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  • Manuela Castañera: ‘A luta das mulheres vai conquistar o aborto legal na Argentina’

    Conversamos com Manuela Castañera sobre o avanço da discussão acerca da legalização do aborto na Argentina. Ela é socióloga, professora e líder do Novo MAS, um partido da esquerda radical Argentina, e do coletivo feminista Las Rojas (“As vermelhas”). Foi pré-candidata a deputada federal pela Esquerda à Frente pelo Socialismo, em 2017, tendo recebido mais de cem mil votos* na província de Buenos Aires. Castañeira afirma que dia 03 de junho, aniversário da mobilização por #NiUnaMenos, será um dia de reunir centenas de milhares em Buenos Aires pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito. Confira na entrevista exclusiva para o Esquerda Online.

    Esquerda Online: Olá Manuela, obrigado pela disponibilidade para esta entrevista. Recentemente, a luta das mulheres e dos movimentos sociais pelo direito ao aborto virou um tema de impacto nacional. Conte aos leitores brasileiros porque isso ocorreu. O que está acontecendo na Argentina?

    Manuela Castañera: O que está acontecendo na Argentina é algo que também se vê no mundo, mas aqui com mais força: o movimento de mulheres se põe de pé. Nos últimos anos, com as mobilizações por #NiUnaMenos (Nenhuma mulher a menos, luta contra o feminicídio), os encontros nacionais de mulher (um evento anual auto organizado pelas bases muito importante), a luta por aborto em casos de estupro, e sobretudo uma nova geração de jovens que questiona o lugar da mulher na sociedade, se produziu um movimento de mulheres muito forte.

    Isto se combinou com uma questão que ocorreu no país que foram as jornadas de 14 e 18 de dezembro do ano passado onde o povo trabalhador se mobilizou contra o ajuste do governo abrindo uma crise política no país – que agora está tendo seu correlato em uma crise econômica.

    Então o Governo Macri se viu obrigado a conceder algo. Em síntese, creio que o enorme movimento de mulheres obrigou o governo a abrir o debate. Um governo que está contra o direito ao aborto no hospital, que é um governo reacionário.

    EOL: Sim. E como o governo fez para abrir o debate? O que ele fez? 

    Manuela: O movimento de mulheres vem apresentando o projeto de lei por sua conta faz mais de 10 anos. Já apresentamos 7 vezes e sempre foi barrado até mesmo a discussão. O que mudou desta vez foi que o governo facilitou o debate no Parlamento. Essa era uma reivindicação muita sentida porque o governo anterior de Cristina Kirchner, uma mulher presidenta, jamais havia deixado que o projeto de lei entrasse em pauta.

    Hoje se está discutindo nas comissões a possibilidade de que se trate do tema na Câmara dos Deputados em Junho. O fato de que se abriu a discussão não garante que vão votar a favor. Se o movimento não segue nas ruas protestando e reivindicando, eles não vão votar.

    EOL: Sim, tu citou antes e eu queria saber: tu enxerga alguma relação entre a luta pelo direito ao aborto e as históricas mobilizações por #NiUnaMenos na Argentina?

    Manuela: Plena relação. Agora se está preparando a mobilização para o próximo 3 de junho (aniversário da mobilização por #NiUnaMenos) e estamos discutindo que a reivindicação central seja “NiUnaMenos por aborto clandestino. Aborto legal já!”. No 8 de março do ano passado, dia internacional da mulher trabalhadora, fomos quase meio milhão de mulheres somente em Buenos Aires, capital do país, marchando pelo aborto legal e contra a violência às mulheres.

    EOL: Por que é importante legalizar o aborto na Argentina?

    Manuela: O que estamos pedindo é aborto legal, seguro e gratuito. Porque é uma questão de saúde pública. É a primeira causa de morte de mulheres com idade fértil. Em nosso país, se faz um aborto em condições clandestinas e insalubres para cada nascimento.

    E porque acreditamos que nós mulheres temos direito a decidir sobre nossos corpos, que é decidir sobre nossas vidas, nossos sonhos e nosso futuro. Tudo isso está em jogo e muito mais quando lutamos por aborto legal no hospital.

    EOL: E agora, quais são os próximos passos dessa luta? Tu havia citado o 3 de junho.

    Manuela: No próximo 28 de maio que é o dia internacional da saúde da mulher faremos ações em todo o país. Mas estamos preparando para fazer uma mobilização de centenas de milhares na Capital Federal pelo aborto legal no próximo 3 de junho.

