Reunião do G7 revela crise das potências ocidentais. China faz o contraponto no encontro de Shangai

Victor Amal, Berlim/Alemanha

O encontro das sete principais potências imperialistas ocidentais, chamada Grupo dos 7 (G7) – Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França, Itália, Alemanha e Japão – que ocorreu no último final de semana, no Canadá, foi marcado pelo aprofundamento das tensões entre os Estados Unidos e seus países aliados. Enquanto isso, China e Rússia realizavam em Shangai o encontro da Organização de Cooperação, mostrando que existe uma liderança mundial em construção.

Rússia: um ponto prévio
O primeiro ponto de tensionamento entre as potências se deu antes mesmo do começo do encontro, quando falou Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Primeiro, visando diminuir a importância da reunião, declarou que não participaria dela porque sua prioridade seria a cúpula com Kim Jong-un a ser realizada neste dia 12 para tratar do tema nuclear da Coreia do Norte. Depois, ao resolver ir, afirmou de entrada que a Rússia deveria ser reincorporada ao grupo, como era até 2014. Na época, o então presidente norte-americano Barack Obama expulsou a Rússia do Grupo após o país ter anexado o território ucraniano da Crimeia, ato considerado ilegal pelos países ocidentais.

Esta proposta de Trump foi ainda mais provocativa aos países europeus se levarmos em consideração que recentemente, a Rússia foi acusada de ordenar a tentativa de homicídio de um ex-espião que havia desertado e estava exilado na Inglaterra. Este fato gerou a expulsão de 100 diplomatas russos dos países europeus, após iniciativa do governo inglês.

Durante o encontro, Angela Merkel, chanceler da Alemanha, afirmou que os países europeus não irão aceitar a reincorporação da Rússia no G7 até que haja progresso em relação à situação da Ucrânia. Ou seja, que os russos devolvam o território da Crimeia aos ucranianos, algo extremamente improvável mesmo no longo prazo.
Contudo, houve uma exceção entre os europeus: o primeiro ministro da Itália, Giuseppe Conti, que lidera o novo governo populista e de extrema direita no país, afirmou concordar com Trump sobre a reincorporação dos russos no G7. É importante ressaltar que há uma conexão entre os novos políticos nacionalistas e de extrema direita dos países ocidentais e a Rússia. Isto ocorre também com o FPÖ, partido minoritário do governo austríaco, a Frente Nacional na França e a Alternativa para a Alemanha, entre outros.

Guerra comercial
Apesar disso, o tema mais candente e de maior atrito durante o encontro foi a prometida guerra comercial a ser iniciada por Donald Trump. Apenas uma semana antes do G7, Trump anunciou o aumento de 25% e 10% nas tarifas de importação de aço e alumínio vindos do Canadá, México e União Europeia, que implicará um impacto de bilhões de dólares na economia destes países.

No G7, o presidente dos EUA afirmou que seu país é vítima de “predação comercial” pelos seus aliados, referindo-se em particular à exportação de carros da Alemanha para os Estados Unidos e às medidas protecionistas do Canadá sobre a importação de alimentos norte-americanos.

Em relação ao Canadá, além de chamar por twitter Justin Trudeau de “fraco e desonesto”, Trump afirmou que os EUA têm 100 bilhões de dólares em déficit comercial com o país. No entanto, o dado parece não ser verdadeiro. Os EUA tiveram um superávit de 8,4 bilhões com o Canadá em 2017. O déficit, que não atinge esse montante, foi em produtos reexportados, perfazendo em torno de 17 bilhões.

O Canadá e o México anunciaram o aumento de tarifas em bilhões de dólares sobre produtos norte-americanos como suco de laranja e carne de porco, enquanto a União Europeia (UE) prometeu taxar a exportação de uísque Bourbon e das motocicletas Harley Davidson.

Ainda, a Comissão Europeia da UE propôs a taxação de 2,8 bilhões de euros nas exportações norte-americanas para a Europa, a ser efetivada no dia 20 de junho caso seja aprovada pelos seus membros. Apesar de significativas, ainda atingiram menos da metade dos quase 7 bilhões em exportação da Europa para os EUA, taxados por Trump.
Por fim, em relação à Alemanha e a União Europeia, Trump afirmou que os EUA pagam todo custo da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar ocidental), que exerce de fato a proteção militar europeia. Os norte-americanos pagam 4% de seu PIB para a aliança, enquanto a Alemanha paga 1%. Ainda, Trump disse que os EUA têm 151 bilhões de déficit com a Europa, embora o órgão contesta que a cifra é de 92 bilhões.

Trump deixou o encontro no sábado de manhã, antes do seu encerramento. No mesmo dia à noite escreveu no twitter que não iria assinar o comunicado conjunto dos países membros do G7, como é de costume ao final de cada reunião. Em seus tweets, o presidente dos EUA direcionou, mais uma vez, a artilharia contra Angela Merkel, chanceler alemã, e Justin Trudeau, presidente do Canadá.

Em consequência, um dia após o G7, no domingo (10), a chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou que a Europa, assim como os outros países atingidos pelas medidas protecionistas de Trump, irão iniciar um processo contra os EUA na OMC (Organização Mundial do Comércio) e que retaliações econômicas serão adotadas contra os norte-americanos.

Organização de Cooperação de Shangai realiza encontro paralelo
Enquanto isso, ocorria mesma data o encontro da Organização de Cooperação de Shangai, uma organização de segurança coletiva protagonizada por China e Rússia, que conta com a participação da Índia, Paquistão, Cazaquistão, Tadjiquistão, Uzbequistão e Quirguistão. Neste encontro paralelo, o presidente chinês Xi-Jinping afirmou que existe uma crise de liderança global, motivada pelas políticas de Donald Trump, e que deve ser suprida pela organização asiática.

O G7, fundado em 1973 como resposta ocidental para lidar com o aumento dos preços do petróleo que ocorreu naquele ano, se transformou desde então numa das principais instituições imperialistas no manejo da política internacional. Apesar de nesse meio tempo ter se enfraquecido – na década de 70 representava 50% do PIB mundial, hoje em torno de 30% -, o G7 foi fundamental, por exemplo, na garantia do resgate dos bancos na crise de 2008.

Agora abriu-se uma séria crise no grupo pela política de Donald Trump de colocar a “América Primeiro”. Como anunciou durante sua campanha eleitoral, dessa maneira busca “Fazer a América Grande Novamente”. Uma reação nacional-imperialista que visa reverter o declínio relativo dos EUA enquanto potência hegemônica desde o pós-guerra. O encontro de Shangai organizado pela China mostra de onde vem a ameaça.

Foto: Leah Millis/Reuters

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