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A alimentação saudável e o socialismo

Jéssica Milaré

Jéssica Milaré, travesti, bissexual, doutoranda em Matemática pela Unicamp, militante LGBT, transfeminista e do PSOL, membro da Associação da Parada do Orgulho LGBT de Campinas.

Faz algum tempo que estou substituindo, aos poucos, a comida que eu como por uma comida mais saudável. É o método Bela Gil. Quero compartilhar algumas reflexões pessoais, na posição de alguém que ainda está nesse processo.

Comida saudável é ruim?

Antes, eu pensava que comer de forma saudável significava abrir mão de comer coisas gostosas. Descobri que é justamente o contrário. A gente está tão acostumada a comer coisas pouco saudáveis (e que nos viciam, pois são drogas) que pensamos que aquelas são as mais gostosas. Percebi que uma alimentação baseada em produtos feitos com farinha integral, frutas em vez de bolachas, iogurte com granola, leite de soja, etc., na verdade é uma alimentação mais saborosa do que a que eu tinha antes. E ainda tem a vantagem da comida saudável me dar mais disposição para viver.

Com relação ao preço, alimentos com farinha integral são, de fato, um pouco mais caros, o que é uma contradição: por que uma comida que passa por menos processos químicos é mais cara? A única explicação é: porque vende pouco e porque as empresas querem lucrar em cima das poucas pessoas que querem comer comida integral.

Mas de resto, no geral, o preço das “porcarias” processadas é maior que o da comida mais natural. Apenas para dar um exemplo. No supermercado, a maioria dos tipos de frutas têm preço numa faixa de 3 a 9 reais o quilo. Ora, um pacote de bolacha de 200g costuma custar de 2 a 3 reais, o que significa 10 a 15 reais o quilo!

Comida processada, de fato, é menos saudável e mais viciante, o que é uma prova contra a ideologia de que a “mão invisível do mercado” vai em direção às necessidades humanas. Pelo contrário: a mão invisível do mercado traz doenças como diabetes, colesterol alto, câncer, ausência de vitaminas e minerais, hipertensão, gastrite. E o custo de produção disso tudo acaba sendo mais alto do que seria a produção de alimentos mais saudáveis. Sem falar que reduziria o custo de ter que lidar com todas as doenças que decorrem de uma alimentação insalubre.

Vegetarianismo ou planejamento social da alimentação?

O debate sobre a alimentação saudável tem alguma relação com o vegetarianismo. Aliás, eu tomei também como objetivo substituir a carne vermelha e a de boi, preferindo carne branca, queijo e ovos. Mas eu não acredito que a mudança de consumo individual seja a resposta para o maltrato dos animais na produção capitalista. O meu objetivo com a mudança de hábitos alimentares não é impedir que o capitalismo produza alimentos insalubres e maltrate os animais. Se fosse, já teria falhado, pois de maneira nenhuma o consumo individual altera o sistema de produção.

A reeducação individual para melhores hábitos alimentares só beneficia o próprio indivíduo. Mudanças sociais requerem a ação social de um sujeito social.

Para a resolução do problema da alimentação popular, é necessário um planejamento social que leve à criação de restaurantes públicos populares que, pouco a pouco, alterem os hábitos alimentares da população, tendo como objetivo, em primeiro lugar, que não existam pessoas que passem fome e, em segundo lugar, que o povo tenha uma alimentação mais saudável. Pois, enquanto a alimentação popular ficar sujeita aos interesses de lucro das grandes empresas, elas vão continuar produzindo esse alimento que nos vicia e nos mata, sem se preocupar com o sofrimento animal envolvido no processo.

Assim, a mudança do hábito alimentar popular vai contra os interesses capitalistas da indústria alimentícia. Um Estado que está a serviço das grandes empresas, portanto, só pode beneficiar as grandes empresas em detrimento da saúde popular. É preciso um Estado controlado pela classe trabalhadora e pelo povo, de forma que suas políticas sirvam à reeducação alimentar em direção a uma alimentação saudável.

Marcado como:
Capitalismo / saúde