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  • Agora somos Resistência

    No último dia 27 de maio, nossa pequena organização, o M-LPS (Movimento Luta Pelo Socialismo), em Conferência Nacional decidiu por unanimidade unir-se à Resistência, corrente interna do PSOL, nascida quase um mês antes da fusão, após um ano de debates e discussões de duas organizações, a NOS (Nova Organização Socialista) e o MAIS (Movimento Alternativo Independente Socialista). A fusão de correntes políticas de origens e tradições diferentes é um raro acontecimento na história das organizações que se reivindicam do legado de Leon Trotsky, em última análise é fruto desta desafiadora conjuntura.

    Creio ser de suma importância a localização deste acontecimento e a luta pela superação da fragmentação e dispersão dos marxistas revolucionários construindo um ponto de apoio para avançar para a superação do reformismo, construindo uma alternativa de esquerda, de independência de classe que abra caminho para construção de um partido revolucionário de massas e enraizado na classe trabalhadora, no proletariado e nos explorados e oprimidos.

    As jornadas de junho e julho de 2013 foram um marco na luta de classes no Brasil e seus desdobramentos colocaram em xeque a posição dos partidos, grupos, correntes e militantes à prova. Esta situação, componente da situação internacional, aberta desde a crise 2007/2008, que abriu um novo patamar da luta de classes, a partir da intensificação por parte do imperialismo, da exploração da mais valia, atacando brutalmente as condições de vida dos povos em todos os cantos do planeta.

    Esta conjuntura nacional e internacional, onde de um lado estão estes ataques do imperialismo e avanço da extrema-direita, em especial na Europa, de outro uma brava resistência em defesa dos direitos e conquistas criando situações de polarização social onde até este momento a classe trabalhadora tem sofrido derrotas com perda de direitos e aplicação das políticas de corte nos gastos públicos.

    A aplicação destas políticas, inclusive por governos de colaboração de classes com participação ou mesmo sendo majoritários de partidos da esquerda tradicional que em geral também são a direção dos sindicatos e da maioria dos movimentos sociais, impõe imensos desafios aos marxistas revolucionários. Aliás, situação que criou as condições para o surgimento de vários fenômenos nascidos em geral por fora das organizações tradicionais do proletariado, também denominados “neorreformistas”.

    O surgimento destes fenômenos – e diga-se de passagem foram vários, com particularidades e em vários países – são fruto da busca pelas massas (mesmo que de forma inconsciente num primeiro momento) de romper o bloqueio das direções tradicionais, ora porque estavam nos governos, portanto sendo aplicadoras das políticas de ajustes mesmo que de forma diferente de um governo “puro sangue” da burguesia, ora através de orientações reformistas que bloqueavam uma autêntica saída de esquerda nas lutas. Das mobilizações espontâneas ou agarrando-se em setores à esquerda dos partidos e direções tradicionais, esses fenômenos se transformaram em ponto de apoio para as massas, particularmente nas lutas por reivindicações democráticas, em especial dos setores oprimidos como mulheres, imigrantes, lgbts, minorias, entre outros.

    E no desenvolvimento desta situação cresce a extrema-direita, com elementos fascistas e xenófobos na Europa e, em alguns locais, como no Brasil, a esquerda reformista volta a ser oposição após o golpe parlamentar, interrompendo-se a experiência das massas com a política de colaboração de classes, revelando as enormes reservas de liderança que as direções reformistas têm na classe trabalhadora, o que mantem o bloqueio para uma saída pela esquerda para enfrentar a crise, cujo custo é jogado nas costas da classe trabalhadora, dos explorados e oprimidos.

    Logo após a constituição do M-LPS, em 22 de maio de 2017, escrevi um artigo escrito junto com o Bel – Humberto Belvedere (falecido poucos meses depois da constituição do M-LPS), onde dizíamos: … ajudar o movimento operário de massa a resistir e manter a iniciativa é algo que ultrapassa nossas humildes forças. Mas podemos começar a fazer a nossa parte, que juntando com outras partes, na linha da frente única, pode abrir uma saída para desbloquear essa situação. O que coloca na ordem do dia as iniciativas políticas em direção a constituição de um partido operário de classe, independente, socialista e de massas. Que pode se desenvolver inclusive no próprio seio do PSOL, porém ainda num quadro indefinido na situação de organização e reorganização dos grupos, partidos e organizações que se reivindicam da luta pelo Socialismo.”