    EOL: Há uma data para votar no congresso?

    Manuela: Não. Há rumores de que talvez se vote em uma das duas câmaras do congresso em junho. Mas na outra Câmara não tem nem data. O governo abriu o debate, mas está contra este direito. E fazem manobras com o movimento de mulheres. Mas vai ser difícil pararem esta força. Abriram uma “Caixa de Pandora” e agora nós mulheres não vamos simplesmente nos conformar com o debate: queremos nosso direito!

    EOL: Muitas mulheres e movimentos sociais olham com esperança o que está passando na Argentina. Se o direito ao aborto for aprovado aí, será um exemplo enorme pra ampliar a luta aqui e pressionar pelo direito ao aborto legal aqui no Brasil. Tu imagina algo que se possa fazer para se somar à campanha? Há algum dia e ou articulação internacional desta luta?

    Manuela: Sim, creio que ajudaria a todas as mulheres latino americanas caso se aprove este direito na Argentina. Creio que o movimento de mulheres é um dos principais movimentos sociais a nível internacional e que conta com muitos laços de coordenação. Como por exemplo no 8M do ano passado em que se viu como nos mobilizamos no mundo inteiro. Ou agora por Marielle, que na Argentina também nos somamos ao grito de Justiça por Marielle! Mulher, negra, favelada e militante de esquerda.

    Tem que se avançar por este caminho e também em laços de coordenação entre os agrupamentos de mulheres dos nossos países. Para isso nós apostamos em Las Rojas, coletivo de mulheres feministas e socialistas, que constituímos em vários países.


    * O sistema eleitoral argentino é diferente do brasileiro. É feita através de um sistema de prévias chamado PASO: primárias abertas simultâneas obrigatórias. Segundo Renato Fernandes explica em matéria para este portal, “O objetivo inicial das PASO era o de criar uma ‘cláusula de barreira’ para impedir a participação dos pequenos partidos nas eleições e americanizar a disputa política. Ou seja, pretendiam reduzir o número de listas e de partidos competidores, principalmente com os da esquerda socialista radical e concentrar as disputas nos grandes partidos. Para que uma lista possa participar nas eleições é necessário que ela alcance 1,5% nessas primárias”. Manuela Castañera participou das PASO recebendo mais de 100 mil votos na província de Buenos Aires. Infelizmente, faltaram cerca de 30.000 votos para furar o sistema eleitoral restritivo argentino e participar das eleições.

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  • Violência aumentou nos dois primeiros meses da intervenção militar no Rio de Janeiro

    No próximo dia 16 de maio, completam-se três meses do dia em que o presidente ilegítimo Michel Temer (MDB) assinou decreto que dava início a intervenção federal e militar na área de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. No dia 20 de fevereiro, apenas quatro dias depois, tanto a Câmara dos Deputados como o Senado Federal aprovaram o início desta intervenção, inédita em nossa história.

    A execução sumária da companheira Marielle Franco e de Anderson Gomes chocou todo o Brasil e teve forte repercussão internacional. Mas, este assassinato brutal, com conotação política, e ainda sem solução, ocorreu durante a intervenção militar, ação que ela investigava a partir do mandato.

    Passado este curto período, já é possível identificar que esta política de segurança pública, baseada apenas na ampliação do confronto e da repressão, não representou solução real para o grave problema da violência no Rio de Janeiro. E, o que é pior, vem agravando o problema.

    Os números de crimes e homicídios no Estado do Rio de Janeiro são cada vez mais alarmantes, e isso piorou com a intervenção militar. Existe um alvo evidente e prioritário das ações da intervenção militar e das polícias, que são as comunidades carentes, piorando ainda mais a situação de extermínio da juventude pobre e negra das periferias da nossa cidade e do Estado.

    O fracasso em números
    Nas últimas duas décadas, a taxa de homicídio em nosso Estado alcançou a cifra de 40 a cada 100 mil habitantes, pouco acima da média nacional, que é muito alta. No ano passado, a taxa ficou em 40,3 homicídios por 100 mil habitantes. Mas, existem regiões do Estado em que a situação é ainda mais grave. Enquanto a taxa de homicídio na capital fluminense é de 32,6, na Baixada Fluminense chega a cifra absurda de 62,3 assassinatos a cada 100 mil.

