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  • Todos querem falar com a Márcia, Sr. Crivella

    O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, realizou, na última quinta, o chamado “café da comunhão”, um encontro secreto com cerca de 250 pastores e lideranças evangélicas. Em áudios vazados, Crivella oferece ajuda e facilidades aos presentes em obter serviços públicos como isenção de IPTU para igrejas, instalação de semáforos, entre outros.

    O caso mais gritante é o que o prefeito se refere a agendamento de cirurgias, como no seguinte trecho, transcrito do áudio vazado: “Nós estamos fazendo o mutirão da catarata. Contratei 15 mil cirurgias até o final do ano. Então, se os irmãos tiverem alguém na igreja com problema de catarata, se os irmãos conhecerem alguém, por favor, falem com a Márcia. É só conversar com a Márcia que ela vai anotar, vai encaminhar, e daqui uma semana ou duas eles estão operando”.

    Essa fala sugere que se trata de um favorecimento que fere princípios da administração pública, afinal a maior parte da população do Rio de Janeiro que utiliza o SUS enfrenta grande dificuldade e longas filas para serviços semelhantes ou até mais simples do que os mencionados por Crivella.

    Para Cintia Teixeira, nutricionista e pré-candidata a deputada federal pelo PSOL, o caso é bastante grave: “Um dos princípios do sistema único de saúde é a universalidade, ou seja, nós trabalhadores da saúde temos que atender a todos e todas, sem segmentação. Não tem nome, não tem sobrenome, não tem etnia, nós temos que atender a todos”. Segundo ela, Crivella desrespeita não só esse princípio do SUS, como outras legislações, incorrendo em improbidade administrativa, já que passa por cima do sistema estabelecido (SISREG), que já tem suas limitações, para criar uma lista virtual organizada por sua assessora Márcia Nunes, com prazos bem menores.

    Outro trecho bastante questionável foi a afirmação de Crivella: “Nós temos que aproveitar que Deus nos deu oportunidade de estar na Prefeitura para esses processos andarem”. É bom lembrar que não estamos num país europeu na idade média, Crivella não está lá por direito divino e, sim, como um representante eleito da população carioca. Mesmo a nossa frágil e desigual democracia ainda mantem o direito da saúde e outros serviços como universais, isto é, de todos, e não somente da igreja do prefeito.

    O caso já motivou dois pedidos protocolados de impeachment por improbidade administrativa e um pedido de investigação pelo ministério público (MP-RJ), movimentos nos quais o PSOL vem sendo linha de frente. Além da movimentação nas esferas institucionais, a resistência também está presente nas ruas. Em ato realizado na manhã desta quarta-feira (11), cerca de 250 pessoas, entre ativistas e servidores da saúde, cobraram explicações na Prefeitura, inclusive com uma postura desproporcional e agressiva da guarda municipal.

    A votação do impeachment do prefeito Crivella está marcada para quinta-feira (12), às 14h, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Está sendo convocada pelo PSOL uma manifestação no local, às 12h. Nesse momento, ganha grande importância a participação dos cidadãos cariocas, trabalhadores que de fato enfrentam as filas do SUS e que devem pressionar os vereadores a votar pela investigação e possível impeachment de Crivella.

    Foto: EBC

  • Querem nos amordaçar: resistiremos

    Está para ser votado no dia de hoje, numa comissão especial da Câmara dos Deputados, o substitutivo do projeto Escola Sem Partido, PL 7180/14. Esse projeto foi uma junção de outros oito projetos sobre o tema que estavam tramitando ao mesmo tempo. O deputado Flavinho, do PCS, resolveu colocar tudo em um único projeto, sendo criada uma comissão especial para avaliar e deliberar sobre ele.

