Carta do SOS Paissandu para a sociedade civil e gestão da cidade de São Paulo

Da Redação

Os ex-moradores do prédio Wilton Paes de Almeida, ocupação no Largo do Paissandu, em São Paulo, escreveram uma carta onde relatam vários aspectos da tragédia. Contem o depoimento de três ex-moradores, colhidos no último dia 12 e condensados em um só documento, que representa a dura realidade de pessoas criminalizadas pela grande mídia e invisibilizadas pela especulação imobiliária que ronda cidades como São Paulo. Os relatos foram feitos sob crescentes rumores de que no dia seguinte, domingo de dia das mães, a polícia militar compareceria ao local para despejá-las. Abaixo, divulgamos a íntegra da carta:

Nós, aqui da Ocupação do Largo do Paissandu, ouvimos que existe uma movimentação de dentro da Prefeitura de São Paulo para tentar pressionar a nossa saída daqui da praça através do uso do Conselho Tutelar, tirando nossos filhos e filhas de nossos braços e do nosso cuidado, impedindo que essas crianças cresçam junto com seus pais e mães, além de não resolver a questão das famílias que ficaram sem moradia após o desabamento do prédio onde estávamos morando.

Foto: Carol Burgos | Esquerda Online

O que podemos dizer é o seguinte: isso é uma situação vergonhosa porque ao invés do Estado se unir com outros poderes para se comprometerem com nós, com todas as famílias, para sairmos daqui instalados em algum lugar digno, a prefeitura prefere tirar os nossos filhos da gente. Essa atitude demonstra que esses políticos não estão preparados pra resolver o problema da população e que escolhem para qual população eles realmente querem governar, para quem eles realmente vão olhar e quem vão inviabilizar. Nós fomos invisibilizados.

Estão fazendo como na ditadura fazia: oprimindo o povo através do medo. Quando você tem alguém que o povo escolhe, ele tem que pensar no bem-estar do povo, não em oprimir o povo.

Vamos resistir, vamos lutar! Enquanto não sentarmos na mesa com o prefeito e não tivermos uma situação favorável pras famílias, não vamos sair daqui. A não ser que eles joguem bomba em todo mundo aqui, nas crianças, nas mulheres, nos homens, mas não acho que fariam isso porque o mundo todo está acompanhando isso aqui e isso seria vergonhoso aos olhos da mídia internacional e nacional porque estamos em ano eleitoral e o desabamento do prédio tornou-se notícia no mundo todo.

O dever do conselho tutelar não é tirar os filhos, é ajudar. Sabemos dos nossos direitos e sabemos que a retirada das crianças é a última opção e deve passar por várias outras etapas. Qual é o prazer que têm em tirar nossas crianças? Isso é uma covardia da Prefeitura. Se tirar um dos nossos filhos, não vai ficar barato. Vamos onde eles estiverem para buscar os nossos filhos. Aqui ninguém é usuário de drogas, ninguém é pilantra, ninguém é ladrão, aqui vive um povo necessitado e guerreiro! Queremos que saibam que vamos arrumar guerra se sair uma criança daqui.

A gente faz um monte de protocolo para colocar criança na escola, para conseguir casa, mas nunca anda. Vamos até o final com as mães e com os advogados, daqui não sai nenhuma criança! Ao invés de facilitar com a burocracia para moradia e para educação, a prefeitura quer tirar os nossos filhos.

Foto: Pedro Alexandre | Esquerda Online


Tudo que temos é doação. Pedimos banheiro químico e foi negado. Pedimos sim o conselho tutelar, mas para as crianças irem à escola porque não tinham nenhum material, não para tirá-las daqui. Eles ganharam material escolar da sociedade civil e estão indo estudar apenas com isso. Ninguém está na ocupação por vagabundagem. A maioria deixa os familiares aqui e vai trabalhar, só volta a noite. Vivemos uma vida, como todos vivem, precisamos apenas de uma moradia. Ninguém está aqui porque quer.

Foto: Pedro Alexandre | Esquerda Online

Venha conhecer as nossas histórias!

Não é só nós que estamos sofrendo com isso. Há um dono de um bar na esquina que foi solidário conosco e no dia seguinte, começou uma movimentação muito grande para fechar o bar daquele senhor através da vigilância sanitária. Um bar que estava ali há anos e só agora que ele nos ajudou que foi fechado. Ou seja, a prefeitura prefere tirar emprego das pessoas que trabalhavam no bar ao nos ajudar.

O prefeito Bruno Covas tem que ter um olhar mais humano e mais digno. Tirar uma criança do cuidado da sua mãe é atitude de quem não tem coração. Queremos que ele venha aqui e veja nossa situação de perto, viva na nossa pele para então podemos conversar e negociar, junto com os nossos advogados, baseado nos direitos que temos perante a lei.

Moradores da ocupação SOS Paissandú

São Paulo, 14 de maio de 2018

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