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  • Municipários de Porto Alegre resistem à repressão e aos ataques do governo Marchezan

    Ataques atingem diretamente o funcionalismo e os serviços públicos

    Na última quarta-feira (11), a base aliada do governo na Câmara Municipal de Porto Alegre inverteu a ordem de votação e priorizou os projetos que atacam os trabalhadores municipários. Para isso, Nelson Marchezan Jr. (PSDB) contou com seu fiel representante, o vereador Valter Nagelstein (PMDB). Os Projetos de Lei (PLs) propõem entre outras coisas: a implementação de previdência complementar (POAPrev) com inviabilização financeira e possível falência do PREVIMPA (previdência municipal); corte salarial com extinção de regimes de trabalho (PL 8 – rejeitado); atualização da planta do IPTU com reajustes nas periferias (PL 05/18); aumento do teto de endividamento com as Parceria Público Privadas (PPPs) (PL 03/18 – aprovado), o que permitirá, por exemplo, “terceirizar” escolas de Ensino Fundamental, como a Pequena Casa da Criança; e, o PL 10/18, que autoriza a venda de ativos (privatização) do Mercado Público, Orla do Guaíba, DMAE, Carris, Procempa, etc.

    No final da manhã, muitas/os municipárias/os se mobilizaram e foram à Câmara de Vereadores exigir a derrubada desses PLs. Já estava armado um forte aparato de repressão com a Guarda Municipal/ROMU e a Tropa de Choque da Brigada Militar. As/os trabalhadoras/es foram impedidos de entrar na Câmara de Vereadores e apenas 115 municipárias/os puderam acessar o plenário de votação. Assim como em São Paulo com Dória (PSDB) e no Paraná com Beto Richa (PMDB), naquela tarde, foi escrita umas das cenas mais autoritárias já vistas na Câmara: a Guarda, em um ato de covardia, abriu os portões para os/as trabalhadores/as irem de encontro à Tropa de Choque que aguardava com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e cassetetes.

    VEJA O VÍDEO DA REPRESSÃO

    Após muita violência por parte da Choque e da ROMU, a sessão foi encerrada e não houve votação. Muitos/as trabalhadores/as tiveram que ser levados ao HPS. Uma municipária sofreu traumatismo craniano e uma trabalhadora da Secretaria de Cultura, ex-diretora do SIMPA, Elisabete Tomasi, foi presa em uma ação de grande violência.

    A disposição da categoria em lutar contra a aprovação dos PLs foi determinante e teve como resposta o recuo do governo e vereadores. O forte aparato repressivo foi “um tiro que saiu pela culatra” fortalecendo, inclusive, o apoio da população, e desmascarando ainda mais o caráter repressivo e autoritário do governo Marchezan.

    Fora dos planos do governo
    Ao contrário do que o governo esperava, a repressão só fortaleceu o movimento. Em assembleia, na quinta-feira (12), a categoria referendou o que as trabalhadoras/es já gritavam quarta-feira, greve por tempo indeterminado. Marchezan fortaleceu o aparato repressor com a presença da cavalaria e triplicou o número de Guardas/ROMU e da Choque. Entretanto, as/os municipárias/os não recuaram e permaneceram pressionando contra a aprovação dos Projetos. Após 12h de sessão, a bancada de Marchezan sofreu sua primeira derrota. Com 22 votos contra e muita pressão dos trabalhadores/as, os vereadores responderam rejeitando o PL 08 que cortaria salários e liquidaria o plano de carreira.

    Na sexta-feira (13), a Câmara amanheceu novamente cercada. Do lado de fora, a categoria foi novamente impedida de acompanhar as sessões. Do lado de dentro, 36 vereadores, cavalaria, tropa de choque, Guarda Municipal/ROMU e seguranças. O governo acuado com as derrotas do dia anterior retirou o quórum arrastando as votações para segunda-feira (16).

    Os ataques não são novidade
    Mesmo antes de tomar posse – apesar de amplamente rejeitado nas eleições por votos nulos e brancos – Nelson Marchezan Jr, já havia demonstrado que os trabalhadores seriam os principais inimigos do seu governo. Enquanto deputado defendeu a terceirização irrestrita, apoiou o impeachment, chamou trabalhadores do serviço público de vagabundos.

    Em Porto Alegre, além do atraso e parcelamento dos salários e do décimo-terceiro, tem sido frequentes os ataques, as ameaças e o assédio moral promovidos pelo prefeito, pelos secretários e por CCs (Cargos Comissionados). Desde o primeiro dia de gestão fez uso da repressão na votação de reestruturação administrativa. As/Os municipárias/os estão há mais de dois anos sem reposição da inflação nos salários e tiveram a alíquota da previdência reajustada (de 11% para 14%), diminuindo ainda mais seus salários.

    O fechamento de secretarias, o sucateamento de prédios e falta de investimento, transferindo recursos públicos para a iniciativa privada, tem sido outra marca da gestão Marchezan. Ainda em 2017, o prefeito apresentou o conjunto de PLs que atualmente está em votação. Naquele ano os trabalhadores responderam à altura com uma grande greve de mais de 40 dias que forçou o governo a recuar e retirar os projetos. A categoria demonstrou que somente a luta e uma greve forte tem condições de arrancar vitórias. Em 2018 não está sendo diferente!

    É tempo de luta!
    É o momento de fortalecer a luta, ampliando a greve para defender direitos e o serviço público.
    Na segunda-feira, 16, os/as trabalhadores/as municipários/as farão um grande ato, no Paço Municipal, a partir das 09h e seguirão em caminhada até a Câmara de Vereadores. É fundamental manter os serviços fechados, participar dos atos de rua e intensificar a pressão na Câmara. A ordem em plenário deve ser iniciada pela apreciação do processo de impeachment de Marchezan. Entretanto, além da ínfima possibilidade de ser aprovado o impeachment, caso o seja, assume o vice, Gustavo Paim (PP), o que não muda a situação para os trabalhadores e a cidade. Pela reposição da inflação e contra os PLs que destroem a cidade, o serviço público e a carreira dos/as servidores/as, seguimos em luta!
    Lutar vale a pena!
    Nenhum direito a menos!

