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BRASIL

OPINIÃO | Os Institutos Federais valem uma missa

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Por: Matusalém Dias de Moura Sobrinho Florindo1, de Itaituba, PA

Fevereiro de 2018. Nove institutos federais de educação, ciência e tecnologia foram “convidados” pelo Ministério da Educação a desenvolver projetos pilotos para implementação da infame reforma do Ensino Médio. O explícito desejo? O fim dos cursos técnicos integrados ao Ensino Médio e a coroação dos cursos técnicos concomitantes e das parcerias público-privadas. O lascivo prêmio? Uma gorjeta extra para os institutos federais que toparem.

Ao escolher a dedo os nove institutos a serem abduzidos, o MEC, não à toa, capitaneia o robusto Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), premiado internacionalmente. O mérito da produtividade e o brasão da gestão eficiente transformam a educação, esta ciência da autonomia dos povos, em uma fábrica de belos e homogêneos pães. Mas é de vender fornadas de donuts que vive o MEC, afinal o “banana is my business” nunca foi o negócio da educação brasileira, a gente sabe mesmo é comprar comida enlatada, taxada. Como resolver essa questão? Será que todos queremos ser IFSC?

Como dizia Darcy Ribeiro: “A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto”. Gostei muito de um novo filme da Marvel, o “Pantera Negra”, a película aborda questões centrais acerca do papel da tecnologia e, principalmente, do armamento sobre as perspectivas de liberdade dos povos. O antropólogo Claude Lévi-Strauss, em sua obra “Raça e História”, se recusa a hierarquizar as sociedades a partir de um parâmetro tecnológico ou por suas “contribuições” a um conceito de civilização que tem seu centro na Europa Moderna e Contemporânea. No entanto, tanto antes, como depois dos horrores da II Guerra Mundial, que motivaram o autor em seu texto, o poder econômico, tecnológico e militar tem sido elemento central da relação de dominação de uns povos sobre outros.

Ao pretender fazer a apologia de um herói africano, o novo filme da Marvel continua a afirmar a tensão existente em quase todos os heróis de Stan Lee: frutos da tecnologia, gerada por grandes corporações privadas em cooperação com a máquina militar de suas sociedades, que lhes confere poderes extraordinários. Esses heróis se diferenciam dos soldados, burocratas e cientistas triviais por encararem como responsabilidade pessoal a forma como tais poderes são exercidos. Do meu ponto de vista, a chave para a crítica do novo filme da Marvel está na pergunta final feita por um representante de uma das nações “desenvolvidas” ao novo Rei de Wakanda: Qual contribuição um país de pastores pode dar para a humanidade?

Há simbologia nisso tudo. Trata-se de uma cruel tentativa de catequizar os demais institutos federais. Escolhem o IFSC, um dos maiores, um dos grandes, um dos fortes. Resta-nos somente a resistência? Ainda cabe uma reflexão. O IFSC é o “Homem de Ferro”, o outro super herói da Marvel, este branco e norte americano. Modelo de modernização e gestão. Mas isso é tudo?

É aí que entra o nosso protagonismo. Um debate de dentro para fora. Que contribuição os outros institutos federais preteridos podem dar para o Brasil e para a humanidade? Sim, somos um povo Wakanda. Somos todos “Panteras Negras” e não engoliremos fornadas assadas por “Homens de Ferro”, ou testas de ferro. É tempo de muita luta, como todos os tempos pretéritos e também vindouros. Já dizia o velho dramaturgo: “Cuidado com os sofridos, eles sabem que podem sobreviver”.

1 Matusalém Dias de Moura Sobrinho Florindo é professor de Ciências Sociais no Instituto Federal do Pará.