    Tal comissão especial está dominada pela bancada fundamentalista. O próprio Flavinho (PSC) pertence ao grupo católico chamado Canção Nova, um dos grupos mais conservadores dentro da Igreja. Foi ele quem afirmou no plenário da Câmara que “mulher não precisa de empoderamento, precisa ser cuidada e amada”; para ele, as feministas seriam “mal amadas”. Esse grupo defende uma visão medieval de submissão das mulheres, de família e de moral. É um grupo totalmente preconceituoso contra qualquer orientação sexual que não seja a heterossexual; e família para eles é somente com pai, mãe e filhos.

    Essa ideologia reacionária, preconceituosa e discriminatória é a que predomina na comissão especial. O grande absurdo é que meia dúzia de deputados dessa comissão pode decidir alterar a LDB e enviar o projeto diretamente para o Senado, sem precisar passar pelo plenário da Câmara dos Deputados, um verdadeiro golpe!

    O projeto denominado “Escola Sem Partido”, criado por Miguel Nagib em 2004 e apresentado pela primeira vez em uma casa legislativa por Flávio Bolsonaro em 2014, representa um imenso retrocesso em todos os terrenos. O projeto tem como objetivo impedir a construção de uma escola democrática, com debates políticos, com respeito à pluralidade, com respeito à diversidade, com respeito aos direitos dos educadores de educar com liberdade e dos estudantes de terem acesso ao conhecimento científico e a uma educação libertadora e emancipadora. O nome do projeto é uma farsa para confundir as pessoas. Não tem nada a ver com impedir a partidarização das escolas, como tenta parecer. Trata-se de tirar da escola e da educação o pensamento crítico e o envolvimento político, ambos pressupostos importantes para a formação de cidadãos.

    Vou dar dois exemplos práticos de como a aprovação desse projeto seria nefasta. Sou professora da rede municipal de São Paulo e nossa categoria fez uma greve de 20 dias contra o projeto da Reforma da Previdência do prefeito Doria (PSDB). Durante a greve, mobilizamos a comunidade escolar, pais e estudantes para apoiar a luta. Houve, inclusive, passeatas dos pais com seus filhos. Pelo projeto Escola sem Partido, isso seria proibido, pois, em um de seus artigos, diz que os professores não podem incentivar que os estudantes participem de manifestações. Outro exemplo: na minha escola, os próprios estudantes das turmas de 9° ano decidiram que o trabalho autoral de final de curso seria sobre o tema “Diversidade Sexual”. Pelo projeto, qualquer conteúdo abordando gênero ou orientação sexual estaria proibido dentro das escolas, ou seja, a própria vontade dos estudantes não seria respeitada.

    Os deputados da comissão especial estão aproveitando o início do recesso escolar para tentarem aprovar o projeto, momento em que educadores e estudantes estão de férias e ficam com o poder de mobilização reduzido.

    É importante relacionar o Escola Sem Partido com o momento político que estamos vivendo no Brasil. O projeto ganha adeptos e força para ser aprovado em alguns municípios na esteira do crescimento do discurso conservador, do crescimento da popularidade de figuras como Jair Bolsonaro, dentro de um cenário de golpe parlamentar e da imposição de uma agenda de imensos retrocessos econômicos, políticos e sociais.

    Eles sabem que os profissionais da educação têm sido linha de frente na resistência contra todos esses retrocessos, inclusive sendo ponto de apoio importante para as lutas estudantis, como foi o caso das escolas ocupadas contra a reorganização do ensino em São Paulo e da luta contra a PEC do fim do mundo.

    Querem amordaçar os educadores para implementar uma agenda ainda mais excludente e nefasta para a maioria do povo brasileiro. Não podem nos calar. Nossa voz tem história e poder transformador. Resistiremos até o fim contra a “Escola da Mordaça”!

