocratas “comunistas” das diferentes repúblicas soviéticas da URSS apressavam-se em se tornarem obscenamente ricos, apressando as tendências separatistas para obter os recursos dessas repúblicas, fomentando nacionalismos sectários. Isso levou a um colapso econômico nos antigos estados soviéticos e os burocratas de Pequim aprenderam a lição.

Deng permitiu que o setor privado operasse seus negócios sob patrocínio e regulamentação do Estado. Zonas econômicas especiais foram estabelecidas ao longo da costa leste da China para atrair investimentos estrangeiros. Devido a essas contrarreformas, a China deixou de ser um país com a economia planificada em oposição ao capitalismo para tornar-se uma economia com direitos de propriedade, lucros e livre concorrência no mercado.

Hoje, a Bolsa de Valores de Xangai é a terceira maior do mundo em capitalização de mercado. Os mercados de bens e serviços são dominantes na China. Através do mecanismo de preços, as empresas compram serviços, matérias-primas e maquinário de empresas e vendem seus produtos para consumidores e outras empresas. Cerca de 95% dos preços dos bens de consumo são determinados pelo mercado. A China entrou em um número de acordos de livre comércio regionais e bilaterais com instituições financeiras imperialistas, incluindo o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, que endossaram um novo banco internacional liderado pela China, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB). Existem Câmaras de Comércio em todas as grandes cidades da China.

Isso, no entanto, não significa que a China possa se tornar uma economia capitalista “normal” ou “saudável”. Nem a elite chinesa pode se transformar em uma clássica burguesia ocidental, já que sua ascensão econômica vem na época da decadência do capitalismo mundial. O presidente Xi Jinping, no último congresso do partido em novembro de 2017, consagrou o “Socialismo com características chinesas” na constituição mais uma vez. Este é um sinal de medo por parte do regime, uma vez que a penetração do capital corporativo está criando contradições e conflitos sociais na China que podem se desvencilhar do controle do Estado. Não é por acaso que a China é talvez o único país que gasta mais em segurança interna do que em defesa externa.

Mas a economia chinesa caiu de uma taxa de crescimento de 14% em 2007 para 6,8% em 2016. Os gigantescos investimentos do Estado em projetos nacionais e estrangeiros como o “One Road One Belt”2, que inclui o CPEC, são tentativas desesperadas da aristocracia chinesa sob Xi para reviver as altas taxas de crescimento através de políticas Keynesianas financiadas pelo crédito estatal. A dívida total chinesa subiu para mais de 300% do PIB.

No entanto, apesar desse crescimento e desenvolvimento econômico desde o final da década de 1990, com base em investimentos imperialistas, estatais e privados, houve uma intensificação da exploração e uma crescente disparidade entre ricos e pobres. Em particular, existe uma lacuna enorme entre as áreas rurais e urbanas, no interior e no litoral. Mesmo em áreas urbanas, muitos trabalhadores acham difícil conseguir habitação decente, sofrem longos deslocamentos e trabalham longas jornadas. A China tem a maior desigualdade do mundo depois da África do Sul.

É um dos cinco países mais pobres do mundo. Quase 500 milhões de chineses vivem com menos de US $ 2 por dia. Pelo menos 920 milhões de pessoas na China vivem abaixo de US $ 5 por dia e 85% dos pobres vivem em áreas rurais, com cerca de 66% concentrados no oeste do país. Há também um enorme descontentamento e sentimento de privação entre as minorias nacionais do Tibete a Xinjiang.

Trabalhadores migrantes dentro das cidades da China são maltratados e discriminados. As comunidades rurais estão indignadas com a apropriação de terras por especuladores imobiliários, muitas vezes ligados ao Partido Comunista ou ao Exército de Libertação do Povo, um dos principais interessados nos assuntos econômicos. Nas áreas urbanas, a terra e a propriedade também são extorquidas dos habitantes locais. A brutalidade do Estado é intensa. Para dissipar o descontentamento fervente, Xi Jinping começou a reprimir a corrupção, encarcerando alguns dos altos funcionários do partido.

Se a economia capitalista chinesa não pudesse trazer prosperidade em massa mesmo com a base de infraestrutura social e física já estabelecida pela revolução de 1949, como poderia esse modelo capitalista desenvolver o Paquistão que sofre de uma crise econômica catastrófica e possui sua infraestrutura em ruínas. Imran Khan exaltou as ilusões de desenvolvimento e prosperidade, principalmente nas classes médias. Estes quebrarão mais cedo ou mais tarde. Todos os partidos que dominam a superestrutura política atual têm ideologias econômicas capitalistas que representam interesses dos setores da elite dominante.

Para acabar com este pesadelo de privações, pobreza, miséria, violência e sufocamento sociocultural, as massas trabalhadoras terão que se levantar na luta de classes para derrubar este sistema. O Paquistão precisa de um modelo chinês mais próximo da revolução de 1949, mas sem o domínio burocrático e o sob controle dos trabalhadores. O modelo capitalista chinês de Deng significará um desastre.

1 Nota do Tradutor: Bairro residencial próximo ao Lago Rawal.

2Nota do Tradutor: “Uma rota, um cinturão”, também conhecida como a “Nova Rota da Seda”.

*Texto publicado originalmente em 4 de agosto no Marxist Review

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