    E foi a partir da profunda compreensão desta tarefa que nos dispusemos de maneira franca e leal ao debate com o antigo MAIS. Lemos os documentos, expusemos de maneira clara e transparente todas nossas posições, realizamos iniciativas comuns na luta de classes. Aprofundamos o conhecimento mútuo ao logo de um ano, inclusive em vários momentos os textos e artigos de análises da situação eram muito parecidos e mesmo se em alguns pontos considerados táticos por ambas as partes existem discordâncias, nas questões de fundo, estratégicas e de princípios existem um amplo acordo.

    Foram vários meses de preparação de nossa Conferência Nacional, que teve uma excepcional participação de todos militantes, com Boletins Internos, preparação, plenárias, textos lidos e debatidos na base e chegando ao final à conclusão unânime da fusão entre o M-LPS e a Resistência. O ânimo e disposição estampado por todos e todas ao final da Conferência era contagiante. O sucesso desta fusão também foi a demonstração do método utilizado estar baseado nas melhores tradições do bolchevismo.

    Apesar das nossas humildes forças no amplo movimento dos trabalhadores, temos a gigante convicção de estar no caminho certo para honrar todos e todas camaradas que dedicaram suas vidas na construção de uma ferramenta que ajude a superar a fragmentação da esquerda. Construiremos a Resistência na luta de classes, abrindo caminho para a construção de um partido socialista, revolucionário e de massas, que neste momento passa pela construção do PSOL. E ao mesmo tempo, seja um ponto de apoio na luta por uma internacional revolucionária e de massas. Este é o desafio e o legado que recebemos das gerações que nos precederam, estes são os combates do próximo período. À luta, camaradas.

    Vida Longa à Resistência!
    Viva a luta da classe trabalhadora!
    Viva a Luta Pelo Socialismo!

    *José Carlos Miranda foi ferroviário e metalúrgico, militante desde os anos 1981, é da Coordenação Nacional da Resistência, membro do Conselho Curador da Fundação Lauro Campos (PSOL) e da Direção do PSOL-SP

  • Crise no Hospital Deoclécio Marques, no Rio Grande do Norte

    Recentemente, o hospital Deoclécio Marques, na Zona Metropolitana de Natal, foi notícia nos veículos de comunicação,  onde  foram reveladas as condições dramáticas de funcionamento de um dos maiores hospitais do Rio Grande do Norte. Para falar sobre a crise da saúde potiguar, entrevistamos o militante João Assunção, da Resistência/PSOL e diretor do Sindicato dos Servidores da Saúde.

    Esquerda Online –  João, quais as condições da saúde pública do Rio Grande do Norte nesse momento?

    João – As condições da saúde nos hospitais estaduais são caóticas, além do fechamento de serviço em sete hospitais regionais, dez leitos da UTI cardiológica do Walfredo Gurgel, a UTI pediátrica do Hospital Maria Alice Fernandes. Também tem a falta de servidores, causando a sobrecarga e o adoecimento de muitos servidores, acarretando em atestados médicos.

    Esquerda Online – Faltam estrutura e materiais básicos nos hospitais?

    João – Sim, enquanto o governo desativa serviços nos hospitais regionais, sobrecarrega abarrotando os corredores dos hospitais da região metropolitana com macas. São os casos do Hospital Pedro Bezerra (Santa Catarina) e do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel e Deoclecio Marques de Lucena, em Parnamirim.

    Esquerda Online – O Deoclécio Marques, localizado na zona metropolitana de Natal, foi matéria nos jornais locais recentemente. O que houve?

