Sobre o oportunismo



Por: Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online

Não sou rio, para não voltar atrás
(Sabedoria popular portuguesa)

No futebol, o objetivo estratégico dos times é ser campeão. A tática está a serviço de fazer gols. E evitar, ao máximo, sofrer gols. E existe um limite: o jogo tem 90 minutos. E o campeonato tem uma sequência pré-estabelecida de jogos. Mas podemos admitir que um jogo, em especial, tem importância estratégica. E em relação a este jogo podemos escolher diferentes táticas. Estratégia e tática são, portanto, conceitos relativos que articulam os fins e os meios.

Na luta política socialista os tempos são outros, mas tampouco são indefinidos. O objetivo estratégico é transformar a sociedade a serviço dos interesses dos trabalhadores. A tática é chegar ao poder. Quanto antes melhor, porque temos pressa de mudar a vida. Se possível, enquanto estamos vivos. Um projeto político sério precisa considerar as medidas do tempo. O tempo não deve nos cegar, mas não pode ser ignorado.

Mas não chegar ao poder pelo poder. O poder não é um fim em si mesmo, a não ser para maníacos narcisistas. Chegar ao poder a serviço da estratégia. Mudar a sociedade com a participação das amplas massas, indo além dos limites do capitalismo é a estratégia. Mas aprendemos com a história do século passado que esta transição pós-capitalista não é possível em um só país. Nessa dimensão, a revolução brasileira é um objetivo tático, a serviço de uma estratégia maior. O socialismo. Só em circunstâncias muito excepcionais, somente em situações revolucionárias, é possível lutar pelo poder. Situações revolucionárias são raras, porque são um momento de máxima tensão. E nenhuma das classes suporta por muito tempo a exacerbação social que antecede a luta direta pelo poder.

Em situações defensivas a tática consiste em evitar, ao máximo, que os inimigos que estão no poder consigam governar, e se perpetuar no poder. A tática está ao serviço de acumular forças para poder disputar o poder.

Relação social de forças é um conceito chave para uma ação política responsável. É uma ideia que procura estabelecer os parâmetros para medir quem está avançando, e quem está recuando na luta de classes. Há polêmicas sobre quais devem ser estes critérios. No futebol pode-se valorizar mais a posse de bola, ou o número de chutes a gol, ou a vantagem na conquista de escanteios, ou a desvantagem no número de cartões amarelos, e outros, como a qualidade da condição física dos dois times.

Na luta de classes os critérios são objetivos e subjetivos. Exigem uma análise desapaixonada. Critérios objetivos são, por exemplo, o peso social maior ou menor dos trabalhadores sobre as outras classes, a força maior ou menor de suas organizações, o número maior ou menor de greves e protestos, o tamanho maior ou menor das passeatas, e por aí vai. Critérios subjetivos remetem à investigação do estado de ânimo, ou disposição de luta, ou maior ou menor confiança das classes exploradas e oprimidas em si mesmas.

Isto posto, primeiro se define os limites da análise: o tempo é uma medida objetiva. Uma análise da última semana é diferente da análise do último mês. Nem falar do último semestre. Se for além, já não é análise de conjuntura. É análise da situação, ou até da etapa. É preciso saber, também, que identificar tendências, ou forças de pressão de primeiro, segundo e terceiros graus só é possível dentro de limites estreitos.

A construção de prognósticos é indispensável. Mas é necessário ser prudente. Há limites do que se pode prever, e são muitos. A omnipotência é uma fantasia juvenil. A ideia de que “tudo pode acontecer, e mudar tudo” é outra ilusão. É também preciso saber conferir as fontes da investigação. A busca da credibilidade exige muito trabalho. Uma análise marxista deve ter critérios incontroversos. Isso significa que construir uma interpretação dos acontecimentos exige o máximo de rigor para não ser contaminada por valores ideológicos que vêm de contrabando pela pressão dos inimigos de classe, do senso comum, dos ambientes em que circulamos. E, não menos perigosas, pelas pressões das nossas preferências. O desejo cega a mente.

Em segundo lugar, construir uma análise é separar partes de um todo. Os fatos não falam por si mesmos. Os acontecimentos têm pesos distintos. Para marxistas, a compreensão da realidade nos obriga a investigar em três níveis distintos de abstração: a infraestrutura, a estrutura e a superestrutura. Estudamos a situação econômica, depois verificamos as posições respectivas das classes em luta e, finalmente, concluímos pesquisando o comportamento das organizações variadas que representam as classes. E as classes não são somente capital e trabalho. Existe, também, a classe média. E o semiproletariado, os camponeses, os lumpens. E as frações de classe, como a burocracia estatal, os militares/policiais, os artistas, os religiosos, os intelectuais, etc.

Uma análise de conjuntura deve articular estes três níveis de análise. Este esquema teórico é, evidentemente, um roteiro pedagógico. Ou seja, é um esquema. As três dimensões pressionam-se mútua e ininterruptamente. A metáfora da engrenagem que separa causas de consequências é útil como um esforço lógico temporal, mas há nela uma armadilha. As causas transformam-se em consequências e vice-versa. Uma dialética infernal. Portanto, é preciso sempre retornar às análises anteriores e corrigi-las. Corrigir significa admitir que erramos. Ninguém é infalível.

Deve-se, como bom critério, iniciar a análise pelo estudo da situação econômica e social. Mas a economia é um fator de pressão, parcialmente, neutralizado, por outros. Depois se avança para a análise da relação social de forças. As relações políticas de força entre as organizações e as lideranças dependem desse contexto. A pressa de pular etapas na análise, e encontrar um atalho é perigosa.

O impressionismo, ou seja, a vulnerabilidade diante do que aconteceu “ontem” é mal conselheira. Não há conhecimento sem algum grau de intuição, mas enganam-se a si mesmos os que se deixam seduzir pelo excesso de confiança. Pior ainda é o erro de substituir a análise da situação concreta pelo método da “cartografia”. Não se deve tirar uma conclusão do que se deve fazer considerando qual é o espaço político que se pretende ocupar.

O nome disso é oportunismo.

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