Trump ataca Alemanha e países europeus no encontro da OTAN e aumenta crise na parceria transatlântica

Por: Victor Amal, de Berlim, Alemanha

Entre os dias 11 e 12 de julho, ocorreu o encontro da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), aliança militar ocidental entre Estados Unidos, Canadá e Europa. Mais uma vez, o presidente norte-americano Donald Trump criticou os países europeus por não atingirem a meta estabelecida pela OTAN em 2006 de investir no mínimo 2% do PIB para própria defesa nacional, aumentando os rumores sobre a profundidade da crise na aliança. Além disso, atacou a Alemanha pelas suas relações energéticas com a Rússia e a construção do gasoduto Nord-Stream 2.

Desde que Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos, em 2017, a relação dos norte-americanos com a Europa vem enfrentando uma de suas piores crises desde o pós-Guerra. Além de Trump apoiar o Brexit e criticar publicamente a União Europeia (UE) sobre sua política de entrada de refugiados, agora ocorre uma guerra comercial entre os Estados Unidos e os países da UE que atingiu seu clímax após a reunião do G7 este ano.

Devido a este clima de tensão, Jens Stoltenberg, presidente da OTAN, mudou o caráter do encontro para emergencial, fazendo com que só participassem dela os líderes e altos oficiais dos países membros. Outros observadores e países convidados, como Geórgia e Ucrânia, foram convidados a retirarem-se.

Desde o encontro da aliança no ano passado, Trump vem pressionando os países europeus a aumentarem imediatamente o seu orçamento interno para a defesa e gastos militares da OTAN. Desde 2014, após a Rússia ter anexado a península da Crimeia, antes pertencente à Ucrânia, os países europeus começaram este processo. De lá para cá, o orçamento da OTAN aumentou em $86 bilhões de dólares devido à esta iniciativa.

Contudo, para Trump, isto não é suficiente. Atualmente, além dos EUA, apenas Grécia, Reino Unido, Letônia e Estônia cumprem a meta de 2% do PIB para a própria defesa nacional. No encontro da OTAN de 2017, foi estabelecido um acordo para que, até 2024, esta meta fosse cumprida por todos os membros. Agora, 17 dos 24 países “inadimplentes” já estão nesse rumo.

Destes 2%, uma pequena porcentagem é enviada para o orçamento comum da OTAN. Atualmente, os Estados Unidos são responsáveis por 22% deste orçamento, seguido pela Alemanha com 14% e França e Inglaterra com 10%.

Este ano, porém, Trump decidiu voltar a pressionar seus parceiros europeus, argumentando que 2% do PIB para a defesa não deve ser um objetivo para 2024, mas sim de imediato. Durante o encontro desta semana, defendeu que todos os países membros devem atingir a meta ainda este ano, e em uma década dobrá-la para 4% do PIB.

O centro da polêmica, novamente, é com a Alemanha
Tal como no encontro de junho do G7, o centro da crítica de Trump no encontro da OTAN foi a Alemanha. Primeiro, o presidente norte-americano criticou severamente o país mais rico da UE por investir apenas 1,2% do PIB em defesa. Segundo, Trump criticou as relações energéticas entre Alemanha e Rússia, em particular sobre a construção do gasoduto Nord-Stream 2.

Este gasouto, que será construído até 2020, irá dobrar a exportação de gás russo para a Alemanha através do mar Báltico, conectando diretamente o transporte do produto entre os países. Os alemães vêm sofrendo duras críticas em relação a este projeto, em particular da Polônia e Ucrânia, pois ele irá diminuir a relevância dos gasodutos que hoje passam pela Europa Oriental.

Isto significa que, caso a Rússia ataque os países do leste-Europeu ao cortar seu fornecimento de gás, isto não afetará a Alemanha e os países da Europa Ocidental. Quando a Rússia cortou o suprimento de gás para a Ucrânia, em 2006, ela foi alvo de pressão por parte dos alemães, pois o país foi indiretamente afetado por esta política. Com o Nord-Stream 2, isto não mais ocorrerá.

A Alemanha encara a construção deste novo gasoduto como estratégico, pois as reservas energéticas extraídas do Mar do Norte estão cada vez mais diminuindo. Quando os EUA impuseram sanções econômicas à Rússia, em 2017, em relação à construção do Nord-Stream 2, tanto alemães quanto austríacos criticaram os EUA por fazerem uma ameaça ilegal à segurança energética europeia.

Ainda, os alemães afirmam que a construção deste gasoduto não tem nenhuma relação com o governo do país, cujo orçamento de 9,5 bilhões de euros é inteiramente privado. Contudo, a presença do ex-chanceler alemão, Gerhard Schröder, na diretoria da Nord-Stream 2, fez com que os demais países compreendessem a construção do gasoduto como uma política de estado alemã.

Apesar da Gazprom, empresa energética estatal russa, ser proprietária integral do gasoduto, metade do financiamento do projeto vêm de 5 empresas europeias: Uniper e Wintershall (Alemanha), OMV (Áustria), Engie (França) e Royal Dutch Shell (Holanda).

A questão é que a cooperação entre Alemanha e Rússia é bem conhecida há décadas. Desde 1990, os alemães se envolveram em diversos projeto de cooperação econômica com os russos, por quem entendiam estar em dívida pelo processo pacífico de reunificação. Atualmente, cerca de 40% da energia alemã vêm da Rússia, com estimativa de aumentar para 50% até 2025, após a construção da Nord-Stream 2.

Por isso, Trump chegou a afirmar neste encontro da OTAN que a Alemanha é uma “refém” da Rússia, reivindicando que o país pare de importar gás deste país, à exemplo da Polônia. Segundo ele, os alemães reivindicam contraditoriamente que os Estados Unidos os protejam da Rússia, enquanto eles próprios enviam bilhões de dólares ao país. Além dos EUA, outros países europeus como Reino Unido e Polônia são muito críticos à construção do gasoduto.

A chanceler alemã Ângela Merkel decidiu colocar “panos quentes” nessa história, apenas afirmando que, diferente da época Guerra Fria, quando a Alemanha estava dividida e sua porção oriental era aliada da União Soviética, agora o país já é independente da Rússia e pode decidir sua política externa de forma autônoma. Afirmou ainda que até 2024 seu orçamento militar irá aumentar em 80% em relação à última década.

Finalmente, após o encontro, Trump divergiu publicamente com o presidente francês, Emmanuel Macron, e o primeiro ministro italiano, Giuseppe Conti, sobre o acordo firmado entre os países. Trump afirmou que foi decidido o aumento do orçamento militar no longo prazo para 4%, enquanto os europeus negaram, apontando que a resolução apenas reitera o compromisso de 2% para 2024.

Este encontro da OTAN foi o primeiro ponto de um giro internacional de Trump, que irá à Inglaterra discutir o Brexit e depois à Rússia, para o tão esperando encontro com Vladimir Putin. Novos fatos que estão por vir, cujos desdobramentos poderão abalar ainda mais a atual ordem mundial.

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