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q1111233
  • A revolução que tanto amamos

    A história costuma nos chegar como processo acontecido, passado, distante. Ainda adolescente, aprendi nos bancos escolares que a “mestra da vida” era “o estudo do passado, para melhor compreender o presente e projetar o futuro”. Hoje sabemos que a história, além de tudo isso – Marx (1818-1883) chegou a classificá-la como a “única ciência”! – não é um campo de certezas, e sim um espaço do conhecimento propício a releituras. Novos documentos sempre podem gerar novas compreensões.

    Prefácio do livro “Meio Século de 1968 – Barricadas, história e política”, organizado por Cid Benjamin e Felipe Demier.

    Meio Século de 1968 – Barricadas, história e política”

    Há também um jeito singular de se lidar com a história e seus momentos mais agudos: quando dela participamos. É a história próxima. É disso que o Meio século de 1968: barricadas, história e política trata: da história vivida pelos sexagenários e septuagenários da hora presente, entre os quais me incluo.

    Para a história imediata, meio século foi logo ali. Essa sábia senhora bate à nossa porta não como visitante incomum, mas como vizinha, do cotidiano. Os mais jovens certamente receberão a visita de 1968 com curiosidade e certa cerimônia. Nós outros, contemporâneos daquele “ano rebelde”, com emoção e… não diria saudade, mas orgulho.

    Mas nestas páginas você não encontrará nostalgia. Nem apreciação fria. Rigor de análise não falta, sem dúvida. Mas amor na memória daqueles brados retumbantes, carregados da aspiração do vir a ser, também compõe a coletânea de ensaios.

    Aqui, 12 especialistas, atento(a)s ao desenrolar das contradições de classe e à reação dos aparatos de Estado, analisam a eclosão de movimentos sociais e políticos que marcaram o ano de 1968 (que, como qualquer outro ano na perspectiva histórica, nunca se limita à cronologia do 1º de janeiro inaugural nem do 31 de dezembro terminal). Além do Maio francês, muito do que aconteceu naquele período está neste livro: os movimentos de independência na África, a Revolução Cultural na China, as lutas antirracistas e contra a guerra do Vietnã nos Estados Unidos, os desafios à burocracia autoritária soviética na Tchecoslováquia, a vaga estudantil-juvenil em várias partes do mundo, especialmente no Brasil – sem esquecer o massacre terrível da Praça Tlatelolco, na cidade do México.

    Parte da agitação da juventude de 1968 também mexeu com hábitos cotidianos: foi tempo de quebra das formalidades burguesas, de ruptura com a etiqueta aristocrática, da liberação afetiva e sexual. A moral vigente à época foi fustigada com uma revolução nos costumes. O mapa-múndi daquele período tinha um porto sonhado: a utopia de uma nova sociedade, “na qual o último dos capitalistas seria enforcado com as tripas do último stalinista”. Um aviso estaria em todas as praças públicas: “É proibido proibir”!

    Costuma-se dizer que 1968 foi o polo de condensação de uma série de movimentos que, no fim das contas, promoveram, com o passar dos anos, “sutis” conquistas: a afirmação dos direitos dos trabalhadore(a)s, o reconhecimento do protagonismo juvenil (“maré da juventude”), a igualdade de direitos das mulheres, a exigência de governos mais democráticos e participativos. Frágeis vitórias, gradualistas e ameaçadas conquistas: quem poderia dizer que, passado meio século, essas demandas coletivas não continuam atuais? Quando voltamos aos episódios de 68, certa frustração igualmente nos alcança. Carlos Drummond (1902-1987), que acompanhou atentamente aquelas agitações, a explicitou: “Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.”

    O filósofo Henri Lefebvre (1901-1991) provocou nosso raciocínio ao dizer que, no 68 francês, estavam presentes todos os elementos que compunham uma “situação revolucionária”. Sobretudo quando os trabalhadore(a)s aderiram à vaga juvenil (que gritava nas “barricadas do desejo” que “De Gaulle é senil”), paralisando dois terços da produção do país e fazendo o general-presidente refugiar-se temporariamente na Alemanha, para dali comandar a reação. Completou Lefebvre, e a história lhe deu razão: “A situação revolucionária não desembocou em revolução. Nem em contrarrevolução.” O mestre preferiu denominar o impressionante movimento de massas como “irrupção”.

    Talvez o conjunto diversificado de movimentos – sobretudo urbanos – analisados nesta obra tenham mesmo esse traço comum: são irrupções contestatórias. Nelas, os estudantes têm papel primordial, em todas as partes do mundo. O sociólogo Léo Lince explica:

    A juventude, entendida menos como faixa etária e mais como um tipo determinado de relação com o mundo, é por excelência o agente da contestação. Além do jovem, que ainda não foi “reduzido” a um papel social no interior do sistema, existe a multidão dos recusados pelo modelo unidirecional. (1)

    Lince completa, ao mencionar a “revolução” que mais evolucionou que revolucionou:

    A irrupção contestatória costuma semear novidades (novas lideranças, nova pauta de debates, novos sujeitos, nova morfologia na estrutura dos movimentos) que se destinam a produzir, como bombas de efeito retardado, alterações profundas na cultura política. Nem sempre na conjuntura imediata, mas no entranhado das estruturas. (2)

    Muito do democrático e emancipatório que vivemos hoje, em diversas nações, a despeito do recrudescimento conservador, originaram-se nas lutas mundiais de 1968. Ainda que a sonhada “revolução” não tenha acontecido – nem os trabalhadore(a)s se reconhecido, ao menos em sua maioria, como classe a socializar os meios de produção –, alguma coisa de muito profundo aconteceu no coração das sociedades agitadas por aqueles movimentos. Certas formas de dominação precisaram ser alteradas, e segmentos que clamavam e reclamavam passaram a ser mais respeitados pelo próprio sistema. Sistema que foi testado em sua inegável capacidade de “domesticar” a rebeldia.

    A compreensão da história revela a chama que incendiou mudanças e aponta erros que não devemos repetir. Um olhar meramente laudatório sobre 1968, mesmo reconhecendo sua pluralidade, seria ineficaz. Por isso, nesses tempos em que a esquerda precisa se reinventar, é imprescindível pontuar os muitos fatores em que o “socialismo real” negou seus arrebatadores impulsos originários. Isso vale tanto para as revoluções icônicas do século XX – a russa, a chinesa, a cubana – como para os impressionantes movimentos de massa de 1968. O balanço crítico está presente em cada página que você lerá.

    O capitalismo hegemônico no mundo, em sua etapa de financeirização, continua sendo reprodutor da desigualdade. Mas o socialismo e a democracia a serem reinventados têm que incorporar novos valores e se inserir nas exigências do século XXI: participação permanente, transparência, cuidado ambiental, combate a todas as formas de opressão e discriminação. Em maior ou menor grau, essas postulações já estavam presentes nos movimentos de 68, como você constatará ao desfrutar os ensaios deste livro.