    O Observatório da Intervenção, coordenado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) da Universidade Cândido Mendes, publicou recentemente um relatório referente aos dois primeiros meses da intervenção militar (de 16 de fevereiro a 16 de abril). E os números falam por si.

    Nos meses de fevereiro e março, já com as operações da intervenção militar em curso, aconteceram 940 homicídios em nosso Estado; 209 civis foram mortos por ações policiais; 19 policiais foram assassinados; e, das 70 operações monitoradas por este relatório, em 25 existiram mortes.

    As mortes de civis por policiais é um dos mais graves problemas da atual política de segurança pública. Só em 2017, 1.124 mortes de civis foram geradas por intervenção policial. Mas, se projetarmos as mortes provocadas por policiais nos dois primeiros meses de intervenção militar, esse número poderá ser ainda maior no final de 2018.

    Nos dois meses que antecederam a intervenção, existiram 1.299 tiroteios no RJ; Nos dois primeiros meses de intervenção, o número de tiroteios alcançou 1.502, com 294 mortos e 193 feridos. Só nestes meses iniciais, aconteceram 12 chacinas, com 52 vítimas fatais. No mesmo período, no ano passado, foram 6 chacinas, com 26 vítimas.

    Os números realmente demonstram o fracasso rotundo da intervenção militar. Insistir nessa política só vai trazer mais sofrimento para a maioria da população e não resolverá o problema da violência. Mais do que nunca, é necessário mudar totalmente o conteúdo da política de segurança pública, acabando imediatamente com o discurso ideológico da criminalização da pobreza e com o extermínio da juventude negra das periferias.

    Essa situação é fruto de sucessivos governos estaduais controlados pela velha direita, seja o PSDB, DEM e MDB. Infelizmente, nos últimos governos, controlados pela quadrilha de Cabral e Picciani, estas administrações tiveram apoio de alguns partidos de esquerda, como PT e PCdoB.

    Qual a saída? A esquerda socialista precisa apresentar suas propostas
    Acreditamos que sem medidas mais estruturais, de forte impacto social e de democratização efetiva da sociedade brasileira, não se resolverá o grave problema da violência, seja no Rio de Janeiro, seja em toda grande cidade brasileira.

    O problema da segurança pública é uma das grandes preocupações da maioria da população. Com certeza, será uma das grandes discussões da campanha eleitoral deste ano, seja para as eleições presidenciais e, principalmente, para o Governo do Estado do Rio de Janeiro. E é uma das principais bandeiras da extrema direita, que aproveita-se da violência urbana para alimentar sua pauta de mais repressão e intolerância.

    Portanto, a esquerda socialista não pode se omitir. Deve entrar prioritariamente nessa discussão, sempre apresentando as suas propostas de saída para o grave problema da violência nas grandes cidades. Nossa saída deve estar apresentada em destaque na pré-candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara para a Presidência, pela Frente política e Social, formada a partir do MTST, PSOL, PCB, APIB, entre outros movimentos sociais combativos e organizações de esquerda.

    No próximo sábado, 12 de maio, na UERJ, o movimento “Se o Estado do Rio Fosse Nosso”, que discute de forma ampla e democrática o programa de governo da pré-candidatura de Tarcísio Motta (PSOL-RJ) ao Governo do Estado, promove um seminário, para encarar o desafio de aprofundar a discussão sobre as propostas da esquerda socialista para o grave problema em nosso Estado.

    Apostando sempre na discussão coletiva, apresentamos três propostas como contribuição para esta importante e necessária discussão, além da exigência do fim da intervenção militar:

    1 – Não se combate a violência sem combater a brutal crise social que vivemos. Temos que cobrar as dívidas das grandes empresas, acabar com a farra das isenções fiscais e sobretaxar as grandes fortunas, para garantir um plano de ampliação qualitativa dos investimentos sociais e a geração de emprego no Estado. Um plano que dobre imediatamente o orçamento estadual para as áreas sociais, garantindo uma política ofensiva de investimentos públicos em saúde, educação, moradia, saneamento e transporte públicos e de qualidade para a maioria da população.

    2 – Fim da PM, por uma polícia civil única, com controle social das entidades democráticas e dos movimentos sociais ligados aos direitos humanos. Propor ao Congresso Nacional um plebiscito nacional sobre a desmilitarização da polícia. Apostar na organização de polícias comunitárias, bem próximas e controladas pela população.

