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Movimento trans na luta pela descriminalização e legalização do aborto

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

Está em discussão no STF a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Se a ADPF 442 for aprovada no Supremo, qualquer mulher cis que realize um aborto nesse período não será criminalizada por isso. Assim, caso haja alguma complicação, ela poderá procurar atendimento médico sem medo de ser presa.

Infelizmente, o aborto clandestino é uma realidade no país que não pode ser ignorada nem contornada. São realizados quase 1 milhão de abortos no país todo ano. Não queremos que as mulheres que abortem sejam presas nem que morram em decorrência de um procedimento mal feito. Defender a descriminalização e a legalização do aborto, portanto, é uma questão de humanidade.

Existem, entretanto, razões específicas pelas quais o movimento trans também deve fazer parte dessa luta. Nós, mulheres trans, embora não possamos engravidar, também somos vítimas do mesmo machismo que acomete as mulheres cis. Queremos liberdade para nossos corpos e também devemos querer a mesma liberdade para os corpos das mulheres cis. Qualquer direito que combata o machismo também será importante para nós. Os homens trans, por outro lado, muitas vezes também engravidam e abortam, assim como parte das pessoas não-binárias; portanto, esta luta é particularmente importante para eles.

 

Homens trans também abortam

Em entrevista ao site Pragmatismo, um homem trans, que não quis se identificar, relatou o drama que sofreu após ser vítima de um estupro coletivo e engravidar. “Eu tinha vergonha de sair, tinha vergonha de pedir ajuda”, disse o rapaz. “Como entrar numa delegacia pra registrar o estupro? Eu, com um corpo de homem, mas com uma vagina. Eles iam rir da minha cara. Não fui à Polícia, não fiz exame de corpo-delito, não fui a um médico.”

“Não tinha a quem recorrer, me sentia completamente só”, continuou. “Precisava interromper aquela gravidez, e não via uma saída. A sensação era de que todas as portas estavam fechadas pra mim. Fui salvo por uma rede de apoio a lésbicas e mulheres bissexuais. Consegui tomar um remédio abortivo e dei fim àquele sofrimento. Sei que corri riscos, fiz tudo sem orientação médica. Mas ter aquele bebê, pra mim, era impensável.”

“Penso em quem não conseguiu ajuda como eu. Em quem morre em clínicas clandestinas, sangrando, em quem sofre na mão de bandidos que vendem remédios falsificados, em quem não consegue interromper uma gravidez indesejada.”

Movimento trans contra o machismo e toda forma de opressão e exploração
Algumas feministas acreditam que as mulheres trans impedem as mulheres cis de discutirem questões ligadas ao aborto, à menstruação e ao aparelho reprodutor. Muito pelo contrário: nós, mulheres trans, somos a favor de todos os direitos das mulheres cis e somos suas aliadas na luta contra toda forma de machismo.

Não à toa, as pessoas trans sempre foram linha de frente dos movimentos LGBT e feminista, mas infelizmente nossas reivindicações na maioria das vezes são colocadas na retaguarda.

Por tudo isso, nós também faremos parte da luta pela descriminalização e legalização do aborto no Brasil.

 

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