    As marcas do final desta segunda década do século XXI parecem ser a incerteza e o desencanto. Elas também existiam em 1968. Misturadas com a insatisfação, inclusive com os regimes totalitários de esquerda, formaram o “caldo de cultura” que deu combustível àquelas inúmeras manifestações de recusa das estruturas dominantes. Quem busca uma nova ordem e indigna-se com o status quo do individualismo consumista, deve se animar, mesmo em tempos de cartas embaralhadas e sinais trocados. O bicentenário Marx, em carta a um amigo nos anos 40 do século XIX, manifestou sua alegria com o caos: “A desesperança da época em que vivemos me enche de esperanças!”

    Os desafios de 68 seguem prementes, em muitos aspectos. Cito um deles, derivado da radical contestação do poder daquela época: urge conceber um novo Estado, transparente, poroso às demandas populares. Que, como diz Álvaro Linera, vice-presidente da República Plurinacional da Bolívia, “orquestre o modo como concebemos aquilo que nos vincula aos outros, como educação, estradas, comércio, saúde e concepção de vida em coletividade”.

    O planeta Terra faz uma revolução permanente, em torno de si mesmo e do Sol. Se não nos revolucionarmos diariamente, como já se exortava em 1968, ficaremos tontos e andaremos para trás. Aquele ano, que foi muito além de si mesmo, precisa ser revisitado e, mais que isso, revivido dentro de nós. Ler este livro ajuda, e muito.

    * Chico Alencar é professor, escritor e deputado federal (PSOL/RJ).

    NOTAS
    1 – LINCE, Léo. A rua, a nação e o sonho. Rio de Janeiro: Mar de Ideias, 2013, p. 41.
    2 – Ibidem, p. 43.

     

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    Coletânea resgata os significados e o legado de 1968 no Brasil

     

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  • Coletânea resgata os significados e o legado de 1968 no Brasil

    Livro será lançado na próxima terça, dia 31

    A editora Mauad está publicando o livro “Meio Século de 1968 – Barricadas, história e política”, organizado por Cid Benjamin e Felipe Demier. O livro será lançado na próxima terça-feira, 31 de julho, às 19h, em um evento na Blooks Livraria, na Praia de Botafogo, 316.

    Os artigos analisam as jornadas de 1968 no Brasil, a partir do olhar de Andrea Caldas, Caroline Araujo, David Maciel, Demian Bezerra de Melo, Gilberto Maringoni, José Luís Fevereiro, Marco Aurélio Santana, Rejane Hoelever, Romulo Mattos e Valério Arcary, além dos organizadores.

    A publicação conta ainda com o prefácio “A revolução que tanto amamos”, de Chico Alencar, historiador e deputado federal (PSOL-RJ).

    O coordenador nacional do MTST e pré-candidato a presidente, Gulherme Boulos, assina a apresentação de capa: “Aquele ano deixava uma impressão de fim de época, de que o novo estava nascendo – o Maio francês, as mobilizações contra a guerra do Vietnã no coração do império e, no Brasil, a luta contra a ditadura tomando as ruas. Mas, aqui, 68 termina com o AI-5. Tempos turbulentos. Hoje há também uma percepção de fim de época, marcada pela crise nos sistemas de representação política. Tempos de incerteza, entre o medo do retrocesso e a esperança do futuro. Mas estamos mais perto de 68 do que se imagina, talvez porque – como disseram Cid Benjamin e Felipe Demier na apresentação deste livro – ‘a enorme parte das tarefas colocadas pelas lutas de 68 segue por ser realizada'”.

    SOBRE OS AUTORES
    O jornalista Cid Benjamin participou da resistência à ditadura militar, tendo participado do sequestro do embaixador norte-americano. É autor do livro “Gracias a la vida”, em que rememora e reavalia toda a sua trajetória de militância. O historiador Felipe Demier é professor da UERJ, colunista do Esquerda Online e autor de vários livros, como Depois do Golpe.

    ÍNDICE
    Prefácio: A revolução que tanto amamos. Chico Alencar
    Apresentação: 1968, uma outra “primavera dos povos”. Cid Benjamin e Felipe Demier
    Maio de 68, cinquenta anos depois. Valério Arcary
    As muitas vidas de Maio de 1968: qual seu legado para a esquerda do século XXI?. Demian Bezerra de Melo
    1968 e a Segunda Onda do Feminismo. Caroline Araujo e Rejane Hoeveler
    1968 no Brasil: um ano que abalou a ditadura. Cid Benjamin
    O Regime da Espada: o Ato Institucional nº 5 e a consolidação do cesarismo militar no Brasil. David Maciel e Felipe Demier
    As múltiplas dimensões do 1968 operário no Brasil. Marco Aurélio Santana
    1968: o ano I do “milagre econômico” da ditadura. José Luís Fevereiro
    Uma diplomacia em transição. Gilberto Maringoni
    A política educacional da ditadura. Andrea Caldas
     “A vida não se resume a festivais”: a MPB entre o Tropicalismo e o nacional-popular em 1968. Romulo Mattos

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    A revolução que tanto amamos

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  • ¿Por qué estamos contra una candidatura “única” de izquierda en las elecciones?

    Cucaracha conocida no pasa a través de gallinero.
    De nada sirve llorar sobre la leche derramada.
    No confíe en la suerte. El triunfo nace de la lucha.
    Sabiduría popular brasileña

     

    Estamos ante mucha presión por una candidatura única de izquierda. Uno más en política no es igual a dos. La izquierda debe tener la lucidez de unirse contra los enemigos comunes. Sí, hay uniones que fortalecen, como el Frente Único contra los fascistas. O el Frente Único contra Temer. O el Frente Único por el derecho de Lula ser candidato.

    Pero un frente electoral exige mucho más que la disposición de luchar contra enemigos comunes. Exige, también, para acreditarse seriamente como una alternativa, algo más, algo más allá que la sola formulación de un programa en el papel. La alianza en torno a Boulos/Sonia Guajajara se ganó el derecho a presentarse en las horas decisivas de la lucha de clases de los últimos cinco años. Ganó legitimidad en las calles en junio de 2013, y en la lucha contra el impeachment. Algunos en la izquierda estuvieron muy bien en junio de 2013, como el PSTU y otras fuerzas en la izquierda. Pero se posicionaron muy mal en la lucha contra el golpe en 2016. Otros, como la mayoría del PT, escogieron a la inversa, pero eso no es menos grave.

    Un frente electoral es de naturaleza distinta que un frente único para luchar por objetivos específicos, porque exige un programa. No puede ser construido solamente contra los enemigos comunes o las reivindicaciones parciales. El programa electoral no puede ceder a las presiones posibilistas o a las tentaciones maximalistas.