    3 – Pelo fim da fracassada “guerra ao tráfico”. Mudar completamente a política de segurança pública, acabando com o extermínio da juventude negra das periferias e com o discurso da criminalização da pobreza. Abrir a discussão de forma imediata, com o conjunto da sociedade, sobre a legalização e descriminalização as drogas. O consumo de drogas, consideradas lícitas ou ilícitas, é um tema de saúde pública e não meramente de repressão policial.

    O momento é de coragem e de ousadia, de apresentar saídas que enfrentem pela raiz os graves problemas de nosso país e, na área de segurança pública, não seria diferente. Vamos, sem medo de mudar o Brasil!

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  • Migrações e refúgio: presença, história e desafios no Rio de Janeiro

    Inauguração da sexta curadoria do Espaço Memória Arte e Sociedade Jessie Jane Vieira de Souza, da Decania do CFCH, acontece no dia 23 de maio

    O Espaço Memória, Arte e Sociedade Jessie Jane Vieira de Souza, vinculado à Decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), dá início à sua sexta curadoria: “Migrações e refúgio: presença, história e desafios no Rio de Janeiro”, em cartaz de 23 de maio a 30 de agosto. Além da exposição de fotografias sobre o cotidiano de migrantes e refugiados, a programação do “Quartas em movimento” contará com a realização de mesas de debates, rodas de conversa, exibição de filmes, lançamento de livros e atividades culturais. A curadoria conta com o apoio e a parcerias de instituições como UERJ, UFF, PUC-Rio, Centro da Memória da Imigração da Ilha das Flores, Pares-Cáritas RJ, Cátedra Sérgio Vieira de Mello/ACNUR-Uerj, Grupo Tortura Nunca Mais e Instituto Benjamin Constant.

    O objetivo é propor a reflexão sobre a migração no Rio de Janeiro, em uma perspectiva histórica e na contemporaneidade. Os visitantes serão levados a conhecer e a debater o dia-a-dia, relações de trabalho, lazer, conflitos, políticas públicas e demais aspectos da vida das pessoas que vieram para esta cidade. Os debates contarão com a presença de professores, pesquisadores, estudantes, integrantes de coletivos, ativistas e demais profissionais com atuação sobre este tema.

    Espaço Memória, Arte e Sociedade Jessie Jane Vieira de Souza
    O Espaço Memória, Arte e Sociedade Jessie Jane Vieira de Souza está localizado no segundo andar do prédio da Decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), no campus universitário da Praia Vermelha da UFRJ. É um projeto institucional de integração acadêmica da Decania do CFCH e credenciado no Sistema Integrado de Museus, Arquivos e Patrimônio Cultural (SIMAP). Trata-se do primeiro espaço cultural da UFRJ inserido em Decania com a participação de todas as unidades deste Centro, do Sistema de Bibliotecas e Informação (SiBI) da UFRJ – com destaque para a Biblioteca do CFCH – além de instituições externas à UFRJ. Ele tem como objetivo promover exposições no campo das Ciências Humanas e Sociais, através da articulação com movimentos da sociedade civil, numa perspectiva transdisciplinar, sobre temas contemporâneos que articulam ensino, pesquisa e extensão.

    As atividades promovidas através deste projeto, construídas com a participação das unidades e órgãos suplementares do CFCH, instituições parceiras, incluem seminários, rodas de conversa, debates com projeção de filmes, feira de livros, entre outras. O Espaço tem como público-alvo preferencial estudantes da escola de educação básica das redes públicas, associações de moradores, estudantes de diferentes instituições de ensino superior, movimentos sociais, sindicatos, profissionais e gestores de políticas públicas, estando aberto à população em geral. Em suma, é um espaço formativo que potencializa as trocas entre os sujeitos e os saberes, promovendo maior integração entre a UFRJ e a sociedade.

    Boletim Vitrine da Memória
    A edição de maio do Boletim Vitrine da Memória, produzido pela Biblioteca do CFCH, trará obras, fotografias e demais imagens sobre o tema – “Migração e Memória”

    Quartas em movimento
    Durante as quartas-feiras em que a curadoria estiver em cartaz, serão realizados debates, rodas de conversa, exibição de filmes, lançamento de livros e outras atividades culturais sobre o tema.

    Programação (ainda aguardando confirmações dos palestrantes):
    23/05/2018:
    9h – Inauguração.
    10h-13h – Mesa: Políticas públicas para imigrantes e refugiados.
    14h-17h – Mesa: Guerra da Síria e seus refugiados.