    Entenda os projetos:


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  • PSOL lança pré-candidaturas em Camaçari, BA

    O PSOL Camaçari realizou, nesta sexta-feira (13), o lançamento coletivo de pré-candidaturas para as eleições 2018. Estiveram presentes a pré-candidata a Co-governadora Dona Mira, as pré-candidaturas estaduais de Rosana Almeida, Isadora Salomão, Sandra Munhoz (Salvador), Jhonatas Monteiro (Feira); Negona (Madre de Deus); Nilton da Resistência (Camaçari); Marquinhos PTA (Días d’ Ávila). Também compareceram as pré-candidaturas federais de Salvador Mário Diniz, Cleide Coutinho e Hamilton Assis.


    O evento, que reuniu também a militância local e apoiadores, contou com um amplo debate sobre a importância das candidaturas do PSOL, que não têm, nas suas fileiras parlamentares, investigados e sobre a necessidade de candidaturas feministas, negras e LGBTS. Também foi debatido sobre o combate ao genocídio da população negra, violência policial, a luta pela descriminalização das drogas e a luta contra as reformas trabalhista e previdenciária. Destaque também para a luta por moradia, assim como contra o desemprego e a informalidade que atingem com mais força negros, mulheres e LGBTS.

  • Amamentar: existir, insistir, resistir

    Nesta terça-feira (11), mais uma mãe foi impedida de amamentar seu bebê em público. Thaís Magalhães, de 21 anos, estava no Terminal de Ônibus Vila Luzita, em Santo André (SP), quando foi abordada por três seguranças enquanto amamentava o seu bebê de apenas um mês, por tratar-se, segundo um deles, de um atentado violento ao pudor. Os seguranças ameaçaram chamar a polícia caso ela insistisse em alimentar seu filho no terminal. Thaís conta ainda que tentou contornar a situação pedindo para que pudesse amamentar no banheiro, mas ainda assim foi tratada com hostilidade e novamente ameaçada pelos seguranças.

    Diante dessa situação ainda tão comum, como mãe, me solidarizo com Thaís e tantas outras mães que já passaram e ainda irão passar por essa violência.

    “Amamentação é resistência”. Sempre me pego pensando nessa frase que não sei dizer onde li, mas faz absolutamente todo sentindo. Quem vê uma mãe amamentando seu bebê pode não ter a dimensão de quanta luta se esconde naquele momento. Os seios rachados e as fissuras do início são apenas um aperitivo de dores muito mais fortes. É algo ainda mais profundo que a sociedade muitas vezes desconhece, sobretudo as próprias mulheres. Muitas vezes, aquela mãe que até aquele momento era uma militante feminista cercada de companheiras, se sente solitária em sua luta.

    As pautas sobre maternidade deveriam ter mais visibilidade dentro dos movimentos feministas, que muitas vezes abordam o assunto, porém não de maneira aprofundada. Embora saibamos que nem todas as mulheres desejam a maternidade, essa pauta é inerente ao nosso gênero. E são muitas as nossas pautas: direito ao pré-natal gratuito e completo, parto seguro e sem violência obstétrica, creches públicas e de qualidade, entre muitas outras. Nesse texto irei destacar o direito à amamentação em público e em livre demanda, ou seja, sempre que o bebê manifestar vontade, independente de onde ele esteja ou há quanto tempo tenha sido a última mamada.

    Pode parecer absurdo que ainda nos dias de hoje esse assunto seja um tabu, mas essa questão ainda está muito presente em nosso cotidiano e não apenas no Brasil, mas também em outros países onde a amamentação ainda é vista com maus olhos: recentemente uma mãe norte-americana foi abordada por um policial que ameaçou prendê-la por estar amamentando e consequentemente deixar parte de seu seio  à mostra. E quem nunca viu uma mãe amamentando seu bebê tampado com uma fralda ou toalha para que as pessoas ao redor não enxerguem o “acontecimento” como se fosse algo ofensivo? Ou uma mãe que é aconselhada a amamentar em um banheiro sentada sobre um vaso sanitário? O que leva as pessoas a acharem compreensível que isso ainda aconteça, se ninguém gosta de comer com um pano cobrindo seu rosto e menos ainda dentro de um banheiro? Afinal, por qual motivo um bebê precisa passar por isso?

    O motivo é o sexismo, o machismo e a misoginia enraizados em nossa sociedade que transformam nossos corpos em objetos sexuais. Não é por acaso que os mesmos seios, tão explorados no carnaval, tornam-se algo ofensivo quando aparecem em um restaurante ou terminal de ônibus. No momento em que a mãe amamenta o seu bebê, o seio exerce a função de fornecer alimento e vida. É mais do que necessário desvincular a imagem dos seios a um objeto erótico para apreciação masculina e naturaliza-lo como fonte de alimento e vida.

    Para nós, mães, são muitas as lutas diárias para garantir o pleno exercício da amamentação. Lutamos contra teorias ultrapassadas e sem embasamentos científicos de que o leite materno é fraco e insuficiente, contra a indústria dos leites artificiais que patrocinam convenções de pediatria. Lutamos para amamentar nossas crianças até a idade que julgarmos necessária, para ter acesso a informações de qualidade, que nos garantam nossos direitos.

    No entanto, muitas vezes é difícil resistir e não ceder a pressões sociais, afinal a criança que é amamentada tem realmente um maior apego à mãe e isso, de fato, limita a vida social e dificulta seu retorno ao trabalho, transformando-se em um grande dilema a ser enfrentado. Tudo isso já é um processo muito doloroso por si só e acaba por prejudicar ainda mais a mulher que tenta, em meio as dificuldades da maternidade, retomar a sua rotina.

    Em alguns desses momentos difíceis não é comum ocorrer um processo de desmame precoce, no qual o bebê deixa de receber o leite materno muito antes do tempo necessário para que seu organismo esteja pronto e bem desenvolvido para outros alimentos ou tipos de aleitamento, podendo trazer consequências negativas como a falta dos anticorpos transmitidos através do leite materno, importantes para a prevenção de infecções e doenças.
    Segundo dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), apenas 40% das crianças menores de seis meses são amamentadas exclusivamente e apenas 23 países têm a taxa de amamentação exclusiva acima de 60%.

    No Brasil, a taxa é de apenas 39%. Esse resultado negativo não é culpa da mãe. Não é fácil lidar com a crítica da sociedade que julga e abala emocionalmente a mãe por necessitar deixar seu bebê com outra pessoa ou em creche para trabalhar, por não ter orientação e condições de deixar o próprio leite para seu bebê, conforme a recomendação médica.

    Mesmo aquelas que decidem e têm condições de continuar amamentando seu filho exclusivamente, também enfrenta críticas de quem acha isso desnecessário. Isso leva ao seu isolamento: para continuar cuidando e amamentando seu bebê, a mãe passa a ficar mais tempo reclusa em sua casa, muitas vezes abdicando de sua carreira profissional e acadêmica.

