Ontem eu sonhei que estava em Moscou

Gabriel Santos, para o Lateral Esquerda

“Ontem eu sonhei que estava em Moscou
Dançando pagode russo na boate Cossacou”

Luiz Gonzaga

Daqui a milhares de anos, ou milhões, quem sabe. Quando o mundo como conhecemos hoje não existir mais. Quando nossa civilização tiver sido extinta. Talvez, algum outro tipo de criatura, vinda de outro mundo, acabe por vir explorar as ruínas da Terra. Em uma dessas expedições sobre nossa cultura, talvez, esses estranhos seres intergalácticos se deparem com uma competição que para eles é muito diferente. Em algum lugar da Terra, a cada quatro voltas ao Sol, equipes dos mais diversos países, das mais diversas línguas, se reúnem para correr durante 90 minutos atrás de um objeto esférico, em templos gigantescos onde o público que assiste gritava, torcia e chorava.

Imagino que esse nosso querido viajante vindo das estrelas ficará sem entender muita coisa. Afinal, não tem como entender, o jogo apenas se sente.

Ao redor do mundo todo crianças correm nas ruas com uma bola no pé. Em campos de concentração para refugiados sírios no Líbano, ela dá alegria para as crianças. Nos campos de terra das favelas e periferias do Brasil, ela tem o mesmo efeito. Durante horas, meninos e meninas correm em torno dela e em busca dela, em algum lugar de Camarões, ou da Libéria, ou repetem este mesmo ritual na Bolívia. A bola de futebol, que às vezes é feito de materiais que, se não fossem a imaginação e a paixão pelo jogo, seriam tudo menos uma bola, como uma meia ou papel de jornal, tem um poder mágico, quando se junta aos pés de uma criança. Essa junção, da bola com o pé infantil foi descrita por Galeano como a “definição da alegria”.

Para a alegria acontecer não precisa de muita coisa. Uma bola, duas pessoas e algum espaço, qualquer espaço serve. O prazer de se jogar, de correr atrás de bola, a facilidade para o jogo, faz do futebol o esporte mais popular do mundo, e, o mais democrático.

Porém, se o nosso amigo de outro mundo buscar estudar a história do futebol, verá que esse jogo, como tudo na Terra, foi seqüestrado por um pequeno grupo que busca fazer dinheiro e lucrar. Eles tentaram matar a alegria em nome dos bons negócios.

O esporte em que se chutava a bola com os pés sempre existiu nas mais diversas culturas, na China, Grécia, com os astecas e nas mais diferentes épocas ao logo do globo temos relatos de jogos semelhantes. Porém, foram os ingleses no século XIX que colocaram algumas regras e organizaram aquilo que viria ser o soccer. Os historiadores e os ingleses que me perdoem, mas o futebol, futebol mesmo foi inventado no Brasil. Quando as regras e a rigidez tática foram substituídas pelo drible, pela ousadia, pela irreverência, aí sim, foi criado o futebol. Infelizmente no século XXI se joga muito mais soccer do que o futebol. Os times viraram empresas, e como empresa querem lucrar, o que não da lucro não é útil. Logo, o drible, a alegria, a tentativa de demonstrar talento não é útil, pois não dá resultado. Esta visão foi comprada por técnicos e comentaristas que criticam todo e qualquer jogador que dribla “pra trás”, que “faz jogadas sem efetividade”. Eles querem o jogo mais triste.

Os estádios, palcos de lágrimas, espetáculos, e de um jogo a parte no duelo entre as torcidas, se tornaram teatros e luxuosas arenas. O grito, as bandeiras, o show, foi tudo substituído por silenciosos aplausos. O futebol para torcer se tornou o espetáculo para olhar. A fantasia de criar jogadas virou a prisão dos esquemas táticos. A ousadia está proibida naquilo que se tornou um dos negócios mais lucrativos do mundo. No soccer da força e velocidade, 1×0 é goleada, 0X0 é insistência e só quem ganha são os que lucram em cima da paixão de milhares.

Mas o futebol resiste. A brincadeira de criança com a bola no pé, de dançar em cima da bola, como se dança em pista de dança. De correr sem motivo, em todas as direções, sem juiz (aquele ser odiado por todos), sem tempo. Só a criança, a bola e a alegria. O futebol renasce em cada criança que chuta a bola pela primeira vez. Em cada jogo no campo de terra, nas quadras, das periferias e cidades mundo a fora. Em cada “racha” e “pelada” entre amigos nos dias de domingo. O jogo, ainda vive, em cada gol de Mo Salah, nos drible de Neymar e nas lágrimas de Vinicius Jr.

Em cada quatro voltas ao sol, o planeta bola para para assistir esse jogo. Que apesar de tudo ainda consegue nos emocionar e fazer torcer. A cada quatro voltas ao sol, adultos, que já foram crianças e já sonharam em ser jogadores de futebol, param o que estão fazendo, e tornam-se crianças novamente, e esperam que pelo menos naquela estranha competição chamada Copa do Mundo o futebol volte a ser futebol.

Foto: Crianças jogam bola na África do Sul. Site Big Picture

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