    *Silvia Ferraro é professora e pré-candidata do PSOL ao Senado por São Paulo

     

  • Aumentos nos combustíveis, greve geral e repressão: entenda a crise no Haiti

    Mais uma vez, o Haiti vive dias de fúria popular. As ruas de Porto Príncipe e das principais cidades como Les Cayes, Cabo Haitiano, Jeremias e Grande Enseada, foram tomadas por manifestantes contrários ao aumento de até 51% no preço dos combustíveis, anunciado na última sexta-feira. Para além do setor de transporte, o reajuste draconiano atinge o abastecimento de energia da população, já que grande parte necessita do querosene para ter acesso à iluminação básica e cozinhar. O reajuste equipararia o preço do salário mínimo diário – U$ 5 – com o valor do galão do querosene, o que só agrava a crise social num país onde a super-exploração é regra e 14% da população sequer possui emprego.

    Correspondentes internacionais descrevem a situação do país como “insurrecional”: barricadas nas ruas, repressão policial, saques e destruição de lojas e supermercados, incêndio de carros e uma forte greve geral convocada pelos trabalhadores do transporte compõe o quadro da crise política e social na ilha. A Polícia Nacional do Haiti chegou a aquartelar-se, já que não tinha como controlar as ruas. Mesmo assim, o número de mortos já se aproxima de dez vítimas desde o início das manifestações, reafirmando o caráter violento das forças policiais haitianas treinadas pela Minustah (ONU).

    A medida é parte do plano de ajustes do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a América Latina, que também prevê a privatização completa da estatal responsável pela energia elétrica do país, entre outras contrarreformas sociais. Entretanto, o presidente Jovenal Moise e o primeiro-ministro Jack Guy Lafontant, do Partido Tèt Kale, foram obrigados a revogar o aumento no último domingo, o que não foi suficiente para arrefecer as mobilizações, que agora exigem a renuncia de ambos os políticos que também estão envolvidos em diversos casos de corrupção, principalmente entorno do dossiê conhecido como Petrocaribe. É importante lembrar que Moise, empresário e produtor de bananas, assumiu o governo depois de uma crise que durou quase um ano e meio, alimentada por diversos questionamentos ao resultado das urnas, que tiveram participação de menos de 20% da população.

    O início da semana foi marcado por uma forte greve geral convocada pelo setor de transportes. Segundo os correspondentes da Telesur, poucas pessoas caminhavam pelas ruas na segunda-feira, bem como a circulação de ônibus e carros era quase zero. Nessa terça-feira, a greve continuou, porém, com maior presença das forças policiais nas ruas na tentativa de desmontar as barricadas e retomar a “normalidade” esmagando a mobilização. As dificuldades de organização no Haiti são gigantescas devido a situação de extrema exploração e a repressão violenta do governo e das forças internacionais, entretanto, os últimos dias estão demonstrando que o povo haitiano ainda possui uma imensa capacidade de reinventar suas formas de solidariedade e mobilização para resistir a recolonização do país.

    A verdade é que a primeira ilha a se libertar do julgo da escravidão no continente americano vive as agruras da perda de sua soberania e da espoliação de suas riquezas, ações conscientes de um imperialismo movido pelo ressentimento racista, que nunca permitiu que o povo haitiano decidisse os rumos do país de forma autônoma. A ocupação militar dirigida pelo Brasil não alterou em nada as condições do país, pelo contrário, serviu de proteção para a implementação das maquiladoras da indústria têxtil imporem regime semi-escravo aos trabalhadores locais. As forças militares se mostraram incapazes de reconstruir o país depois do terremoto de 2010 e ainda foram as responsáveis por exportar uma trágica crise de cólera no país. Hoje, a economia haitiana é completamente controlada por agentes internacionais de diversos países, que vão do capital brasileiro, canadense e francês, até a ingerência de sul-coreanos e vietnamitas. A situação de migração em massa para países como o Chile e o Brasil reflete o desespero de quem não vê expectativas de construir uma vida digna em seu país. A forma de retomar a dignidade e a soberania é pela organização e mobilização popular, além do necessário desenvolvimento de uma ampla rede de solidariedade internacional que possa auxiliar na reconstrução do Haiti.