    Isolamento que é ainda maior e mais cruel com as mães solos e adolescentes, que sozinhas precisam lidar com os problemas e dificuldades para criar uma criança. Sendo julgadas e até mesmo “convidadas a se retirar” de determinados espaços por ali estarem, amamentando ou não, como é o caso de mães estudantes. É inadmissível assistirmos caladas o que ocorreu, por exemplo, recentemente na cidade de São José dos Campos, onde uma faculdade sugeriu que as mães fizessem trabalhos em casa ao invés de frequentarem as aulas acompanhadas de seus filhos.

    Felizmente, como forma de apoio, tem surgido ações que buscam conscientizar e incentivar as mães a amamentarem seus bebês exclusivamente com leite materno até os seis meses de idade e continuar a amamentá-lo pelo menos até os dois anos. Inclusive em lugares públicos, prevendo multa para os estabelecimentos que impedirem. Um desses avanços é a campanha Amamente Livre, que busca estabelecimentos que estejam abertos à amamentação, que ofereçam um lugar confortável e receptível, sendo esses locais adesivados com o selo da campanha e mapeado para que as mães os encontrem com facilidade.

    Contudo, sabemos que o ideal seria que não necessitássemos de iniciativas como estas para não sermos constrangidas enquanto exercemos nosso direito a algo tão natural quanto alimentar nossos bebês. Nesse sentindo o único caminho possível é dar visibilidade a essa pauta visando a conscientização. Deste modo, repito a necessidade da maternidade e suas implicações serem uma pauta mais recorrente dentro do feminismo e dos demais movimentos sociais. Precisamos, por exemplo, que o direito à amamentação em público também seja assunto nas discussões entre mulheres e em todos os lugares onde houver mães em nossa sociedade.

    *Ana Carolina é mãe, feminista e professora

    Foto: Francielle Caetano/Arquivo PMPA
  • Privatização da Saúde: caso dos exames papanicolau em Pelotas, RS

    Essa semana, o Diário da Manhã, jornal de Pelotas, fez uma denúncia grave: o serviço privatizado de exames que atende a um posto local não realizava a análise clínica de todas as amostras coletadas para realização do exame Papanicolau, fazendo-o apenas por amostragem. Embora a denúncia tenha sido apresentada já em julho de 2017, por servidores públicos, à Secretaria de Saúde da Cidade, nenhuma atitude foi tomada pela Prefeitura. Agora, diante da repercussão da notícia, está sendo articulada uma CPI na Câmara Municipal, enquanto a Administração busca informações sobre a questão.

    O Papanicolau permite a identificação de câncer no colo do útero, que é curável em quase todos os casos. Por conta disso, é de extrema importância a realização do exame, sendo fundamental que a paciente tenha sua amostra efetivamente analisada para que, sendo encontrada alguma alteração, possa realizar o tratamento o mais cedo possível. A identificação da ausência de efetiva análise foi realizada pelos servidores e servidoras públicos que prestam serviço no posto de saúde local; foi percebido que os casos de alterações foram zerados a partir de 2014, ainda que algumas mulheres aparentassem lesões. A questão expõe os limites da privatização dos serviços de saúde e a necessidade de valorização do trabalho dos servidores da área.

    A denúncia pode ganhar ainda mais relevo porque o ex-prefeito da cidade, Eduardo Leite (PSDB), é um dos postulantes ao cargo de Governador do Estado do Rio Grande do Sul. Cumpre destacar que, embora não tenha concorrido à reeleição, ele conseguiu eleger sua aliada e vice-prefeita, Paula Schild Mascarenhas, e tenta projetar uma imagem de gestor moderno, bem ao gosto da mídia hegemônica no estado. Embora o seu partido tenha composto o governo Sartori até janeiro do corrente ano, provavelmente o ex-prefeito deve tentar se apresentar como alternativa ao atual governador do Estado do Rio Grande do Sul, ainda que, na prática, representem o mesmo projeto, especialmente o de privatização dos serviços públicos.

    É justamente por isso que a denúncia cai como uma bomba para a pré-candidatura: como o ex-prefeito poderá defender sua imagem de gestor público moderno, diferente daquela do atual e desgastado Governador Sartori, quando permitiu, em sua administração, que isso acontecesse com a saúde pública municipal? A população de Pelotas e do Rio Grande do Sul merecem que a questão seja devidamente esclarecida, com a apuração rigorosa da denúncia.

    Foto: Divulgação Prefeitura de Pelotas

  • Consolidação do ECA esbarra na falta de políticas de reafirmação dos direitos das crianças e adolescentes

    A garantia do futuro das crianças e adolescentes pede políticas públicas eficazes e um olhar mais sensível ao protagonismo que a Constituição Federal confere a eles

    No dia 13 de julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente completou 28 anos. Entretanto, a lei, que deveria assegurar em sua amplitude os direitos deste público alvo, fica apenas no papel. Enquanto isso, a sociedade vê em seu cotidiano, e nem sempre é pelas telas das TVs, crescer significativamente os números de violências contra as crianças.

    Nos últimos anos, os valores do ECA têm colidido com as ações do governo Temer. O próprio congelamento dos gastos públicos por 20 anos, aprovado no ano passado com a EC 95, colabora para aumentar o abismo entre lei e realidade, principalmente, ao prejudicar os investimentos em educação, área que oportuniza o crescimento e o desenvolvimento das potencialidades das crianças. Empurrar na educação uma Base Comum Curricular, que elimina disciplinas estimuladores do convívio social e da sensibilidade do ser humano, também é uma forma de ir contra os preceitos do ECA. O mesmo acontece ao “amordaçar” os professores e tentar impor uma “Escola Sem Partido”, limitando a visão crítica de nossas crianças e a liberdade do ensino. Isso é só uma ponta de uma série de ações e investimentos em áreas cruciais que não aconteceram da forma que tinham que acontecer, bem como de políticas públicas que deixaram de ser feitas.

    Acreditamos que para acabar com estes estragos sociais do atual governo, a EC 95 deve ser revogada. Ao mesmo tempo, defendemos uma educação que respeite a diversidade e que possa, em sua plenitude, debater o gênero e impedir o avanço da violência sexual contra as crianças e adolescentes, que acontecem na maior parte das vezes dentro do próprio lar. Isso só será possível se o PL da “Escola Sem Partido” for definitivamente arquivado. Não podemos retroceder ainda mais no que nos orienta as leis do ECA.