    ¿El PT estaría realmente dispuesto a autocríticas del balance de los trece años? ¿Alguna autocrítica? El PT estaría dispuesto a criticar el impacto del trípode macroeconómico que se puso de pie con Palocci, cuando estaba asociado a la consultoría de, nada menos que, Delfim Netto? ¿Y reevaluar la propuesta de reforma de la previsión social defendida por Dilma Rousseff con Joaquim Levy al frente de Hacienda? ¿Algo que decir sobre las privatizaciones? ¿O sobre las alianzas con el agronegocio? ¿O sobre los compromisos con la gobernabilidad, vía el Congreso Nacional? ¿Está dispuesto a defender el fin de la Ley de Responsabilidad Fiscal y la búsqueda del superávit fiscal, por ejemplo? ¿Está dispuesto a criticar las alianzas, con el Centrão por algunos años, y con el PMDB?

    ¿Exigir estas evaluaciones sería exigir demasiado? ¿Sería el ultimatismo? ¿Será posible pensar en un futuro para la izquierda sin sacar lecciones de estas experiencias? La respuesta lúcida, madura, clara, cristalina, inevitable es no. Para el PCdoB el camino para una coalición con el PT es diferente que para la Alianza construida por el PSOL. El PCdoB participó en los gobiernos de Lula y Dilma, porque había acordado en lo fundamental con los programas de los gobiernos de Lula y Dilma Rousseff. Durante trece años no hicieron diferenciación alguna. El PSOL no tenía acuerdo.

    Seamos serios. Mantengamos el respeto. Tenemos responsabilidades inmensas. Aquellos que construimos la candidatura Boulos/Guajajara creemos que hay que encender una nueva esperanza en la izquierda. El PSOL fue oposición de izquierda a los gobiernos del PT en función de estas y otras diferencias programáticas. Pensamos que no fue errónea esta ubicación estratégica. Además, las elecciones serán en dos turnos. Como ya quedó claro, el PSOL es un aliado honesto en la lucha contra la persecución al PT, y Boulos no será un obstáculo para que Lula pueda ser candidato.

    Y la honestidad importa. El PT no debería ser un obstáculo para que Boulos y la Alianza construida por el PSOL puedan defender otro programa. Debería tener grandeza, considerando el lugar del MTST y del PSOL en la lucha contra el impeachment. El PSOL y el MTST tuvieron una posición de principios. El PSOL y el MTST estuvieron juntos también, junto a la mídia ninja, en las calles en las jornadas de junio, cuando el PT estaba en el ayuntamiento de São Paulo y en el gobierno en Brasilia. La Alianza en torno a Boulos y Sonia Guajajara puede presentarse ante los sectores organizados de los trabajadores y de la juventud con la cabeza erguida. Su papel será el de llamar a la lucha a los que perdieron la esperanza. Lo que se necesita es inflamar el ánimo de los que cayeron en el desaliento. El lugar de la izquierda en las elecciones es convocar a la mayoría del pueblo a confiar en la fuerza imbatible de su movilización.

    Porque la alianza es una chispa para las movilizaciones que vendrán. Solo la lucha cambia la vida. Será un instrumento útil en la lucha para sacar a Bolsonaro de la segunda vuelta. Será un punto de apoyo para la organización de miles de activistas para las luchas que vendrán. Esta actitud debe expresarse en los criterios para la elaboración del programa.

    Un programa electoral de izquierda debe ser un programa de movilización. Un programa electoral responde a la disputa política. La disputa política es la forma en que se debate la lucha por el poder. Es decir, a la cuestión de quién debe gobernar, cómo gobernar y contra quién gobernar. Deben ser ideas poderosas para entusiasmar, cautivar, encender, encantar la rebeldía de la juventud y del pueblo. Deben inspirar a que otra vida es posible. El eje del programa de las candidaturas Boulos/Guajajara es, correctamente, la lucha contra las desigualdades sociales que explican los dramas que castigan la vida de la inmensa mayoría de los trabajadores y del pueblo. Las propuestas se centran en la idea de que sin lucha y participación popular no es posible cambiar Brasil.

    No es raro que se confunda un programa electoral con una plataforma de reivindicaciones sindicales o populares. O con un programa de gestión del Estado, un programa de gobierno. No es ninguno de los dos. Una plataforma de reivindicaciones expresa demandas que una categoría de trabajadores, como los profesores en lucha por la valorización salarial, o un movimiento popular, como el de lucha por la vivienda o por la tierra, presentan como exigencias a un gobierno de turno. Son reivindicaciones específicas. Pero, aun cuando son reivindicaciones unitarias, una plataforma de reivindicaciones tiene una naturaleza distinta de un programa electoral. El año pasado, por ejemplo, el repudio a las propuestas de reforma de la seguridad social fue el combustible para la realización de una de las mayores huelgas generales desde los años ochenta. Esta plataforma de reivindicaciones tenía el objetivo de construir un frente único para la acción. Ella tenía que ser un denominador común que cimentara el frente único de las centrales sindicales (CUT, Força Sindical, Nova Central, CTB, CSP/Conlutas, y otras) y movimientos sociales. En las elecciones, cada partido presenta sus propuestas. El papel de la Alianza PSOL/PCB y los movimientos sociales es presentar sus propias propuestas.

    La elaboración del programa electoral debe estar contextualizada por un análisis de cuáles son los problemas más graves que afectan a los trabajadores y al pueblo. Pero ello está condicionado por un análisis de la coyuntura política. Las condiciones impuestas por la coyuntura adversa cuentan. Si no, el programa electoral sería, esencialmente, siempre el mismo, sin importar si las elecciones se realicen en 1998, 2028, o en 2018. Somos socialistas, y debemos defender la necesidad del socialismo en las elecciones. Sería políticamente deshonesto y, por lo demás, absurdo, ocultar nuestra identidad programática, nuestro proyecto histórico. Pero la defensa del socialismo o de la revolución no es, en sí y por sí misma, un programa electoral. No podemos concurrir en Brasil con el programa de la Comuna de París de 1871. Nuestro programa electoral debe reconocer las condiciones en que se realiza la disputa. Estas condiciones son, fundamentalmente, dos: después del golpe parlamentario-institucional de 2016, y la secuencia de trece años de gobiernos de conciliación de clases bajo el liderazgo del PT. Disminuir el impacto de las terribles secuelas originadas por el golpe nos dejaría separados de la experiencia práctica de decenas de millones que están viendo sus vidas empeorar día a día tras el impeachment de Rousseff. Desconocer el balance de los trece años de gobiernos liderados por el PT nos deslegitimaría como una nueva alternativa de izquierda.

    El programa electoral debe identificar contra quién luchamos y nuestra decisión de derrotarlos. Grandes movilizaciones de masas no se mueven solo por indignación o por la percepción de la injusticia. Necesitamos, también, tener gente activa que crea que puede ganar, aunque sean victorias parciales. La perspectiva de que las victorias son posibles importa. Por más modestas, por pequeñas que sean o por más invisibles que puedan parecer, esas victorias siembran una disposición por más movilización que todos los “llamamientos a la resistencia”. Disminuir el drama de la vida de las personas con ligereza es de una rigidez doctrinal imperdonable. Las propuestas serias no son lo mismo que las propuestas “viables”, y no pueden reducirse a ellas. Las propuestas serias deben ser concretas. Las propuestas serias deben ser iniciativas por las que vale la pena luchar. Las propuestas “viables” es una fórmula que desconsidera que la primera responsabilidad de una izquierda radical es demostrar que hay que cambiar las condiciones de la lucha política. Una izquierda que no es útil es inofensiva. Una izquierda útil debe ser peligrosa.