    João – Como nos outros hospitais, a situação do Hospital Deoclecio Marques não é diferente, aquele hospital só funciona porque os servidores se esforçam para fazer a coisa acontecer. Às vésperas das eleições, o governo quer ampliar o hospital sem condição alguma, faltam equipamentos básicos como EPIs, os técnicos de RX e servidores do Centro Cirúrgico trabalham sem dosímetro, faltam servidores na Farmácia, Serviço Social, Laboratório, Nutrição, entre outros. O hospital não tem lavanderia, sendo preciso terceirizar a higienização das roupas. No dia 5 de julho, cheguei com intuito de mobilizar os servidores para uma reunião com o propósito de eleger delegados para o Congresso do Sindsaúde e, ao chegar ao centro cirúrgico, tomei conhecimento que as intervenções cirúrgicas estavam comprometidos com a falta de material esterilizado por não ter roupas para empacotar as caixas com instrumentos cirúrgicos, para serem esterilizadas e usados nas cirurgias do dia e ainda para complicar mais, os autoclaves não estavam funcionando. Fiquei muito indignado em ver aqueles pacientes sem comer, sem beber e sem saber que horas ou se ainda iriam fazer sua cirurgia. Entrei em contato com a imprensa do nosso estado para denunciar aquela situação, foi o mínimo que eu pude fazer.

    Esquerda Online – Essa situação do Deoclécio é recente ou antiga?

    João – Sempre existiu, mas está piorando agora com a suspensão dos serviços da empresa que fazia o trabalho de lavanderia.

    Esquerda Online – Nesse momento, quais as principais reivindicações dos trabalhadores e usuários do Deoclécio?

    João – Condições dignas de trabalho, respeito e humanização por parte do governo para com os servidores e pacientes. Assim como salários em dia.

  • As birras de Trump e a economia mundial

    A reunião do G7, no Quebec, Canadá, foi um marco em muitos aspectos. Primeiro, houve uma clara ruptura com a habitual e insípida unidade de políticas e objectivos das reuniões do G7 pelos líderes dos sete principais países capitalistas do mundo.

    Pouco antes da reunião do G7, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tinha anunciado uma série de medidas tarifárias protecionistas contra o resto do G7, incluindo o seu vizinho mais próximo, o Canadá, sob a justificação de estar a proteger a sua “segurança nacional” – aparentemente, o Canadá é um risco de segurança para os EUA. Ao fazê-lo, Trump cumpriu com as suas promessas eleitorais.

    No encontro, Trump chocou com os restantes líderes, alegando que seus governos estavam a impor regras comerciais “injustas” aos produtos norte-americanos e que precisavam reduzir os seus excedentes comerciais com os EUA. Os outros líderes já haviam respondido às medidas tarifárias dos EUA com tarifas recíprocas, planeadas sobre as principais exportações dos EUA, e agora respondiam aos ataques de Trump com argumentos e provas de que, pelo contrário, foram os EUA que restringiram as importações de bens e serviços estrangeiros.

    E assim a guerra comercial começou – uma guerra a que as grandes economias capitalistas não recorriam desde a depressão dos anos 1930 e que deveria ser resolvida no âmbito dos acordos internacionais como o Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT, em inglês), a Organização Mundial do Comércio (WTO, em inglês) e o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, em inglês), no período pós-guerra. Trump apelidou a WTO de o pior acordo comercial possível e o NAFTA de o segundo pior (para os EUA). Os Estados Unidos protegeram os estados capitalistas europeus e japoneses, com seus exércitos e armas nucleares, contra a suposta ameaça russa, e agora está na hora de aqueles estados pagarem tanto em gastos com defesa quanto em acordos comerciais “mais justos”. A verdadeira ironia neste argumento de Trump está no seu pedido para que a Rússia, o suposto inimigo, volte a ocupar um lugar à mesa das negociações.

    O que todos estes malabarismos de Trump revelam é que o período da “Grande Moderação” e da globalização, decorrido entre os anos 1980 e 2007, quando todos os principais Estados capitalistas trabalharam em conjunto para beneficiar o capital em todos os países (em graus variados), acabou. A Grande Recessão, de 2007-8, e a, consequente, Longa Depressão, desde 2009, mudaram o quadro económico. Numa economia capitalista mundial estagnada, onde o crescimento da produtividade é baixo, o crescimento do comércio mundial diminuiu e a rentabilidade do capital não recuperou, a cooperação foi substituída pela perversa competição.

