A violência no Brasil: uma questão de raça e classe

Elita Moraes, de Maceió (AL)

FOTO: No Carnaval de 2018, o Salgueiro trouxe uma versão negra da Pietà, uma das esculturas mais famosas de Michelangelo, para denunciar a morte de jovens negros.

Foi divulgado essa semana o Atlas da Violência 2018 do IPEA e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os dados são assustadores e revelam a dimensão de um problema antigo, exaustivamente estudado e analisado, mas que não só persiste, como também acentua dia após dia. Somente em 2016, segundo o relatório, o Brasil teve um registro histórico de 62.517 homicídios, só na última década 553 mil pessoas perderam suas vidas devido a violência intencional no Brasil.

Em 2016, Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Pará, Amapá, Pernambuco e Bahia são os estados com os maiores índices. Mas a pesquisa aponta um forte crescimento dos índices no Rio de Janeiro, Estado, importante frisar, onde acontece a Intervenção militar promovida pelo governo Temer e onde foi brutalmente assassinada a vereadora Marielle Franco e Anderson Gomes.

No entanto, o que chama mais atenção no relatório, para além dos índices alarmantes de homicídios e feminicídios, é o fato de negros e negras serem as principais vítimas. Não estamos falando de nenhuma novidade, no entanto esses índices demonstram que a questão racial no Brasil está longe de ser apenas um elemento ou um dado a mais de análise. Ela precisa urgentemente ser encarada como prioridade, como elemento central. A violência, promovida também pelo Estado brasileiro, é racista e tem os pretos e pretas como alvo principal.

VIOLÊNCIA OU GENOCÍDIO?
Nos últimos dez anos a taxa de homicídios de não-negros caiu 6,8%, já a de negros vem em uma constante crescente e aumentou em torno de 23,1%. Somente em 2016 a taxa de homicídios para a população negra foi de 40,2% enquanto que para o resto da população foi de 16,o%. Segundo o Atlas isso equivale a dizer que pelo menos 71,5% das pessoas assassinadas por ano no Brasil são negras, e esses homicídios se concentram, prioritariamente, na juventude.

Os dados demonstram que em 2016 as taxas de homicídios de negros no Brasil foram 2,5 vezes maior que a de não negros. Estamos diante de uma verdadeira barbárie dirigida contra a juventude negra brasileira e que se arrasta sem nenhuma perspectiva de solução, isso porque, no Brasil a política de drogas do Estado é uma política de extermínio, a sanha punitiva, aliada a um Estado policialesco que viola direitos nas periferias é o a única face do Estado que jovens negros(as) conhecem. Portanto, aqui temos uma vitimização seletiva, direcionada, racista. No Brasil não basta apenas que os negros(as) sejam historicamente condenados aos empregos mais precários, que sofram toda a carestia da crise financeira e que sejam as maiores vítimas dos cortes nos programas sociais promovidos pelo governo Temer, é preciso mais, é preciso uma violência que, quando não mata, joga negros(as) nas prisões. O encarceramento em massa no Brasil também tem rosto, é negro(a).

O FEMINICÍDIO E AS MULHERES NEGRAS
Em 2016, 4.645 mulheres foram assassinadas, com um aumento de 6,4% em dez anos. A violência feminicida não é diferente, aqui também as mulheres negras prevalecem o que demonstra que a violência no Brasil dirigida contra as mulheres, por serem mulheres, é racista e misógina. O relatório aponta que em um período de dez anos o feminicídio de mulheres negras aumentou 15,4% enquanto que o de mulheres não negras caiu em torno de 8%.

Aqui as mulheres negras mais uma vez surgem como vítimas prioritárias da violência de gênero no Brasil, o que mais uma vez coloca a questão racial como um marco prioritário na violência dirigida contra as mulheres brasileiras. Apesar de todo um aparato legal que deveria proteger essas mulheres, o que se vê no último período é um retrocesso brutal amparado na ineficácia do Estado em garantir para as brasileiras uma estrutura mínima de proteção. Com a aprovação da PEC do Fim do Mundo, que congela investimentos públicos em áreas cruciais como saúde e educação, as mulheres, especialmente as mulheres negras, são as mais prejudicadas. Como é possível diminuir esses índices se não há sequer investimento naquilo que é mais básico para a sobrevivência das mulheres?

O RACISMO NO BRASIL É ESTRUTURAL
Diante de tudo isso e com todos esses índices, precisamos levar mais a sério a questão racial no Brasil. Não estamos diante de mais um elemento, de mais um componente de análise, tratar dessa maneira significa secundarizar a questão. Estamos diante de algo estrutural, fundamental para a exploração capitalista no Brasil. Diante de um Estado cada vez mais violento, é preciso reconhecer que há uma profunda interação entre o racismo e o crescimento do bonapartismo do Estado brasileiro. Precisamos ficar atentos(as), compreender essa dinâmica que permeia a história brasileira para darmos respostas coerentes e concretas. Já não dá mais para vermos corpos negros no chão.

Baixe o relatório do Atlas da Violência 2018

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