    Enquanto isso não acontece, a omissão do poder público tem consequências nas denúncias de violência e maus tratos que chegam no Disque 100. De acordo com a Ouvidoria do Ministério dos Direitos Humanos, no ano de 2017 tivemos 142.665 denúncias, sendo a violação contra crianças e adolescentes a líder dos relatos. O Atlas da Violência de 2018, por sua vez, aponta que crianças e adolescentes são as principais vítimas de estupro, com 50,9% dos casos registrados em 2016, na sua maioria cometida contra menores de 13 anos de idade. Ele traz ainda que no mesmo ano, a taxa de homicídios de jovens representa 53,7% das vítimas totais no país, na sua maioria homens e negros.

    TRISTE REALIDADE AO VIVO
    Recentemente, dois casos de ataques a crianças e jovens chamou a atenção nos noticiários. Primeiro, a morte de Marcus Vinicius da Silva, durante uma operação policial no Complexo da Maré. No momento em que foi atingido estava uniformizado e seguida para a escola. O segundo caso, não menos cruel, foi a medida do governo Trump, que até junho, havia separado dos pais e colocado em abrigos mais de 2 mil crianças de diversas nacionalidades, 49 destas eram brasileiras. Os pequenos foram parar em jaulas, onde eram reprimidos por policiais. A atitude do presidente americano não só foi cruel e desumana como desrespeitou as leis que regem os direitos humanos no mundo. Precisamos ser firmes com as ações de líderes de estados que se acham acima da legislação mundial em prol da vida.

    Ainda pelo mundo, o ano de 2018 tem seguido o triste destino de 2017, consagrado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) como um dos piores anos para menores em áreas de conflito. Nestas localidades o futuro do mundo é morto, mutilado, alvo de violência sexual ou utilizados como escudos humanos. Em 2018, uma morte infantil ocorre a cada hora na Síria, o que resultou até março em mil mortes. Já na Guerra no Iêmen mais de 5 mil crianças morreram desde que se agravou o conflito civil no país. Estes são só dois exemplos que ferem a juventude no mundo.

    De volta ao Brasil, os números da violência contra o público que deveria ser defendido pelo ECA só fazem crescer. Em abril deste ano, um estudo feito pela organização social Visão Mundial mostrou que o Brasil lidera o ranking, de violência contra crianças entre os 13 países analisados na América Latina. A pesquisa avaliou o abuso físico e psicológico, trabalho infantil, casamento precoce, a ameaça online e a violência sexual contra crianças. Itens estes que deveriam ser combatidos, segundo o ECA.

    Tudo isso é um alerta e precisa ser revisto. É preciso lutar para garantir os direitos expressos não só do ECA, mas àqueles que estão expressos na Constituição Federal e, todos os dias, são desrespeitados. Crianças e adolescentes precisam ocupar o lugar de protagonismo que a CF estabelece, o olhar precisa ser mais sensível a estes, caso contrário, serão mais décadas impedindo o futuro de milhares delas todos os anos. Eliminando sonhos que se quer chegaram a ser concretizados. Isso só se faz com a defesa dos direitos estabelecidos e a resistência a imposições antidemocráticas.

    *Guilhermina Rocha é coordenadora da Secretaria de Formação da Contee e diretora Executiva da Secretaria Geral do Sinpro Macaé e Região (RJ). Artigo publicado originalmente na página do SIMPRO Macaé (RJ).

    FOTO: Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, ouve Bruna Silva, mãe do estudante Marcus Vinícius, morto no Complexo da Maré. foto Valter Campanato/Agencia Brasil

  • Aborto, racismo e negação de direitos às mulheres pelo Estado brasileiro

    ABORTO E RACISMO INSTITUCIONAL: CRIME OU QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA?

    De julho a setembro estaremos engajadas em um calendário de campanha pela legalização e descriminalização do aborto no Brasil. Queremos debater a realidade do aborto clandestino nos locais de trabalho e estudo, estaremos nas ruas em defesa da vida das mulheres e em Brasília nos dias 03 e 06 de agosto para travar um duro mas necessário debate. Trata-se da audiência pública no STF sobre a ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) nº 442, a ação que discute a descriminalização do aborto no Brasil até a 12º semana, ação ajuizada pelo PSOL. Em linhas gerais, a ação discute que a criminalização do aborto pelo Código Penal brasileiro de 1940 não se justifica, que a sua criminalização está em confronto com a Constituição Brasileira, que sua permanência é uma violação aos princípios fundamentais da dignidade da pessoa humana, da cidadania e da não discriminação e uma violação dos direitos fundamentais à inviolabilidade da vida, à liberdade, à igualdade, à proibição de tortura ou tratamento desumano ou degradante, à saúde e ao planejamento familiar das mulheres brasileiras.

    Travaremos um duro debate, que está apenas se iniciando, pelo direito à vida das mulheres, pelo reconhecimento de sua autonomia, pelos seus direitos reprodutivos e sexuais, e pelo reconhecimento, por parte do Estado brasileiro, que o aborto é um grave problema de saúde pública e não um problema de penal.

    É muito difícil falar sobre aborto. Para as mulheres, definitivamente, este não é um tema fácil. Elas não querem falar sobre o assunto, querem esquecer pelo que passaram. Apesar de todos os estereótipos e de todo o estigma que rondam o tema, as brasileiras que já abortaram são mulheres absolutamente comuns e muito próximas de nós.
    Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), globalmente, entre 2010 e 2014 ocorreram mais de 25 milhões de abortos inseguros anualmente. Uma taxa alarmante que coloca o aborto como um problema de saúde pública que tem afetado a vida de milhares de mulheres pelo mundo. No entanto, a OMS chama a atenção para o fato de que a maioria dos abortos inseguros ocorreu em países em desenvolvimento, países pertencentes à África, Ásia e América Latina.

    Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto (PNA) aos 40 anos uma a cada cinco mulheres no Brasil já realizaram pelo menos um aborto, isso significa, segundo a pesquisa, que o aborto é um evento reprodutivo frequente na vida das mulheres brasileiras. Quando falamos que essas mulheres são comuns, estamos querendo afirmar que são mulheres de todas as idades, casadas ou não casadas, mães ou não, pertencentes a todos os tipos de religião, das mais diversas classes sociais, etc (1). A PNA aponta que no Brasil, somente no ano de 2015, ocorreram pelo menos 503 mil abortos clandestinos. Considerando o fato de que o aborto é criminalizado no país e que os números são bastante subnotificados, esse número é bastante elevado e muito significativo.

