Lula é um preso político do golpe

Editorial 10 de abril

A prisão do ex-presidente dividiu o país. Uma parcela significativa da população, especialmente entre os trabalhadores e os mais pobres, considera a prisão uma injustiça. É crescente a opinião de que Lula foi preso sem provas, em um processo marcado por irregularidades. Mesmo entre os que não se opõem à prisão, aumenta a percepção de que há “dois pesos e duas medidas” quando se trata das ações da Lava Jato. Enquanto o petista é condenado e preso rapidamente, Alckmin, Aécio, Temer, Serra, entre outras figuras da direita envolvidas em denúncias de corrupção, seguem livres e exercendo seus cargos políticos.

Em realidade, a prisão de Lula não teve nada a ver com o combate à corrupção. O objetivo, em primeiro lugar, foi o de excluir o petista das eleições presidenciais, já que eram razoáveis as chances de Lula ser eleito novamente. O ex-presidente seria eleito sob a expectativa de revogação das reformas de Temer e de mudança da política econômica. A classe dominante não quer, nesse momento, conciliação de classes e exige que o próximo governo mantenha e aprofunde a agenda de privatizações, redução do salário mínimo e a retirada de mais direitos. O segundo o objetivo da prisão é o de aprofundar os ataques às liberdades democráticas, como vimos com a restrição do princípio da presunção da inocência a partir da execução da pena em segunda instância.

O objetivo de retirar Lula da disputa eleitoral parece ter sido atingido. Mas a resistência do povo impediu que ele fosse levado como criminoso. Lula não foi algemado, humilhado e acorrentado. A fotografia que entrará para a História será a do ex-presidente carregado por uma multidão de manifestantes no sindicato dos metalúrgicos do ABC.

Novo momento do golpe
Vivemos um momento marcado por uma escalada autoritária e por mudanças reacionárias no regime político. Direitos democráticos mínimos são ignorados, ao mesmo tempo em que cresce a ação de grupos neofascistas, a influência de Bolsonaro, as ameaças de militares e ataques à esquerda; e aprofunda-se o genocídio contra o povo negro. A execução de Marielle e Anderson simbolizam este momento que vivemos.

O principal líder político do Brasil tornou-se um preso político em seu próprio país. Lula preso é uma denúncia viva para o mundo dos ataques aos direitos democráticos.

Os manifestantes que cercaram o sindicato mostraram que é possível resistir. Que não se deve desistir. Em determinado momento, chegaram a barrar com um cordão humano a passagem de Lula, tentando impedir que se entregasse. Lula e a direção do PT negociaram e cederam. Apesar do recuo da direção petista, os atos em todo o País e a vigília em Curitiba mostram que devemos continuar lutando pela liberdade de Lula e em defesa dos direitos democráticos.

Essa não é uma luta que pode ser travada apenas por um ou outro partido, ou movimento. Deve ser uma bandeira defendida por cada lutador social, independentemente de sua filiação partidária. Precisamos estarmos unidos, em uma Frente Única, com todas as organizações políticas, partidos e movimentos sociais dos trabalhadores, para dirigir essa luta pela liberdade de Lula, pela apuração da morte de Marielle, pelo fim da intervenção militar no Rio e pelo combate à ameaça neofascista. E combinar essa luta com a resistência à retirada de direitos, ao desemprego e às privatizações.

Lutar e aprender com a luta
É preciso aprender com as últimas semanas. Mesmo com a resistência em São Bernardo, que adiou a prisão, a realidade mostrou como o PT domesticou-se, adaptando-se ao regime e ao sistema político burguês. Em muitos momentos, mesmo com a bravura da militância e de milhares em todo o país, o PT não esteve à altura, ou preparado para os desafios que se colocaram.

O PT parece aprisionado à estratégia de conciliação de classes. Sua direção não rompeu com a proposta de um governo comum com os empresários e o latifúndio, ainda que estes, o Judiciário e as Forças Armadas, tenham dado todos os sinais de que não mais toleram este partido. Por isso, a direção petista deposita tanta esperança em seus antigos aliados. Por isso, acreditou tanto na Justiça, até o último minuto, o último voto no STF. Por isso, ainda aposta em recursos e negociações. A burguesia rompeu com o PT, mas o PT não rompeu com a burguesia. A direção do partido de Lula foi incapaz de tirar lições dos erros estratégicos que possibilitaram o golpe parlamentar e a prisão do ex-presidente.

É hora de construir uma nova estratégia, com um novo programa. Um programa de confronto com os ricos e poderosos e não de conciliação com “os de cima”. Essa diferença com o PT não é um obstáculo para a luta unitária em defesa da liberdade de Lula e pelas liberdades democráticas. Mas é preciso aprender com as lições de São Bernardo do Campo. É assim, apoiando-se na mobilização dos trabalhadores e da juventude, que iremos construir uma alternativa da esquerda socialista, em torno da pré-candidatura de Guilherme Boulos e Sonia Guajajara, na aliança entre o PSOL, o PCB,  MTST e diversos movimentos sociais. É assim, sem medo de mudar o Brasil, que será possível apresentar um programa de luta, “sem arrego” com os golpistas e a elite.

Foto: Ricardo Stuckert

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