    30/05/2018:
    10h-12h – Mesa: Venezuela, processo migratório e desdobramentos no Brasil.
    14h-17h – Lançamento de livro: “A menina que abraça o vento – a história de uma refugiada congolesa”, da escritora Fernanda Paraguassu, e roda de conversa com crianças com exibição de vídeo.

    06/06/2018:
    9h-12h – Mesa: Migrações e Refúgio no Ensino Superior: dilemas e perspectivas.
    14h-17h – Mesa: Cátedra Sérgio Vieira de Mello, suas especificidades, limites e perspectivas.

    13/06/2018:
    9h-12h – Mesa: Migrações e Trabalho – Trabalho, vida cotidiana e lazer.
    14h-17h – Roda de conversa.
    18h-21h – Filme com debate.

    20/06/2018:
    9h-12h – Mesa: Migrações e refúgio em perspectiva histórica I.
    14h-17h – Mesa: Migrações e refúgio em perspectiva histórica II.

  • Vera Lúcia Gonzaga, do movimento Mães de Maio, presente!

    Na última quinta-feira (03/05) faleceu Vera Lúcia Gonzaga, uma das fundadoras do Movimento Mães de Maio, ao lado de Debora Silva Maria, entre outras mulheres que transformaram a dor em luta, e há doze anos dão exemplo de perseverança e solidariedade.

    Neste vídeo, gravado em outubro de 2016, parte de uma entrevista que estava em arquivo, Vera fala sobre os crimes de maio de 2006, sobre a impunidade e a busca por justiça. Num determinado momento recorda a situação das mães que perderam e perdem seus filhos assassinados por quem “supostamente” deveria proteger. Segundo ela, parte estão com problemas sérios de depressão, de doenças decorridas pós tragédia e, assim, isoladas e com pouca esperança num futuro promissor advindo da Justiça brasileira.

    Vera partiu em silêncio, consciente.

    Encontrada pelo filho, de acordo com Paulo, deitada na cama de seu quarto junto de fotos da filha e do Genro. Na porta do quarto do filho, deixou uma camisa do movimento, um último recado ao filhos. Amigos e familiares disseram que ela andava triste, um tanto deprimida. Difícil entender os caminhos da vida. A certeza que fica é que foram doze anos de luta, de luto, de dor e de muita coragem em ousar desafiar o Estado.

    Vera presente, hoje e sempre. Seguiremos.

  • ‘This is America’: o canto contra o racismo e a arte como ferramenta de luta social

    O ator e cantor Donald Glover nos surpreendeu positivamente na última semana com a divulgação do videoclipe “This is America”, lançado pelo seu trabalho como rapper com o codinome de Childish Gambino. O vídeo, até o momento, supera a marca de 32 milhões de visualizações, três dias após o lançamento.

    Desde o seu último álbum primoroso “Awaken, My Love”, onde mistura rock psicodélico com Pop Americano e doses de R&B e Soul, Childish Gambino (Glover) mostrou que não era somente um ótimo ator, como também, despontava com um dos grandes músicos da nova geração norte-americana. “This is America” mostra que Glover pode ir mais longe. Ao unir ironia e tensão para criticar a violência contra a população negra dos Estados Unidos, preenche o videoclipe de referências históricas e atuais sobre o racismo enfrentado pela população negra norte-americana. Além disso, traz a tona o debate sobre posse de armas nos Estados Unidos, em um momento onde a discussão está no centro das atenções, diante dos ataques com mortes em massa cada vez mais cotidianos. Segundo o estudo divulgado em 2013 pela ONG “Violence Policy Center”, 84% das vítimas de homicídio por arma de fogo nos EUA são negros.

    O videoclipe traça inúmeras simbologias referentes à cultura americana e ao racismo perpetuado ao longo de séculos. Durante todo o clipe é possível identificar a partir da expressão corporal de Glover, características idênticas ao personagem fictício Jim Crow, figura utilizada em referências às leis de segregação racial nos Estados Unidos que vigoraram entre 1876 a 1965. Em outro momento, Glover aparece diante de um coral americano e em seguida o metralha, uma referência nítida ao massacre de Charleston em junho de 2015, onde Dylann Roof, um branco com 20 anos de idade, matou nove pessoas negras em uma Igreja afro-americana dos Estados Unidos. Ao final do videoclipe, numa outra referência ao racismo que os negros norte-americanos convivem diariamente, Glover aparece correndo de forma apreensiva de policiais.

