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Colunas

UNEB terá cotas para pessoas trans, autistas e ciganos

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas. Travesti socialista que adora debates polêmicos, programação e encher o saco de quem discorda (sem gulags nem paredões pelo amor de Inanna)

A Universidade do Estado da Bahia (UNEB) disponibilizará cotas para transexuais, travestis, transgêneros, quilombolas, ciganos, pessoas com deficiência, transtorno do espectro autista e altas habilidades. A UNEB, que já tinha cotas para negros (40% das vagas) e indígenas (5% de sobrevagas), acrescentará mais 5% de sobrevagas para cada um desses grupos.

As demais 60% das vagas são destinadas a não-cotistas. A reserva segue o modelo supranumerário, ou seja, as cotas para transexuais, travestis, transgêneros, quilombolas, ciganos, pessoas com deficiência, transtorno do espectro autista e altas habilidades só são adicionadas quando esses grupos não têm representantes entre os selecionados entre as vagas usuais.

Para concorrer às cotas, candidatas e candidatos também devem ter cursado ensino fundamental e médio em escolas públicas e ter renda familiar mensal até quatro salários mínimos.

Uma conquista do movimento trans e do movimento autista
A UNEB é a primeira universidade do Brasil a instituir cotas para pessoas trans e autistas em todos os cursos de graduação.

No Brasil, as pessoas trans sofrem uma violência cruel. Assim como acontece com LGBTIs em geral, o preconceito dentro das famílias gera tensões, destrói os laços afetivos e faz com que muitas pessoas trans fujam ou sejam expulsas de casa. Nas escolas de ensino fundamental e médio, pessoas trans têm dificuldade de se socializar, são vítimas de bullying, são perseguidas e marginalizadas, tendo, por isso, dificuldade de continuar seus estudos.

Numa pesquisa da Fundacion Huesped, cerca de 70% das mulheres e dos homens trans relataram já terem sofrido discriminação por colegas de estudo, 40% das mulheres trans e 50% dos homens trans também sofreram discriminação por professores. Cerca de metade das pessoas entrevistadas já haviam abandonado a escola. Embora provavelmente componham cerca de 1% das LGBTIs, são vítimas de cerca de metade dos crimes de ódio fatais contra LGBTIs documentados anualmente.

Com respeito às pessoas autistas, a situação também é perversa. As escolas e os profissionais da educação estão despreparados para lidar com autistas. Estas pessoas são vítimas de bullying pelos colegas de sala e de preconceito pelos professores e professoras. Em consequência disso, muitas escolas se recusam a matricular alunas e alunos autistas, o que é um absurdo.

Como se tudo isso não bastasse, as pessoas autistas têm uma dificuldade maior que as não-autistas em relação ao vestibular atualmente. Embora elas possam aprender sobre disciplinas e assuntos que as interessam, ao mesmo tempo elas têm uma dificuldade muito maior em aprender assuntos que não as interessam, o que prejudica muito o seu desempenho em um vestibular multidisciplinar. Isso gera uma situação bastante contraditória: autistas que estudam no ensino médio e leem livros acadêmicos da área de interesse se veem incapacitadas de passar no vestibular.

Por tudo isso, as cotas na UNEB representam uma medida que é necessária para reverter a profunda desigualdade social que pessoas trans e autistas têm em relação ao restante da população. Uma medida como esta, infelizmente, ainda não se encontra nas universidades ditas de excelência do país. Nossa luta deve incluir cotas como na UNEB para todo o país, além de medidas para incluir estes segmentos da população em escolas de ensino fundamental e médio.

Foto: Reprodução Sociedade Online