    Trump é o líder “populista” e nacionalista da maior potência capitalista; Itália (a potência mais fraca do G7) tornou-se “populista” e nacionalista também. E a Grã-Bretanha está trancada no poço do “Brexit”, um desastre para o capital britânico que ele mesmo criou. O ataque de Trump fez com que o encontro do G7, marcado para discutir a crescente desigualdade social, a automação e as alterações climáticas – os principais desafios, de longo prazo, para a sobrevivência do capitalismo – tivesse ficado paralisado.

    Por enquanto, isso pouco importa. A economia mundial está realmente a atravessar o seu melhor momento desde o final da Grande Recessão. O Banco Mundial estima que o crescimento do PIB real, em termos mundiais, seja de 3,1% este ano, o mesmo que em 2017. Isso pode não parecer grande coisa mas é uma recuperação, após o período de quase recessão de 2015-6, quando o crescimento global caiu para 2,4% e as economias do G7 não foram além dos 1,5%. Agora as economias do G7 estão a expandir-se em torno de uma taxa de 2,5%. O desemprego nos EUA, no Reino Unido e no Japão alcançaram os valores mais baixos de todos os tempos. E mesmo na Europa, a taxa de desemprego caiu para 8%, ainda acima dos níveis pré-crise, mas a marcar uma tendência de regresso a tais níveis.

    No entanto, os economistas do Banco Mundial, nas suas Perspectivas Económicas Globais mais recentes, não estão convencidos de que esta leve recuperação (ainda cerca de 30% abaixo da taxa de crescimento mundial pré-crise) seja sustentada. “Espera-se que caia nos próximos dois anos, à medida que a folga global se vá dissipando, o comércio e o investimento vão arrefecendo e as condições de financiamento se estreitem. O crescimento nas economias avançadas deve desacelerar, conforme a política monetária se normalize e os efeitos do estímulo fiscal norte-americano diminuam”. Para além disso, “os riscos para o futuro permanecem inclinados para baixo. Incluem movimentos desordenados do mercado financeiro, aumento do proteccionismo comercial, aumento da incerteza política e aumento das tensões geopolíticas, que continuam a obscurecer as perspectivas”.

    Sugeri, no final do ano passado, que o ciclo comercial, de curto prazo, de 2015-16 iria atingir o seu pico em 2018 e depois voltaria a afundar em 2019-20. “O que parece ter acontecido é que houve uma recuperação cíclica, de curto prazo, a partir de meados de 2016, após uma quase recessão global desde o final de 2014 até meados de 2016. Se o nível mais baixo desse ciclo de Kitchin foi em meados de 2016, o seu pico deveria ser em 2018, com um novo afundamento depois daí”. Em Abril do presente ano, voltei a afirmar esta previsão.

    Os economistas do Banco Mundial parecem concordar. Eles esperam que o crescimento económico mundial diminua para 2,9% até 2020. “A expansão económica global continua robusta, mas suavizou-se. A atividade global ainda está aquém das expansões anteriores, e o crescimento deverá desacelerar em 2019-20, já que o comércio e o investimento estão moderados. O progresso na renda per capita será desigual e insuficiente para combater a pobreza extrema na África Subsaariana”. E “não obstante a expansão global em curso, apenas 45% dos países deverão experimentar uma nova aceleração do crescimento neste ano, abaixo dos 56%, em 2017. Além disso, a atividade global ainda está aquém das expansões anteriores, apesar da década de recuperação desde a crise financeira global. Desta forma, o Banco Mundial calcula que a Longa Depressão irá continuar.

    E tudo isto assumindo que não haverá uma nova recessão mundial nos próximos dois anos. Embora não haja sinais imediatos de uma nova recessão global (de fato, aparenta o oposto), há muitos fatores que sugerem que ela não estará assim tão distante. O primeiro é o facto óbvio de que a atual muito fraca recuperação da Grande Recessão é a segunda expansão mais longa no período pós-1945, atingindo dez anos no próximo verão de 2019 – se durar tanto tempo.