    Un programa electoral tampoco necesita ser un programa de gestión. Un programa de gestión necesita considerar incontables factores, entre ellos, el tiempo. Fantasear con que un partido de izquierda al llegar al poder podría hacer lo que quisiera, sería infantil y tonto. ¿Qué hacer inmediatamente para garantizar que el gobierno no sea derribado? ¿Cómo construir las condiciones a medio plazo para tomar tales o cuales medidas? Imaginar que se pueda, anticipadamente, encontrar todas las soluciones, desconociendo a los enemigos y sus iniciativas, es ingenuo y doctrinal. No hay fórmulas universales preestablecidas para enfrentar a las fuerzas reaccionarias. A no ser un criterio que pasó la prueba en el laboratorio de la historia: no es posible luchar por la transformación de la sociedad sin despertar la furia contrarrevolucionaria de la clase dominante.

    Imagen: kandisnky 1911

     

    TEXTO ORIGINAL

    Por que somos contra uma candidatura ‘única’ de esquerda nas eleições?

  • Dia 10 de agosto: Uma oportunidade para retomar as mobilizações

    As centrais sindicais oficialmente estão convocando mobilizações em todo o País para o dia 10 de agosto. Os principais fóruns do funcionalismo federal – FONASEFE e FONACATE – aderiram ao chamado. Reuniões nos estados começam a acontecer para organizar os primeiros passos para as mobilizações e o movimento começa a ganhar corpo. Há avanços em alguns setores, há atrasos em outros, mas a tarefa imediata tem que ser acelerar os preparativos. É preciso colocar tudo pra funcionar e as centrais sindicais precisam dar o exemplo e mobilizar de verdade para as atividades que estão sendo programadas e que envolve paralisações e manifestações de rua. A convocação não pode ser formal. Precisamos retomar as mobilizações contra Temer e suas reformas imediatamente.

    A grande unidade da burguesia e dos três poderes da República acumulou força suficiente nos últimos dois anos para avançar sobre direitos sociais e democráticos históricos da classe trabalhadora brasileira. O governo Temer, em parceria com a maioria do Congresso Nacional e a maioria dos juízes do STF, tem construído modificações e ajustes no arcabouço constituinte e jurídico – legislativo brasileiro. O objetivo é direcionar os recursos da União e facilitar vantagens econômicas e democráticas para os interesses do mercado e do sistema financeiro, diminuindo globalmente o valor do trabalho e fechando portas e janelas do regime diminuindo o espaço democrático concedido até hoje para os trabalhadores. Trata-se de uma correlação de forças mais desfavorável para os trabalhadores, e a tarefa central é construir um processo de lutas que reverta os desdobramentos da luta de classes a favor dos interesses dos trabalhadores e setores oprimidos.

    Não podemos permitir que a ofensiva dos poderosos que comandam o país avance nem mais um centímetro. Mas para isso acontecer é especialmente necessário colocar de pé uma ampla unidade que envolva as centrais sindicais e o conjunto do movimento operário, o funcionalismo público, os movimentos populares e de luta contra as opressões, a juventude da periferia e o movimento estudantil secundarista e universitário. O dia 10 de agosto é uma grande oportunidade para mobilizarmos multidões nas ruas e retomar as mobilizações que denuncie o escandaloso desemprego de milhões de trabalhadores e que se enfrente contra os ataques de Temer exigindo a revogação da Emenda Constitucional 95 (teto de gastos), a anulação da reforma trabalhista e impedir qualquer ataque a Previdência social. É também um espaço para defender as liberdades democráticas que estão sendo desrespeitadas violentamente no último período. Muitos são os exemplos, o assassinato político de Marielle Franco (PSOL), a reforma política que joga partidos ideológicos na ilegalidade, a injusta prisão de Lula por motivos eleitorais ao mesmo tempo em que vários parlamentares do ultra corrupto “ centrão” e entre os tucanos seguem livres para serem candidatos, a prisão dos 23 do Rio de Janeiro, etc.

    O fato de o senador Aécio Neves ( PSDB) estar livre mesmo depois de fartas escutas e provas, enquanto Lula segue preso, é a principal demonstração que a maioria do Judiciário tomou uma posição no tabuleiro da política. O sufocamento do direito de greve do funcionalismo, as intervenções militares nos morros do Rio, nas rodovias contra os caminhoneiros e as ocupações de tropas nas refinarias na greve dos petroleiros também são exemplos de medidas que sufocam o desenvolvimento das lutas dos trabalhadores. O assanhamento de grupos e bandos de ultra direita, movimentos conservadores em alianças com neoliberais, são de conjunto elementos que pavimentam uma ordem democrática no país estranha aos interesses de todos os setores progressistas, de toda esquerda e dos grupos revolucionários no país. Todos os direitos sociais e democráticos estão ameaçados e é preciso fortalecer e construir um gigantesco movimento de resistência.

    Agora, não basta só construir as mobilizações do dia 10 de agosto e achar que todos os problemas da classe trabalhadora se resolverão no processo eleitoral no segundo semestre. É necessário disputar a eleição, mas com a consciência de que trata-se de um terreno controlado por nossos inimigos e que, portanto, precisa ser usado também como linha auxiliar para mobilizar os trabalhadores. Após o dia 10 de agosto é necessário que as centrais sindicais continuem convocando um calendário de lutas permanente, apostando no caminho da mobilização dos trabalhadores, criando cotidianamente as condições para que a insatisfação popular se transforme em luta consciente.

    * Militante da Resistência/PSOL, membro da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas, integrante do bloco de oposição

  • 2 de agosto é dia de barrar a Reforma do Ensino Médio

    O golpe parlamentar, que levou Temer à Presidência, ocorreu para atender aos interesses do grande capital e dos banqueiros. As reformas desse governo ilegítimo visam atacar e rebaixar os direitos sociais da maioria do povo. Foi assim com a PEC do teto dos gastos, que congelou investimentos sociais por 20 anos, com a reforma trabalhista, que retirou direitos históricos dos trabalhadores, com a lei das terceirizações e a tentativa de reforma da Previdência, que objetiva entregar aos banqueiros nosso futuro. Com a reforma do ensino médio e com a BNCC, o objetivo é o mesmo: atacar direitos e transferir para o setor privado a gestão das escolas, destinando verba pública para empresas do ensino, que visam lucro e não o direito à educação.

     

    Audiências Públicas
    Para aprovar a BNCC, o MEC tem que cumprir um conjunto de audiências públicas. A que ocorreria em São Paulo (08/06) foi suspensa a partir de uma manifestação de professores e professoras e estudantes. Essas audiências são uma farsa. O objetivo é transparecer democracia, porém não existe debate, apenas querem legitimar o que já estava pronto pelos golpistas.