  • Em nota, PSOL pede impeachment de Crivella: ‘O Rio tem que ser de todas e todos’

    A executiva do PSOL Rio de Janeiro divulgou uma nota, na manhã desta quarta-feira (11), exigindo o impeachment de Marcelo Crivella (PRB), prefeito da capital fluminense. O pedido acontece após as denúncias que envolvem o prefeito numa reunião a portas fechadas com 250 pastores que apoiam a Igreja Universal do Reino de Deus. Crivella teria, entre outras coisas, oferecido benefícios aos fiéis, como cirurgias de catarata, entre outros serviços de saúde, sem que precisassem passar, como o conjunto da população, por fila de espera. O áudio do encontro foi gravado e divulgado em rede nacional.

    “Fomos ao Ministério Público entregar uma representação para que o prefeito seja investigado por crime de responsabilidade, improbidade administrativa, antecipação de campanha eleitoral e atentado contra o estado laico, ao oferecer vantagens públicas para membros de igrejas aliadas ao seu governo”, diz a nota do PSOL.

    Ainda, o PSOL protocolou pedido de impeachment do prefeito do Rio e, na Câmara dos Vereadores, os parlamentares do partido pediram o fim do recesso para poder votar a questão, o que foi acatado. “Ao mesmo tempo e pelos mesmos motivos, o partido entrou com pedido de impeachment na Câmara que agora, aprovado o fim do recesso, poderá ser apreciado pelos vereadores nos próximos dias”.

    Nesse momento, acontece uma manifestação em frente à Prefeitura, para exigir a saída de Crivella. Novo protesto está marcado para esta quinta-feira (12).

    Abaixo, divulgamos a íntegra da nota da Executiva do PSOL Carioca: 


    Nota: pelo impeachment de Crivella – o Rio tem que ser de todas e todos

    Em um ano e meio de governo, Crivella já acumulou uma série de ataques à população carioca. O temor que se apresentou durante as eleições de 2016 quanto à possibilidade da prefeitura governar apenas para alguns vem se confirmando, através de ações que demonstram preconceito religioso, censura às artes, tentativa de nepotismo, viagens sem qualquer sentido para a cidade, aumento indevido do IPTU, descaso com a maior festa popular da cidade, acordo com empresas de ônibus para aumento das passagens, declarações descabidas e violência contra servidores públicos na porta da Câmara. Agora, não bastasse o ataque aos direitos de todas e todos, Crivella promoveu uma reunião secreta, na sede da prefeitura, com o intuito de distribuir vantagens para aliados e promover candidatos de seu campo político, contrariando a Lei Eleitoral. O prefeito ofereceu facilidades para furar a fila de cirurgias ao mesmo tempo em que negou a ampliação do programa de médicos da família e enquanto hospitais públicos, como o Rocha Faria e o Pedro II, sofrem com abandono. Está nítido que Crivella não tem quaisquer condições de continuar a governar a cidade do Rio.

    Desde o primeiro dia de mandato, o PSOL e sua bancada na Câmara vêm combatendo as artimanhas de Crivella para governar apenas para uma parcela da sociedade carioca. Torna-se cada vez mais evidente o projeto de poder do qual faz parte o prefeito da segunda maior cidade do Brasil e não seremos coniventes com ele. Por isso, após a divulgação do ardiloso encontro com 250 pastores aliados à IURD, o PSOL tomou ações para reverter essa situação. Fomos ao Ministério Público entregar uma representação para que o prefeito seja investigado por crime de responsabilidade, improbidade administrativa, antecipação de campanha eleitoral e atentado contra o estado laico, ao oferecer vantagens públicas para membros de igrejas aliadas ao seu governo. Ao mesmo tempo e pelos mesmos motivos, o partido entrou com pedido de impeachment na Câmara que agora, aprovado o fim do recesso, poderá ser apreciado pelos vereadores nos próximos dias.