    Ao mesmo tempo em que as pesquisas apontam que o aborto no Brasil acontece em todas as classes sociais, demonstram também que essa realidade possui uma frequência maior na vida reprodutiva das mulheres negras e indígenas, mulheres essa com baixa escolaridade, baixa renda familiar e prioritariamente das regiões Norte e Nordeste do País (2).

    Na vida das mulheres negras não acreditamos que isso seja fruto do acaso. Elas também são maioria nos índices de violência de gênero, na precarização do trabalho, nos subempregos, na informalidade, nos índices de pobreza, portanto são mulheres mais vulneráveis socialmente pelo racismo e pela sua condição de gênero. No Brasil a violência proporcionada pela desigualdade capitalista tem um peso histórico e brutal sobre essas mulheres, nos índices vitimização por aborto clandestino não poderia ser diferente.

    O Estado criminaliza as mulheres que abortam no Brasil, garante cadeia ao invés de políticas públicas que possam, de fato, garantir amparo e segurança para essas mulheres, não enuncia a questão em seus desenhos de política institucional com educação sexual nas escolas, garantia de bons atendimentos no SUS, garantia real aos mais diversos tipos de métodos contraceptivos. Não se discute educação sexual nas escolas com seriedade, não há um compromisso real do Estado com essa discussão, e se resume os métodos contraceptivos às camisinhas nas campanhas para o carnaval. Usa-se, inclusive, um suposto conhecimento desses métodos por toda a população como desculpa para que as mulheres não possam abortar “o que não falta são formas para não engravidar, ela engravidou porque quis!” é o que se repete como senso comum. No entanto, a realidade é bem diferente.

    A realidade mostra que existem barreiras reais entre conhecer e ter acesso a métodos contraceptivos (3), principalmente para a população mais pobre. Métodos como o DIU (Dispositivo Intrauterino), por exemplo, não são acessíveis a todas as mulheres (4). Os atendimentos na rede de saúde são precários, ainda há um tabu sobre o assunto quando as adolescentes procuram informações, e a contracepção de emergência ainda está longe de ser uma realidade para todas as usuárias do SUS. Além disso, todo e qualquer método contraceptivo está suscetível a falhas, mesmo que devidamente utilizados. Isso deveria ser óbvio, mas não é. Na prática é preferível para o Estado responsabilizar apenas as mulheres por uma gravidez indesejada e fechar os olhos para a precarização do atendimento.

    Outro ponto em questão que deveria ser seriamente discutido é a responsabilidade sobre o planejamento familiar. Métodos como a pílula anticoncepcional, por exemplo, recaem exclusivamente sobre as mulheres. É muito comum que os homens se neguem a usar preservativos no momento da relação sexual, ou pior, que queiram se utilizar da gravidez como forma de prenderem suas parceiras em uma relação, isso é bastante comum em relacionamentos abusivos. Temos ainda os altos índices de estupro, a coerção e a intimidação das mulheres durante as relações sexuais. Existem, portanto, uma série de situações que levam uma mulher a uma gravidez indesejada que não está sob seu controle. Mas existe uma cultura machista que responsabiliza as mulheres pelo planejamento familiar e que não lhe garante escolhas reais sobre querer ou não ser mães.

    PARA QUE SERVE A CRIMINALIZAÇÃO DO ABORTO NO BRASIL?
    Essa é a pergunta que deveria ser a chave de todo o debate com relação a este tema. Ao abordarmos esse assunto não deveríamos começar pela pergunta “Você é a favor ou contra o aborto?” porque está não é a real discussão. A pergunta que deveríamos fazer para iniciar este debate é “Você é favorável que uma mulher seja presa por abortar?”. Se o Estado brasileiro não fornece condições mínimas para a garantia de um planejamento familiar, se não fornece saúde, educação sexual e não garante meios para que essas mulheres possam exercer de fato a maternidade, não tem o direito de prender, não tem o direito de responder com punição a um problema de saúde pública sob o qual ele também possui responsabilidade.

    As mulheres brasileiras abortam e irão continuar abortando independente da proibição da legislação penal brasileira, essa não é uma afirmação retórica, é uma constatação empírica. Nesse sentido podemos afirmar tranquilamente que a criminalização do aborto no Brasil é absolutamente ineficaz, é uma sanção penal que não cumpre função alguma como norma punitiva.

    E sabemos bem o alvo prioritário do sistema prisional brasileiro sobre negros/as, o encarceramento em massa no Brasil nos mostra essa realidade, esse é um sistema não só falido, mas que atua sobre a corporeidade da negritude, portanto não é através do sistema punitivo que vamos evitar o aborto. No entanto é a esse sistema que o Estado recorre para criminalizar as mulheres, se utiliza do exercício punitivo para dar conta de algo que a Organização Mundial da Saúde já reconhece como problema de saúde pública que vitima especialmente mulheres negras e pobres.

    Então, se a punição do Estado não impede que as mulheres continuem abortando, se, pelo contrário, a criminalização expõe as mulheres ao risco de morte, a graves sequelas reprodutivas e as mais diversas formas de exposição física e psicológica, como se justifica que ainda se criminalize o aborto no Brasil? Poderíamos formular as mais variadas hipóteses, mas aqui é importante que se compreenda o seguinte: o Estado brasileiro faz coro com um discurso conservador e religioso de controle dos corpos femininos. Portanto, não se tem nenhuma preocupação real com a saúde das mulheres brasileiras. Aqui é nítido como é falacioso no Brasil o discurso sobre Estado laico. Quando o assunto é o aborto, o Estado brasileiro não é laico. Aliás, esse tema daria muito sobre o que se falar, porque a presença em nosso Congresso de uma bancada conservadora e religiosa, que, em nome de suas crenças pessoais, nega direitos às mulheres, aos negros/as e aos LGBTTs, tem mostrado que de laico o Estado brasileiro não tem nada.

    Nesse sentido, estamos diante de algo bastante peculiar. Estamos diante de um Estado que, apesar de se dizer democrático de direito, expõe as mulheres a um tratamento desumano, degradante, que viola seu direito à vida, à saúde, a liberdade, a igualdade e ao planejamento familiar. Não é a toa que o lema da legalização do aborto nos movimentos feministas é “Educação sexual para decidir, contraceptivos para não abortar, aborto legal e seguro para não morrer!”. Porque para as mulheres essa é a real questão, a defesa do direito à vida das mulheres. Em todos os países onde o aborto foi legalizado aconteceram reduções reais de mortalidade materna em consequência de aborto inseguro, isso porque esses países compreenderam que a educação sexual, o acesso real a métodos contraceptivos, o amparo psicológico, a assistência social, e uma equipe de saúde preparada para amparar essas mulheres possuem muito mais eficácia sobre do que condená-las às prisões. O que as mulheres precisam é a maternidade não seja um fardo, uma obrigação, mas uma escolha absolutamente autônoma e livre.

