Devemos torcer pela seleção brasileira?

Ademar Lourenço, para o Lateral Esquerda

Essa pergunta só faz sentido em círculos onde o assunto mais falado é a política. Muitos dizem que o futebol é “algo alienante”, que faz parte do “pão e circo para entreter a massa enquanto ela é explorada”. Há aqueles que dizem que temos que torcer para a seleção perder, pois isso faria o povo “tomar consciência” e se revoltar.

Nunca foi feito um estudo sobre as decisões políticas do povo brasileiro e os resultados da seleção. Mas nos últimos 20 anos, nossas derrotas em momento algum ajudaram a esquerda. Pelo contrário. Em 1998 o Brasil perdeu de 3 a 0 em uma final de Copa do Mundo e Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, foi reeleito. Ele já tinha feito um governo em que atacava os trabalhadores e privatizava empresas públicas. Mas ganhou no primeiro turno. Em 2014 tivemos a maior derrota de nossa história, o 7 a 1 para a Alemanha. Logo após veio a “onda coxinha”, que levou milhões nas ruas contra a esquerda liderados pelo Movimento Brasil Livre (MBL), grupo mais pró-capitalismo que existe no Brasil.

E nossas vitórias? Depois do pentacampeonato conquistado em 2002, o povo elegeu o primeiro governo de origem operária da história. Lula traiu seu programa político depois, mas sua eleição foi uma vitória sobre a grande burguesia, que apoiava a continuidade do PSDB no governo. Em 2016, conquistamos nosso inédito ouro olímpico. Alguns diziam que isso iria fortalecer o governo Temer. Errado. Logo após essa vitória, o Fora Temer ganhou força.

O quanto realmente os resultados de nossa seleção influenciam a mentalidade política do brasileiro? Isso deve ser fonte de um estudo sério. Mas fazendo um apanhado histórico, dá para ver que, se há influência, ela vai no sentido contrário daqueles que dizem “torcer contra a seleção para o povo tomar consciência”.

Uma hipótese: quando o Brasil perde, o povo tem sua auto-estima ferida. Aflora o “complexo de vira-latas”, aquele sentimento de que o brasileiro é incapaz mesmo, que temos que aceitar o destino que nos foi dado. Isso ajuda a direita que diz: “não existem escolhas, temos que aceitar a dura realidade”. Já nossas vitórias trazem para a população o sentimento de que o brasileiro pode mais, que merece vencer. Devemos ter cuidado com o nacionalismo alienante. Mas quando a auto-estima do povo sobe, isso é sim algo positivo.

Não podemos nos esquecer que os jogadores, quando estão com a camisa da seleção, representam o povo brasileiro. Em sua maioria eles têm origem humilde, os trabalhadores se identificam com eles. Claro, a condição social dos jogadores hoje é completamente diferente da de um trabalhador. Mas quando eles entram em campo, são o povo brasileiro de chuteiras.

Alguém pode falar: “a direita foi para as ruas em 2015 e 2016 com a camiseta da seleção”. Uma pena. Aqueles que comandaram esses atos não devem nem torcer pela seleção. A ditadura militar também usou o tricampeonato do Brasil em 1970 para fazer propaganda. Título que foi forjada pelo técnico João Saldanha, simpatizante do Partido Comunista Brasileiro. Ele foi substituído por Zagallo pouco antes da Copa. Outro uso inapropriado de nosso futebol.

Em 2013 as pessoas foram às ruas durante a Copa das Confederações protestar contra o dinheiro gasto nos estádios. Mas isso de modo algum representou uma ruptura com o futebol. As pessoas eram contra os abusos feitos pelos governos na organização da Copa de 2014. Mas não eram contra a Copa. O slogan “Não vai ter Copa” não pegou nem no auge dos atos.

É positivo quando torcemos por nossa seleção. Isso não nos impede de falar sobre os problemas que envolvem o futebol como negócio capitalista. Pelo contrário, seremos mais ouvidos.  Também devemos torcer pela seleção feminina de futebol. O desempenho de Marta e Formiga nas olimpíadas de 2016 foi um gol contra o machismo.

Quem não gosta de futebol deve ter sua opinião respeitada. Mas aqueles militantes de esquerda que dividem essa paixão com 99% dos brasileiros não precisam ter receio. É torcer para dar show, para dar goleada. E que o povo brasileiro vença dentro e fora das quatro linhas.

Foto: Antonio Tomás Koeningkam Oliveira

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