Mais argumentos, menos provocações

Por Gloria Trogo, da Coordenação Nacional da Resistência

O #MAIS deixou de existir no dia 28 de abril e com imensa alegria nos fundimos à NOS para conformar a Resistência. A despeito disso, a organização já extinta foi citada 11 vezes num texto de polêmica recente. O título do artigo de Mariucha Fontana, do PSTU, refere-se explicitamente a Valério Arcary e busca explicar as “verdadeiras razões” pelas quais ele criticou esse partido.

A polêmica é absolutamente normal dentro da esquerda, mas, para ser de boa qualidade, é bom que seja guiada pelos argumentos e não pela obsessão em desconstruir a trajetória militante do oponente. Já passa da hora de superar esta lógica. Somos todos melhores que isso.

O Brasil mudou
O Brasil passou por 13 anos de governos de colaboração de classes que a tradição política que reivindico denomina de um governo de Frente Popular. Este fato de enorme importância para a luta de classes dividiu o movimento dos trabalhadores, os sindicatos, movimentos e partidos políticos. Estabeleceu-se um divisor de águas entre aqueles que foram administrar o Estado brasileiro e outros que mantiveram suas posições junto à luta dos trabalhadores, enfrentando, inclusive, ataques dos governos petistas. Sempre um marxista dá muita importância à luta contra o governo de plantão, contra o partido que naquele momento administra os negócios da burguesia.

Lembro que por muitos anos uma parte da esquerda ignorava este fato e, na tentativa de poupar o governo do PT, concentrava sua agitação política em denúncias contra Fernando Henrique Cardoso. Sim. Não há futuro sem história. Nos bons momentos dos governos do PT, onde sobravam cargos e benesses, é bom lembrar onde estava Valério Arcary. Quem não se lembra das polêmicas duras feitas com o PT? Inúmeros artigos, incontáveis debates públicos.

Não é razoável oferecer como “verdadeira explicação” para as posições políticas hoje defendidas por Valério que, depois de passar 13 anos fazendo oposição de esquerda, ele agora decidiu “subir num vagão do trem do campo de colaboração de classes de Lula, sucumbindo a pressões eleitorais, dos aparelhos burocráticos e de meios intelectuais pequeno-burgueses”. Além de extremamente desrespeitoso, este ataque não apresenta nenhum argumento. Apenas obedece a lógica de separar pessoas e organizações entre aqueles que são verdadeiramente revolucionários (ou em outras palavras os que eu concordo) e aqueles que são traidores e oportunistas (os que eu discordo).

É preciso dizer: o Brasil mudou. O PT não governa mais. Hoje uma parte da esquerda socialista parece sofrer do mesmo mal que acometeu aqueles que concentravam sua denúncia em FHC quando quem governava era o PT. Houve um golpe parlamentar e há um novo governo, produto deste golpe.

Um dos recursos do texto é usar uma citação de Valério sobre 2013. O Brasil de 2013 não tem nada a ver com o Brasil de hoje. As Jornadas de Junho foram um processo muito progressivo, enfrentaram-se contra todos os governos; trouxeram à tona demandas importantes como transporte, saúde, educação, direitos; mobilizaram uma base social jovem e trabalhadora. As mobilizações de 2015 significaram o oposto nos três critérios, tinham uma direção de direita, por isso se enfrentavam apenas contra o PT; empunhavam bandeiras reacionárias seja na política, seja nos costumes; levaram para as ruas uma base social de classe média alta, essencialmente branca e com forte instinto anti-povo.

Não há continuidade. O PT está na oposição, recupera peso e prestígio em uma parcela importante do ativismo. Lula está preso, Bolsonaro tem apoiadores ativos dentro da classe trabalhadora, 71 militares deverão disputar de forma organizada as eleições de 2018. Foram aprovados retrocessos históricos contra os direitos da classe trabalhadora e do povo pobre. As conquistas da Constituição de 1988 foram destruídas com a Emenda Constitucional 55, e também direitos trabalhistas básicos que estavam na CLT desde 1943 foram despedaçados pela Lei 13.467. O Brasil mudou, a política não pode mais seguir sendo a mesma.

O divisor de águas agora é outro. A direita cresceu, mobilizou uma expressiva base social de classe média, a extrema-direita ganhou prestígio, instalou-se no País uma crise de regime pela direita, instituições como a Polícia Federal, o Poder Judiciário e as Forças Armadas ganharam força. No afã de não capitular ao governo deposto, o PSTU terminou capitulando à burguesia tradicional.

Valério esteve contra o PT durante os seus governos, quando muitos queriam cargos e prestígio. E ele também esteve no ato do Circo Voador e, em seguida, na porta dos Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, quando o Poder Judiciário e a PF executaram uma ordem de prisão contra Lula. O que nos guiou foi a bússola de classe. O que mudou radicalmente foi a realidade política nacional. Os inimigos dos nossos inimigos não são nossos amigos.

O PSTU também mudou
A Convergência Socialista, que atraiu a simpatia de milhares de ativistas na década de 1980, um exemplo de flexibilidade tática e firmeza nos princípios para o movimento trotskista, já não tem nada a ver com o que é hoje o PSTU. O partido que compôs a Frente de Esquerda com PSOL e PCB em 2006, compôs várias Frentes Estaduais em 2012 e 2014, buscando o diálogo com uma importante parcela da classe trabalhadora, já não guarda qualquer semelhança com uma campanha cujo centro é convocar uma rebelião. A organização que lutou para eleger parlamentares revolucionários no Rio de Janeiro, Natal, Belém, Minas Gerais e Porto Alegre nada tem a ver com completo desprezo pela atividade institucional. O PSTU passou por uma profunda revisão programática, o que é legítimo. O honesto, no entanto, é que isso seja abertamente reconhecido.

A linha do “Fora Todos”, aplicada em 2006 e abertamente criticada, voltou com força em 2015 e elevou-se à categoria de programa, já que há três anos ininterruptos esta consigna é utilizada. As mediações foram substituídas pelo ultimatismo, nuances já não são mais admitidas. A política é sempre a agitação da estratégia final.

No movimento dos trabalhadores também é perceptível a mudança. Em 2007, o PSTU participou de um encontro nacional com PCdoB e MST. Hoje se recusa até mesmo a participar do tradicional 1º de maio na Praça da Sé.

A virtude convertida em defeito
No artigo, me chamou a atenção em especial a utilização de uma intervenção de Valério em 2010, defendendo a candidatura própria do PSTU, para sustentar a visão de que ele renegou sua própria história. O que se espera de um intelectual militante de um partido político trotskista? Que defenda apenas o que tem acordo? Que use de sua posição de notoriedade para militar sozinho? Aprendemos exatamente o oposto. Ter consciência do nosso pequeno tamanho frente à grandeza do projeto socialista nos faz ter certeza que não nos bastamos. Vivemos tempos de individualismo exacerbado e por isso construir um coletivo, ter a consciência que muitas vezes é melhor errar junto do que acertar sozinho são valores fundamentais para nós.

Valério discordou muitas vezes, mas rompeu apenas uma vez, quando as circunstâncias da luta de classes e da luta interna tornaram as divergências irreconciliáveis. Esta postura é para nós um exemplo, porque em nossa essência somos construtores do coletivo e não rupturistas crônicos.

Façamos do embate de argumentos algo produtivo, até para que o tempo nos permita avaliar de acordo com o desenvolvimento da realidade quais apreciações se demonstraram mais corretas.

Imagem: Blue, 1925, Kandinsky

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