    NOTAS
    1 – Pesquisa Nacional de Aborto, disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-81232017000200653&script=sci_abstract&tlng=pt
    2 – Idem
    3 – A Saúde da mulher e a descriminalização do aborto
    4 – Panorama da contracepção de emergência no Brasil, disponível em: http://www.cecinfo.org/custom-content/uploads/2016/12/versaofinal_completa.pdf

  • Lula continua preso: PT pode e deve chamar o povo para lutar nas ruas    

    Não se pretende nesse texto entrar em detalhes de todas as peripécias jurídicas e policialescas farsescas sucedidas no domingo passado em relação à manutenção arbitrária de Lula na prisão. Esse episódio revela que a ala bonapartista, pró-golpista e pró-imperialista do Judiciário desobedece as leis e normas existentes para manter Lula na prisão sem provas. Este lado da questão está exaustivo e brilhantemente escrito pelo Fernando Castelo Branco, advogado e professor de Direito Constitucional e Eleitoral , no artigo do Esquerda Online “Saiba os erros do Judiciário no caso Lula neste domingo, 8 de julho”.

    Aqui serão abordados outros temas fundamentais que transcendem o acontecido neste domingo com Lula, temas que abordam a compreensão do contexto geral da luta de classes no Brasil onde esse episódio está inscrito. Aborda também o que o conjunto da esquerda poderia e deveria fazer imediatamente, ou que já deveria ter feito há vários meses.

    Já não mais se fazem golpes como antigamente
    Antes da restauração capitalista na antiga União Soviética, no Leste Europeu e na China os golpes pró-imperialistas eram dados pelos militares com seus tanques e baionetas, assassinando centenas, milhares ou centenas de milhares de pessoas. Assim foi no Chile em 1973, na Argentina e Uruguai em meados da década de 70, no Brasil em 1964, na Indonésia em 1965/66, para dar apenas alguns poucos exemplos. Nessa época havia a possibilidade de haver novas expropriações da propriedade privada como no Chile ou na Revolução dos Cravos em Portugal.

    Após as restaurações, a relação de forças a nível mundial passou a ser francamente favorável às classes dominantes capitalistas, significando um retrocesso bárbaro na consciência das massas trabalhadoras em todo o mundo. Nesse contexto regressivo, a possibilidade, perspectiva e esperanças de novas revoluções expropriadoras da burguesia foram jogadas para um calendário ainda incerto historicamente.

    Em realidade, a quase totalidade dos explorados de todo o mundo veem atualmente apenas a possibilidade de alguma mudança ilusória através do nefasto e sinistro calendário eleitoral nos países onde há a democracia-burguesa ou resquícios dela. Esta realidade se reflete nos mais variados partidos de esquerda que vislumbram a sua atuação somente no âmbito parlamentar, na eleição de tribunos nos Congressos das instituições do Estado burguês. Para estes partidos , em poucas palavras, a luta pela revolução social cedeu seu lugar tão somente para as reformas efêmeras no interior do capitalismo.

    Na nossa América Latina, as classes dominantes precisam tão somente do Judiciário, dos senadores e deputados – com consentimento dos militares e dos governos dos Estados Unidos- para dar golpes nitidamente pró-imperialistas   e manter a sua dominação com novos governantes burgueses puro-sangue.

    Assim foi em 2012 com o presidente Fernando Lugo no Paraguai. Trinta e nove senadores o destituíram do cargo via um pretexto banal, tal qual sucedeu com Dilma Roussef em agosto de 2016. Foram procedimentos dito “legais”, “constitucionais”.

    Em 2009, na Honduras, o chamado Poder Judiciário emitiu um mandado de prisão contra o presidente Manuel Zelaya e o Exército o prendeu.

    No Equador, agora em julho de 2018, um Tribunal acabou de emitir uma ordem internacional de prisão contra o ex-presidente Rafael Correa que governou o país de 2007 a 2017.

    Na Argentina a ex-presidente por dois mandatos Cristina Kirchner foi acusada em dezembro passado pelo Judiciário daquele país de traição à pátria por supostamente acobertar iranianos acusados pelo atentado contra um centro judaico em 1994.

    Para apenas dar mais um exemplo, agora na Europa, em abril de 2018, a Promotoria da Alemanha pediu a tramitação de extradição para o Estado Espanhol do ex-presidente do governo catalão Carles Puigdemont pelos “crimes “ de rebelião e corrupção. Na verdade, foi o governo de Rajoy quem destituiu Puigdemont pela força quando o povo catalão votou pela independência em relação ao Estado Espanhol. Vários dirigentes do governo catalão estão presos ou refugiados desde então.

    Já passou de a hora da esquerda brasileira entender esses golpes modernos e agir para neutralizá-los. Ficaram presos a um passado onde golpe tem de se encaixar no modelo Brasil-64 ou Pinochet-73. Pior ainda, aqui no Brasil, por exemplo, muitos setores confusos da esquerda apoiaram os golpistas modernos, direta ou indiretamente, durante o impeachment de Dilma. Muitos afirmaram de que não havia golpe e, em consequência, se abstiveram de lutar contra ele.

    Alguns vão mais além comemorando a prisão de Lula, sem provas, e inconscientemente fazendo o papel de antenas retransmissoras dos argumentos dos juízes, procuradores, desembargadores ligados à Lava Jato e à Polícia Federal.

    A contrarrevolução permanente a partir dos amarelinhos
    Não é casual, apesar de ser incomum, o fato de um juiz de primeira instância como Sergio Moro desobedecer a decisão de um seu superior hierárquico como o desembargador que deu um habeas corpus para soltar Lula. Moro, mesmo estando em férias em Portugal, ordenou a polícia Federal a não liberar o ex-presidente.

    Em março de 2016 esse ‘juiz’ grampeou ilegalmente uma conversa da ex-presidente com Lula, algo oposto às leis vigentes e imediatamente a repassou para a mídia. Surgiram milhões de amarelinhos pelo país insuflados pela Rede Globo. Era o começo do processo reacionário que teve um desfecho parcial com a deposição do governo de colaboração de classes, entrando em seu lugar um novo presidente, sem votos, com um programa visceralmente anti-trabalhadores, anti-oprimidos, anti-juventude.