    Nossa pressão fez que o presidente da comissão do BNCC renunciasse da função, porém o MEC, com apoio de empresários, quer aprovar a todo custo a BNCC ainda este ano.

    Entenda a Reforma do Ensino Médio e a BNCC
    Uma das primeiras medidas do governo ilegítimo de Temer foi a edição da medida provisória 746/2016 da reforma do ensino médio. Para além de não haver debate algum com a sociedade, a MP estabeleceu que as disciplinas obrigatórias serão apenas português e matemática; reduziu a atual carga horária das disciplinas em 40%, estabeleceu o notório saber, não sendo obrigatória a formação do professor e da professora e criou os chamados itinerários formativos (as “possíveis” escolhas dos jovens estariam distribuídas em cinco áreas de concentração: Ciências Humanas, Ciências da Natureza, Matemática, Linguagens ou Educação Profissional).

    Em 8 de fevereiro de 2017, o Senado aprovou a MP sob a forma de Projeto de Lei de Conversão 34/2016 e foi sancionada pelo presidente ilegítimo em 16 de fevereiro de 2017.

    Para aplicar a reforma do ensino médio ainda resta a aprovação das Bases Nacionais Curriculares Comum (BNCC) e regulamentação pelos estados e municípios.

    A proposta da BNCC foi homologada pelo MEC em 21 de dezembro de 2017 e pode ser aprovada pelo Conselho Nacional de Educação ainda em 2018. São mais de 500 páginas e estabelece um retrocesso na educação.

    Trocando em Miúdos
    1) O que é a Base Nacional Curricular – BNCC?
    É um instrumento de referência que orienta quais são os conhecimentos indispensáveis aos alunos em todas as etapas da educação básica. Ela estabelece as habilidades e competências fundamentais para cada etapa de ensino.
    2) Como ficam as disciplinas?
    Na proposta do MEC, são apresentadas as competências e habilidades obrigatórias de cada itinerário formativo para o ensino médio, porém existe detalhamento apenas de Português e Matemática, retirando as demais disciplinas da proposta. Após muita pressão, o MEC diz que vai voltar atrás.
    3) E o Ensino a Distância (EaD)?
    Na proposta do MEC, existe a possibilidade de 40% da grade do ensino médio regular e de 100% do EJA (Educação de Jovens e adultos) serem feitos à distância. Se aplicado, o estudante só irá na escola três dias por semana.
    4) E o Ensino Integral?
    A proposta do MEC é autoexplicativa: “Independentemente da duração da jornada escolar, o conceito de educação integral com o qual a BNCC está comprometida se refere à construção intencional de processos educativos que promovam aprendizagens sintonizadas com as necessidades, as possibilidades e os interesses dos estudantes e, também, com os desafios da sociedade contemporânea. Isso supõe considerar as diferentes infâncias e juventudes, as diversas culturas juvenis e seu potencial de criar novas formas de existir.
    Assim, a BNCC propõe a superação da fragmentação radicalmente disciplinar do conhecimento, o estímulo à sua aplicação na vida real, a importância do contexto para dar sentido ao que se aprende e o protagonismo do estudante em sua aprendizagem e na construção de seu projeto de vida (págs 14 e 15).

    Diante das inúmeras manifestações contrárias aos retrocessos, o MEC anunciou que dia 02 de agosto vai ter aulas suspensas nas escolas públicas para que o professorado debata a BNCC. Não podemos nos iludir. Essa proposta não é para consultar, mas apenas para legitimar o golpe contra o ensino médio.

    Nossas Propostas:
    1) Exigência da não aprovação da BNCC em 2018. Que o novo governo eleito inicie um amplo processo de debate democrático, que inclua toda comunidade;
    2) A Reforma emergencial necessária é nas condições de trabalho e salários dos/as trabalhadores/as da educação. Exigimos equiparação já com as demais profissões de nível superior, laboratórios nas escolas, fim de contratos precários de trabalho, com imediata garantia de estabilidade a todos/as e concurso público;
    3) Redução do número de aluno por sala de aula, com o máximo de 25 alunos;
    4) Aplicação imediata da jornada do Piso (1/3 de hora atividade), rumo aos 50%;
    5) Fim das avaliações externas (SARESP e Prova Brasil). Quem educa deve avaliar o aprendizado;
    6) Manutenção de todas as disciplinas e presenciais! Manutenção do EJA 100% presencial;
    7) Não aos projetos de privatização da gestão escolar, como MMR e CIS;
    8) Pelo fim das cartilhas que engessam o ensino, defendemos o respeito a liberdade curricular e as características regionais;
    9) Ensino Técnico deve ser de qualidade e não aligeirado;
    10) Verbas públicas exclusivamente para escolas públicas!

    Com estas 10 medidas é possível uma efetiva reforma do Ensino Médio, que priorize a educação aos jovens em detrimento das empresas que querem lucrar com e educação!


    *João Zafalão é professor do ensino básico em SP, diretor licenciado da APEOESP, da executiva estadual do PSOL-SP e pré-candidato a deputado estadual

  • Toda liberdade em arte

    No contexto entre guerras, as acirradas tensões políticas e ideológicas invadiram intensamente o campo da cultura, influenciando fortemente os rumos e o tom dos debates sobre a relação entre estética e política. Nesse contexto, as vanguardas criavam Manifestos, na tentativa de definir suas posições estéticas frente a tais disputas ideológicas.

    Quanto ao Manifesto Fari, nos parece pertinente dizer que houve uma tentativa de criação de um movimento que fornecesse suporte a todos os outros movimentos artísticos revolucionários da época. Fica explícita a pretensão de uma reunião de defensores revolucionários da arte e da revolução para combater os “usurpadores da revolução”, para que se reúnam na luta em defesa da liberdade na arte, bem como deixarem à parte as diferenças de tendências e posicionamentos políticos divergentes:

    André Breton (poeta e dirigente do Movimento Surrealista), Diego Rivera (pintor de renome) e Leon Trotsky (lendário dirigente do Exército Bolchevique Russo) se reuniram para debater acerca da situação atual da arte no mundo daquela época.

    Foi no dia 25 de julho de 1938, na Cidade do México, que foi publicado o Manifesto, tido como um documento em favor da autonomia da arte, redigido conjuntamente por três significativas personalidades e assinado* somente por Breton e Diego Rivera. Interessante e relevante, também desperta curiosidade acerca desse acontecimento para a História da Literatura e da arte mundial – registrado pela união de três homens especialmente singulares, de “raízes” e concepções estéticas distintas entre si – a capacidade desses autores em transcender suas discordâncias teóricas.

    A repercussão do documento almejada era de nível internacional. A intenção era tocar o cerne dos grupos mais evoluídos intelectualmente daquele momento, para que seguisse ganhando força pela reivindicação social em massa. Seria em princípio, um acontecimento particular no qual o processo de conscientização atingiria uma dimensão maior.