    E depois há a rentabilidade. No primeiro trimestre de 2018, as 500 principais empresas dos EUA obtiveram um aumento de 26% no lucro, por ação. Mas isso foi principalmente devido a uma enorme redução de impostos, criada pela Administração Trump. Quando se olha para os lucros de todo o setor corporativo, antes das reduções de impostos, houve uma queda, no primeiro trimestre de 2018 (-0,6%), que se seguiu a uma queda no quarto trimestre de 2017 (-0,1%). Com os benefícios fiscais, os lucros aumentaram 6%. A grande bonança de Trump será apenas pontual. E a rentabilidade média, nas economias do G7, permanece abaixo dos níveis pré-crise, mesmo após dez anos de recuperação.


    E o grande risco que temos pela frente é a combinação da queda da rentabilidade com a alta e crescente dívida, nos setores empresariais do G7. Se os lucros começarem a cair, enquanto o custo do serviço das dívidas aumenta, à medida que as taxas de juros sobem, estará composta a receita para novas falências empresariais e uma nova crise da dívida. A dívida global, nomeadamente a dívida empresarial, está nos níveis mais elevados de todos os tempos.


    Em 2017, a dívida subiu 10,2%, face a 2016. Desagregando por setor, a dívida empresarial, não financeira, cresceu 11,1%, a dívida pública cresceu 6,7%, a dívida das famílias cresceu 12,5% e a dívida do setor financeiro cresceu 11,3%.


    O nível de dívida dos mercados emergentes será insustentável porque, entre outras razões, a dívida amadurece e deve ser paga ou refinanciada. Aqui está a dívida do mercado emergente por maturidades:


    Muitos dos negócios e empresas financeiras dos mercados emergentes contraíram empréstimos em dólares, já que o dólar estava relativamente fraco e as taxas de juros dos EUA ridiculamente baixas. Grande parte destes fluxos de capital para as economias emergentes não se destinou a investimento produtivo, mas sim à atividade especulativa. Os fluxos de capital, de longo prazo, para os setores produtivos das economias emergentes (FDI, em inglês) estão em declínio desde a Grande Recessão.
    A bonança do crédito acabou. Cerca de 4,8 biliões de dólares em dívidas dos mercados emergentes irão vencer, a partir deste ano até 2020, muitos destes precisarão de ser empurrados para o futuro a taxas geralmente mais altas e, se a valorização do dólar continuar, está criado um ambiente cambial desvantajoso.

    Os sinais de quebra já estão a aparecer em algumas das maiores economias emergentes. A Argentina rebentou e foi forçada a ser intervencionada pelo FMI, no valor de 50 mil milhões de dólares, já que não pode contrair mais empréstimos nos mercados de títulos internacionais, a custos acessíveis. A economia mergulhou, a inflação subiu e a moeda caiu. O Brasil não está muito diferente. A economia brasileira está a lutar para crescer e, ainda assim, tem os maiores custos do mundo com os juros das dívidas. No primeiro trimestre de 2018, a economia da África do Sul registou a maior contração dos últimos nove anos, com os investimentos das empresas a cair drasticamente. E a moeda da Turquia, a lira, atingiu os mínimos de todos os tempos, à medida que a inflação anual alcançou mais de 12%; os investidores estrangeiros têm retirado o seu dinheiro da Turquia e o banco central elevou a sua taxa de juros para quase 18%.

    Mas o fundamental será provavelmente a dívida das empresas nas economias do G7. A dívida das empresas não financeiras dos EUA atingiu uma alta pós-crise, de 72% do PIB. Em torno de 14,5 biliões de dólares, em 2017, um aumento de 810 mil milhões de dólares face ao ano anterior, com 60% do aumento decorrente da concessão de novos empréstimos bancários. Atualmente, o financiamento de títulos corresponde a 43% da dívida, com prazo médio de vencimento, de 15 anos, contra o prazo médio de 2,1 anos para os empréstimos comerciais dos Estados Unidos. Isso implica cerca de 3,8 biliões de dólares em amortizações de empréstimos, por ano. “Neste contexto, o aumento das taxas de juros aumentará a pressão sobre as empresas com grandes necessidades de refinanciamento”. (IIF)

    Além das taxas de juros mais altas, as empresas que precisam de crédito (em oposição às de alta classificação que recorrem a empréstimos somente porque podem fazê-lo mais barato) tendem a ser mais arriscadas. Um relatório recente da Moody’s revelava que 37% da dívida das empresas não financeiras dos EUA está abaixo do nível de investimento, cerca de 2,4 biliões de dólares.


