Morte e vida Palestina

Gabriel Santos, de Maceió (AL)

O sol está em seu ápice, apesar disso, o dia de hoje não faz muito calor, o clima está ameno. Debaixo desse céu com poucas nuvens, caminha Ahmed*, um jovem alto, magro, torcedor do Barcelona, dos olhos pretos, mesma cor de seu cabelo raspado, e que começa a aparecer em seu rosto os primeiros daquilo que vira a ser sua barba. Ahmed tem apenas 18 anos de idade, e como Jesus Cristo, nasceu na Palestina.

Ele e seus dois irmãos menores vivem na Faixa de Gaza, assim como outras duas milhões de pessoas que se espremem numa faixa de terra com uma área de 40 km. Nesse território minúsculo, que é um dos com maior concentração de pessoas do planeta, falta praticamente tudo: água, energia, saneamento básico e emprego para metade da população. Viver nessas condições é humanamente impossível. Além da falta de coisas básicas para a sobrevivência, a população de Gaza vive cercada por forças militares estrangeiras. O exército de Israel controla quem entra, quem sai e o que entra e o que sai no território, contando com a ajuda e benevolência da ditadura egípcia, de outros países árabes e com a benção dos Estados Unidos.

Ahmed é pescador, costuma sair antes de o sol nascer para conseguir peixes, vender na feira e voltar com um pouco de comida para seus irmãos. Este ofício ele aprendeu com seu pai, que foi assassinado pelo Estado de Israel em 2012, vítima de um bombardeio feito pelo governo israelense. O pai de Ahmed, Hussein Abdullah, foi somente um dentre outros mais de 1600 palestinos mortos naquele conflito. Só mais um número para a mídia ocidental, só mais um caixão, Ahmed é só mais um órfão, e para os israelenses a morte de seu pai foi só mais um “efeito colateral”, pois são assim chamadas as milhares de vítimas civis desse massacre.

Todo dia, quando volta para casa, Ahmed passa pelo Centro de Gaza, ou pelo que restou dele após os bombardeios. Encontra prédios abandonados, casas que por algum motivo a gravidade se rejeita a derrubar, pois delas não restam nada. De vez em quando, Ahmed olha por dentro, e consegue enxergar uma coisa ou outra. Da última vez, conseguiu ver um armário queimado, com uma porta derrubada, e dentro ainda era possível ver diversos tecidos misturados, panos verdes, vermelhos, roxos… no chão do que um dia foi uma casa entre restos de vidros, madeira, pedras e de uma parte do teto que desabou, passa um gato, extremamente magro, no outro canto da casa uma boneca velha repousa em sono eterno, Ahmed lembra de seu pai, de sua antiga casa, e sai do local chorando.

Ao todo, após os bombardeios de 2012, mais de 20 mil casas ficaram inabitáveis, completamente destruídas ou desabando. Milhares de palestinos ficaram sem casa para morar. Ao todo, os números passam de cem mil pessoas que ficaram sem ter um teto.

Israel bombardeou novamente o território palestino dois anos depois, em 2014. Antes, em 2008, ocorreu coisa parecida. Os números de casas destruídas, famílias sem ter onde morar, de palestinos mortos, vidas devastadas não para de aumentar. Ano sim, outro também, ano com milhares de mortes, outros com centenas, a vida dos palestinos é literalmente impossível, em uma das maiores tragédias de nossa época.

Ahmed, assim como dezenas de milhares de jovens palestinos, não concorda com as condições de miséria a que são forçados a viver. Eles fazem parte de uma geração que tem entrado na luta pela liberdade cada vez mais cedo. Uma geração que enfrenta, com pedras e pedaços de paus, as armas de um dos exércitos mais poderosos do mundo, lutando contra a dominação israelense até que ela acabe. Mas enfrentando também a traição política das velhas direções palestinas.