    É fundamental que a população carioca pressione a Câmara a abrir o processo, para que Crivella explique os crimes cometidos e esse projeto clientelista seja derrotado. Não podemos admitir que um prefeito cuide apenas dos seus amigos, utilizando verba e instrumentos públicos para privilegiar um pequeno grupo de pessoas, enquanto o restante da população sofre com o desmonte dos serviços básicos. Por isso, convocamos todas e todos para um ato na Cinelândia, no dia 12/06 (quinta-feira), às 12h, durante a sessão extraordinária da Câmara dos vereadores, para mostrar que o Rio não aguenta mais essa velha política. Fora, Crivella!

    Executiva do PSOL Carioca

    Foto: EBC

  • O fascismo dentro das quatro linhas: jogadores croatas comemoram com saudações nazistas

    Croácia e Inglaterra jogarão hoje, 11/07, às 15h, pelas semifinais da Copa do Mundo na Rússia. Antes mesmo da bola rolar, a equipe croata se envolveu em uma grande crise. O zagueiro Domagaj Vida, autor de gol na classificação contra a Rússia pelas quartas, postou um vídeo ao lado do observador técnico Ognjen Vukojevic. No vídeo ambos fazem uma saudação utilizada por milícias neofascistas na Ucrânia. O defensor falou “Glória para a Ucrânia”, enquanto o membro da comissão técnica completou, “esta vitória é para o Dínamo e para a Ucrânia”. Tanto Vukojevic, quanto Vida jogaram pelo Dínamo de Kiev, um dos principais times ucranianos.

    O vídeo repercutiu de forma imediata na Rússia, onde os telejornais criticaram a atitude do defensor. A Comissão Disciplinar da Fifa multou em 12 mil euros o zagueiro croata. Vale apontar que a FIFA não atuou no caso por ser uma declaração fascista, mas sim, pelo fato da FIFA proibir qualquer manifestação de caráter político.

    A Federação Croata de Futebol (HNS) demitiu o observador técnico e emitiu uma nota pedindo desculpas pelo vídeo, porém, afirmando que não havia interesses políticos por trás do mesmo.

    A crise entre Rússia e Ucrânia e a comemoração croata

    Rússia e Ucrânia têm divergências históricas, porém, desde 2014 a relação entre os dois países, que fizeram parte até 1991 da União Soviética, é uma relação em clima de guerra. No ano de 2014, o então presidente ucraniano Victor Yanukovich se recusa a assinar um tratado de aproximação com a União Européia, e se aproxima política, econômica e militarmente da Rússia. Diversos protestos contrários a esta decisão aconteceram no país.  Estes protestos, conhecidos como Euromaidan, foram liderados por organizações de direita e de extrema-direita, que reproduziam atitudes nazifascistas. Durante os protestos era possível ver diversas bandeiras com a cruz de ferro (um tradicional símbolo nazista), assim como outros emblemas mais tradicionais do nazismo ucraniano. Ativistas de esquerda, LGBT´s, membros do partido comunista, foram espancados durante os protestos que acabou se alastrando e se tornando um conflito armado.

    As manifestações acabaram com o presidente Yanukovich deposto, um novo governo com uma coalizão entre as forças de oposição, onde se assinou o tratado com a União Européia e foram feitas diversas leis criminalizando a língua russa, os partidos de esquerda, e o passado soviético do país. A reação da Rússia e de Putin foi anexar a península da Criméia (fato que gerou a expulsão do país do G8), um território cedido a Ucrânia em 1954, e que era de imensa maioria de forças e militantes pró-rússia.

    Com as medidas do novo governo começaram a surgir no leste do país manifestações pró-rússia, que terminaram por criar Repúblicas autônomas. A situação se agravou para uma guerra civil, onde milícias de extrema-direita enfrentam os separatistas, com o saldo de mais de 10 mil mortos.

    A comemoração do jogador croata, portanto, fazia analogia a este fato. Foi uma provocação aos russos e uma exaltação das milícias fascistas que estão no poder na Ucrânia.

    Infelizmente, esta não é a única polêmica envolvendo a seleção croata e uma atitude nazista.