    Além disso, todas as empresas, tanto da categoria de investimento real quanto as especulativas, aumentaram significativamente o seu endividamento desde a Grande Recessão. Algumas empresas contraem empréstimos para financiar recompras de ações, mesmo tendo um vasto fluxo de caixa e reservas. Estas podem facilmente pagar os seus empréstimos, se necessário. Mas as empresas menores e mais arriscadas não têm essa escolha. O negócio não financeiro médio está cerca de 20% mais endividado do que no momento da crise financeira global, em 2007-8. Grande parte dessa dívida é avaliada em BBB, o menor grau de investimento. Isto significa que eles estão apenas um nível acima da notação de “lixo”. O número de empresas com rating BBB cresceu 50%, desde 2009.


    A recessão global não está presente em 2018 – pelo contrário, a economia global está a crescer mais rapidamente do que em qualquer outra altura, desde 2009. Mas esse crescimento pode ter atingido o pico e, nos próximos 18 meses, a economia mundial poderá cair para uma possível recessão. Como podemos saber? Bem, como argumentei antes, a rentabilidade do capital deve começar a cair novamente e, eventualmente, os lucros totais das empresas das principais economias devem parar de subir. Se o custo do serviço da dívida também aumentar, então estão criadas as condições para a falência de empresas.

    Um sinal viável que, no passado, o comprovou, foi a inversão das taxas juros. Normalmente, a taxa de juro para os empréstimos, por um ano, é muito mais baixa do que a taxa de juro dos empréstimos, por dez anos, por razões óbvias (o credor é reembolsado mais rapidamente). Portanto, a diferença entre a taxa de dez anos e a de um ano é normalmente positiva (digamos, 4% em comparação com 1%, respectivamente).

    A ideia geral é a de que quando as taxas de longo-prazo estão a subir mais rapidamente que as taxas de curto-prazo, tal indica que o crédito é de fácil acesso e que os lucros são altos devido ao crescimento económico também em aceleração. Mas quando as taxas de curto-prazo se elevam acima das taxas de longo-prazo, tal indica que as condições de crédito se tornaram mais restritivas, em comparação com os lucros, e que há uma probabilidade muito alta de que uma recessão chegue dentro de um ano.

    O estratega de investimentos do RBC, Jim Allworth, avalia que: “não houve recessão em mais de 60 anos que não tenha sido precedida por uma inversão da curva das taxas de juros. Em média, a curva das taxas de juros inverteu 14 meses antes do início de uma recessão (mediana de 11 meses). O menor “aviso antecipado” foi de oito meses. Ainda não estamos lá, nos EUA, e certamente nem perto na Europa. Mas a curva dos EUA está indo nessa direção”.


    As birras comerciais de Trump e o risco crescente de uma guerra comercial que poderia sufocar a atual “recuperação” só aumentam os riscos subjacentes a uma nova crise global no futuro.

  • OPINIÃO | Nunca foi só futebol: é Copa do Mundo

    Como tudo o que envolve o Brasil nos últimos anos, tivemos um clima de Copa bem diferente. Nada mais parece sagrado em solo brasileiro, o que não poupou nem a Copa, nem a amarelinha, nem os craques da Seleção.

    Eu, como militante socialista e torcedor de futebol, as duas coisas ao mesmo tempo, fiz campanha contra a ideia, pra mim equivocada, de que os lutadores e ativistas, que dedicam as suas vidas à militância e à luta social devem escolher entre uma coisa ou outra. A Copa também é reunião da família, reunião entre amigos, churrasco, cerveja e bolão, e não há mal nenhum em viver isso intensamente. Festejar em tempos difíceis também é uma forma de resistência.

