Por que o presidente do PT/RJ se posicionou contra o impeachment de Crivella?

Jorge Badauí, do Diretório Estadual do PSOL/RJ

A crise da prefeitura do Rio de Janeiro atingiu um ponto crítico após a divulgação das ofertas de favores a aliados. “Cadê a Márcia?” virou bordão de ativistas dos movimentos sociais e até letra de samba, em uma referência irônica à assessora indicada como intermediária de benesses indecorosas.

O escândalo ensejou a iniciativa parlamentar da bancada do PSOL na Câmara dos Vereadores, que pediu de imediato o impeachment do prefeito. Os movimentos entraram em ação, com mobilizações justas, irradiando a indignação popular. Nesta quinta-feira (12) a Câmara rejeitou a abertura do processo de impeachment por 29 votos a 16.

Em meio a esse cenário, o presidente estadual do PT/RJ, Washington Quaquá, não encontrou ideia mais oportuna que se declarar em defesa do mandato de Crivella, dirigindo, ainda, provocações a Marcelo Freixo e ao PSOL. Em suas palavras:

“Desvalorizar o voto popular não é a minha. Freixo foi frouxo e não conseguiu vencer Crivella no Rio. Agora, vem me criticar por não apoiar a banalização do impeachment. Não estou em cima do muro e nem vou fazer coro com a Rede Globo. Não vou corroborar com a retirada de um prefeito legitimamente eleito pelo povo, por mais infeliz que esse prefeito seja.”

Em vídeo divulgado em suas redes, Quaquá acrescenta a seus argumentos a defesa aberta de que um eventual impeachment contra Crivella seria um “golpe contra o voto popular”. É curioso que o petista, temeroso com a “banalização do impeachment”, termine banalizando, isso sim, a conduta de Crivella, que, ao que parece, Quaquá admite como compatível com um mandato na prefeitura.

A comparação induzida é a seguinte: um impeachment de Crivella equivaleria ao impeachment de Dilma, em 2016. Trata-se de uma confusão terrível. O sentido golpista da deposição de Dilma não estava simplesmente no instrumento jurídico utilizado, mas no conteúdo social e político daquela operação. Basta conferir a olho nu as “manifestações” reacionárias em 2015/2016 e os atos dos movimentos de trabalhadores desta semana, no Rio.

Com o golpe, a classe dominante brasileira demonstrou que não tem nenhum apego com as “regras do jogo” de seu próprio regime político. Mais realista que o rei, Quaquá se contorce em imaginar que um mandato seja interrompido pela iniciativa popular.

Mas convém lembrar que a relação do PT com o PRB de Crivella vem de longe. O atual prefeito foi ministro da Pesca durante o governo Dilma e seu partido foi tido sempre como um aliado, constando na ampla coalização de conciliação. No golpe de 2016, o PRB pulou o muro. Quaquá não tirou lição alguma e se comporta, na maior crise da prefeitura, como quem estende a mão de volta: sobe o tom com o PSOL e Freixo, mas com golpistas é um amigo leal, pronto a ajudar nos momentos difíceis.

Exigir o fim do governo Crivella é a reivindicação que pode conectar as principais demandas do povo carioca, por serviços públicos, emprego e direitos, com o repúdio crescente a uma prefeitura que não perde oportunidade de demonstrar que está a serviço das elites e de seus aliados – agora, da forma mais baixa possível.

Só nas ruas e com mobilização popular tais demandas serão conquistadas. A exigência do impeachment é progressiva na medida em que e é pedagógica, porque dá forma compreensível a um chamado por uma luta sem tréguas contra o prefeito. O presidente do PT fluminense optou pela contramão da própria bancada de seu partido, que, corretamente, votou pela abertura do processo.

Só é possível lamentar a posição do dirigente petista, quando a agenda golpista contra os direitos, alimentada pela prisão política arbitrária e ilegal de Lula, exigem a máxima unidade da esquerda na luta concreta. As declarações de Quaquá de uma só vez, orientaram a uma capitulação à Crivella e à divisão da esquerda, apontando seus canhões ao PSOL.

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