    O histórico de relações entre os jogadores croatas e o nazismo

    Em outro vídeo publicado anteriormente pelo defensor Dejan Lovren, vários jogadores da equipe cantavam a música Bojna Cavoglave, uma canção nacionalista e xenófoba, que faz apologia a ajuda da Croacia aos nazifascistas na segunda guerra. A música é da banda Thompson, que tem diversas letras entoadas nos estádios croatas durantes os jogos da seleção.

    Durante a segunda guerra, quando as tropas de Hitler atacaram a Iugoslávia em abril de 1941, as forças armadas alemãs (Wehrmacht) tiveram apoio de grupos iugoslavos. O Partido Ustasha, de extrema-direita, nacionalista e fascista, apoiou com suas milícias o avanço das tropas nazistas, pois queriam a independência da Croácia frente a Iugoslávia. Quatro dias depois do início dos ataques, Hitler declarou que havia sido criado o Estado Independente da Croácia. As tropas nazistas eram recebidas com festa na capital Zagreb.

    A católica Croácia conseguia realizar o sonho de se separar da ortodoxa Sérvia. Durante os quatros anos como um Estado independente (1941-1945), com um governo fascista e com grande base religiosa, buscou fazer uma purificação racial e executou, com sua milícia, mais de 750 mil pessoas, entre sérvios, judeus, ciganos e antifascistas.

    As músicas da banda Thompson cantada a plenos pulmões pelos jogadores croatas falam sobre o genocídio dos servos, e exaltam os anos sombrios do antigo Estado croata. Não é possível que os jogadores da seleção não conheçam a origem destas músicas e das saudações que cantam e fazem.

    Em 2013, o então capitão da seleção Simunic, após a partida que classificou a seleção para a Copa do Mundo do Brasil, cantou junto com torcedores diversos cânticos nazistas e de exaltação a Ustasha, além de fazer saudações fascistas e em homenagem a Hitler. Simunic, que é considerado um ídolo em seu país, recebeu uma sanção de 10 jogos, ficando proibido de jogar a Copa de 2014.

    O fascismo entre os jogadores da seleção não é algo que é repudiado pela mídia, governo ou por entidades. No país, com um governo conservador, o passado nazifascista do país é visto como parte da formação do atual Estado Croata, não existindo um sentimento público de repulsa.

    Desde a guerra pela independência do país (1991-1995) um crescente nacionalismo e aceitação de ideias de extrema direita podem ser vistos. Ano passado o governo croata retirou estátuas do líder comunista iugoslavo Tito de diversas cidades, mudando nomes de ruas e praças que o homenageavam. O governo permitiu também que os veteranos da unidade paramilitar, HOS, que combateu na guerra de independência, colocassem em homenagem aos soldados mortos uma placa com um lema fascista a algumas centenas de metros de um antigo campo de concentração, onde foram assassinados sérvios e judeus na Segunda Guerra.

    A frase em questão “Za dom spremni” (assuntos para a Pátria), era a saudação oficial das tropas de Ustasha e do antigo Estado croata pró-fascista na Segunda Guerra. É importante colocar que as tropas da unidade HOS utilizam a frase fascista em seus símbolos. Desde que se separou da Iugoslávia em 1991, foram destruídos cerca de 3.000 monumentos que homenageavam os movimentos anti-fascistas.

    Nessa semi-final entre Croácia e Inglaterra, nem tudo está perdido. Jogadores da seleção inglesa, como Lingard e Dele Ali, comemoram seus gols com a coreografia do clipe “This is America”, música que denuncia o racismo e a violência policial nos Estados Unidos.

    A conivência da federação croata com o fascismo de seus atletas merece ser repudiado. Isso só mostra que em tempos de crescente xenofobia, ideias nacionalistas e de extrema-direita, é mais do que preciso e importante discutirmos o passado, para melhor combater essas ideias no presente.

    Mais sobre a cobertura da Copa do Mundo na Rússia no Lateral Esquerda:https://esquerdaonline.com.br/a-lateral-esquerda