    No entanto, o desenrolar dos jogos, em especial após os dois gols nos acréscimos contra a Costa Rica, fez de novo o país respirar a expectativa do Hexa, apesar de não esquecer por nenhum momento a gravidade do momento em que vivemos. Não vi nada de alienado na torcida pela Seleção. Desde 2014, fico tranquilo em dizer que a ideia da Copa como ópio do povo não condiz com o nível de politização da torcida brasileira, à direita, mas também à esquerda.

    Há 4 anos vivíamos o nosso pior pesadelo futebolístico. Em uma Copa realizada no Brasil após 64 anos, que tinha tudo para tornar-se motivo de orgulho, nos restaram estádios bilionários e vazios, cidades cada vez mais caras expulsando a população mais pobre e negra para bairros cada vez mais distantes, ou na melhor das hipóteses, para as ocupações urbanas, e um 7 a 1 desmoralizante.

    Uma geração de jogadores ficou marcada, e diversas gerações de torcedores se viram diante do inexplicável.

    A resposta da CBF foi condizente com o que dela se espera, criminosa: a recontratação de Dunga, Gilmar Rinaldi encarnando a raposa tomando conta do galinheiro, e a manutenção da seleção como algo completamente desconectado da vida do país. Amistosos contra seleções sem prestígio, em estádios sem torcedores brasileiros, fora do país.

    Tite chegou já depois do fiasco da Copa América pra salvar a lavoura, e em dois anos foi capaz de reerguer a Seleção a um patamar de disputa do título da Copa do Mundo. E isso sem contar com um grande planejamento, ou mesmo um ciclo completo entre Copas.

    Cai o mito da geração fraca do futebol brasileiro. Neymar, Coutinho, Gabriel Jesus, William, Douglas Costa, Firmino, Renato Augusto. Todos craques de seus times, com participação importante na Copa de 2018 onde Messi, CR7, Kroos, Iniesta, James Rodríguez não conseguiram ser protagonistas e nem passar das Oitavas com seus respectivos países.

    O Brasil perdeu da Bélgica, time com o melhor ataque da competição, e que demonstrou num jogo decisivo que era mais do que uma aposta. A virada contra o Japão mais que expor a fragilidade de sua defesa, já evidenciava a força mental e a capacidade técnica dos belgas. Mesmo um segundo tempo inteiro martelando, com atuações, senão brilhantes, acima da média de Douglas Costa e Neymar, não foi suficiente.

    Do lado belga, Hazard jogou muita bola, e Lukaku pode reivindicar a co-autoria do golaço de De Bruyne. Chadli e Meunier muito bem. E Courtois foi brilhante. O seu destaque só evidencia aquilo que todos puderam ver: o ataque brasileiro funcionou. Diferentemente do 7 a 1, o time cresceu quando em desvantagem. Soube manter a cabeça no lugar e não seria nada injusto arrancar o empate nas bolas de Renato Augusto, Coutinho, ou no chutaço derradeiro de Neymar, pra defesa espetacular de Courtois.

    Aqui é preciso uma pausa pra estender toda a solidariedade a Fernandinho, vítima de ataques racistas nas redes sociais. Que os autores sejam identificados e punidos, e Fernandinho possa seguir a sua brilhante trajetória no City. Como Lukaku disse recentemente, quando ele ganha, é belga. Quando perde, é congolês. O racismo é Internacional, e somente com uma luta em igual escala vamos derrotá-lo.

    Não há terra arrasada. Só uma seleção pode ser campeã, e já o fomos 5 vezes: às vezes é necessário lembrar o óbvio.

    França, Bélgica, Inglaterra ou Croácia. Considero França e Bélgica equivalentes, enquanto a Inglaterra mostrou uma campanha superior à da Croácia. Por isso, considero bastante provável que os ingleses farão uma final após 52 anos.

    Para os racistas, França, Inglaterra e Bélgica tem entre seus protagonistas jogadores negros, filhos ou netos de imigrantes. Mbappé e Pogba, Sterling e Lingard, Lukaku e Kompany. Pra quem não reparou, Lingard e Dele Alli, jogadores da Inglaterra, comemoraram seus gols com a coreografia de Childish Gambino em This Is America. Porque nunca foi só futebol.

    Saiba Mais sobre a Copa do Mundo no Lateral Esquerda, especial do Esquerda Online: 

    Lateral Esquerda