Há um pouco mais de um mês, em 30 de março, Ahmed esteve junto de outros milhares de palestinos em preparação para Marcha Para o Retorno, uma campanha de seis semanas reivindicando em diversas ações os territórios que Israel vem ocupando ilegalmente dos palestinos. No meio de uma multidão, era possível ver idosos, crianças, mulheres, jovens, rostos animados, eufóricos, outros com raiva, e alguns com um nítido olhar de preocupação.

No instante em que se percebeu o tamanho das forças repressoras do Estado de Israel, os olhares da multidão se transformaram, os rostos de preocupação viraram maioria, os idosos e crianças foram sendo retirados aos poucos. O primeiro ministro israelense Benjamin Netanyahu mandou mais de cem atiradores de elite, bem posicionados, com armas de fogo letais. O exército também tinha homens para o confronto direto pelo chão. Netanyahu queria ver um verdadeiro massacre, e foi o que ocorreu. O dia terminou com 17 palestinos assassinados, e mais de mil feridos.

Ahmed levou um tiro no olho esquerdo enquanto fugia, perdeu a visão desse olho e ficou entre a vida e a morte. As imagens do massacre feito pelas forças israelenses mais uma vez rodaram o mundo, A União Européia pediu uma investigação independente, a ONU, que ano passado concluiu que Israel tem uma política de apartheid com os palestinos, condenou o ocorrido, porém, mais uma vez o Estado sionista ignorou tudo isto.

Em Israel, e parte da mídia ocidental, assim como os Estados Unidos e demais países imperialistas afirmam que Israel age por meio de legítima defesa, que os milhares de palestinos desarmados são inimigos da liberdade, querem por fim a “única democracia” da região, que são terroristas. Assim como também são terroristas os assassinados por meio de bombardeios, as crianças assassinadas são potenciais terroristas, e aqueles que não o são, são “efeitos coletareis”, mortes necessárias para acabar com o terrorismo.

Ahmed, seu pai, seus amigos que cresceram com ele jogando bola nas ruas de barro, sonhando ser Messi ou Cristiano Ronaldo, são todos terroristas. Nenhum deles merece a liberdade, todos devem viver sob a tutela dos rifles israelenses. Eles não merecem hospitais, luz elétrica, água potável, saneamento básico. Os soldados israelenses têm o direito de invadir a casa dos palestinos pela noite, agredir quem bem entender, algemar, levar preso quem quiserem.

O sentimento de solidariedade aos palestinos é pouco, normalmente restrito aos círculos da esquerda, no geral são pintados pela mídia como terroristas e ninguém quer ter simpatia, compaixão ou qualquer sentimento básico a terroristas. A comunidade internacional faz meia dúzia de discursos hipócritas, vazios e ocos, enquanto os Estados Unidos aplaudem as ações de Israel, os países árabes lavam as mãos e os europeus as secam.

A pouca Palestina que ainda resta, Israel a apaga do mapa. Os colonos invadem, os soldados corrigem as fronteiras, e as balas terminam por limpar o terreno. Tudo isso, em legítima defesa. Sempre bom lembrar que foi em nome dessa mesma legítima defesa que Hitler invadiu a Polônia. E em cada ação de “legítima defesa”, um pedaço da Palestina some junto da vida de palestinos que somente defendem o direito à terra.

Enquanto volta para casa, Ahmed passa pela praia de Gaza, vê crianças correndo na areia, jogando água umas nas outras, enquanto alguns pescadores lavam seus barcos. Tudo isso embaixo de um pôr do sol, que de tão lento, parece deslizar contra sua vontade para o horizonte. Sentada na areia, uma menina de cerca de três anos come desajeitadamente um pedaço de pão. Ela com seus grandes olhos fixa o olhar atentamente em um cachorro que se banha. Ahmed observa tudo isso e percebe que ainda consegue sorrir.

*Ahmed, seu pai e seus irmãos, são personagens fictícios, mas poderiam representar a vida de muitos palestinos.

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