    O videoclipe engloba outras referências do racismo norte-americano, não apenas através das imagens, como também na letra da canção. Em um dos principais refrãos afirma “Isto é a América, não seja pego desprevenido / Veja como estou vivendo agora / Polícia matando agora / Sim isso é a América / Armas na minha área”, fazendo um paralelo direto à tensa realidade dos negros norte-americanos, à violência policial e aàpolítica de armas nos EUA.

    “This is America” é impactante, um verdadeiro canto antirracista, não é a toa que virou assunto em todos os lugares, causando espanto, incômodo e admiração em quem assiste. Glover coloca o dedo na ferida e expôs de forma sagaz e irônica o racismo nos Estados Unidos. Dessa forma, recupera uma frase emblemática da cantora Nina Simone, ao afirmar que o artista deve refletir seu tempo. Glover se posiciona e coloca a sua arte a favor da luta contra o racismo, aliando a sua já conhecida qualidade musical como ferramenta de conscientização e disputa na sociedade.

    Clipe

  • Por uma escola pública de qualidade e sem intervenção militar no Rio Grande do Norte

    As escolas públicas das redes estadual do Rio Grande do Norte e municipal de Natal, se encontram sucateadas em vários aspectos. A mais recente greve denunciou a situação de deterioração das estruturas dos prédios, das salas de aula, do desconforto dos alunos e das alunas, que não podem contar, muitas vezes, nem mesmo com um ventilador. Além das estruturas precárias, há desfalque de funcionários, professores e descaso com o pagamento de terceirizados.

    Nesse contexto, acompanhamos o avanço de ataques aos valores democráticos que a escola pública possui. Como exemplo, o projeto Escola Sem Partido, que se espalha em várias capitais e estados brasileiros, recentemente protocolado pelo deputado Jacó Jacome, atua na falácia de dizer que docentes, ao ensinar História, Geografia e problemáticas sociais e culturais brasileiras, estariam “doutrinando” crianças e adolescentes a seguir uma ideologia ou programa de determinado partido.

    Esse panorama político conservador mira a escola pública de maneira especial. Os governos efetuam seus projetos de desmonte do ensino público e abrem, paulatinamente, brechas para iniciativas privadas. Enquanto isso, intervenções nada pedagógicas se apropriam e distorcem a primordial função da escola: a de formar cidadãos e cidadãs críticos e críticas, capazes de transformar sua própria realidade.

    Dizendo isso, estamos atentos e atentas às intervenções militares no seio escolar e somos contrários ao aparelhamento da Escola E.M Maria Ilka, localizada no bairro do Bom Pastor, pela Polícia Militar, mais especificamente pelo 9º Batalhão. Trazer vida para a escola e apoiar uma escola deteriorada não significa distorcer a função pedagógica de uma instituição de ensino. A Polícia Militar do Rio Grande do Norte não tem autoridade pedagógica para influenciar no fardamento, na rotina escolar e na metodologia de ensino e aprendizagem de uma escola. E é isso que, infelizmente, se observa na escola em questão.

    O projeto escolar que prega “ordem e disciplina”, que obriga alunos e alunas a usarem farda inspirada no uniforme da PM, que se intromete até mesmo na subjetividade dos alunos e das alunas (como corte de cabelo, brinco, vestuário) lembra mais o período tenebroso da ditadura civil-militar em que se priorizava a disciplina em detrimento do ensino-aprendizagem inclusivo.

    Dessa forma, repudiamos que os governos abram espaço para intervenções militares nas escolas através do motivo de “salvar uma escola desacreditada”. Exigimos educação pública de qualidade, reformas prometidas efetivadas, formações docentes e dignidade para estudantes, professores e funcionários e funcionárias e, especialmente, que nós educadores e educadoras, competentes para intervir na escola pública, sejamos ouvidos e atendidos em nossas reivindicações e direitos.

    Conclamamos a todos que defendem uma escola pública de qualidade e democrática a iniciar uma campanha contra a militarização das escolas no Rio Grande do Norte. Para isso, acreditamos que precisamos contar com o engajamento do Sinte, coletivos de educadores, Adurn, Aduern, intelectuais do campo educacional, movimentações de luta contra opressão e outras entidades da sociedade civil. O Coletivo Enfrente se coloca à disposição dessa construção.

    Foto: Reprodução InterTV Cabugi