    A deposição de Dilma deu vazão a um processo de contrarrevolução permanente, inaugurando uma situação reacionária na luta de classes. Esta contrarrevolução se expressou em incontáveis medidas reacionárias como, por exemplo, a lei do teto de gastos, a reforma no ensino, a reforma das leis trabalhistas, a terceirização, a privatização parcial da Petrobrás, da Embraer etc.

    Hoje a economia está semi moribunda e o desemprego ronda 14 milhões de trabalhadores. Se a esse contingente agregarmos os trabalhadores informais (sem carteira ou por conta própria) veremos que, segundo o IBGE, em dezembro do ano passado a população ocupada era de 92,1 milhões de brasileiros e os trabalhadores informais eram 37,1% do total, ou 34,2 milhões, superando o contingente formal, que somava 33,3 milhões. Segundo o IBGE, foi a primeira vez na história que o número de trabalhadores sem carteira assinada superou o conjunto de empregados formais.

    Esse processo contrarrevolucionário está sendo edificado em leis e atos do Judiciário, mudando o regime político do país, conformando aquilo que os trotskystas denominam de semi-bonapartismo.

    Para citar apenas um exemplo aviltante dessa mudança de regime, o Supremo Tribunal Federal alterou a Constituição. Esta, elaborada em 1988, afirma no artigo nº 5 que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Ou seja, até o cumprimento de todos os recursos cabíveis até sua esfera superior, o STF.

    No entanto, poucos meses após o golpe, o STF, cuja função seria o de apenas ser o guardião da Constituição, a alterou, o que lhe é vetado, decidindo que, em fevereiro de 2016, um réu condenado em segunda instância poderia cumprir imediatamente a pena. E, note-se, há uma divisão meio a meio no STF em relação a esse tema, mas a presidente desse órgão não quer porque não quer colocar em pauta para a discussão e deliberação dos onze membros desse colegiado. É a melhor expressão do arbítrio dos togados.

    Vários outros elementos do semi-bonapartismo poderiam ser assinalados, entre os quais, a volta dos grampos ilegais da época da ditadura; as prisões “temporárias” sem data para acabarem; as ‘conduções coercitivas”; a dedoduragem das delações premiadas; o fato de um juiz de 1º grau , como Moro, ter o poder de, ao mesmo tempo, mandar prender, julgar e condenar uma pessoa; o fim da presunção da inocência pois agora o suspeito é que tem de provar o contrário; a condenação pelo tal do “domínio do fato”, ou seja, sem a existência de provas etc.

    Acrescente-se também a intervenção militar no Rio de Janeiro, onde, de fato, são os generais que governam o estado. Em paralelo com isso, em fevereiro Temer criou um Ministério de Segurança Pública cujo objetivo é a coordenação e integração dos serviços de segurança pública em todo o país junto com os mesmos órgãos a nível estadual. Nesse mesmo dia, pela primeira vez desde sua criação em 1999, um general foi chamado para comandar o Ministério da Defesa, algo antes reservado para civis.

    A interferência da burocracia estatal na luta de classes parece não ter limite. Em fins de maio, logo no começo da greve dos petroleiros no país, a ministra Maria de Assis Calsing, do Tribunal Superior do Trabalho – ou do Capital, o que seria melhor-, determinou uma multa de 2 milhões de reais por dia às entidades sindicais caso os petroleiros descumprissem sua ordem de não fazer greve. Isso foi um dos motivos proeminentes para a suspensão dessa paralisação.

    A resistência dos trabalhadores, oprimidos e a juventude a todas essas ações da contrarrevolução permanente teve um ponto alto foi na gloriosa greve geral de 28 de abril de 2017, mas não foi suficiente para modificar a relação de forças entre as classes devido às burocracias que dirigem majoritariamente o movimento sindical, popular e juvenil.

    Mesmo assim, de lá para cá há resistência, com greves ou manifestações pontuais ou setoriais em várias partes do país, mas não conseguem mudar o panorama geral da relação entre as classes, ou seja, estamos numa situação reacionária.

    A principal estratégia dos bonapartistas no momento
    Em outubro haverá eleições para o governo federal, uma das principais superestruturas de dominação de classe de qualquer país. Os burgueses puro-sangue não ganham estas eleições desde 1998, ou seja, há vinte anos. Tiveram de apear Dilma via Judiciário, meios de comunicação social e Congresso corrupto para colocar uma ‘pinguela’, tomar o poder e tentar perpetuar sua dominação por, no mínimo, mais alguns anos.

    Em 2016, seus intelectuais orgânicos do STF previram a necessidade de prender Lula em segunda instância, mesmo sem provas, e em consequência, impedi-lo de disputar as eleições em 2018. Esse fato apenas correspondeu à voracidade reacionária dos amarelinhos que em suas manifestações empunhavam as faixas e dizeres: “Fora Dilma”; “Fora PT”; “Sergio Moro, herói nacional”; “Viva a Polícia Federal” e muitos deles aplaudiam a ‘intervenção militar já’ e o seu representante, o Bolsonaro.

    Entretanto, apesar da propaganda diária anti-Lula e anti-PT veiculada pelos principais meios de comunicação social, bem como pelas medidas anti-povo decretadas por Temer e os partidos de sua base, – PMDB, PSDB, DEM etc.- Lula e o PT conseguiram não somente sobreviver na consciência das amplas massas trabalhadoras, oprimidas e jovens, como também aumentaram suas porcentagens de aprovação popular por aparecerem, de uma ou de outra maneira, como oposição ao governo e às medidas de Temer.

    Para se ter ideia, em junho de 2015 a sigla PT tinha apenas 9% de preferência da população nas pesquisas. Já em dezembro desse ano 11%. Em março de 2017,15%. Agora, em março de 2018, o PT tem a preferência de 19% da população. Atrás vem o MDB com 7%, PSDB, 6% PSOL,2% e com 1% estão o DEM, PCdoB, PDT, PPS, PSB etc.
    Em relação à intenção de votos para Lula nas pesquisas a variação é a seguinte: em julho de 2016, 22%; em dezembro de 2017, 34%; em abril de 2018, 31%; em junho,30%.

    Nos cenários de todas as pesquisas até agora veiculadas, Lula ganharia de qualquer outro candidato no segundo turno das eleições de 2018.