    A ideia de organização de artistas e intelectuais se unirem em favor de um caminho aberto e livre para a arte mundial reflete essa tentativa de reajuste da cultura às condições sociais. O desejo de sucesso desse Manifesto foi expresso pelos autores. Após procedimentos como reuniões locais e nacionais com grupos de intelectuais e artistas, houve a culminação de um Congresso Mundial que consagrou oficialmente a fundação da Federação criada.

    Trotsky, Breton e Rivera finalizaram o Manifesto com o levante que abre esse objetivo: “A independência da arte – para a revolução. A revolução para a liberação definitiva da arte”. (Cidade do México, 25 de julho de 1938). Vejamos um trecho do Manifesto:
    A arte, como a ciência, não só precisam ordens, mas não pode, por sua natureza, suportá-las. A criação artística tem suas leis, mesmo quando está conscientemente a serviço do movimento social. A criação intelectual é incompatível com a mentira, a falsificação e o oportunismo. A arte pode ser uma grande aliada da revolução, enquanto permanecer fiel a si mesma.(in Facioli:1985:99)

    Podemos perceber o desejo por parte dos autores de que houvesse um caminho ideal em que a arte e a revolução aspirassem a uma busca por uma autonomia, mas conservando suas singularidades que lhe são peculiares, sem confundirem-se, uma vez que a arte e a poesia, segundo os autores do Manifesto, estão sujeitas apenas às suas próprias leis e não devem se submeter a nenhuma coação externa direta, ou regime político.

    O texto Manifesto da Fiari, debatido sobre a arte do contexto pós I guerra, também foi fortemente debatido no plano da intelectualidade em voga em vários países. Após longas experiências e conturbadas discussões ocorridas na cidade do México, Breton regressou a Paris por volta de julho de 1938, incumbido da tarefa da criação do movimento, reunião de adeptos e simpatizantes, procedimentos vistos comumente nas outras correntes vanguardistas. Portanto, Breton volta à França, cria a fundação Fiari, e seu meio de propagação era de cunho panfletário, o boletim Clé qual tinha como secretário de redação Maurice Nadeau2. Breton compartilhava da argumentação próxima às teses desenvolvidas por Trotski em “Literatura e Revolução” 3: A arte não é um domínio que chame o partido a comandá-la, “a arte deve abrir por si mesma seu próprio caminho. Os métodos do marxismo não são os mesmos da arte” (Trotski: 1964: 187). No entanto, para Breton, o pensamento de Trotski em Literatura e Revolução, embora bem direcionado, parecia antiquado para a situação em que se viam naquele momento.

    O debate vivo da Fiari teve uma existência de breve vigência. Porém, apesar de “dissolvido” em princípios de 1939, foi suficiente para alcançar sua relevância na História e exerceu, enquanto foi possível, o papel ao qual se propôs, de significativa importância para a arte.
    O documento parece manter até hoje uma atualidade, uma singularidade por seus aspectos relevantes ao debate crítico no campo da Estética, um libelo pela liberdade de criação “assegurada por um regime anarquista de criação individual”, livre de regimes burocráticos, coações externas ou leis impostas.

    Marcado pela união de forças entre artistas e intelectuais que não viam no capitalismo, enquanto regime democrático, nem tampouco no autoritarismo estalinista um futuro promissor para o mundo da arte, aspiraram, então, um espaço de independência. Uma “espécie de grito por socorro” para que fosse ecoado um libelo até as novas gerações, pela autonomia da arte, sujeita sempre às suas próprias leis e pela emancipação do ser humano, sem estranhamento às suas atividades.

    Bibliografia:
    ABASTADO, Claude. Lê surrealisme. Paris: Hachette, 1975.
    BRETON, André. Manifestos do Surrealismo. Rio de Janeiro: Ed. Nau, 2001.
    ________. Entrevista otorgada a la revista Hoy, 14 de mayo de 1938.
    ________. Les Vases Communicants. Paris: Gallimard, 1955.
    ________. Entretiens. Paris: Gallimard, 1925.
    ________. Limites non frontières Du Surréalisme. In La clé des champs, 1961. Paris: Edição Pauvert, 1967
    FACIOLI, Vatentin (org). Breton/ Trotski – Por uma arte Revolucionária Independente. São Paulo: Paz e terra: Cemap, 1985
    LEON TROSTKI. Diário do Exílio. São Paulo: Edições populares, 1980.
    _______________. Literatura e Revolução. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969. _______________. Da Noruega ao México. Rio de Janeiro: Laemmert S.A, 1968

  • 25 de julho, dia da mulher negra latina e caribenha: lembrar quem somos e seguirmos na trincheira

    Nos dias que antecederam o 25 de julho eu pensei muito sobre o que queria falar, sobre que temática abordaria para tratar do Dia da mulher negra Latina e caribenha. Pensei em escrever sobre a violência que nos aterroriza, que nos mata, a violência histórica com a qual convivemos diariamente. Mas enquanto eu escrevia e analisava os dados, eu descobri que estava cansada, literalmente cansada. Cansada de contar corpos negros, cansada dos dados estatísticos. Cansada de olhar para aqueles dados e ter que ser forte diante deles, cansada de não ter respostas, enfim, cansada, muito cansada.

    Eu me recuso a olhar para os dados estatísticos de forma desumana, não quero falar sobre violência nessa nota. Não porque não seja importante. A denúncia constante do genocídio é uma arma política que temos, mas por um momento eu quero olhar para as minhas irmãs e lembrar que somos resiliência, embora não tenhamos a obrigação de sermos fortes o tempo todo. Aliás, todas as pretas deveriam saber disso: não temos obrigação nenhuma de sermos fortaleza o tempo inteiro.

    Eu decidi que queria contar uma história. A história de uma mulher negra como eu, a história de um símbolo do feminismo negro. Porque olhar para a história dessas mulheres significa dar um novo olhar para nós mesmas e para o sentido da nossa militância. E para relembrar o quanto a nossa ancestralidade é motivo de orgulho, que aquelas que vieram antes de nós são as grandes responsáveis por continuarmos aqui, erguidas.

    Somos mulheres negras, somos resiliência
    Akron, Ohio, 1851. Dia da primeira Convenção Nacional pelos Direitos das Mulheres. Naquele período histórico os EUA ferviam com os conflitos entre o Norte e o Sul do país e os movimentos abolicionistas, conflitos que, posteriormente, acarretariam em uma guerra civil no país. Naquele período também as mulheres começaram a se organizar na luta por direitos, especialmente as discussões do direito ao voto. Como não poderia ser diferente, apesar da movimentação importante das mulheres americanas naquele momento, composto inclusive por muitas mulheres pertencentes aos movimentos abolicionistas, aquele era um movimento com um corte de classe bem definido: era composto majoritariamente por mulheres brancas, de classe média e abastadas. Questionavam a posição de sujeição, subordinação e violência das mulheres no casamento, na vida doméstica dedicada ao lar, aos filhos e aos seus maridos, mas ignoravam por completo a situação de opressão vivida pelas mulheres trabalhadoras, operárias brancas, nas fábricas, e ignoravam ainda mais a situação das mulheres negras no Sul e no Norte dos EUA.

