Mulheres do samba: Viva Clara Nunes, sabiá, mineira, guerreira



Por: Carla Vizeu, da Mana Dinga*

Clara Francisca Gonçalves, filha de Amélia e neta de Emília, segundo ela, duas mulheres de verdade. Nasceu em 12 de agosto de 1942, em Caetanópolis, Minas Gerais, carregando no sangue o gosto pela música. Seu pai, Mané Serrador, além de carpinteiro, era congadeiro, violeiro e organizava Folia de Reis. Aos seis anos já havia perdido o pai e a mãe: ele morreu de um infarto fulminante e ela foi definhando até morrer quatro anos depois, de mal de amor.

Os irmãos mais velhos conseguiram manter a família unida com muito esforço. Aos catorze anos, Clara começou a trabalhar na Companhia Fiação e Tecidos Cedro e Cachoeira, onde toda a família trabalhou. Em 1958, já havia se mudado para Belo Horizonte com uma de suas irmãs, passando a trabalhar em outra fábrica de tecidos. Nessa época, cantou Coral Renascença, na igreja do bairro onde morava. Ser cantora era seu grande sonho.

E ela começou a tecer a teia desse sonho, tornando-se Clara Nunes (sobrenome da mãe), para se inscrever do concurso A Voz de Ouro ABC, disputado por cantores do Brasil inteiro. Ela ganhou a etapa regional, cantando “Serenata do Adeus”, de Vinícius de Moraes. Na final, em São Paulo, ficou em terceiro lugar, com “Só adeus”, de Edvaldo Gouveia e Jair Amorim. A colocação lhe deu o direito de gravar um compacto pela Odeon e abriu as portas pra ela, que passou a ser crooner na noite de Belo Horizonte, convivendo com músicos como Milton Nascimento, Lô Borges e Toninho Horta, entre outros.

Durante três anos seguidos, foi considerada a melhor cantora de Minas Gerais. Na época, apareceu pela primeira vez na televisão, no programa de Hebe Camargo, em Belo Horizonte. Logo depois, em 1963, iniciou um programa na TV Itacolomi, “Clara Nunes apresenta”, que foi ao ar por um ano e meio, no qual se apresentavam artistas de reconhecimento nacional, como Altemar Dutra e Ângela Maria, entre outros. “Eu contratava quem eu queria, viajava muito. Era uma espécie de ídolo em Minas. Naquela época, a televisão tinha vida local, ajudava a revelar muita gente. Este trabalho me deu muita base para enfrentar o Rio de Janeiro”. Já tinha público cativo no coração dos mineiros.

Em 1965, mudou-se para a cidade maravilhosa a fim de cumprir o contrato com a Odeon, que ganhou com a Voz de Ouro. Seu primeiro LP, “A voz adorável de Clara Nunes”, apresentava um repertório romântico, com canções melosas, em estratégia de markentig da gravadora para lançá-la como cantora romântica. Não funcionou, o álbum foi um fiasco. A praia de Clara era outra. Nas ondas do seu caminho, houve um namorico com a Jovem Guarda, e ela chegou até a participar de alguns filmes do gênero, mas ainda não era esse seu lugar.

Disputou e ganhou diversos festivais no fim da décade de 60, sendo que seu primeiro sucesso veio de um deles: “Você passa e eu acho graça”, de Carlos Imperial e Ataulfo Alves.

Seus dois discos seguintes ainda mostravam um perfil de cantora que tinha muito potencial, mas que ainda não havia moldado seu estilo. Só a partir do começo da década de 70 é que ela começa a trilhar os caminhos que a consagraram, o das sonoridades afro-brasileiras.

Em 1971, grava “Apesar de você”, de Chico Buarque, e é acusada de ser subversiva. Acuada pelo regime militar, é obrigada a gravar o Hino das Olimpíadas do Exército e a cantá-lo num show em Belo Horizonte durante o evento. O disco nunca foi comercializado. Logo após este episódio, ela gravou o disco da virada de sua carreira.

Começava aí uma parceria artítsitica muito inspirada entre Clara e Aldezon Alves, homem do rádio, como produtor do seu novo disco, entitulado simplesmente de “Clara Nunes”. O repertório diferia completamente daqueles dos discos anteriores, explorando sonoridades brasileiras de influência africana e ao mesmo tempo encantando com interpretações de claśsicos como “Feitio de oração”, de Vadico e Noel Rosa.

Daí pra frente ascendeu como foguete, brilhou como estrela incessantemente, conquistando público de todos os tipos. Clara foi a primeira mulher a ter um disco incluído entre os mais vendidos; “Alvorecer” vendeu 300.000 cópias, abrindo as portas para outras artistas que já faziam sucesso. “Claridade”, lançado em 1975, já saiu com 500.000 cópias vendidas. O sucesso já tinha sido conquistado.

Clara mergulhou profundamente no mundo dessas sonoridades, envolveu-se com o Candomblé, vivendo intensamente a religião por um tempo. Envolveu-se com as escolas de samba, puxando samba na avenida com a Portela, em 1972. Essa paixão pelas raízes brasileiras nos brindou com uma sequência de discos de excelência ímpar, desde o repertório escolhido aos arranjos e músicos com quem trabalhava.

Em 1975, casou-se com Paulo César Pinheiro, exímio compositor que passou a produzir seus discos. Em 1977, inaugurou o Teatro Clara Nunes com o show “Canto das três raças”. Lançou o disco “As forças da natureza”, no qual ela apareceu pela primeira vez como compositora na faixa “À flor da pele”, feita em parceria com Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro.

Esta parceria musical frutífera rendeu sucessos como “Canto das três raças”, “As forças da natureza”, “Minha missão” e “Portela na avenida”, mas infelizmente, dela não nasceu o fruto mais esperado por Clara: um filho. Sua vida foi marcada por momentos sempre intensos: a infância difícil, a batalha pela carreira, a frustração por não conseguir ser mãe, e em contraponto as vitórias que alcançou. Partiu cedo, de uma maneira abrupta, estúpida: ao realizar uma cirurgia para varizes, teve um choque anafilático e, após ficar em coma por vinte e oito dias, morreu. Seu corpo foi velado na quadra da Portela por uma multidão de fãs que até hoje sentem falta da mineira, guerreira, filha de Ogum e Iansã. Eparrei, Oyá!

Clara vive nos ventos das vozes que a cantam até hoje.

Fontes de Pesquisa:
http://dicionariompb.com.br/clara-nunes/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Clara_Nunes
http://www.cantorasdobrasil.com.br/cantoras/clara_nunes.htm
http://www.portelaweb.org/mem…/celeiro-de-bambas/clara-nunes
“Clara Nunes, Guerreira da utopia”. Vagner Fernandes. Ediouro Publicações S/A. Rio de Janeiro, 2007.

*A Mana Dinga é um grupo de cinco mulheres compositoras de Campinas, que leva músicas próprias para prosear com importantes sambistas, compositoras, instrumentistas e intérpretes que abriram caminhos para as mulheres na música brasileira. Formado por Amanda Menconi (flauta e percussão), Anisha7 Vetter (surdo e voz), Carla Vizeu (voz e percussão), Ju Leite (pandeiro e voz) e Milena Machado (violão e voz). Para mais informações, acesse: facebook.com/manadinga
Foto: Wilton Montenegro/Reprodução
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