    Os candidatos dos partidos que apoiaram o golpe e compuseram o governo Temer registram índices inferiores a 10%. Até agora, faltando apenas 3 meses, essas candidaturas patinam na areia.

    Bolsonaro, da extrema-direita, que apoiou o golpe, mas não participou diretamente do governo Temer, subiu de 7% em 2016 para um patamar de cerca de 17% em 2018. Recentemente alguns setores da burguesia começaram a se bandear para a candidatura de Bolsonaro, como os capitalistas ruralistas.

    Não é preciso ser muito inteligente para se constatar os motivos que levaram ao julgamento, condenação e prisão de Lula por parte dos tribunais das classes dominantes e dos bonapartistas de toga. Como se diz no futebol, os burgueses puro-sangue querem porque querem ganhar as eleições no ‘tapetão’ do Judiciário, ou seja, de qualquer maneira com o objetivo de continuar e aprofundar as medidas e reformas ultra-reacionárias de Temer, a começar pela Reforma da Previdência, que, certamente, deverá ser a primeira a ser votada pelo novo Congresso em 2019.

    A Unidade de Ação necessária para dar a volta por cima
    Enquanto escrevia esse texto lembrei-me de um antigo filme de um dos maiores cineastas de todos os tempos, o Luis Buñuel, espanhol exilado no México. Trata-se do ‘Anjo Exterminador, de 1962’.

    Neste filme, com influências do surrealismo, Buñuel despe a sociedade aristocrata, em que personagens muito ricos se veem presos numa das salas de uma mansão após um jantar formal. Não há nada físico que os impeça de sair, porém algo os faz refém de portas e grades imaginárias.

    Com o decorrer dos dias, as convenções sociais vão caindo, as barreiras imaginárias permanecem, e as máscaras desprendem-se de cada personagem, aflorando os mais primitivos instintos: o improviso de um banheiro, desejos sexuais reprimidos, a fome, a sede e até mesmo a morte.

    As portas estão todas abertas, mas nenhum aristocrata sai da mansão. Uma força oculta os aprisiona. Similar ao filme parece ser a esquerda brasileira em sua composição majoritária. Apesar do conhecimento de todos os fatos descritos em todos os parágrafos acima, apesar da disposição de luta e da resistência dos explorados e oprimidos, apesar das lutas e greves que pipocam no nosso dia a dia, apesar de que Lula tem o apoio de mais de 30% das intenções de votos, as portas para as mobilizações de massas que quase derrubaram Temer no ano passado permanecem sem ser abertas.

    Com certeza, a força oculta que mantem essa paralisia a nível nacional são as eleições de 2018. Cada um quer eleger o seu presidente predileto, os seus deputados, senadores ou governadores do coração. Como se isso fosse suficiente para barrar a contrarrevolução permanente, como se isso fosse ressuscitar Mariele e Anderson, como se Lula fosse sair da prisão e ser reeleito presidente. Como se as eleições pudessem impedir a venda da Petrobrás, da Embraer, da Eletrobrás. Como se elas fossem sepultar todas as medidas e Reformas reacionárias de Temer. Como se pudesse eliminar a Reforma da Previdência.

    Essa enfermidade senil é classicamente chamada de adaptação às instituições do Estado burguês, seja o Judiciário, o Parlamento, o calendário eleitoral, o Parlamento, a Polícia Federal, Moro, TFR-4, STF etc.

    Voltando ao começo desse artigo, Lula continua preso porque é favorito à eleição, especialmente pela força que tem entre os trabalhadores mais pobres. A classe dominante quer impor um governo burguês puro-sangue inteiramente comprometido com a destruição de direitos, entrega de riquezas e aumento da exploração.
    Se as eleições no capitalismo sempre foram feitas para os candidatos burgueses ganharem pela força do dinheiro, estas eleições de 2018 sem Lula, sem provas contra ele, constituem uma gigantesca fraude, uma farsa às claras perante o povo.

    Por todos os motivos aqui apresentados nesse artigo, cabe ao PT e sua direção, por serem imensamente majoritários entre nossa classe, entre os oprimidos e a juventude, a imensa responsabilidade de convocar o povo a lutar nas ruas.

    É incompreensível que o PT não chame o PSOL, PCdoB, para que, juntos, convoquem o povo para lutar pelas liberdades democráticas, pelos direitos sociais e econômicos dos trabalhadores, contra a venda da Petrobrás e Eletrobrás. É urgente criar um calendário de lutas em cada cidade do país junto com o MTST, MST, UNE, as Centrais Sindicais, movimentos sociais combativos, artistas e intelectuais numa grande Unidade de Ação capaz de mobilizar centenas de milhares, até mesmo milhões de pessoas nas ruas para lutarmos contra a direita, ultra-direita e as bandas fascistas! Seria uma possante frente unitária que poderia agregar até mesmo setores do MDB como Requião, e alas do PDT e PSB que já se manifestaram publicamente contra as medidas bonapartistas do atual regime.

    Embora com implantação bem menor na classe trabalhadora, tanto o PSOL como o PCdoB poderiam e deveriam chamar a direção do PT a lutar e a mobilizar o povo contra todas essas arbitrariedades.

    A vigília pró –Lula em Curitiba é importante, mas não resolve o problema. Relembrar a execução de Marielle e Anderson a cada mês é importante, mas não resolve o problema. Fazer o Festival Lula Livre no dia 28 de julho no Rio é importante, mas não resolve o problema, pois a luta contra o bonapartismo não começa nem termina em Lula.

    Que esses partidos não esperem mais um minuto sequer. Que chamem o povo a lutar nas ruas a nível nacional e em cada cidade do país. Uma imensa responsabilidade para com os destinos da classe trabalhadora, com os explorados e com a Juventude recai sobre os ombros dos nossos dirigentes da esquerda brasileira!

    Post scriptum:
    – amanhã serão quatro meses da execução da socialista Marielle e de Anderson. Imagino que ela ficaria imensamente feliz se, em vez de se chorar pela sua morte, ela pudesse ver milhões de pessoas nas ruas se mobilizando por aquilo que ela lutou e sonhou!
    – em 17 de abril de 1996 houve o massacre de Eldorado dos Carajás,onde 21 trabalhadores sem-terra foram covardemente assassinados pela PM do Pará e 67 foram feridos. Hoje, Bolsonaro defendeu esses policiais assassinos e afirmou no exato local das execuções: “Quem tinha que estar preso era o pessoal do MST, gente canalha e vagabunda. Os policiais reagiram para não morrer.”
    – A pior derrota é aquela em que não se luta!