    No dia da Convenção Nacional o ainda incipiente movimento de mulheres americano se preparava para uma convenção histórica e para enfrentar a presença de homens nessa convenção que manifestamente achavam aquele espaço absolutamente desnecessário: porque mulheres precisavam votar? Porque reivindicar direitos? Sim, havia homens na convecção, por mais absurdo que isso possa parecer hoje em dia.

    Nesse dia, porém, uma mulher se destacava. Usando um turbante branco, vestida rusticamente, a ex-escrava, única mulher negra presente naquela convenção, enfrentava a hostilidade de um feminismo nascente que negava a sua existência. Não fosse a solidariedade de algumas poucas mulheres que defendiam a causa abolicionista, aquela mulher negra, definitivamente, não estaria ali. Portanto, não havia nenhuma preocupação classista naquele movimento, não se fazia uma ligação real entre a exploração capitalista, o racismo e o sexismo. Mas Sojourner Truth estava lá, como representante de suas irmãs escravas e ex-escravas, como um anúncio do que deveria ser o movimento feminista no futuro.

    Uma parcela significativa das mulheres brancas presentes naquele local, algumas inclusive abolicionistas, não desejava a presença de Sojourner Truth. Pior, tentaram impedi-la de falar tamanha era a sua aversão racista a presença de uma mulher negra e ex-escrava em uma convenção para se discutir os direitos das mulheres.

    Acontece que aquela mulher negra não se intimidou e muito menos se retirou, aliás, nunca foi do feitio de Sojourner Truth se intimidar. Contra o racismo e o sexismo da época aquela mulher preta participava de vários encontros, tomava a palavra e falava, mesmo tendo que lidar com a hostilidade do movimento de mulheres. Até hoje, segundo aponta Angela Davis, não se sabe ao certo se Truth foi convidada para Convenção ou se foi por sua própria iniciativa. O que importa é que ela estava lá e aquele dia seria totalmente diferente sem a sua presença.

    Durante a Convenção os ataques sobre a supremacia masculina começaram, eram terríveis, vinham de todos os lados, e ridicularizavam as mulheres. Intimidadas, sem conseguir dar repostas, as mulheres brancas presentes naquele local não sabiam responder. Os homens presentes na convenção queriam demonstrar que as mulheres não tinham capacidade alguma de serem sujeitos de direitos, de votar, ou qualquer coisa do tipo, já que eram frágeis demais para tal coisa. Segundo eles, as mulheres precisavam de ajuda até para pular uma poça de lama ou embarcar em uma carruagem, portanto, como poderiam votar? Então a voz de trovão se ergueu, voz de trovão era o termo que uma das mulheres presente à convenção na época usou para descrever o discurso de Sojourner.

    Truth se ergueu irritada com tanto machismo. E provavelmente com um ódio gigante do racismo daquele lugar. Como muitas de nós, cansadas do racismo e do sexismo, Truth fez da sua raiva uma arma. E que arma! Depois de comprar uma briga com as mulheres racistas daquela convenção, ela finalmente conseguiu falar, e com a sua fala, entrou para a história:

    “Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari cinco filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?”

    Em apenas poucos segundos Sojourner fez cair por terra o mito da fragilidade feminina, calou por completo os homens presentes naquela convenção, e, segundo relata Angela Davis na obra “Mulheres, raça e classe”, negou a tese de que a supremacia masculina era um princípio cristão:

    “Daí aquele homenzinho de preto ali disse que a mulher não pode ter os mesmos direitos que o homem porque Cristo não era mulher! De onde o seu Cristo veio? De onde o seu Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem não teve nada a ver com isso. Se a primeira mulher que Deus fez foi forte o bastante para virar o mundo de cabeça para baixo por sua própria conta, todas estas mulheres juntas aqui devem ser capazes de conserta-lo, colocando-o do jeito certo novamente. E agora que elas estão exigindo fazer isso, é melhor que os homens as deixem fazer o que elas querem”.

    Truth teve um papel fundamental naquele dia e nos dias e anos que se seguiram, já que ela continuou caminhando, falando nos espaços, fazendo seus discursos, quebrando paradigmas, revelando o quão nociva é a opressão racista e machista que as mulheres negras estão submetidas.

    Se o racismo com a presença de Truth no movimento de mulheres terminou depois daquele dia? Evidente que não. Aquele era um movimento completamente omisso as condições das mulheres trabalhadoras e das mulheres negras. Truth continuava tendo seu espaço negado, mas sua obstinação em estar naqueles lugares revelou não só a face cruel do movimento feminista nascente nos EUA, mas a necessidade de um movimento classista.

    E ela insistiu, persistiu, imprimiu sua marca e o seu discurso, conhecido como “E não sou uma mulher?”, tornou-se uma das maiores referências para o feminismo negro, uma inspiração para uma geração inteira de mulheres negras.

    Por um feminismo negro e das mulheres trabalhadoras
    Neste dia 25 é necessário que nós, mulheres negras, saibamos onde encontrar forças para continuar essa jornada iniciada por mulheres como Truth. Estamos calejadas, é verdade, mas estamos aqui, vivas, com uma vontade imensa de lutar, movendo as estruturas do racismo e do patriarcado, prontas para dar continuidade ao que nossas ancestrais iniciaram antes de nós.

    Que possamos dar conta da nossa militância cuidando de nós mesmas e umas das outras, da nossa autoestima, dessa força interior enorme capaz de fazer balançar o capitalismo, porque somos vanguarda em muitas lutas.

    Que nesse dia 25 possamos nos sentir verdadeiramente abraçadas. Que se compreenda que o nosso feminismo precisa ser negro e classista ou não será feminismo, mas apenas um apanhado de ideias que não reflete a realidade das mulheres brasileiras.

    Por Sojourner Truth, por Dandara, por Tereza, por Marielle, por todas que vieram antes de nós, viva o Dia Internacional da Mulher negra Latina e Caribenha!

    Referências: a narração histórica presente nessa nota está baseada na obra de Angela Davis “Mulheres, raça e classe”, capítulo 3, pg 57 a 79.

    Foto: Carol Burgos

  • UNEB terá cotas para pessoas trans, autistas e ciganos

    A Universidade do Estado da Bahia (UNEB) disponibilizará cotas para transexuais, travestis, transgêneros, quilombolas, ciganos, pessoas com deficiência, transtorno do espectro autista e altas habilidades. A UNEB, que já tinha cotas para negros (40% das vagas) e indígenas (5% de sobrevagas), acrescentará mais 5% de sobrevagas para cada um desses grupos.

    As demais 60% das vagas são destinadas a não-cotistas. A reserva segue o modelo supranumerário, ou seja, as cotas para transexuais, travestis, transgêneros, quilombolas, ciganos, pessoas com deficiência, transtorno do espectro autista e altas habilidades só são adicionadas quando esses grupos não têm representantes entre os selecionados entre as vagas usuais.

    Para concorrer às cotas, candidatas e candidatos também devem ter cursado ensino fundamental e médio em escolas públicas e ter renda familiar mensal até quatro salários mínimos.

    Uma conquista do movimento trans e do movimento autista
    A UNEB é a primeira universidade do Brasil a instituir cotas para pessoas trans e autistas em todos os cursos de graduação.

    No Brasil, as pessoas trans sofrem uma violência cruel. Assim como acontece com LGBTIs em geral, o preconceito dentro das famílias gera tensões, destrói os laços afetivos e faz com que muitas pessoas trans fujam ou sejam expulsas de casa. Nas escolas de ensino fundamental e médio, pessoas trans têm dificuldade de se socializar, são vítimas de bullying, são perseguidas e marginalizadas, tendo, por isso, dificuldade de continuar seus estudos.

    Numa pesquisa da Fundacion Huesped, cerca de 70% das mulheres e dos homens trans relataram já terem sofrido discriminação por colegas de estudo, 40% das mulheres trans e 50% dos homens trans também sofreram discriminação por professores. Cerca de metade das pessoas entrevistadas já haviam abandonado a escola. Embora provavelmente componham cerca de 1% das LGBTIs, são vítimas de cerca de metade dos crimes de ódio fatais contra LGBTIs documentados anualmente.

    Com respeito às pessoas autistas, a situação também é perversa. As escolas e os profissionais da educação estão despreparados para lidar com autistas. Estas pessoas são vítimas de bullying pelos colegas de sala e de preconceito pelos professores e professoras. Em consequência disso, muitas escolas se recusam a matricular alunas e alunos autistas, o que é um absurdo.

    Como se tudo isso não bastasse, as pessoas autistas têm uma dificuldade maior que as não-autistas em relação ao vestibular atualmente. Embora elas possam aprender sobre disciplinas e assuntos que as interessam, ao mesmo tempo elas têm uma dificuldade muito maior em aprender assuntos que não as interessam, o que prejudica muito o seu desempenho em um vestibular multidisciplinar. Isso gera uma situação bastante contraditória: autistas que estudam no ensino médio e leem livros acadêmicos da área de interesse se veem incapacitadas de passar no vestibular.

    Por tudo isso, as cotas na UNEB representam uma medida que é necessária para reverter a profunda desigualdade social que pessoas trans e autistas têm em relação ao restante da população. Uma medida como esta, infelizmente, ainda não se encontra nas universidades ditas de excelência do país. Nossa luta deve incluir cotas como na UNEB para todo o país, além de medidas para incluir estes segmentos da população em escolas de ensino fundamental e médio.

    Foto: Reprodução Sociedade Online

  • Alckmin é Temer

    O recente anúncio da definição dos partidos do “Centrão” pela candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência da República é um fato que merece atenção.

    Formado por DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade, esse bloco de partidos burgueses, reconhecidamente fisiológicos, conservadores e corruptos, é expressão nítida e sem mediações do balcão de negócios do regime político brasileiro. A maioria dessas siglas sempre esteve com o governo de turno, compondo tanto a base de apoio de FHC quanto a dos governos Lula e Dilma. Com o golpe parlamentar de 2016, formaram a aliança de sustentação de Temer, ocupando importantes ministérios.

    Ao negociar em bloco, potencializaram seu poder de barganha. Abriram tratativas com Ciro Gomes (PDT), que acabou preterido. Em seus cálculos táticos para 2018, consta, ainda, o fator sobrevivência: boa parte dos principais parlamentares desses partidos estão implicados na Lava Jato.

    Faltando menos de 1 mês para a campanha eleitoral, tomaram uma decisão de embarcar na candidatura tucana em troca de cargos e outras promessas inconfessáveis.

    Candidatura de Alckmin ganha força
    O fato é que a adesão do Centrão dá novo fôlego eleitoral à candidatura de Alckmin, até então questionada pela estagnação ao redor de 7% de intenção de votos nas pesquisas. Estima-se que a aliança renda ao candidato do PSDB 4 minutos e meio no horário eleitoral gratuito, afora o considerável reforço em termos de palanques e estrutura de campanha por todo o país.

    Do ponto de vista político, a convergência em direção à Alckmin, em meio à fragmentação e imprevisibilidade marcantes do cenário eleitoral, aponta que a classe dominante e o imperialismo vão se definindo por uma alternativa prioritária. Em meio a uma profunda crise de representação política, a burguesia repete, uma vez mais, a aposta no PSDB.

    Alckmin será, portanto, o legítimo representante da coalizão governista liderada por Temer que emergiu com o golpe parlamentar, empreendendo uma ofensiva brutal contra os direitos e as condições de vida da maioria dos trabalhadores. Sua candidatura é a continuidade desse projeto antipovo, que aspira, agora, a revigorar-se com a legitimação do voto.

    Ida ao segundo turno não está assegurada
    O calcanhar de Aquiles de Alckmin é que Temer é um peso morto dificílimo de arrastar. A rejeição popular do atual presidente, a maior desde o fim da ditadura, e o rechaço popular ao programa de retirada de direitos são sérios obstáculos às pretensões eleitorais do PSDB. Naturalmente, Alckmin se esforçará ao máximo para desassociar sua imagem da de Temer, por isso hesita em fechar aliança com o MDB, que promete lançar a candidatura de Henrique Meirelles.

    Outra enorme dificuldade para o tucano é o fortalecimento de Jair Bolsonaro (PSL), que cresceu especialmente sobre o eleitorado da direita tradicional. Se não conseguir desidratar a candidatura do fascista, Alckmin dificilmente chegará ao segundo turno.

    O tucano também enfrenta diversas denúncias de corrupção: propinas recebidas por empreiteiras, superfaturamento em obras do Metrô e desvio de verbas para a merenda escolar. Contudo, até aqui, o Judiciário vem blindando Alckmin das investigações, postura oposta àquela adotada com Lula e o PT.

    Derrotar o candidato do golpe
    A esquerda tem a tarefa de denunciar em alto e bom som: Alckmin é Temer. Seu programa é precisamente a continuidade do que foi implementado pelo peemedebista. Sua aliança eleitoral é essencialmente a mesma que sustentou o golpe e deu base parlamentar às principais medidas regressivas aprovadas no Congresso Nacional contra os direitos sociais.

    Nesse sentido, contrapondo-se ao candidato preferido dos golpistas, a candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara (PSOL/PCB/MTST) defende medidas que respondem às necessidades do povo pobre e trabalhador, como a revogação das contrarreformas aprovadas durante os últimos 2 anos, a redução da jornada de trabalho, sem redução salarial, e a elevação do salário-mínimo. E, também, a taxação das grandes fortunas e a auditoria da dívida pública, bem como a defesa dos direitos das mulheres, negros e negras e da população LGBT.

    Além de propostas sociais e democráticas, Guilherme Boulos defende o fim das alianças com a direita. Um governo comprometido com a maioria do povo deve garantir a sua “governabilidade” com apoio social e mobilização popular, e não com acordos com o Centrão e o MDB.

    Foto: Beto Barata/PR